11 fatos bizarros que rolaram em 2016 e mostram como a política brasileira vai de mal a pior

É, eu sei. Você deve estar de saco cheio com o noticiário político do país nos últimos tempos e provavelmente não possui identificação com nenhum partido brasileiro. Também pudera. É cada vez mais difícil ter conexão com as ideias defendidas por eles, não é mesmo? E olha que já são 35 pedindo a sua atenção a cada dois anos – alguns dos quais eu aposto que você sequer ouviu falar, como o Partido Republicano da Ordem Social ou o Partido da Mulher Brasileira (que de mulher tem quase nada: dos seus 17 parlamentares, 15 são homens). Os partidos definitivamente vivem num buraco sem fundo. Segundo o Datafolha, 91% dos brasileiros não confiam neles. É a maior crise de representatividade de que se tem notícia desde a redemocratização do país. E não é por acaso. Não dá pra negar que esses caras fazem por merecer.

O cenário é generalizado. Ninguém escapa. Faça a sopa de letrinhas que quiser na hora de formar o nome da agremiação: junte o p com o s, tire o s, acrescente o t, coloque ou não o b no final. Tanto faz. PT, PSDB, DEM, PMDB, PDT, PP. Todos os partidos estão abraçados na mesma cova.

E é nesse cenário que você se encontra nesse momento: seguramente preocupado com a crise econômica que transforma cada nota na sua carteira numa sobrevivente, e profundamente insatisfeito com a classe política brasileira. Pra você, arrisco dizer, não existe qualquer messias ou salvador da pátria ao final dessa história. Aécio, Lula, Cunha, Temer, Dilma, FHC. Pouco importa. Você já descobriu há tempos que a política brasileira não passa de um mero jogo de interesses.

O cenário, de fato, é catastrófico. Mas nem de longe rola apenas em Brasília. Ao redor do país, em cada prefeitura, nas câmaras de vereadores e nas assembleias legislativas, o nonsense é a ideologia dominante da política nacional.

Abaixo, selecionamentos 11 fatos bizarros que aconteceram ainda nesse ano e ajudam ilustrar esse cenário. Essa lista não é aconselhada para pessoas que sofrem de depressão política.

1. A posse do deputado estadual mineiro Pinduca Ferreira (do PP).

Seu nome é Pedro Ivo Ferreira Caminhas. Mas, se você é mineiro, certamente o conhece por outro nome: Pinduca. Ele ficou inelegível por longos oito anos por conta das ambulâncias, dos alimentos e das festas que oferecia aos eleitores de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, em troca de apoio político. Nada disso foi suficiente, no entanto, para que deixasse de receber 58 mil votos na eleição de 2014, quando lançou sua candidatura a deputado estadual, mesmo impugnado pelo Ministério Público Eleitoral como ficha-suja. Impedido, viu o Tribunal Superior Eleitoral reverter a decisão, limpando sua barra no apagar das luzes. E então, esperou pelo momento certo. Pacientemente. Quando o deputado Fábio Cherem, do PSD, se licenciou do cargo para assumir a secretaria de Desenvolvimento Econômico, deu o bote: Pinduca finalmente estava de volta à cena; o posto na Assembleia Legislativa de Minas Gerais era seu.

E é aqui que Pinduca comprou seu ingresso para fazer parte dessa lista. Sua posse gerou um dos momentos mais bizarros da política brasileira em 2016.

“Prometo defender a cost… e cumprir as contribuições e as leis da República e do estado, bem como … como… desempenhar leal e ó ó ó … ah, tá bom, isso não interessa, o que interessa é que eu tô aqui hoje. Não adianta falar bonito, tem é que fazer.”

O vídeo acima é um retrato da mediocridade política do nosso tempo.

2. Este curso que a Câmara de Seropédica está pagando para os seus vereadores.

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A cidade de Seropédica fica a 50km da capital do Rio de Janeiro. Por lá, pelo menos três vereadores, acompanhados de assessores, viajaram até Belo Horizonte para realizar um curso especial: aprender a usar telegrama, fax e e-mail.

Sim, você leu certo. E pode conferir a data lá no alto dessa matéria. Você não está lendo uma reportagem do início do século.

O curso foi criado pelo Instituto Capacitar, que é especializado em organizar esse tipo de aprendizado. Os vereadores Huguinho (do PRP) – que diz que as aulas foram muito boas e “acha” que só levou um assessor -, Waguinho do Emiliano (do PRB) e Max Goulart (do PCdoB) participaram do “congresso”. Todas as contas foram bancadas pelos pagadores de impostos do município.

Nada mais útil em tempos de crise.

3. Este político paranaense que “não sabia que médico reside em hospital”.

O vereador paranaense Paulo Rocha, do PMDB, é mais uma dessas figuras folclóricas que insistem em fazer parte do imaginário político tupiniquim. Conhecido por ir trabalhar montado em um pônei e por usar ternos coloridos – atitude que chegou a resultar numa mudança do regimento interno da Câmara de Foz do Iguaçu, no oeste do Paraná, estabelecendo limites para as cores das roupas usadas pelos vereadores durante as sessões em plenário – em junho, Paulo decidiu questionar um requerimento defendido pelo vereador Nilton Bobato, do PCdoB. A cena é nonsense.

“Vou ler o requerimento dele aqui. Requerimento 276/2016: Requer do prefeito municipal informações sobre a previsão de pagamento de bolsa-auxílio aos médicos residentes no hospital. Eu não sabia que tem médico que reside no hospital. Uai, médico residindo no hospital?”

Em nota divulgada um dia após a gafe viralizar na internet, o vereador se defendeu dizendo que sabia perfeitamente o que são médicos residentes, mas que aproveitou a oportunidade para criar polêmica já que, segundo ele, uma grande parte da população não tem conhecimento deste tipo de exigência feita aos médicos recém-formados e que usam a residência para se especializar e praticar o conhecimento.

A gente finge que acredita.

4. O jurista Tomás Turbando, citado na defesa de Dilma no processo de impeachment.

É um dos julgamentos mais importantes da nossa história republicana: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Mas nem ele consegue escapar do absurdo.

Em junho, José Eduardo Cardozo, que já foi deputado federal, ministro da Justiça e advogado-geral da União, e agora atua como advogado particular da presidente afastada, decidiu praticar o velho name-dropping, listando juristas com pareceres a favor de Dilma. Foi quando citou um personagem já histórico nas pegadinhas de programas de TV: Tomás Turbando.

Cardozo na verdade se referia a Thomas da Rosa de Bustamante, professor de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bustamante defende que o processo de impeachment do presidente em exercício Michel Temer deve ser apensado com o de Dilma. A cacofonia foi obra de uma brincadeira de funcionários de Cardozo.

5. O vereador gaúcho que saiu correndo no meio de uma reportagem após ser acusado de participar de um esquema de corrupção.

Empresários, produtores culturais e políticos gaúchos foram acusados no início do ano de forjar notas fiscais para desviar verbas de eventos financiados com dinheiro público pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC).

Numa gravação escondida feita pelo repórter Giovani Grizotti, da RBS TV, Paulo Schneider, professor da rede pública estadual que também atua como captador de patrocínios pela LIC, explica como funciona o esquema: através de notas frias de anúncios em rádios. Na ocasião, o captador diz que parte do dinheiro desviado seria usado para financiar uma feira em Rodeio Bonito, no norte do estado. E é aí que entra outra figura – o vereador da cidade Ivan Bacci, do PMDB, responsável por conseguir as notas frias para o esquema.

Na reportagem, após o professor Paulo Schneider e o vereador Ivan Bacci revelarem o esquema graças à câmera escondida, o repórter Giovani Grizotti se apresenta e questiona se Schneider frauda a Lei de Incentivo à Cultura. Ele nega. Mas enquanto explica, o vereador começa a se afastar e, quando Grizotti se aproxima, passa a correr. Com a falta de preparo físico, no entanto, cede e nega as denúncias que ele mesmo assumiu.

6. O vereador que criticou o prefeito da sua cidade dizendo conhecer a mãe dele, de 87 anos, “no silêncio dos edredons”.

Roberto Santos Durães é vereador de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, pelo Partido Social Cristão (PSC), mas não teve qualquer receio em envergonhar sua base religiosa ao dizer, no último mês de maio, em plena sessão parlamentar, que conhece muito bem a mãe do prefeito Alcides Bernal, do PP, “no silêncio dos edredons”.

“Eu quero dar um recado ao prefeito. Eu conheço muito a senhora mãe dele, viu? Eu conheço demais aquela senhora mãe dele… como eu conheço, já que é uma corja, fala pra mãe dele contar pra ele quem sou eu. Ainda mais no silêncio dos edredons”, disse o vereador.

Bernal rebateu a fala do vereador dizendo que não há violência maior para um ser humano do que ver sua mãe ofendida e disse ainda que Durães vai responder na Justiça pelo crime cometido.

A mãe de Bernal tem 87 anos e se encontrava hospitalizada durante o pronunciamento do vereador.

7. O vereador sergipano que usou seu espaço na tribuna para falar sobre os tipo de peidos de políticos.

O vereador Vardo da Lotérica resolveu utilizar seu tempo na tribuna da Câmara de Vereadores de Itabaiana, em Sergipe, para discursar sobre os “tipos de peidos” dos políticos. Isso mesmo que você leu: os tipos de peidos.

O discurso aconteceu no último mês de junho. Entre as “pérolas” do stand up comedy do nobre vereador, estão frases como:

“Aí vai aquele peido calado, peido sonso, aí o vereador cheira todo” ou ainda “Aí já sobra para os eleitores que estão acompanhando. Aí puuum, é o peidinho sonso. Esse fede mais que veneno, isso mata”.

Isso aconteceu no Brasil. Em 2016.

8. A garota de programa que atende seus clientes no banheiro da Câmara dos Deputados.

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As fotos circulam em diversos grupo de WhatsApp. Mostram uma garota de programa em serviço no Congresso Nacional. Com o adesivo de visitante da Casa, uma mulher aparece na porta de entrada das comissões e dentro do banheiro masculino. Nas imagens, ela também faz poses e sexo oral com um homem não identificado usando um terno escuro.

Para a reportagem do site Metrópoles, que fez a denúncia e conseguiu o telefone da mulher, ela confirmou que é garota de programa. A moça ainda contou que o cachê chega a R$ 1 mil, dependendo do local do atendimento e do tempo que passará com o cliente. As fotos foram tiradas entre fevereiro e março deste ano.

O site procurou a assessoria de comunicação da Câmara, que informou que o Departamento de Polícia Legislativa (Depol) foi acionado e que as informações estão sendo analisadas.

Como as imagens não deixam dúvidas, o Congresso Nacional virou literalmente um bordel.

9. O prefeito que administra sua cidade de dentro do presídio.

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Preso em sua residência com uma quantia de R$ 758.437,00 e uma barra de ouro no valor de R$ 40 mil, sob a suspeita de comandar uma organização criminosa que fraudava licitações na Prefeitura de Catende, mata sul de Pernambuco, o prefeito Otacílio Cordeiro, do PSB, permaneceu administrando o município onde foi eleito. De onde? De dentro da cadeia.

No mês passado, a Câmara Municipal da cidade – com 12 votos a favor, nenhum voto contra e uma abstenção – estendeu por 15 dias o direito de ausência do prefeito, que o garante na administração do município, com base na Lei Orgânica. A partir da decisão, Otacílio pode ficar ausente de seu domicílio eleitoral sem ser considerada a vacância do cargo.

Questionado se poderia despachar mesmo dentro de um presídio, Marcelo Antônio, procurador municipal e integrante do corpo de defesa de Otacílio Cordeiro, foi taxativo.

“Claro que sim! A Justiça pediu a prisão preventiva dele, mas não o afastou do cargo de chefe do Executivo.”

De acordo com o presidente da Câmara de Vereadores da cidade, o vereador José Wellington, do PSDB, até o momento o vice-prefeito Josibias Cavalcanti, do PSD, não assumiu o comando da gestão.

“Ele [Otacílio Cavalcanti] está despachando no presídio através do seu procurador. Agora foi pago o adiantamento do 13º salário, quem assinou? Ele está fazendo as atividades na cadeia, como se fosse na prefeitura. A defesa dele usou de inteligência, para evitar a cassação, e pediu uma licença para resolver assuntos pessoais”, revelou o vereador.

10. Este vereador paranaense que foi preso com cocaína, fugiu da imprensa e apanhou de uma garota de programa.

O vereador Nicodemos Ferreira dos Santos, que trabalha na cidade de Mauá da Serra, no Paraná, viajou até Curitiba em maio para se envolver em algumas polêmicas.

Depois de ser flagrado pela polícia portando duas buchas de cocaína e ir parar na delegacia, o parlamentar foi perseguido por cinegrafistas e repórteres. Ao fugir da imprensa correndo por alguns quarteirões, decidiu se esconder numa casa noturna onde acabou levando uma surra de uma garota de programa. Tudo isso na mesma noite.

O Programa 190 registrou o ocorrido.

11. Este prefeito que decidiu oferecer um reajuste de vinte centavos aos professores da cidade.

Vinte centavos. Duas míseras moedinhas. Esse é o aumento prometido aos profissionais da Educação em Japeri, na Baixada Fluminense, pelo prefeito Ivaldo Barbosa dos Santos. Um projeto de lei do Executivo enviado à Câmara de Vereadores propõe 0,01% de reajuste salarial aos servidores estatutários de apoio e aos professores. O texto foi apresentado em 30 de março em caráter de urgência, à Câmara, que reprovou o caráter de urgência ainda em abril.

Os professores foram pegos de surpresa com a “oferta”.

— Esperava que o reajuste fosse um valor decente, acima da inflação e mais o acréscimo que seria um ganho real. Além da indignação, fica a tristeza pelo descaso com que tratam a nossa profissão — desabafou o professor Wanderson dos Santos, de 28 anos, ao Extra.

O procurador-geral Humberto Motta afirmou, por meio de nota, que diante da crise que assola o país, a prefeitura não teve condições de oferecer o aumento aos servidores de acordo com o reajuste mínimo previsto em lei.

O reajuste não paga um pãozinho francês.

Não resta dúvida: o Brasil é um grande circo a céu aberto.

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