4 razões por que Guido Mantega foi o pior Ministro da Fazenda da história

mantega-sede-da-pf-em-sp

“Você quer que eu perca as eleições?”

A frase, dita por Dilma Rousseff em março de 2014, marca um momento simbólico na economia brasileira. Após sete anos no cargo, seu maestro para assuntos econômicos, o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu-se por vencido e teria sugerido à presidente iniciar uma série de ajustes para aliviar a situação das contas públicas. Àquela altura do campeonato, os gastos do governo já estavam fora de controle e a recessão parecia inevitável.

Até este momento, Guido ainda esbanjava otimismo – o que, pelos oito anos em que esteve à frente do Ministério, mais tempo que qualquer outro ministro na história, tornou-se quase uma marca pessoal.

Como na fábula do menino e o lobo, na qual um garoto torna-se conhecido em sua aldeia por repetir inúmeras vezes a brincadeira de gritar que o lobo estava vindo, Guido tornou-se alguém em quem todos custavam a acreditar. E, como na fábula, quando o lobo – ou a crise – veio, ninguém lhe deu ouvidos. Nem mesmo a pessoa que lhe sustentou no cargo por longos anos, a despeito do acúmulo de críticas.

Em dezembro de 2012, a capa da maior revista de economia e negócios do mundo estampava uma “ironia” relacionada à situação brasileira. Assim como havia feito em 2009, quando mostrou ao mundo que o Brasil havia decolado, a The Economist utilizou-se do Cristo Redentor para transmitir a ideia de que “o Brasil estava em queda livre”. A reportagem cobrava até mesmo a demissão de Mantega do cargo, alegando que o fracasso de suas ideias levaria o país ao que os economistas chamam de “estagflação” – estagnação econômica com inflação elevada. Dilma, no entanto, se recusou a aceitar tamanho intervencionismo internacional e criticou duramente a publicação.

Como vimos alguns poucos anos depois, a The Economist – e todos os jornais e revistas que criticaram Mantega e a situação da economia brasileira – estavam errados. Foram todos extremamente otimistas. Nada de crescimento zero como previam, mas uma severa recessão, a maior da nossa história.

Ao final desta crise, 10 milhões de brasileiros terão retornado à pobreza. E, pela primeira vez em dois séculos, a renda da população terá terminado o decênio no mesmo nível que começou. O que, em outras palavras, significa dizer que jogaremos dez anos na lata do lixo. Uma longa década.

A prisão de Guido Mantega na 34ª fase da operação Lava Jato – revogada horas depois por Sérgio Moro – teve causas distintas, como a atuação do ex-ministro em favor de empresários, mas sejamos sinceros aqui – é preciso fazer jus à sua memória. Para isso, separamos abaixo os motivos que colocam Guido Mantega no papel que merece: o pior ministro da Fazenda da nossa história.

1. Ele é terrível em previsões.12029597_10153120635931596_5822200015668175701_o

“A economia vive em função das expectativas.”

A frase é batida, meio clichê, mas tem seu fundo de verdade. Ela não significa dizer que um empresário decidirá onde investir alguns bilhões de acordo com a meteorologia no Jornal Nacional, ou pelo bom humor de um ministro da Fazenda. Quando o assunto envolve projetos de longo prazo e retornos instáveis, o que mais importa é confiança. Justamente o que mais falta na fala de Guido.

“O pior da crise já passou”, resumiu Mantega ainda em agosto de 2013, sobre o crescimento do PIB no segundo trimestre daquele ano. Para o ministro, a economia brasileira (e a mundial) começariam uma nova fase de crescimento, tudo capitaneado por suas políticas de estímulo ao consumo.

Pouco mais de seis meses depois, no entanto, a explicação era outra. A economia desaqueceu, mas a Copa do Mundo daria um jeito em nossos problemas. No trimestre seguinte, porém, o desaquecimento foi ainda maior e o crescimento do ano seria um belo e redondo zero, segundo Guido, porque os feriados da Copa do Mundo complicaram nossa situação econômica. Curioso, não?

14409281_1042666302518661_1453231340_nSua frase mais clássica, porém, só viria em outubro de 2014.

“Vai quebrar a cara quem apostar na alta do dólar!”

Como não é nenhum segredo, o ano de 2015 bateu à porta e o real se tornou a segunda moeda que mais se desvalorizou em todo o planeta. O dólar chegou à barreira histórica de R$ 4,00 e por lá ficou durante um longo período.

Se engana, porém, quem acredita que o histórico de péssimas previsões e de descrédito no governo vem de hoje. Ainda em 1994, Mantega era apenas o assessor econômico de Lula, como foi durante quase duas décadas. Naquele ano, o economista foi o responsável direto por fazer com que Lula desacreditasse o Plano Real, apelidando-o de “estelionato eleitoral”. O equívoco talvez tenha lhe custado alguns pontos com o ex-presidente – que, ao assumir o cargo em 2003, preferiu empossar Antonio Palocci e economistas de visão radicalmente opostas às de Mantega. Como prêmio de consolação, Guido levou o Ministério do Planejamento e depois a presidência do BNDES.

A queda de Palocci no Mensalão, no entanto, era a combinação ideal para colocar Guido no posto mais alto da equipe econômica brasileira, o cargo de ministro da Fazenda, onde ele permaneceria por oito longos anos.

Em seu histórico de previsões, porém, há um grande acerto. Se enquanto ministro, Guido levou o cargo ao descrédito junto a investidores internacionais, como analista, ele acertou em cheio numa entrevista às páginas amarelas da Veja, no longínquo ano de 2007:

“Ninguém mais quer saber de déficit público e inflação. Se no futuro for eleito um presidente irresponsável, ele terá de se submeter as regras do jogo, ou será ‘impichado’.“

Indiretamente, o principal nome da equipe econômica de Dilma referendava sua queda.

2. Ele é responsável direto pela maior recessão econômica da nossa história.

dilma-rousseff-guido-mantega-palossi

Para muitos analistas, a não demissão de Mantega ainda em 2013, deu-se por uma razão prática: quem mandava na economia de fato era Dilma Rousseff, e não Mantega ou Arno Augustin, então secretário do Tesouro. 

Na prática, no entanto, Dilma não comandou sozinha toda a operação que ergueu a Nova Matriz Econômica. Boa parte dos planos adotados pelo governo brotaram das ideias de Guido, ainda que a presidente fosse responsável pela palavra final. O envolvimento do BNDES como principal agente financeiro do país quando o assunto era financiamento empresarial, por exemplo, se deu em função da passagem de Mantega pelo banco – e pelo fato de seu comando estar com o mais confiável dos sócios e amigos de Guido, Luciano Coutinho.

Em pouco mais de sete anos, Guido aportou no BNDES nada menos do que R$ 455 bilhões. Não faz ideia de quanto isso representa? É quase 10% do PIB nacional na época, contraído em dívidas pelo governo federal para turbinar o capital do banco e permitir que ele fosse responsável pelos investimentos necessários na economia do país. O resultado de tamanho esforço, no entanto, foi pífio. A taxa de investimento da economia brasileira em 2015 era rigorosamente a mesma de 2008, quando tudo começou.

No mundo real, ficamos meio trilhão de reais mais endividados e o investimento não chegou minimamente perto do esperado. Na prática, o que ocorreu foi que a aposta de Guido e Coutinho destruiu o mercado de capitais brasileiro, que estava em seu auge em 2010. Afinal, por que motivo um empresário pegaria dinheiro na bolsa, tendo que prestar satisfações sobre seus atos, se poderia simplesmente ir ao BNDES pegar um dinheiro mais barato, sem ter de explicar nada do que faz a qualquer acionista inconveniente? 

Até mesmo o maior bilionário da época rendeu-se à lógica de Mantega: Eike Batista, que quatro anos antes havia ficado conhecido por fazer a maior abertura de capital da história. Eike passou a ser um cliente assíduo do BNDES. Nada de abrir capital na bolsa e captar dinheiro. Bastava bater na porta correta e… pronto. Estava tudo lá.

O resultado foi uma degradação do nível de gestão empresarial do país, além da completa destruição dos parâmetros para avaliar bons investimentos. Para uma das empresas beneficiadas, a OSX, também de Eike, parte do financiamento foi possível graças à Caixa Econômica Federal – e é justamente por envolver-se com tentativas de privilegiar a OSX que Guido foi preso pela Polícia Federal.

Os planos de Guido, porém, iam muito além do BNDES. Sob seu mandato, o Brasil adotou uma lógica tentadora de enriquecer gastando. Parecia simples: o governo dava o crédito (os bancos públicos passaram a deter mais da metade do crédito na economia), a população consumia e os empresários investiriam para atender à demanda. Como num passe de mágica, ficaríamos ricos. E tudo isso sem precisar poupar ou fazer sacrifícios.

Os quase R$ 458 bilhões em renúncia fiscal idealizados por Guido colocariam dinheiro nas mãos do empresariado. O plano de concessões e privatizações que leiloaria estradas, portos, aeroportos e ferrovias seria responsável por aportar R$ 198,4 bilhões na economia e destravar nossa logística.

Tudo muito bacana, mas… Quem confia em uma previsão de Guido Mantega a ponto de investir seu próprio dinheiro nisso? Nem mesmo com dinheiro que custava menos do que a inflação, o ex-ministro foi capaz de convencer potenciais investidores.

Para burlar o aumento da inflação, consequência de uma política pró-consumo, Guido e Arno foram além, e começaram a fraudar a forma como o IPCA era medido. Uma estratégia simples, porém engenhosa.

Suponha que a energia seja responsável por 30% do consumo de cada família brasileira. Imagine então que a energia suba 10% em um ano. Como consequência, a inflação subirá 3%. Mas e se o governo pagar as geradoras e distribuidoras para que não elevem a conta? Se o dinheiro sair do caixa do Tesouro e não das famílias? O resultado é que o índice não registraria aumento e a inflação “não cresceria”, apesar de todos termos de pagar indiretamente por isso através de impostos.

Com Mantega, tal prática ocorreu por longos anos, gerando déficits nas contas de energia e petróleo – apenas na Petrobras, proibida por ele de repassar aumentos no preço da gasolina, o prejuízo foi de R$ 60 bilhões. Achou estranho a energia ter subido 51% em 2015? Culpe esse cara.

3. Ele é responsável direto por políticas que destinaram bilhões a alguns dos maiores empresários do país.

dilma-rousseff-eike-batista

A aliança de Mantega com Coutinho, porém, não limitou-se apenas a elevar o crédito na economia. O modelo montado por ambos recebeu um apelido carinhoso da imprensa: a tal política de campeões nacionais. Nenhum dos dois, no entanto, jamais admitiu ter realizado essa prática, ainda que os custos e as ações sejam facilmente rastreados.

Com carta branca para interferir na economia, graças à crise de 2008, Guido iniciou medidas que aprofundariam sua visão e levariam o rumo do país a dar um giro de 180º. No meio da crise, por exemplo, uma das mais tradicionais companhias do setor de alimentos do país, a Perdigão, teve prejuízos bilionários, levando a empresa à quase falência – o mesmo que ocorreria com a Aracruz celulose, outra gigante no seu setor.

Para impedir que essas empresas quebrassem, o BNDES aportou bilhões para tornar-se sócio e forçá-las a se fundirem justamente com suas principais rivais – a Sadia e a Votorantim Celulose. Hoje, o banco ainda é dono de quase um terço do capital da Fibria, a companhia resultante da fusão entre Aracruz e Votorantim – que se tornaria, graças ao crédito farto do BNDES, a maior empresa do mundo no setor.

Tanto o então presidente Lula quanto seu ministro tinham uma visão de “Brasil potência”, capaz de sustentar peripécias como estas. Convencido por Mantega, Lula comprou a ideia de que, para o Brasil ser de fato um player importante no mundo, era preciso ter empresas globalizadas. Graças a esta mentalidade, entre outras coisas, o BNDES patrocinou a fusão da Telemar e da Brasil Telecom, duas das maiores companhias do setor de telecomunicações do país. A empresa resultante? A Oi – atualmente em processo de recuperação judicial após ter quase decretado falência. Para criar a Oi e ajudar a concentrar o mercado, diminuindo a concorrência, o ex-presidente topou mudar a lei e permitir a fusão, enquanto Mantega articulou a liberação de R$ 2,56 bilhões para viabilizá-la.

Muito maior do que este valor – ou do que os R$ 1,15 bilhões para garantir a fusão de Sadia e Perdigão (resultando na BRF), ou os R$ 1,18 bilhões para a criação da Fibria – foi a escala de recursos movimentada para catapultar o grupo J&F, responsável pela JBS Friboi, além de Eike Batista.

Para permitir à JBS se tornar a maior processadora de carnes do planeta, o BNDES aportou R$ 10 bilhões. As operações do banco chegaram a envolver a compra de debêntures conversíveis em ações, para financiar a aquisição de uma empresa americana, a Pilgrim’s. Em outras palavras: o BNDES financiou uma operação que gerou exatamente zero empregos no Brasil.

Com Eike Batista, a situação foi um pouco distinta. Como a prisão de Mantega deixa claro, o empresário e ex-bilionário fez acordos generosos para conceder uma quantia volumosa à campanha de Dilma (R$ 5 milhões, para ser mais exato), em troca de alguns financiamentos do banco. No total, a EBX de Eike recebeu R$ 10,4 bilhões para diversos negócios em áreas como mineração, construção naval, geração de energia e a construção de dois portos no Rio de Janeiro.

O custo de toda essa ação de Mantega junto ao BNDES? É estimado hoje em R$ 184 bilhões. Esse foi o valor transferido pelo banco aos tomadores de empréstimos. Cerca de 67% dos empréstimos do banco concentram-se em empresas de “grande porte” – ou seja, aquelas que faturam acima de R$ 300 milhões. Segundo o jornal Valor Econômico estima, existem por volta de mil empresas no país com este tamanho. Em suma, um programa de transferência de renda da população mais pobre para empresários bilionários foi gestado e incentivado por Guido Mantega.

4. Ele está envolvido em esquemas de corrupção.

mantega-sede-da-pf-em-sp

É bastante provável que você já tenha sacado que, como general mais importante da economia brasileira, Mantega não foi um desavisado durante a ocorrência das fraudes contábeis usualmente chamadas de pedaladas fiscais, certo? Sua prisão, porém, não tem nenhuma relação com estes crimes de improbidade administrativa.

Guido foi preso por ter intermediado propina junto a Eike Batista, um dos beneficiários de seu esquema de campeões nacionais. Como a escritora Malu Gaspar deixa claro na biografia “Tudo ou Nada”, que relata a ascensão e queda do império X, as relações de Eike com o poder foram sempre muito próximas. Ainda em 2002, o empresário tentou se aproximar do ex-presidente, realizando doações para sua campanha. Em 2006, contratou José Dirceu para interceder junto a Evo Morales e evitar um prejuízo do grupo X na Bolívia. Em 2010, articulou com o próprio Lula e André Esteves uma tentativa de comprar a mineradora Vale – tudo apoiado na crença de Lula de que deveríamos gerar mais valor agregado às nossas exportações. Eike não apareceu no radar por acaso.

Em meio à crise de seu império, que coincidiu com os protestos de rua em junho de 2013, Eike teve grandes dificuldades em obter ajuda direta do governo. Mantega, porém, não teve grandes problemas em apoiá-lo. Junto do então ministro do Desenvolvimento Econômico, Fernando Pimentel (o atual governador de Minas Gerais), Mantega foi ao Espírito Santo persuadir o estaleiro cingapuriano “Jurong” a mudar-se para o porto de Eike, no Rio.

Em suma, o ex-ministrou lutou para tirar R$ 500 milhões do estado do Espírito Santo e colocá-los no porto de Eike, graças à política econômica dos campeões nacionais.

Após a falência do grupo X, a OSX tornou-se um “ativo podre”, sem encontrar compradores. Para a Caixa Econômica Federal, no entanto, a empresa passou a figurar em uma situação especial. As dívidas de Eike foram renegociadas – e podem ser pagas agora em 40 anos.

Mesmo em situação de quase falência, a OSX encontrou na Petrobras uma oportunidade para se reerguer. Junto com a empreiteira Mendes Júnior, a empresa obteve um contrato de US$ 922 milhões para construir duas plataformas para a estatal – ainda que nenhuma das duas tivesse qualquer experiência na área. Como apontou a Polícia Federal, dezenas de milhões de reais oriundos destes contratos circularam por empresas conhecidas por prestarem serviços a campanhas políticas e já citadas na Lava Jato, além de R$ 10 milhões que tiveram como destino final a consultoria de José Dirceu.

Escolher a pior equipe econômica da história de um país com 8 moedas, 9 calotes da dívida e uma trajetória de voos de galinha e fracassos homéricos na economia não é uma tarefa fácil, mas Guido somou alguns pontos cruciais. Trata-se do mais longevo no cargo e, portanto, o que mais teve tempo para tornar alguns problemas muito conhecidos, no comando do Ministério da Fazenda: gerou descrédito e apostou em idéias mais do que batidas. O resultado para a economia será de, no mínimo, três anos de recessão. Já a sentença de Guido, cabe ao juiz Sérgio Moro. A nossa é muita clara: Guido Mantega é o pior ministro da Fazenda da nossa história.

crowbanner