5 razões por que Hillary Clinton pode ser a presidente mais corrupta já eleita nos Estados Unidos

*com participação de André Ichiro

Vazamentos de e-mails, espionagem russa, investigações do FBI e escândalos envolvendo ditaduras e grandes corporações ao redor do mundo. O que poderia muito bem ser um filme político clichê de Hollywood é, na verdade, um resumo das últimas semanas que antecedem as eleições americanas. Caminhando para o que parecia uma vitória fácil, a candidata democrata Hillary Clinton se viu subitamente lançada em um mar de lama.

Mas essa história não nasceu durante a campanha.

Ao parar na Rússia, após ter colaborado para vazar documentos que comprovavam a existência de uma rede internacional de espionagem por parte da NSA (a Agência Nacional de Segurança dos EUA), Edward Snowden, segundo denúncias de oficiais do próprio governo americano, teria sido convidado pelo governo russo para trocar sua expertise no assunto pelo famigerado asilo político. O alvo desta vez era mais específico: o DNC, o Comitê Nacional do Partido Democrata.

A ideia original era descobrir detalhes da desastrosa atuação de Hillary Clinton na Síria, no Líbano e no Egito, enquanto secretária de Estado do governo Obama, e com isso desestabilizar a campanha democrata, entregando a presidência a Donald Trump. No entanto, uma vez na posse de e-mails como os do chefe de campanha de Hillary, John Podesta, tais objetivos tornaram-se simples demais.

Em meio a tamanha quantidade de informações, descobrir, por exemplo, que Hillary recusou-se a atender o comandante do exército americano na embaixada de Benghazi na noite em que a mesma embaixada foi alvo de ataque por um grupo de radicais islâmicos, resultando na morte de quatro cidadãos americanos, tornou-se um mero detalhe (o atentado foi inclusive o motivo da renúncia de Hillary ao cargo de secretária de Estado). Nos e-mails de Podesta e em outros arquivos do DNC, o Kremlin acabou descobrindo aquilo que pode se tornar o maior escândalo de corrupção da história da política americana – tudo capitaneado pelo casal Clinton e sua fundação, que leva o nome da família.

Criada ainda durante o mandato de Bill Clinton na presidência, em 1997, a Fundação Clinton recebeu por volta de US$ 2 bilhões em doações ao longo da última década. Boa parte deste dinheiro, proveniente de grandes empresas, milionários e governos estrangeiros, foi doado enquanto Hillary estava sentada na cadeira de Secretária de Estado, comandando toda a política externa americana. As razões por trás de tamanha generosidade são o que leva Hillary a estar hoje no centro de um possível escândalo. E motivos pra isso não faltam.

A ascensão do casal Clinton: do zero aos primeiros US$ 200 milhões.

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Os oito anos de mandato de Bill Clinton na Casa Branca costumam ser lembrados pelo rigor e o equilíbrio fiscal, incluindo alguns anos em que o governo chegou a registrar superávit, diminuindo a dívida pública do país. No entanto, segundo relatos da própria Hillary, o casal saiu da residência oficial repleto de dívidas.

Bancar os estudos da filha e a hipoteca da casa foram, ainda segundo a democrata, as principais motivações para que Bill se empenhasse em tornar-se um palestrante reconhecido. Poucos anos depois, o ex-presidente americano já recebia por volta de US$ 200 mil por uma única palestra. Entre seus principais clientes? Os grandes bancos de Wall Street e outras corporações americanas. Apenas no período em que Hillary foi secretária de Estado, Bill embolsou US$ 48 milhões dessa forma.

Eleita senadora em 2008, Hillary só passou a atuar no ramo de palestras em 2013, oito meses depois de deixar o cargo de secretária de Estado por conta do atentado em Benghazi. Entre 2013 e 2014, a democrata recebeu US$ 20 milhões para proferir palestras, incluindo US$ 3,5 milhões apenas de grandes bancos de Wall Street.

Em outubro de 2013, por exemplo, Hillary teria recebido US$ 225 mil do banco Goldman Sachs para proferir uma palestra. Em junho do mesmo ano, Bill recebeu outros US$ 200 mil do mesmo banco.

As relações de Hillary com o sistema financeiro, no entanto, não se limitam às palestras. Goldman Sachs, Morgan Stanley, Citigroup e JP Morgan foram quatro dos cinco principais doadores enquanto Hillary ainda estava no Senado.

Em 2015, ainda disputando as prévias pelo Partido Democrata, a candidata apresentou seu plano para Wall Street, que previa, entre outras coisas, taxar alguns negociadores de alta frequência e fundos de investimento não-bancários – algo que seus adversários dentro do próprio partido fizeram questão de lembrar que era audaciosamente bem elogiado pelos próprios banqueiros.

Tamanha influência fez dos Clinton um casal não usual em Washington – uma fortuna de US$ 200 milhões, afinal, construída em apenas quinze anos é algo raro dentro da política americana. Alguns casos controversos acabaram sendo gerados graças ao novo estilo de vida do casal, como o discurso dado em junho, quando Hillary venceu as primárias do partido criticando duramente a desigualdade em seu país. Na ocasião, a candidata vestia uma jaqueta de Giorgio Armani de US$ 12 mil – um valor maior do que a renda anual necessária para alguém deixar de ser considerado pobre nos Estados Unidos.

Para onde vão os milhões da fundação Clinton?

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US$ 500 milhões é a quantia arrecadada entre 2009 e 2012 (o período onde Hillary esteve à frente do departamento de Estado) pela fundação Clinton. No mesmo intervalo, a Fundação despendeu apenas US$ 75 milhões em programas como uma iniciativa global de combate à AIDS e suporte ao Haiti.

Os demais US$ 425 milhões? Foram gastos com despesas de viagens (US$ 25 milhões), salários e benefícios de empregados (US$ 110 milhões) – incluindo a filha do casal, Chelsea Clinton -, além de outras despesas.

Segundo um e-mail vazado recentemente pelo Wikileaks, até mesmo o casamento de Chelsea Clinton teria sido bancado pela Fundação, com um custo estimado entre US$ 2 e US$ 5 milhões.

Em 2013 a Fundação arrecadou cerca de US$ 140 milhões para seus programas, mas apenas US$ 8,9 milhões foram de fato doados.

Em 2014, por exemplo, foram US$ 5 milhões em programas de ajuda humanitária (teoricamente, a função para a qual a Fundação Clinton existe) e US$ 6 milhões em despesas de viagens, além de US$ 25 milhões em salários para a equipe da fundação.

Os negócios da Fundação Clinton

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Empresas como Dow Chemical, Coca-Cola, Duke Energy ou BHP se comprometem todos os anos com milhões de dólares para fazer parte da Clinton Global Initiative, a CGI. Como deixa claro o recente vazamento de e-mails envolvendo Chelsea Clinton e Doug Band – o principal responsável por levantar fundos para a Fundação – muito mais do que apoiar causas nobres, o que leva tais empresas a contribuir é uma oportunidade única de aumentar sua influência sobre Washington. Em outras palavras, é puro lobby.

Em uma série de e-mails trocados entre Chelsea e Doug, a filha do casal manifesta preocupação com possíveis conflitos de interesse envolvendo a Fundação, o Departamento de Estado e Fundação Teneo, de Doug.

Em um caso notório, relatado pelos e-mails de Doug, o presidente da Dow Chemical, Andrew Liveris, tornou-se membro da fundação com acesso especial ao casal Clinton.

Cerca de um mês após a Dow ter pagado pelo privilégio, Andrew convidou Bill e Doug para uma tarde de golf. Após o encontro, a empresa acabaria doando outros US$ 500 mil à fundação, além de contratar Bill para comparecer a um jantar em Davos, ao custo de outros US$ 150 mil. No mesmo período, a Dow pagou à fundação de Doug, a Teneo, cerca de US$ 18,6 milhões em serviços de consultoria. Bill, por sua vez, é membro honorário da Teneo, de quem recebe US$ 3,5 milhões anuais para fazer parte do conselho.

O caso tornou-se emblemático não apenas pela ligação clara entre a organização de caridade do casal Clinton e atividades bastante lucrativas por parte de Bill, mas também por envolver diretamente dois doadores conhecidos da Fundação.

No mesmo período em que levava Bill para jogar golf e pagava centenas de milhares de dólares para que ele comparecesse a festas, além de emprestar o jatinho da companhia para suas viagens pessoais, a Dow esteve envolvida em um acordo para captar até US$ 9 bilhões junto ao Kwait, outro doador recorrente do casal Clinton.

Não apenas o Kwait doou US$ 5 milhões à Fundação, como também Arábia Saudita e Qatar tornaram-se conhecidos por apoiar as iniciativas do casal. Regimes ditatoriais como os do golfo, porém, não foram os únicos a colaborar. O Marrocos também teria contribuído com US$ 12 milhões em doações.

Responsável direta pela política externa americana enquanto secretária de Estado, Hillary e sua família estenderam uma longa rota de colaboração com governos estrangeiros, em um caso ainda pouco explicado. O que leva ditaduras do golfo pérsico a doar recursos para a fundação de um ex-presidente americano e sua esposa é o que casos como o vazamento de e-mails de Doug Band ajudam a explicar. O que faz com que alguns dos regimes mais repressores do mundo, especialmente em relação às mulheres, doem dinheiro a uma fundação que alega agir em defesa dos direitos individuais, especialmente de mulheres?

Como uma série de e-mails do Departamento de Estado Americano mostram, Hillary teria se encontrado para reuniões com o príncipe do Bahrein, outro grande doador da fundação, e após o encontro, garantido apoio para que os Estados Unidos ampliassem as autorizações de exportação de armamentos para o país. Somados aos mais de 33 mil e-mails trocados por Hillary em um provedor privado, e posteriormente deletados, este caso traz à luz parte das entranhas do poder em Washington.

Warlord Hillary Clinton

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Sob o comando de Hillary Clinton, o Departamento de Estado americano autorizou vendas de armamentos no valor de US$ 165 bilhões a cerca de 20 países doadores da Fundação Clinton.

No mesmo período, o Pentágono autorizou ainda acordos, no valor de US$ 151 bilhões, com cerca de 16 países doadores da Fundação Clinton, o que representa um aumento de 143% em relação ao mesmo período no governo Bush. Na prática, doadores da Fundação Clinton tiveram autorizada a compra de 143% a mais em armamentos, contra 80% a mais em países não doadores. Incluindo empresas e governos envolvidos apenas nas negociações de vendas de armamentos, a Fundação Clinton recebeu entre US$ 54 milhões e US$ 141 milhões.

As relações da Arábia Saudita, porém, tornam-se um pouco mais extensas quando levamos em consideração alguns dos principais responsáveis pela campanha de Hillary – como seu secretário, John Podesta.

John e seu irmão Tony Podesta são dirigentes do The Podesta Group, uma organização prestadora de serviços de relações públicas que tem como cliente a própria Arábia Saudita, que paga US$ 200 mil mensais pelo serviço.

Apesar de receber recursos destes países, Hillary não deixa de afirmar abertamente que a Arábia Saudita e o Qatar têm, de forma bastante direta, colaborado para financiar o terrorismo – em especial o Estado Islâmico (ISIS). Nas palavras de Hillary:

“Enquanto esta operação militar/paramilitar segue adiante, precisamos usar nossos recursos diplomáticos e de inteligência mais tradicionais para pressionar os governos do Qatar e da Arábia Saudita, que fornecem apoio financeiro e logístico clandestinamente ao ISIS e outros grupos sunitas radicais na região.”

As relações do casal Clinton com países pouco conhecidos pelo respeito aos direitos humanos, no entanto, não se limitam ao Oriente Médio. No continente africano, por exemplo, a Fundação Clinton presenteou o presidente de Ruanda, Paul Kagame, com o prêmio Clinton Global Citizen Award, para indivíduos que se destacam na promoção de valores de liderança. Como aponta o jornal The New York Times, Kagame é de fato acusado de inúmeros crimes de guerra, além de ser responsável por recrutar crianças para seu exército.

O caso do Haiti

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A atuação global do casal Clinton é extensa e ao longo de quinze anos tornou-se repleta de casos notórios, como no terremoto que atingiu o Haiti. Na ocasião, Bill foi escalado para representar os Estados Unidos em um mega esquema de reconstrução e ajuda ao país. Sob o pretexto de apoiar a reconstrução, foram concedidos bilhões em contratos entre o governo americano e grandes empresas.

Companhias como a Wal-Mart receberam vultuosos benefícios fiscais para construir um parque industrial no norte do país (a despeito de o terremoto ter devastado a parte sul) e, com isso, produzir bens mais baratos para serem diretamente exportados aos Estados Unidos. Contratos de construção de moradias foram concedidos a empreiteiras americanas e aproximadamente US$ 90 milhões pagos para construir cerca de 2,6 mil residências em um contrato original que previa 15 mil residências por US$ 53 milhões.

Outro doador frequente da Fundação, a companhia Digicel, que doou entre US$ 5 e US$ 10 milhões, contratou Bill Clinton para palestrar na Jamaica – apenas quatro dias depois, ela entraria em uma licitação do governo americano para ser a responsável por operar um sistema de transferência de recursos entre celulares.

Na mesma leva de contratos para apoiar o desenvolvimento do país, a companhia mineradora VCS conseguiu um dos dois únicos contratos de mineração de ouro emitidos nos últimos cinquenta anos no Haiti. O conselho administrativo da companhia conta com a presença de Tony Rodham. Não ligou o nome ao sobrenome? Tony tem uma irmã famosa: Hillary Rodham Clinton, que, no auge de tantos escândalos, tem tudo para ser a presidente mais corrupta já eleita nos Estados Unidos.

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