7 mitos que você sempre acreditou sobre os Estados Unidos

uncle-sam-wants-you

A imagem de um suposto livro didático norte-americano com a floresta amazônica sendo tratada como parte do território americano é provavelmente uma das maiores lendas urbanas da internet brasileira. Sua origem é de um site criado em 1999 por um grupo de militares nacionalistas da reserva. A narrativa é perfeita. Em uma época onde o “Fora FMI” e o “Fora Alca” eram as palavras de ordem da vez, a corrente repassada por e-mail era a prova definitiva das intenções imperialistas americanas. Estava ali, para quem quisesse ver. A corrente de e-mail repercutiu. Grandes jornais divulgaram como se fosse verdade. O Congresso brasileiro decidiu pedir explicações do embaixador americano, enquanto professores universitários em todo o país inflamavam seus alunos contra o imperialismo daqueles que se acham “donos do mundo”. Na prática, a imagem repleta de erros básicos de inglês é apenas mais um dos tantos mitos que baseiam boa parte do que acreditamos saber sobre os Estados Unidos.

A ideia parece tentadora – encontrar um “bode expiatório” que alivie nossa barra, nos mostre que não temos tanta responsabilidade assim sobre nossos problemas e que, na realidade, somos vítimas de uma grande conspiração que nos impede de sermos uma nação próspera e livre. Nas universidades e em muitos outros cantos país afora, o anti-americanismo sobrevive e prospera com base neste princípio.

Tratar a maneira de Bushs e Clintons comandarem o país como se fosse a forma do americano médio ver o mundo não é lá uma ideia muito sensata, mas é quase um padrão. No imaginário coletivo, o governo americano é um reflexo da sua população. Um cenário muito diferente do que se vê aqui, claro. No Brasil, somos cidadãos conscientes: os políticos roubam, enrolam, enganam, mas nada disso nos diz respeito propriamente.

Bastou que um 14-bis sobrevoasse o Maracanã, no entanto, para nos lembrarmos como nossas ideias são realmente boas. Nosso povo é empreendedor (ainda que Santos Dumont tenha empreendido toda sua engenhosidade do outro lado do oceano, na França) e nossa política bem intencionada. Pense por um instante: americanos não têm a maravilha do nosso SUS, universidades públicas, nossa CLT, previdência, etc. Como se não bastasse, ainda usam urnas de papel! Quase primitivos, e ricos por acaso. De que adianta ser rico enquanto o povo é explorado, sem ter acesso a qualquer uma destas proteções?

Abaixo selecionamos 7 dos maiores mitos que você provavelmente já ouviu sobre os Estados Unidos – e por que eles não passam disso: mitos.

1. O governo americano não gasta em saúde, e boa parte da população do país não tem acesso a planos de saúde.

obamacare-fraud-1360x860

Defender nossa ideia de SUS não é uma tarefa fácil. A despeito de sermos o último colocado dentre 50 países quando o quesito é “eficiência de sistemas de saúde”, ainda encontramos um tempinho para criticar os outros – em especial, aqueles que seguem um caminho diferente do nosso.

Apesar da ausência de um Sistema Único de Saúde propriamente dito, 85% dos americanos podem contar com planos de saúde, sejam eles públicos ou privados. Dentre os 15% restantes, mais da metade possui uma renda superior aos US$ 34 mil anuais, o que os coloca definitivamente na classe média. Em suma, recebem por volta de R$ 112 mil e optam por não ter planos de saúde.

Para boa parte da população, porém, os planos de saúde são um benefício oriundo do trabalho. Mesmo Michael Moore, ferrenho crítico do sistema de saúde norte-americano, afirma que todas as 500 maiores empresas do país oferecem planos de saúde aos seus empregados e familiares. Recentemente, empresas como General Motors anunciaram que estavam gastando mais em saúde para funcionários anualmente do que com o aço utilizado na fabricação de seus carros.

Em termos per capita (por habitante), nenhum país do mundo gasta tanto quanto os americanos em saúde. São US$ 8.500 dólares anuais, quase 30% a mais do que gastam noruegueses e suíços (2º e 3º no ranking respectivamente). Nos mesmos termos, o governo americano é o terceiro que mais gasta, logo atrás de Noruega e Holanda.

Tantos gastos por parte do governo americano em saúde – cerca de US$ 1.2 trilhão, ou metade do PIB brasileiro apenas em gasto público de saúde – se dá pela existência de programas específicos, como Medicare e Medicaid. Pessoas em extrema pobreza, crianças, idosos, militares e veteranos de guerra possuem tratamento custeado pelo governo, o que compõe cerca de 70 milhões de pessoas.

Em relação ao gasto total do país, de 17.1% do PIB, o governo americano gasta mais do que o brasileiro. Cerca de 45% dos gastos totais em saúde de lá saem dos cofres do Tio Sam, contra 44% daqui. Em relação ao PIB, o governo gasta portanto 8.3%, contra 7.6% do governo inglês e 9% do governo francês, ambos países onde o governo fornece saúde universal.

É sim verdade que o sistema de saúde americano é o mais ineficiente do mundo quando comparado aos países ricos. Nada disso, porém, pode ser resumido a uma causa única, como a ausência de um SUS – coisa que os sistemas de saúde suíço ou alemão, por exemplo, nem de longe representam. Em referendo, os suíços recentemente rejeitaram a criação de um plano nacional de saúde universal, ou seja, o SUS. No caso americano, a ineficiência decorre não da ausência de um sistema único de saúde em si, mas dos gastos elevados. Para o Cato Insititute, os gastos elevados em saúde nos EUA podem ser explicados em boa parte pela forma como o pagamento do serviço se dá. Por ganharem apenas um bônus saúde, e não pagarem por parte dela, muitos americanos terminam por não preocuparem-se com os gastos totais.

2. Nos Estados Unidos não existem universidades públicas.

image

Donos de 85 das 100 melhores universidades do mundo, os americanos ainda sofrem severas críticas pelo seu sistema de ensino. Ao contrário da Alemanha, por exemplo, não existem universidades públicas e gratuitas por lá. Isso não significa, porém, que não existam universidades públicas no país.

Existem 3 vezes mais universidades públicas nos EUA do que no Brasil (629 lá, contra 251 aqui) , e juntas elas possuem 6 vezes mais alunos (6.8 milhões contra 1.2 milhão). A diferença básica está no quesito “gratuito”. Por lá, ser pública significa que uma universidade deve subsidiar os alunos, oferecendo cursos por valores bem menores, ainda que não totalmente gratuitos.

É possível até mesmo que você pague para estudar em uma universidade pública e estude sem custos em uma universidade privada. Isto ocorre em boa parte por conta de fundos detidos pelas universidades americanas, oriundos de doações de ex-alunos e investimentos realizados por elas. Dos quase US$ 516 bilhões em caixa, as universidades do país dedicam por volta de 3% deste valor para custeio (construção de instalações) e concessão de bolsas.

Mesmo universidades públicas cobrem boa parte dos seus orçamentos por meio de mecanismos como estes, além de parcerias com o setor privado.

Além da extensa rede de universidades públicas (nenhuma delas federal), os Estados americanos contam ainda com redes de ensino técnico, também mantidas no mesmo esquema público-privado. São ao todo 1.070 instituições de 2 anos de ensino, com 6.18 milhões de alunos. Para efeito de comparação: todas as modalidades de ensino superior no Brasil possuem juntas, entre público e privado, 7.3 milhões de alunos.

3. Americanos são o povo mais “egoísta” do mundo.

o-AYN-RAND-facebook

Trabalhe, pense apenas em si e fique rico. A noção do “american way of life”, o estilo de vida americano, é muitas vezes deturpada para beneficiar esta visão de mundo do “nós contra eles”. Somos um povo alegre, generoso, ajudamos os vizinhos, damos bom dia no elevador. E eles? Todos de cara fechada, só pensando em dinheiro, não é mesmo?

OK, pode ser exagero, mas não se engane, há muitas pessoas acreditando ser possível resumir a mentalidade de 330 milhões de pessoas dessa forma. Ao contrário desta visão, porém, os Estados Unidos são o país mais “mão aberta” do mundo. Juntos, os americanos doam anualmente 2.1% do PIB para causas diversas.

São ao todo US$ 373.25 bilhões por ano apenas em doações. Por volta de 15% do PIB brasileiro. Nenhum país do mundo possui tantas fundações entidades destinadas a promover questões sociais. Dentre as 20 fundações mais ricas do mundo, na lista encabeçada pela Fundação Bill & Melinda Gates, 11 são americanas. Se lembra do filme “O Aviador”, com Leonardo Di Caprio? Pois é, só a fundação que leva o nome do protagonista, a Howard Hughes Foundation, possui US$ 16.9 bilhões em caixa para doações e investimentos em saúde.

Ainda que doar dinheiro possa não ser considerado um ato tão altruísta assim, afinal, são fundações que carregam os nomes de seus fundadores, ou doações que implicam em um prédio com seu nome em alguma universidade americana, a população em geral se destaca pelo engajamento em trabalho voluntário.

Cerca de 44% da população do país afirma ter praticado trabalho voluntário ao menos uma vez no último ano. O número é o terceiro mais alto do mundo. Quer entrar em uma boa universidade? Estude muito e tenha um bom currículo, incluindo aí horas dedicadas a ajudar outras pessoas.

4. Existem milhões de pessoas extremamente pobres nos Estados Unidos, e este número não para de crescer.

homeless_in_nyc

Denunciar as mazelas do capitalismo e “aquilo que a mídia não mostra” é uma das tarefas preferidas de árduos heróis do jornalismo em blogs e sites populistas (muitos deles financiados por doações de americanos). Dentre as citações preferidas, é bastante provável que você encontre a famosa tese de que “existem 39.1 milhões de americanos vivendo em extrema pobreza”.

Sim, no país mais rico do mundo, no símbolo da quase anarquia de mercado, a pobreza atinge 40 milhões de pessoas, um número que parece não ter se alterado ao longo das últimas décadas.

Qual a fonte da notícia? A melhor possível: o governo americano. Sim, eles admitem este completo fracasso, sem nenhum remorso!

Como qualquer pessoa acostumada a ler jornais brasileiros, no entanto, é recomendável que você se arrisque um pouco além do título. Para quem topar o desafio de ler algumas linhas, verá que o “truque” da manchete está na própria definição de pobreza.

Para o Banco Mundial, pessoas pobres possuem renda de US$ 1,25, ou US$ 390 por ano. Segundo esta definição, por exemplo, adotada pelo banco em 2008, a extrema pobreza irá acabar no mundo em 2035.

Como é possível que a pobreza acabe no mundo se ela está tão longe de terminar mesmo no país mais poderoso do planeta? Simples. Para o governo americano, pobres são aqueles que ganham US$ 10.400 anuais. Em suma: pela linha de pobreza americana, 84% da população brasileira se enquadraria como extremamente pobre.

Dos norte americanos oficialmente considerados “pobres”, 99% têm eletricidade, água corrente, descarga e uma geladeira; 95% têm uma televisão; 92% têm forno-microondas, 88% têm um telefone; 71% têm ao menos um carro, 70% têm ar condicionado, mais de 60% têm TV a cabo e 42% moram em residências próprias.

5. Os americanos apoiam guerras.

C-17_Medevac_mission,_Balad_AB,_Iraq

Pegue uma calculadora ou ponha na ponta do lápis, some o gasto dos 10 países do mundo que mais gastam com defesa, e você verá uma estatística quase “surreal”. Sozinhos, americanos gastam mais da metade do orçamento militar das 10 nações mais ricas do planeta.

Há em média, 1 militar para cada 100 habitantes, contra 1 para 400 no Brasil, ou 1 para 350 no Reino Unido. Aproximadamente 3% do PIB do país é gasto para manter quase 3 milhões de soldados, que se estendem por mais de 700 bases ao redor do mundo. Há mais soldados americanos no Japão e Coréia do Sul do que soldados brasileiros no Sul ou no Nordeste por exemplo.

Filmes sobre guerras rendem a Hollywood centenas de milhões anualmente, e contratos militares movimentam um complexo que gira centenas de bilhões de dólares anuais. São US$ 19 bilhões apenas em exportações de armas de guerra.

Entre 1786 e 2015, foram 222 anos de guerra, contra 19 anos de paz na história americana.

Todo esse clima de hostilidades externas pode significar um amplo apoio popular à primeira vista. Como manda a constituição americana, o governo apenas pode entrar em guerra com o consentimento do congresso.

Ao contrário do senso comum, porém, a população americana via de regra se opõe à guerra. Não é por acaso que as invasões do Iraque ou Afeganistão foram precedidas de uma extensa propaganda de guerra. Um clima de ameaça constante que influencia a população.

Segundo mostrou a rede CNN, apenas 17% dos americanos apoiavam a guerra do Afeganistão em 2013, contra 82% que eram contra. Em outra pesquisa recente, cerca de 53% dos americanos se disseram contrários à ideia de enviar tropas para combater o ISIS. Outros 51% se opõem, por exemplo, a que os Estados Unidos atuem militarmente na Síria.

6. Não existem direitos trabalhistas nos Estados Unidos.

92d50c_c84c06da0ce74dd4a7b48c22e4c935af

Poucas coisas parecem tão sagradas no Brasil quanto as leis trabalhistas. Ouse questionar a lei de salário mínimo ou questões como previdência pública, seguro desemprego, férias remuneradas e décimo-terceiro, e você irá encarar a fúria do eleitorado. Em inúmeros países, no entanto, estas questões não são tão intocáveis assim. Não é muito diferente nos Estados Unidos.

Apesar de ser o único país do ocidente a não possuir uma lei que obrigue a concessão de férias remuneradas, os americanos possuem um salário mínimo local de US$ 7,5 por hora, algo inexistente em países como Noruega, Suécia, Dinamarca ou Suíça, por exemplo.

Assim como nas questões dos planos de saúde, americanos podem contar com a participação das empresas para garantir suas aposentadorias. Fundos de pensão privados são extremamente comuns. Empresas como Boeing, IBM, Google, Apple e AT&T possuem bilhões nestes fundos.

No maior deles, o da Boeing, são US$ 106 bilhões, detidos por cerca de 250 mil membros. Em outras palavras: cada funcionário da Boeing possui US$ 400 mil para garantir sua aposentadoria. Você lembra quanto possui “depositado” no INSS? Pois é, R$ 0.

O modelo de fundos de pensão é amplamente utilizado ao redor do mundo, a ponto de muitos deles deterem fatias consideráveis em empresas de seus países. Através dos chamados 401(K), americanos detêm US$ 21.7 trilhões, ou 10 vezes o PIB brasileiro.

Isso, no entanto, não implica que não exista uma previdência pública no país. Ela existe e, como aqui, também não passa muito bem – o plano que sustenta os pagamentos de aposentadorias e pensões é considerado inviável do ponto de vista atuarial, obrigando o governo americano a cobrir os gastos.

Na lei americana que cobre as áreas trabalhistas, porém, as preocupações se dão muito mais em relação a proibir o trabalho infantil do que definir os contratos de trabalho em si. A “livre negociação” é o modelo mais amplamente adotado.

7. Americanos invadem outros países em busca de petróleo.

flag-drilling

Provavelmente o mais difundido dos mitos sobre os Estados Unidos é aquele que trata as invasões feitas pelo governo americano pela lógica usual de “conquista”. Ao longo da história, invasões tinham por princípio acumular riqueza. Ao contrário, as guerras atuais servem a outros propósitos, além de obedecerem aos lobbys de indústrias armamentistas no país.

Em uma economia diversificada como a americana, não faria muito sentido atribuir ao complexo militar grande relevância no PIB do país. Para muitas pessoas, no entanto, as guerras possuem o objetivo de “gerar riqueza”. Ao menos em parte, isso não está errado. A riqueza gerada não se destina à população de forma ampla e muitas vezes não se trata de “gerar riqueza”, mas sim de transferir renda. Bilhões saem de todos os americanos e se destinam aos bolsos de empreiteiras militares que fabricam aviões, navios, tanques e outros armamentos necessários para a manutenção das guerras.

Na questão do petróleo, é inegável que o governo americano tenha interesse em manter seu controle, mas isto não tem sido feito por invasões, e sim por apoio político, como no caso do apoio à monarquia absolutista que controla a Arábia Saudita.

Atualmente, o país produz quase duas vezes mais petróleo que consome. Apenas o Texas produz mais petróleo que o Brasil e a situação tende a crescer. Através de mais de 4 mil empresas que produzem petróleo no país, os Estados Unidos ampliaram em quase 55% sua produção nos últimos cinco anos, contra um aumento de 7% do Brasil, o detentor do “pré-sal”.

Hoje, americanos produzem 14.02 milhões de barris diários, contra 11.6 milhões da Arábia Saudita. Apesar do aumento recente, a participação dos Estados Unidos nas primeiras colocações é um dado que se repete há décadas.

Figurando em oitavo lugar no ranking de produtores e entre os três primeiros no quesito exportação, o Iraque se tornou alvo desta teoria da conspiração. Segundo ela, os Estados Unidos teriam invadido o país para garantir seu suprimento. A questão, porém, é que o Iraque produz apenas 5% da produção mundial de óleo negro. Diante de um custo superior a US$ 3 trilhões, é improvável que o país compense estes gastos. Na teoria mais aceita, os gastos decorrem muito mais do lobby e da necessidade de manter o aparato militar e o controle do governo mediante o “medo”, do que da necessidade de garantir a extração de riqueza em qualquer lugar do planeta.

crowbanner