7 semelhanças reveladoras entre Collor e Dilma

Atingindo uma marca histórica de rejeição, a presidência encontra-se ameaçada por denúncias envolvendo sua campanha. Ao mesmo tempo, como uma resposta ao Planalto, milhares de pessoas tomam as ruas pedindo impeachment, protestando contra os péssimos resultados da economia e as falhas do governo em controlar a inflação.

Poderia ser Collor. Poderia ser Dilma. Na verdade, entrará para a história como um retrato dos problemas em comum que afetaram ambos os governos – os mais impopulares da história do país. Eleitos democraticamente, em eleições bem apertadas – a diferença do candidato que levou o segundo turno para o derrotado foi de 3 pontos percentuais, em ambos os casos –, os governos Collor e Dilma compartilham muito mais semelhanças do que qualquer outro governo – na política, na economia e nos péssimos resultados de popularidade.

Aqui, separamos as 7 semelhanças mais gritantes entre Collor e Dilma, desde a campanha até a posse – e o possível desfecho em comum.

1) Recorde de rejeição.

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Por uma diferença de 3 pontos percentuais em relação ao segundo colocado, Dilma já é a presidente mais rejeitada pelos brasileiros desde que o Datafolha começou suas pesquisas de opinião pública, em 1990.

Segundo dados divulgados no início do mês, a primeira presidente eleita do país já é rejeitada por 71% da população, um recorde sem precedentes. Atrás dela, na segunda posição, está Collor, que atingiu outros impressionantes 68% de rejeição em setembro de 1992, três meses antes de deixar o Planalto.

Além da rejeição elevada, os dois governos também são recordistas no baixo nível de aprovação: Collor era avaliado como “ótimo” ou “bom” por apenas 9% dos entrevistados, enquanto o governo Dilma possui somente 8% de aprovação.

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2) Impeachment é golpe.

Apesar do amplo apoio dos formadores de opinião de seu tempo, o processo de impeachment também era tratado por Collor como uma tentativa de golpe.

Após ver uma massa de pessoas sair às ruas pedindo sua saída do cargo, o ex-presidente veio à público pedir que os apoiadores de seu governo fizessem o mesmo, vestindo verde e amarelo, como forma de fazer frente aos opositores e mostrar a força do governo – um movimento similar ao o que o PT fez há poucos dias.

(…) cujos recalques, cujos complexos, frustrações, ódio, inveja. Tudo isso está articulado naquilo que chamei de ‘sindicato do golpe’! Filiado à ‘central única dos conspiradores’. Nós temos que mostrar a esses que nós desejamos trabalhar pelo Brasil!”, dizia, aos berros, em rede nacional.

O protesto seria um fracasso e milhares de brasileiros sairiam às ruas com roupas e bandeiras pretas, como forma de resistência.

Além de também classificar seus opositores como “golpistas”, Collor gostava de destacar que havia sido eleito democraticamente e que os protestos não passavam de um apelo de uma “minoria barulhenta” contra a “maioria silenciosa”.

E quem, segundo ele, comandava essa “minoria”? A elite.

“Meu governo quebrou as amarras do Brasil com um Brasil quase colonialesco e que tinha vergonha de se mostrar para o mundo como o parceiro confiável que hoje o é. Foi um golpe parlamentar. Foi um golpe parlamentar casuístico urdido na classe empresarial”, afirmou numa entrevista recente.

3) Durante a eleição, Collor acusou seus adversários de tomarem medidas que ele próprio tomou. Como Dilma.

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Durante a campanha de 1989, Collor acusou Lula de querer confiscar a poupança caso vencesse as eleições, ao mesmo tempo que discutia com sua equipe como fazer esse mesmo confisco.

O PT estava fazendo isso (cálculos para controlar a inflação). Então, pensei: ‘Antes que me perguntem, vou afirmar que eles estão preparando isso’. Foi apenas uma estratégia da qual me vali para me proteger de uma pergunta desse tipo e, ao mesmo tempo, colocar o contendor numa saia justa. Nisso, não houve nenhuma mentira de minha parte, porque nós sabíamos (das discussões do PT)”, confessou em 2010 ao jornal O Globo.

Ao ser perguntado pelo jornal se o bloqueio da poupança já estava sendo pensado pela equipe econômica naquele momento, ainda durante a campanha, Collor foi direto:

Já. Eu pensei: ‘Antes que esse constrangimento caia sobre mim, eu gero o constrangimento para o outro lado’.”

Como mais tarde confirmaria Mercadante, o Plano Collor era o “plano dos sonhos” da campanha petista.

A jogada política de Collor – acusar o adversário de querer tomar as mesmas medidas impopulares – foi repetida na última eleição presidencial, mas desta vez pelo próprio PT, que tem implementado o mesmo programa econômico que tanto criticou durante a campanha.

4) Collor foi eleito batendo na imagem pessoal de Lula. Dilma foi eleita batendo na imagem pessoal de Aécio e Marina.

DEBATE DOS PRESIDENCIÁVEIS EM SP

E impressiona, também, o nível baixo dos ataques. Dos dois candidatos.

Collor se apoiou fortemente no terrorismo de que o candidato petista congelaria a poupança e, ao se aproximar do fim da campanha, utilizou um depoimento da ex-mulher de Lula para atacar a vida pessoal do candidato:

Num vídeo veiculado em rede nacional, a campanha do candidato do PRN trouxe a ex-mulher do candidato petista, Míriam Cordeiro, para difamá-lo. Acusou Lula de ser racista, de ter lhe forçado a abortar, de desviar fundos e fez apelos emocionais para que a população não votasse no sindicalista. O vídeo rendeu uma clara vantagem a Collor, que se elegeria com maioria em 23 estados.

Já Dilma, iniciou seus ataques quando Marina Silva tomou o segundo lugar nas pesquisas, a poucos pontos percentuais da petista. Na TV e no rádio, Dilma acusou Marina de ser a “candidata dos banqueiros” e nos debates disse que a candidata não tinha caráter por “mudar de lado” sobre temas LGBT. Os ataques foram repetidos incessantemente pelo PT, até a candidata perder seu apoio e cair para a terceira posição.

Com a queda de Marina nas pesquisas e a vitória de Aécio no primeiro turno, o alvo da campanha tornou-se o tucano, que foi atacado em 19 das 22 campanhas do PT veiculadas na TV durante o segundo turno.

O PT criticava Aécio principalmente pela economia: atacou seu candidato a Ministro da Fazenda por ser do mercado financeiro, disse que o candidato planejava trazer de volta a inflação e o dólar alto.

Numa das campanhas, tocou em temas sensíveis, como o desemprego, dizendo que este seria uma consequência do projeto da oposição. Deixando de lado o confronto de ideias, a campanha atacou também denúncias de nepotismo, de que o senador mineiro teria se recusado a fazer o teste do bafômetro numa blitz.

A baixaria foi tanta que o TSE teve de intervir: começou proibindo propagandas isoladas, dos dois presidenciáveis, com acusações pessoais. Não foi o suficiente: o tribunal precisou intervir mais uma vez, proibindo de uma vez por todas, qualquer tipo de ataque pessoal na campanha presidencial.

A realidade, porém, é que, desde que Dilma assumiu o segundo mandato, já recebeu elogios de banqueiros, cogitou para Ministério da Fazenda o presidente do Bradesco e acabou nomeando para o cargo outro ex-funcionário do banco; o desemprego está voltando para níveis de 5 anos atrás, a inflação já é a maior dos últimos 11 anos, o dólar já subiu para os maiores níveis desde 2003 e a taxa básica de juros – uma consequência da inflação – já sofreu 7 aumentos seguidos.

Tudo isso por quem afirmou categoricamente que “não era do tipo que muda de lado”.

5) O povo nas ruas.

Ambos os governos foram marcados por protestos e descontentamento, liderados principalmente por jovens. Até os meses são parecidos: as primeiras marchas contra Collor se iniciaram no dia 29 de maio, após o irmão do ex-presidente admitir irregularidades na campanha, enquanto os protestos de oposição ao segundo mandato de Dilma aconteceram também no primeiro semestre, com atos em março e em abril, por conta dos desdobramentos da Operação Lava Jato envolvendo políticos próximos ao governo.

A segunda parte dos protestos aconteceu em agosto: Collor seria questionado nas ruas por 10 mil pessoas em São Paulo no dia 11, que se juntariam a outras 40 mil no dia 16 e se tornariam 580 mil insatisfeitos no dia 25, pedindo o afastamento do presidente. Era o maior protesto contra um presidente democraticamente eleito já realizado no Brasil até então.

Já os protestos atuais, que começaram em março, se repetiram também em agosto, dessa vez no dia 16 e reuniram 879 mil pessoas pelo país – os organizadores falam em 2 milhões. Em março, o descontentamento bateu recorde: 1,8 milhão de manifestantes nas capitais, o maior protesto da história do país.

Além das passeatas, Collor, assim como Dilma, foi alvo de panelaços e buzinaços. O principal em setembro, no Rio de Janeiro, após o então presidente aparecer publicamente num hospital onde sua mãe estava internada.

6) Dilma e Collor possuem os piores resultados média do PIB para o mandato.

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A insatisfação com os dois governos não é por acaso: Dilma e Collor foram os piores presidentes para a economia do país. E, como o bolso é quem manda, basta a economia desaquecer para que as ruas sejam tomadas pelo descontentamento.

Durante seu breve mandato, de pouco mais de 2 anos, Collor conseguiu acumular uma retração do PIB de 1,29%. Tratava-se do pior resultado da economia brasileira desde Floriano Peixoto.

Dilma vem logo atrás: seu primeiro mandato foi marcado por um crescimento médio de 2,2% – o segundo pior do ranking. Nem Sarney ou os militares tiveram um resultado tão pífio.

E, para o segundo mandato, as previsões não são as melhores.

Para este ano, é esperado um resultado negativo de 2,4% para o PIB. E para o ano que vem, mais recessão: estimativas da Credit Suisse dizem que o PIB pode encolher mais 0,5% em 2016. Caso consiga essa proeza, Dilma baterá um recorde que nem mesmo Collor conseguiu: dois anos seguidos de recessão, algo que o Brasil não via desde a década de 1930.

Vale ainda lembrar que, caso o cenário macroeconômico continue se agravando, estas estimativas podem ainda piorar, como vem acontecendo desde o início do ano.

O Plano Dilma definitivamente não está funcionando.

7) Escândalos de corrupção.

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Os desdobramentos do caso PC Farias, no governo Collor, e as atuais investigações da Lava Jato também apresentam algumas semelhanças.

No caso de Collor, o envolvimento de seu tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, em esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção, foram cruciais para que o presidente também entrasse nas investigações e acabasse condenado.

PC teria orquestrado um enorme esquema de poder e desvio de dinheiro dentro de estatais, do congresso e do próprio Planalto. Tudo sob a supervisão de Collor, que acabaria tragicamente desmascarado pelo próprio irmão.

A Lava Jato promete seguir rumos parecidos com o Planalto.

As últimas notícias da operação colocaram o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, no centro das denúncias e atingiram também o tesoureiro de campanha de Dilma, Edinho da Silva, atual Ministro da Comunicação, por envolvimento em esquemas com gráficas de fachada.

Segundo investigações revelaram, Vaccari operou principalmente um esquema na Gráfica Atitude, conhecida por editar o blog governista Rede Brasil Atual, utilizando-se da empresa para receber doações em nome do PT. A Gráfica é parceira da CUT e dos Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, organizações sindicais historicamente aliadas ao Partido dos Trabalhadores.

Já Edinho, foi delatado por Ricardo Pessoa, da UTC, por ter repassado R$ 23 milhões de reais para uma outra gráfica, a VTPB. Só que a VTPB não era exatamente uma gráfica: era uma empresa fantasma, que operava em um endereço falso, registrada por laranjas.

Sob o comando de Edinho, a campanha petista contratou a gráfica para imprimir panfletos para a propaganda de Dilma. Os panfletos, no entanto, nunca foram impressos: a gráfica emitia notas frias. Com todo esse dinheiro, a gráfica poderia ter impresso 368 milhões de “santinhos” – o suficiente para distribuir 2 santinhos e meio para cada eleitor brasileiro.

As contas da gráfica estão sendo investigadas e Edinho agora corre o risco de cair também na operação, sob suspeita de ter desviado os fundos.

Caso as suspeitas se concretizem, a presidente Dilma corre o risco de ser afastada do governo e o senador Collor, agora envolvido na Lava Jato, de sofrer seu segundo afastamento de um cargo público.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.