7 vezes em que o politicamente correto passou de todos os limites nos últimos meses

Tome nota.

É ofensivo. Mulheres de biquíni em propagandas de cerveja, shows de stand up comedy, padres de batina, flertes inocentes, concursos de beleza, pratos de comida com pedaços de carne.

É ofensivo. Homens que pulam o carnaval vestidos de mulher, homens que comemoram o Halloween usando fantasias de índio, homens que não assistem futebol feminino, homens.

É ofensivo. Negros que namoram brancos, brancos que usam turbante, festivais de cinema que não premiam minorias étnicas, pobres que não votam em candidatos de esquerda, mulheres anti-feministas.

É ofensivo. Ciclofaixas inacabadas em bairros de classe média alta, livros de biologia, propagandas de brinquedo, bonecas da Barbie, discursos universais sem gênero neutro.

Tudo é absolutamente ofensivo.

No mundo real, lá fora, nunca a humanidade foi tão segura e tão próspera. Nunca as minorias tiveram tantos direitos respeitados constitucionalmente – legalização dos casamento homoafetivo e de casais de etnias diferentes, combate à violência doméstica, à violência sexual, à homofobia. Ainda assim, juramos viver numa bolha de opressão gerada por microagressores que não respeitam nossos lugares de fala.

Há pouco tempo, publiquei por aqui uma lista de vezes em que o politicamente correto passou de todos os limites em 2016. Mas o ano, como vocês bem sabem, ainda não terminou.

Aqui, outras 7 vezes em o mundo foi obrigado a lidar com a geração mais estupidamente narcisista e mimada que se tem notícia.

1. Esses estudantes que acreditam que a ciência é racista e deveria ser abolida.

Estudantes da Universidade de Cape Town, na África do Sul, estão indignados com o modo como as pessoas encaram a ciência moderna – uma evidente máquina de segregação racial e colonialismo, segundo eles. Para o grupo, a ciência é um “produto da modernidade ocidental” e deve ser completamente abolida, “especialmente na África”.

“Eu tenho uma pergunta para todas as pessoas da ciência. Há um lugar em KZN (KwaZulu-Natal) chamado Umhlabuyalingana. Eles acreditam que através da magia  – que vocês chamam de magia negra e eles chamam de feitiçaria  – você é capaz de enviar relâmpagos para atacar alguém. Vocês podem explicar isso cientificamente? Porque isso é algo que acontece.”

De acordo com a estudante, a bruxaria seria como a teoria de Isaac Newton sobre a gravidade: apenas uma maneira de explicar o mundo, assim como tantas outras, embora completamente ignorada pela comunidade científica internacional. A razão por que ela não é levada a sério? A visão eurocêntrica e racista da ciência, que ignora as contribuições africanas para o debate.

“Descolonizar a ciência significaria acabar com ela completamente e começar tudo de novo para lidar com o modo como reagimos ao ambiente e como nós a entendemos.”

Para os estudantes de Cape Tow é preciso um novo rumo ao debate científico internacional, que respeite o misticismo africano. Para fortalecer sua campanha, eles estão usando a internet para expor as suas visões através da hashtag #ScienceMustFall (#ACiênciaPrecisaCair).

2. A modelo plus-size que emagreceu 108 quilos e agora recebe ameaças de morte de “ativistas da gordura”.

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Rosie Mercado é uma norte americana de Nevada que decidiu modificar drasticamente seus hábitos de saúde após receber um inconveniente comunicado de sua companhia aérea, antes de embarcar num voo que realizaria entre Los Angeles e Nova York ainda em 2011.

“Senhora, a senhora não vai conseguir sentar numa poltrona. A senhora precisa comprar outro assento.” 

Eram as palavras mágicas que a então modelo plus-size precisava ouvir antes de decidir entrar num curso com o coach Tony Robbins e enfrentar pela primeira vez o excesso de peso.

Nos últimos anos, Rosie conta ter trocado o vício pelo fast-food por proteínas magras, frutas e verduras, e a vida sedentária pelos exercícios regulares. Hoje, a modelo frequenta a academia seis vezes por semana em sessões de uma hora. Já emagreceu 108 quilos desde então.

Ok. Mas o que há de errado com isso tudo? Essa é mais uma história de superação, de alguém que enfrenta suas maiores dificuldades para alcançar um nobre objetivo, certo? 

Quase isso. De acordo com uma reportagem do “TMZ”, Rosie tem recebido constantes ameaças de morte e sugestões para se suicidar por parte de “ativistas da gordura” que não se conformam com sua perda de peso e especialmente a exposição pública dos “antes” e do “depois”.

“Tenho recebido e-mails com ódio. Não muitos de outras modelos, mas de fãs. Eles me dizem para pular de uma ponte por ter perdido peso”, ela diz. “Os ativistas da gordura odeiam o fato de a minha perda de peso se tornar pública.”

Rosie conta que não poderia estar mais feliz com a decisão que tomou. Não imaginaria, no entanto, ter que encarar um outro peso pela frente: o dos militantes virtuais que querem condenar seus novos hábitos saudáveis jurando que tudo, no fundo, não passa de mera gordofobia.

3. Este professor universitário que está sendo perseguido por seus alunos por não usar pronomes de gênero neutro.

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Não são raros os idiomas, como o nosso, que apresentam binariedade no gênero de seus pronomes – masculinos e femininos, como você deve ter aprendido na escola. Por essa razão, algumas pessoas, especialmente militantes da causa feminista – que acusam a língua portuguesa de ter uma predominância do gênero masculino no discurso – promovem a utilização do gênero neutro em suas falas.

Quer um exemplo? “Os alunos”.

Você deve estar pensando:

– É fácil resolver essa, basta escrever “os(as) alunos(as)”, certo?

Não para os militantes, que acusam essa tentativa de solução de criar uma divisão binária dos gêneros, limitando as pessoas a se definirem obrigatoriamente como masculinas ou femininas. O que isso causa, segundo eles? Desconforto à comunidade trans, que diz ter o reconhecimento de sua identidade de gênero negado.

A solução encontrada na língua portuguesa (e também na espanhola): substituir as vogais pela letra x ou o arroba (@). Assim, “os alunos” viram “xs alunxs” ou “@s [email protected]nos textões engajados.

Um professor universitário canadense, no entanto, está causando confusão justamente por decidir não aderir à nova ortografia militante. Jordan Peterson, professor de psicologia da Universidade de Toronto, disse em vídeo que se recusava a usar os pronomes “ze” e “zir” no lugar de “she” e “he” no idioma inglês.

“Se a pessoa trans quer ser chamada de “ele” ou “ela”, meu bom senso é o de abordá-la de acordo com o gênero que a pessoa se apresenta”, ele conta. “Eu estudei o autoritarismo por um bom tempo – por 40 anos – e ele começa nessa tentativa de as pessoas controlarem a ideologia e a língua dos outros. De maneira alguma vou usar palavras inventadas por pessoas que estão tentando fazer o mesmo. Sem chance.”

Pouco tempo depois da publicação online do vídeo, o caso chegou ao Departamento de Psicologia da Universidade de Toronto, que emitiu uma advertência ao professor. Mesmo docentes de outros cursos já disseram, através de uma carta, que a atitude de Peterson é “inaceitável, emocionalmente perturbadora e dolorosa”. E o caso não parou por aí: até o seu escritório de psicologia vem sofrendo atos de vandalismo por conta de sua posição.

Peterson vem resistindo como pode, como se fosse um personagem saído de um livro distópico escrito por George Orwell. Sua história, porém, é perturbadoramente real.

4. A diretora de cinema feminista perseguida pelo movimento feminista.

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Cassie Jaye é uma diretora de cinema feminista norte americana que decidiu retratar nas telonas um movimento curioso, até então pouco documentado: o Men’s Rights Movement.

Cassie já possuía um currículo militante antes de lançar a obra – The Red Pill – e chegou a vencer dois prêmios em festivais internacionais de cinema, com um documentário falando sobre a dificuldade das mães solteiras e outro sobre o casamento gay.

A ideia original com The Red Pill era tentar entender como funciona um movimento de direito dos homens e por que raios ele justifica sua existência. Cassie, no entanto, decidiu fazer isso de um modo que irritaria profundamente o movimento feminista: com uma abordagem imparcial.

Foi à gota d’água. Para o movimento feminista, ao dar uma voz ao Men’s Rights Movement e retratá-lo da forma menos enviesada possível, ouvindo os dois lados da história, Cassey acabou se transformando numa propagandista da “cultura machista”.

“Eu comecei a convidar feministas para serem entrevistadas para o filme. Tivemos uma autora popular feminista que estava programada para estar no filme. Depois de nos dirigirmos até Los Angeles, ela cancelou na noite anterior alegando que se sentia ‘insegura'”, ela conta.

Perseguida, viu o Kino Cinema, de Melbourne, ser forçado a cancelar a estreia do filme graças à pressão sofrida pelo movimento feminista pela internet.

Para Cassey, só há uma opção possível para levar sua obra adiante sem qualquer problema: construindo um documentário enviesado.

5. Esta pesquisa entregue a estudantes de literatura para mapear o quão privilegiados eles são.

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Você é um privilegiado por sua cor de pele? Tem certeza disso?

Essa é a grande dúvida de um professor de literatura da Aloha High School, uma escola de segundo grau do estado americano de Oregon.

A pesquisa pediu para os alunos considerarem uma série de declarações sobre raça e classificar seus comentários em uma escala de 0 (raramente ou não verdadeiro) a 5 (frequentemente verdadeiro) de acordo com as suas experiências pessoais.

No teste, os alunos foram expostos a questões do tipo:

  • Eu posso ligar a televisão ou abrir a primeira página do jornal e ver pessoas da minha raça amplamente e positivamente representadas.
  • Eu posso ir à maioria dos supermercados e encontrar alimentos de primeira necessidade que se ajustam às minhas tradições raciais/étnicas; eu posso ir a qualquer salão de cabeleireiro e encontrar alguém que possa cortar o meu cabelo.
  • Eu nunca sou solicitado para falar em nome de todas as pessoas do meu grupo racial.

O porta voz da escola, Maureen Wheeler, disse à KGW que a pesquisa abrange questões que afetam os EUA de hoje. Seu objetivo, segundo ele, é fazer com que o aluno possa “ganhar a empatia, a compreensão e construir pontes”.

O teste, no entanto, irritou evidentemente muitos pais de alunos. Jason Schmidt, cujo filho mais velho está matriculado na Aloha High School, não vê o levantamento com os mesmos olhos da escola.

“A forma como essa pesquisa é lida, é quase como se ela quisesse dizer: tenha vergonha por ser branco”, disse.

Schmidt diz ainda que gostaria de ver seu filho recebendo educação real e não ser parte de algum experimento social ou da agenda política do seu professor. 

6. Estes guerreiros da justiça social…

Imagine que exista um lugar numa universidade onde você possa correr desesperadamente para relaxar, deitar em travesseiros, ouvir música e expressar os seus sentimentos toda vez que se sentir ofendido com a opinião de alguém. Imagine que esse seja um lugar construído para você recarregar as energias de todos os comentários não alinhados à mesma visão de mundo que a sua.

Acha um absurdo? Esse canto já existe e é popularmente conhecido nos Estados Unidos como safe-space (espaço seguro). Nele, guerreiros da justiça social de todos os tipos se reúnem para protegerem uns aos outros da opinião não-alinhada de estudantes e professores, como se vivessem literalmente numa bolha.

Foi para debater esses espaços que um grupo conservador da Universidade de Kansas se reuniu há poucas semanas – segundo eles, para questionar espaços que mimam estudantes progressistas a não conviverem com ideias contrárias.

A reunião, no entanto, foi invadida por guerreiros da justiça social (aparentemente, não há espaços seguros para quem pensa diferente deles). Num vídeo divulgado logo após o incidente, uma manifestante bate continuamente sobre a mesa, acusando seus colegas de propagação de “ódio” por defenderem a liberdade de expressão.

Quando um dos alunos conservadoras sugere que safe-spaces servem como um retiro intelectual das ideias com que se discorda, outro justiceiro imediatamente tomou o problema para si.

“Eu não estou recuando! Eu estou me fazendo seguro e confortável “, disse, batendo os punhos na mesa. “Se eu quero este espaço, eu posso ter este espaço! É o meu direito ter este espaço!”

O grupo conservador também foi condenado por não chamar um estudante trans pelo pronome adequado.

“Meus pronomes são ‘they’!” (em inglês, ‘they/them/their’ são pronomes de gênero neutro; a tradução para português seria eles/elas/deles/delas). “Então, de agora em diante, quando vocês se referirem a ‘them’, usem ‘they’ e ‘their’, porque nós demonstramos respeito, nos referindo a vocês pelos seus nomes. Então de agora em diante vocês vão se referir a eles como ‘them’, porque isso é a coisa apropriada a fazer quando você já passou dos doze anos.”

Quando um estudante conservador se referiu aos seus antagonistas como “guys”, os justiceiros foram à loucura:

“Não nos chamem de caras, disse um deles. “Isso é uma microagressão!”

7. Este norueguês que se sentiu culpado pelo fato do seu estuprador (um refugiado somali) ter sido deportado.

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O norueguês Karsten Nordal Hauken, que se classifica como um feminista anti-racista, foi violentado sexualmente há cinco anos por um refugiado somali. Kasten diz que se tornou depressivo e viciado em drogas após o incidente.

Apesar disso, num artigo publicano no último mês de abril no site da emissora de TV estatal norueguesa NRK, ele alega ter se sentido mal quando soube que seu agressor seria deportado para a Somália, mesmo depois de ter cumprido uma pena de quatro anos de prisão.

“Primeiramente, senti um misto de alívio e felicidade ao saber que ele estava indo embora para sempre. O governo norueguês estava agindo de maneira vingativa, como um pai que confronta o estuprador de seu filho”, conta. “Me senti muito culpado e responsável pelo que estava acontecendo. Era a razão pela qual ele não permaneceria na Noruega, mas enfrentaria um futuro incerto na Somália”.

Para Karsten, a decisão não lhe parece a mais correta.

“Ele já tinha cumprido a pena na prisão. Por que ele deveria ser punido de novo? E desta vez de forma mais dura?”, questionou.

E se engana quem pensa que Karsten pesa apenas pelo refugiado somali em suas ponderações. Para ele, pesa também aquilo que as feministas pensarão de todo caso – especialmente pelo norueguês ousar se sentir mal por ter sido estuprado.

“Tenho medo de que nenhuma mulher vá me querer e que outros homens vão rir de mim. Medo de que eu serei taxado de anti-feminista quando digo que homens jovens que estão passando por um momento difícil precisam de mais atenção.”

Eis aquilo que pode ser entendido como uma perfeita ditadura do politicamente correto.

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