8 delações essenciais para entender a Lava Jato

Desde que iniciou, em março de 2014, a Operação Lava Jato já recuperou R$ 870 milhões desviados dos cofres públicos e bloqueou R$ 2,4 bilhões em bens. No total, as denúncias totalizam um montante de R$ 6,2 bilhões em pagamento de propina – valor que se espera ser recuperado até o final da operação. As condenações somam incríveis 225 anos, 3 meses e 25 dias de prisão. E ainda há espaço para mais condenações.

Junto com a polícia, alguns presos estão colaborando também sob o processo de Delação Premiada: prometem revelar o que sabem, em troca de redução na pena. E essas delações são um enorme barril de pólvora.

Os principais delatores, Paulo Roberto Costa (ex-diretor de abastecimento da Petrobras), Alberto Youssef (doleiro e operador do esquema) e Ricardo Pessoa (dono da empreiteira UTC) já revelaram muito do que viram – e ouviram – enquanto envolvidos no escândalo e trazem denúncias quentes sobre a nossa política.

Do futuro da Petrobras ao assassinado do ex-prefeito de Santo André, conheça as delações essenciais para entender o que de fato é a Lava Jato e no que se transformou a principal estatal do país nos últimos anos.

1) “Em 2020, a situação da Petrobras estará caótica.”

Quem afirma é o ex-diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, em uma delação premiada divulgada na semana passada.

No vídeo, gravado entre agosto e setembro de 2014, Costa é categórico:

“Este governo está matando a Petrobras. [Está] matando.”

Ele justifica sua posição dizendo que o consumo de combustíveis está crescendo, mas que num ritmo que a produção já não acompanha.

“A Petrobras está cada vez mais aumentando as importações de derivado, quer seja de diesel ou de gasolina. A gasolina ela está importando porque o governo está matando o setor de etanol. Tecnicamente falando, é uma empresa quebrada.”

2) O TCU da UTC

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Outro delator, Ricardo Pessoa, da construtora UTC, revelou fatos gravíssimos sobre o Tribunal de Contas da União, que atualmente está em processo de julgamento sobre as contas do último ano do primeiro governo Dilma.

De acordo com Pessoa, os ministros do TCU aceitaram uma propina de R$ 1 milhão da UTC para liberar a licitação de Angra 3. Após o julgamento do Tribunal, a Eletrobras contratou um consórcio com participação da UTC para cuidar das obras da usina.

No total, a obra deveria custar R$ 3,2 bilhões, mas com o andamento das investigações e a condenação de executivos das principais empreiteiras do consórcio, o projeto foi embargado. Além da UTC, Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez, todas investigadas na Operação Lava Jato, integravam o consórcio.

A denúncia chega num momento em que o TCU está em fase de julgamento das contas do governo Dilma e das pedaladas fiscais. Desde julho, o Tribunal vem adiando o prazo para o governo para o governo explicar as irregularidades nas suas contas.

O último prazo havia expirado quinta-feira, mas o Tribunal aceitou o pedido do governo para estender o prazo por mais 15 dias, até o fatídico dia 11 de setembro.

Segundo uma reportagem do Jornal O Globo, o TCU vem sendo conveniente e está favorecendo o governo em uma manobra para tentar rever uma condenação emitida pelo Tribunal em abril sobre as pedaladas do governo. Caso a condenação seja anulada, o processo de julgamento das contas também seria afetado, favorecendo a aceitação das contas no Tribunal.

3) A “peça central”: o maior amigo de Lula

Em delação, Paulo Roberto Costa disse que recebeu US$ 1,5 milhão em propinas para que “não colocasse obstáculos” na compra da refinaria de Pasadena. Ele cita Fernando Baiano e José Carlos Bumlai como as figuras por trás do pagamento.

Bumlai é pecuarista e figura muito próxima de Lula. Durante seu mandato, possuía livre acesso ao Planalto. Era uma das poucas pessoas que literalmente podiam falar com Lula sem bater na porta.

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Bumlai também foi citado durante depoimentos de Marcos Valério, durante o Mensalão, por “comprar” o silêncio de Ronan Maria Pinto, um empresário que ameaçou colocar lideranças do PT, incluindo Lula, no caso do prefeito Celso Daniel. Segundo Valério, Bumlai ainda contraiu um empréstimo de R$ 12 milhões do Banco Schahin para subornar Ronan.

Após aprovar o empréstimo ao pecuarista, a Schahin foi recompensada com contratos bilionários com a Petrobras.

Por conta de suas relações muito próximas a Lula, seus subornos e empréstimos suspeitos, Bumlai já está sendo referido como “a peça-chave” da Operação Lava Jato. Paulo Roberto Costa sabe por quê.

4) O teto remuneratório de 3% e o silêncio conveniente

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O mundo do crime também tem suas regras. Nos casos de desvios da Petrobras, existia até mesmo um “teto” dos desvios, para não chamar a atenção: 3%.

Mas a entrada de um outro elemento “furou” esse teto: Renan Calheiros.

Em delação premiada, Paulo Roberto Costa afirmou que Calheiros mandou um representante, o deputado Aníbal Gomes, para negociar propina. Com a entrada de Calheiros no esquema, o “teto” de 3% nos desvios teve que aumentar, para comportar também as parcelas do atual presidente do Senado.

Assim como Eduardo Cunha, Renan Calheiros está sendo investigado na Operação Lava Jato e já foi citado diversas vezes por delatores, mas seu nome, diferente do de Cunha, sofre um apagão nas manchetes e nos pedidos de impugnação de mandato.

5) O envolvimento da campanha de Dilma

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A campanha de Dilma é um ponto sensível das delações. Segundo os delatores Paulo Roberto Costa, Pedro José Barusco Filho (ex-gerente de engenharia da Petrobras) e Ricardo Pessoa, a campanha recebeu repasses como uma troca de favores, por intermédio de Antônio Palocci, ex-ministro de Lula, em 2010 e de Edinho Silva, atual ministro da Comunicação, ano passado.

Pessoa afirmou em sua delação que apenas do dinheiro do Petrolão, foram R$ 7,5 milhões para a campanha de Dilma em 2014. Pessoa ainda relatou que Edinho fez intimações ao solicitar os pagamentos, ameçando barrar os contratos da Petrobras com a UTC:

“Você tem obras na Petrobras. O senhor quer continuar tendo?”.

Barusco, relatou um esquema diferente, que teria ocorrido em 2011: a propina foi paga em forma de 0,5% do valor de um contrato fechado pela Petrobras. O dinheiro teria sido repassado como doação ao partido pelas empresas contratadas.

Em fevereiro, um levantamento realizado pela Folha de São Paulo demonstrou que os valores repassados ao diretório nacional do PT batiam com a proporção de 0,5% dos contratos fechados com diversas empresas citadas pelo delator, um total de quase R$ 2 milhões. Além das doações posteriores à contratação, o jornal ainda destacou que outros R$ 7,44 milhões foram doados por uma das empresas vencedoras da licitação citadas por Barusco, entre 2008 e 2010, ou seja, antes do contrato ser firmado.

Já Costa afirma que recebeu um pedido de Youssef para liberar R$ 2 milhões do caixa do PP para abastecer a campanha petista em 2010, por intermédio de Antônio Palocci. Mas, em uma delação posterior, Youssef negou a participação no esquema, aumentando as dúvidas sobre o caso.

Além de Dilma, diversos candidatos do PMDB, PT e PP também foram citados pelos delatores por recebimento de caixa de campanha ilegal. Entre os nomes citados, estão o ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, a petista Gleisi Hoffman, Roseana Sarney e Eduardo Campos.

6) “Eu tenho medo, nós estamos falando com gente muito graúda… Celso Daniel…”

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Paulo Roberto Costa, que mantinha a citação “acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”, de autoria de Millôr Fernandes, ao lado da folha de pagamentos, revelou também seus medos na delação.

“Eu tenho um receio… a integridade física minha”, disse.

Ao ser questionado pelos investigadores de que não existe nenhum histórico de agressão física por parte dos denunciados, Costa cita o ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002.

“O que eu escutei de muita gente… é que foi o PT que encomendou, né?”, continua.

Não é a primeira vez que um delator cita o caso Celso Daniel. Em outubro do ano passado, o doleiro Alberto Youssef afirmou durante sua delação premiada que suspeitava que Marcos Valério e Enivaldo Quadrado estavam chantageando um empresário ligado ao PT para que ele “ficasse quieto” sobre o caso do prefeito assassinado.

O corpo de Celso Daniel foi encontrado com onze tiros em 2002 na cidade de Juquitiba. Durante as investigações, oito testemunhas também morreram em circunstâncias pouco esclarecidas.

7) O tucano do Petrolão

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As delações não se restringem à base aliada do PT.

Em delação premiada, realizada em novembro do ano passado, Alberto Youssef citou o envolvimento de Sérgio Guerra, ex-presidente do PSDB, falecido em março de 2014, num esquema de propina. Segundo Youssef, Sérgio Guerra recebeu R$ 10 milhões em propina para barrar o avanço da CPI da Petrobras, ainda em 2009. A construtora Queiroz Galvão ainda teria realizado outro repasse, de R$ 1,6 milhão, para encerrar a CPI.

Paulo Roberto Costa confirmou a denúncia de Youssef em outra delação, no início deste ano. Ele não só confirmou os valores, como deu também detalhes do esquema: a proposta de parar a CPI partiu de Guerra, que afirmou “ter a possibilidade de não efetivar a CPI da Petrobras”, caso Costa estivesse disposto a dar uma “recompensa” em troca. Os 10 milhões de reais, segundo ele, também partiram de Guerra, que solicitou o valor por telefone.

A CPI da Petrobras foi instaurada em 2009, sob comando da base governista, para investigar irregularidades na diretoria da estatal que já tomavam conta dos jornais na época, mas durou tempo insuficiente para apurar todas as denúncias: foi de julho a dezembro. O relator do caso foi o senador Romero Jucá, atualmente investigado na Lava Jato.

Ainda, segundo um levantamento da Folha de São Paulo, a Queiroz Galvão fez doações que totalizam R$ 11,6 milhões para o PSDB durante a campanha eleitoral de 2010.

Além de Guerra, Aécio Neves também foi citado por Youssef, que afirmou ter ouvido relatos de que o tucano recebia recursos de um esquema na Furnas Centrais Elétricas através de sua irmã, mas não forneceu maiores detalhes.

8) “O Planalto sabia de tudo”

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A frase acima é de Alberto Youssef, que delatou que Lula, Dilma Rousseff e José Dirceu, entre outros políticos, sabiam dos esquemas de desvio na Petrobras.

Segundo afirmou em delação, tanto o comando da Petrobras quanto a presidência, a Casa Civil e o Ministério de Minas e Energia tinham conhecimento do que acontecia por debaixo dos panos da estatal.

Se sabiam ou não, no entanto, só o tempo irá dizer. E a Justiça.