8 fatos que mostram como a saúde no Brasil está pior do que você imagina

falamos por aqui como a educação brasileira vai mal. Mas, como você deve imaginar, ela está longe de ser exclusividade na hora de apontar nossos problemas: os serviços públicos do país são em geral caros, ineficientes e de péssima qualidade. E aqui um deles merece destaque – a saúde.

Filas intermináveis, hospitais caindo aos pedaços, medicamentos em falta e equipamentos quebrados. Você já está careca de saber dessa realidade – se não vive na pele, já ouviu falar. O que você provavelmente ainda não tinha visto é a dimensão desse descaso.

Nossa saúde vai mal em rankings internacionais e mesmo nos índices nacionais formulados pelo Ministério da Saúde, o próprio sistema administrado pelo governo se saiu muito mal. E isso ainda não diz tudo: apesar do pífio desempenho, nossa saúde é mais cara que a de países ricos. Mas fique tranquilo, o governo tem se empenhado em deixar o sistema cada vez mais caro e sucateado. Entenda como.

1) Nosso sistema de saúde é pior que o de 6 de alguns dos países mais pobres africanos…

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O que Cabo Verde, Senegal e Argélia têm em comum? São países africanos, mais pobres que o Brasil e com um péssimo sistema de saúde – e que ainda assim ganham do nosso SUS. São, no total, 6 países africanos que se encaixam nessa categoria.

Em 2000, a Organização Mundial da Saúde fez o mais completo estudo sobre os sistemas de saúde ao redor do mundo e estabeleceu um ranking entre eles. Dos 191 participantes, o Brasil ficou na 125º posição, atrás de diversos países pobres da África e da Ásia.

De lá pra cá, pouca coisa mudou. Um estudo realizado ano passado pela Bloomberg com 51 países colocou o Brasil na penúltima posição, novamente atrás da Argélia – os outros países citados não participaram da pesquisa.

No ranking, liderado por Singapura e Hong Kong (os dois países com a economia mais livre do mundo), ganhamos somente da Rússia, última colocada. Na América do Sul, quem melhor pontuou foi o Chile (o país com a economia mais livre do continente), que despontou na 17ª posição no ranking geral, à frente da Suécia, Finlândia e do Canadá.

2) …Mas gastamos com saúde como europeus.

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Apesar do péssimo desempenho do nosso sistema de saúde, estamos na 51ª posição entre 188 países quando o assunto é o gasto per capita com saúde, ao lado da Croácia, da Estônia e da Polônia, todos países europeus com IDH muito alto – e uma saúde muito melhor que a nossa. 

Em termos de gasto em proporção do PIB, o Brasil também não faz feio e desponta na 26ª posição, coladinho com Portugal, Grécia, Suécia e Nova Zelândia.

Assim como a educação pública, a saúde pública no Brasil custa muito caro e não entrega um serviço proporcional ao investimento. Em bom português: pagamos por um serviço europeu e recebemos um subsaariano. 

3) Apenas um estado e o Distrito Federal cumprem a meta de médicos per capita estabelecida pelo governo.

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Enquanto o país passa por dificuldades na área da saúde, o Distrito Federal aparece como a primeira unidade federativa em número de médicos per capita no Brasil: são 3,46 para cada mil habitantes, média comparável à da França (3,45). Junto com o Rio de Janeiro (3,44), a capital federal é a única unidade federativa que cumpre a meta de 2,5 médicos para cada mil habitantes, proposta pelo Ministério da Saúde.

Ao mesmo tempo em que os políticos de Brasília possuem essa alta disponibilidade de médicos para atendê-los em caso de emergências, no resto do Brasil a média é de apenas 1,83 médicos por mil habitantes. Dos 26 estados, porém, 22 nem encostam nessa média

Os piores números estão nas regiões Norte e Nordeste, puxadas pelo Maranhão (0,58), Amapá (0,76), Pará (0,77) e Acre (0,94). As médias desses estados são tão baixas que se comparam e em alguns casos perdem para países como Paquistão (0,81), Síria (1,5) e Tunísia (1,19).

4) Nossas faculdades de medicina estão sucateadas.

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Por um triz, a grande maioria das faculdades brasileiras de medicina não caíram no conceito do Ministério da Educação. De acordo com os critérios estabelecidos, as instituições que recebem conceito menor que 3 no Enade têm seu desempenho considerado insatisfatório – e estão sujeitas a receber visitas de funcionários do Inep. A nota máxima que uma instituição pode receber é 5.

A imensa maioria dos cursos de medicina está no conceito 3, com notas entre 2,95 e 1,95 no CPC. No último exame, nenhum curso atingiu a nota máxima e apenas 34 obtiveram o conceito 4. A nota do CPC, no entanto, não é uma medida exata: ela pode ser manipulada pela instituição e passa por revisões por critérios não muito claros do MEC.

Mas a nota não é o único indício de que boa parte dos cursos não está preparando bons profissionais. No último exame do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (CREMESP), incríveis 55% dos médicos recém-formados foram reprovados; em 2005, a taxa de reprovação era de somente 32%.

O exame avalia a capacidade dos formados em medicina em diagnosticar doenças e de atender pacientes em condições graves, mas mesmo os médicos reprovados no teste podem obter o registro do Conselho para atuarem no estado.

5) 20% das mortes por infarto no país poderiam ter sido evitadas.

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Por falta de atendimento, grande parte dos brasileiros que sofrem infarto morrem. Na periferia de Belo Horizonte, por exemplo, 60% dos pacientes que sofrem ataque cardíaco não são atendidos no período de até duas horas após o aparecimento dos sintomas, justamente no prazo em que existe maiores possibilidades de sobrevivência.

Estima-se que hoje, metade dos infartados não chegue com vida ao hospital. O infarto já é a doença que mais mata no país, mas 20% dessas mortes poderiam não ter acontecido se os hospitais estivessem mais bem preparados.

Esta é a conclusão chocante de um estudo recente do Hospital do Coração. Segundo a pesquisa, hospitais que receberam um preparo melhor conseguiram reduzir em até 20% a taxa de mortalidade por infarto. Adaptações simples na estrutura e no treinamento dos profissionais fizeram uma uma vasta diferença nos resultados finais. É disso afinal que se trata o problema na saúde pública: vidas perdidas pela ineficiência.

6) O governo te atrapalha na hora de comprar remédios…

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Falamos aqui recentemente sobre como o brasileiro paga mais impostos em remédios do que em conteúdo erótico. Não bastasse, citamos também que remédios para consumo humano chegam a pagar mais tributos até mesmo que a medicina veterinária

Mas a cruzada do governo para te atrapalhar na hora de comprar seus medicamentos não acaba por aí. Recentemente, a presidente Dilma sancionou uma Medida Provisória permitindo um aumento no imposto sobre produtos importados. O reajuste, no entanto, elevou também as alíquotas para medicamentos importados, que possuíam isenções desde 2008. Como o país importa 86% da matéria-prima para a fabricação de medicamentos, a MP, que entra em vigor no próximo mês, deve, portanto, ter efeito sobre quase todos os medicamentos das prateleiras das farmácias.

7) … E também atrapalha os hospitais que precisam importar equipamentos de última geração.

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No Brasil, você provavelmente nunca fará um exame num equipamento de tomografia de última geração. Isso porque a Anvisa não aceita a importação de equipamentos que ela mesma não certificou. Não importa quantas certificações o aparelho possua no exterior: para entrar no Brasil, ele ainda precisará do aval da Anvisa.

Mas a agência, como qualquer outra do governo, é ineficiente no que se propõe a fazer. Em média, um equipamento médico precisa esperar até 7 anos para receber o “ok” do órgão. Até lá, corre o risco de já estar ultrapassado.

Até 2010, a burocracia para importação era menor. Mas a Anvisa resolveu ir na contramão do resto do mundo e estabeleceu critérios próprios, exigindo que cada equipamento passasse pelas mãos dos fiscais do órgão antes de entrar no país. Com a nova burocracia, sob a justificativa de “proteger a indústria nacional”, as esteiras de importação travaram e o Brasil deu um passo a mais rumo ao sucateamento dos escassos equipamentos de seus hospitais. Tudo pelo seu bem, claro.

8) O SUS foi reprovado no teste que ele mesmo preparou.

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Em 2012, o Ministério da Saúde lançou o Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde, o IDSUS, que atribuía uma nota de 0 a 10 para o desempenho do SUS nos municípios brasileiros.

O resultado, porém, ficou muito abaixo do ideal. Na média, o Brasil fez 5,4 pontos. Segundo técnicos da saúde, o governo tinha como meta preliminar atingir um resultado em torno dos 7,0 pontos, mas o Ministério acabou desistindo da meta – certamente pela impossibilidade de alcançá-la.

Das capitais, somente Vitória bateu a meta, com 7,08 pontos. Logo atrás aparece Curitiba, com 6,96. Segundo os dados, apenas 1,9% da população vive em alguma cidade com nota superior a 7 pontos, número menor que o de brasileiros que vive em cidades com desempenho péssimo (3,8 pontos ou menos).

Entre os estados, nenhum atingiu a meta e alguns passaram perto do desempenho considerado péssimo (menos de 3,8), como foi o caso de Pará  e Rondônia.

Nosso sistema de saúde é tão ruim que até ele se reprovou.