A esquerda vive a maior crise de sua história. E estes são os principais motivos para isso.

Brexit, Trump, Theresa May, impeachment de Dilma. Definitivamente são tempos difíceis para defender ideias de esquerda. Mas nada é tão complicado quanto parece. Por mais teorias que sejam criadas para tentar entender este fenômeno – crise dos refugiados na Europa, crise econômica na América Latina, problemas de imigração e de estagnação salarial da classe operária nos Estados Unidos – não é tão difícil imaginar a razão pela qual a esquerda vive seu momento mais impopular no planeta ao menos desde a queda do muro de Berlim.

Se você é um partidário desse ideal, conectado em algum lugar deste espectro político – da social democracia ao sindicalismo revolucionário – talvez seja a hora de encarar o espelho e admitir que a atual forma de passar a sua mensagem adiante, num tempo em que as redes sociais se tornaram verdadeiras praças públicas, cercadas por púlpitos de todos os lados, não vem angariando a simpatia de muita gente.

Comece pela parte mais óbvia dessa história.

Toda vez que você nega um debate, você perde. Toda vez que você sai gritando fascista pro primeiro cara que aparecer na sua frente não concordando as suas ideias, você perde. Toda vez que você age de forma truculenta em universidades que promovem encontros com pessoas que não fazem parte do seu espectro político, você perde. Toda vez que você se fecha numa bolha, você perde.

É muito fácil acreditar que todas as pessoas que não seguem as mesmas ideias que a nossa agem impulsionadas pelos piores sentimentos do mundo. É confortável. E nos leva a uma batalha necessária. “Ora bolas, eu luto contra os liberais porque eles não gostam dos mais pobres”, você pode fingir pra si mesmo. Mas quanto disso é real? Absolutamente nada. A principal diferença entre a maior parte das pessoas que, com boas intenções, defendem ideias mais liberais em relação aos antiliberais é que elas divergem na maneira de como encontrar uma sociedade mais harmoniosa e próspera, inclusive para os mais pobres.

Não é, por exemplo, como se os liberais fossem contra a maior parte das leis trabalhistas porque defendem os interesses dos patrões. Pelo contrário. Fazem isso amparados por critérios racionais, entendendo que boa parte dessa legislação mais atrapalha do que ajuda o desenvolvimento dos trabalhadores. E acredite, há bons argumentos, amparados por uma boa literatura econômica, que corroboram isso.

Você pode dar de ombros pra toda essa história, mas há alguns conceitos que são praticamente consenso entre os economistas. Como retrata esta pesquisa realizada pelo Gregory Mankiw, professor de economia em Harvard e autor de um dos livros-textos mais bem sucedidos na área, 79% dos economistas acreditam que um salário mínimo aumenta o desemprego entre trabalhadores jovens e menos qualificados (e adivinhem só em qual perfil sócio-econômico encontram-se os trabalhadores “menos qualificados”?). 93% dos economistas também creem que tarifas e cotas de importação geralmente reduzem o bem-estar econômico geral – ou seja, defendem o livre comércio e a globalização que vocês tanto acusam de prejudicar os mais pobres. E não acaba por aí. 83% deles acreditam que um grande déficit orçamentário federal, quando o governo não possui responsabilidade fiscal, tem um efeito adverso na economia. E 85% defendem que a diferença entre os fundos e os gastos de previdência se tornará insustentável nos próximos cinquenta anos se as regras atuais se mantiverem inalteradas.

Tudo isso é corroborado por milhares de livros, e papers, e teses, e argumentos sólidos. Você pode questioná-los, evidentemente. Ninguém é dono da razão. Mas não pra gente fingir que todo mundo que defende essas ideias é fascista, que tem aversão a “pobre andando de avião” e quer entregar a soberania nacional ao controle dos ianques, não é mesmo? Sobra teoria da conspiração, falta argumento.

Ou vocês realmente acreditam que as pessoas que não defendem ideias de esquerda, escolhem esse caminho graças a um suposto elitismo que as torna mais suscetíveis a reclamar da presença dos mais pobres nos aeroportos ou questionar um aumento de salário real dos trabalhadores? Cá entre nós, ninguém leva isso a sério de verdade. Parte considerável dessas defesas acontecem justamente porque liberais acreditam que esses pontos melhoram o bem-estar geral da população. Não o contrário.

E o que sobra além disso? Acusar as demais pessoas de intolerantes. E aqui nós temos uma coleção de adjetivos. Homofobia, lesbofobia, transfobia, xenofobia, racismo, machismo. E eu sei que esses são problemas reais, que atingem incontáveis pessoas ao redor do mundo – problemas que devem ser discutidos, não deixados de lado. Mas isso não torna ninguém autorizado a sair por aí banalizando qualquer conduta como intolerante, apontando o dedo sem o menor critério – ou melhor, tendo como critério muitas vezes apenas diferenças ideológicas.

Parte da esquerda, associada ao movimento negro, está nesse momento literalmente xingando uma pessoa com câncer por usar um artefato para esconder sua falta de cabelos. Não dá pra gente fingir que isso é saudável pra mensagem que vocês tentam vender para o mundo, não é mesmo? Afinal, como as pessoas estarão dispostas a ouvir o que vocês têm a dizer sobre esse assunto quando ele é colocado em pauta dessa forma? Quando exageramos na dose, problematizando qualquer cenário, dando ênfase a supostas microagressões, nós minimizamos o debate do mundo real, que assola seres humanos de carne e osso. E questões sérias, necessárias ao nosso processo civilizatório, acabam desmerecidas, banalizadas.

A consequência inevitável disso tudo? A mensagem permanece intocada, presa dentro de uma parcela politizada da classe média. E vocês abraçam com ênfase esse conceito ao defender aquilo que em terras imperialistas é conhecido como safe space, uma espécie de retiro intelectual das ideias que a esquerda discorda. Por aqui, ela acontece o tempo todo – a cada vez que um oponente liberal é silenciado aos gritos de “golpista” ou sempre que falsos-debates são organizados sem direito ao contraditório.

Quer dizer, não é como se vocês, exercendo o sagrado direito de discordar das opiniões alheias, debatessem, esclarecessem e apresentassem soluções melhores, convencendo pessoas de todos os campos do tabuleiro político a seguir suas linhas de pensamento. Pelo contrário: atualmente é mais fácil que vocês se escondam atrás de uma noção de supremacia ideológica que não apenas centraliza toda capacidade racional da humanidade, como monopoliza a bondade da nossa espécie. Em geral, é como se qualquer figura não conectada aos valores de esquerda estivesse necessariamente jogando no time dos alienados, no campeonato dos analfabetos políticos.

Há certamente, concordo, um desencanto da população brasileira com as ideias de esquerda após o esgotamento da imagem do Partido dos Trabalhadores. Mas trancafiar-se numa redoma de vidro, escondidos em guetos universitários, desdenhando seus opositores como arqui-inimigos de histórias em quadrinho, clamando pra si uma superioridade moral irredutível, não os tornará levados a sério por quem quer que seja.

O fato é que quanto mais vocês abraçam a arrogância da juventude, que finge monopolizar o conhecimento e os instrumentos necessários para mudar tudo aquilo que está errado no mundo, pedante a ponto de achar que conseguirão passar imune à ausência do debate de ideias, gritando de forma histérica, fingindo abraçar o diferente enquanto agridem qualquer livre pensador que lhes passar pelo caminho, mais presos estarão às suas condições incomunicáveis, de gente que nasce e morre no Leblon e na Avenida Paulista, que se acha especial porque leu Pablo Neruda e assistiu aos filmes do Truffaut, em suas programações de finais de semana pequeno-burguesas, lutando por pautas de classe média travestidas de luta popular, perdendo eleição atrás de eleição.

E não é como se essa fosse uma grande novidade. Mesmo figuras progressistas, como o americano Bill Maher, já denunciaram a estupidez dessa tática há algumas semanas.

E Maher não é o único. Em outro vídeo, Jonathan Pie, um repórter fictício de esquerda criado pelo comediante britânico Tom Walker, levantou as mesmas questões após a vitória de Trump.

Mesmo Bernie Sanders, pré-candidato à corrida presidencial americana, que se declara um socialista democrata e foi abraçado por parte considerável da nova esquerda, deu à retórica politicamente correta o papel de destaque na ascensão de Trump ao cargo mais poderoso do planeta:

“Trump disse que ele não seria politicamente correto. Acho que ele disse algumas coisas escandalosas e horripilantes, mas acho que as pessoas estão cansadas da mesma velha retórica politicamente correta.”

O que a esquerda vem ganhando ao se ausentar do debate, se escondendo atrás de espaços-seguros, protocolando lugares de fala, se ofendendo com qualquer bobagem e tratando todos os seus opositores com desdém? Pouca coisa. Em geral, é mais fácil que seu afastamento do confronto de ideias dê o monopólio do palanque de presente aqueles que ela mais rejeita.

Mas a gente sempre pode supor que as seguidas derrotas ao redor do mundo não passam de uma grande coincidência, claro. E você pode agora mesmo acusar esse texto de ter sido escrito por um alienado, analfabeto político, editor de uma publicação que você faz biquinho toda vez que encara no feed da sua rede social, e fingir que nada disso faz o menor sentido.