A situação das moradias em Cuba jamais foi tão precária

O ano era 1996 e Carlos Lage, então vice-presidente de Cuba, de frente para os maiores líderes mundiais presentes em uma Assembleia da ONU, proclamou triunfante:

“Esta noite, 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”.

A frase de efeito logo tornou-se uma espécie de mantra dos defensores do regime castrista, um viral. A citação virou outdoor de propaganda do governo, bordão em grupos de esquerda e tornou-se uma espécie de assinatura aos argumentos em defesa do governo da ilha, ocupando o lugar dos já defasados “hasta la victoria siempre” e “viva la revolución”.

Mas apesar da massiva propaganda estatal, a realidade é um pouco diferente da bravata política: na verdade existem muitas crianças – e adultos – sem teto em Cuba. E essa informação é repassada pelo próprio governo que, através de seus dados oficiais, aponta um enorme deficit habitacional na ilha, acima das 600 mil moradias.

Os números mostram que, só em Havana, existem 33 mil famílias vivendo em abrigos do governo por não terem onde morar, somando mais de 130 mil pessoas nessas condições.

Nos últimos anos, o governo vem tentando corrigir o deficit com a construção de novas moradias, mas, apesar de toda a propaganda, os dados mostram que o ritmo delas não será suficiente para corrigir o problema nos próximos anos.

Desde 2006, o número de moradias construídas no país só vem diminuindo – em 2014, pelo 7º ano consecutivo, ficou abaixo da meta proposta pelo governo, de 60 mil construções.

No ano foram completados somente 25 mil novos imóveis – quase metade da meta. Seria um índice relativamente razoável se não fosse o fato de mais da metade deles não serem tocados pelo governo, mas por indivíduos cansados da inexistência de habitações dignas no país.

Desde 2011, os cubanos possuem autorização para comprar e vender imóveis na ilha, mas os preços ainda estão muito além do poder aquisitivo dos habitantes da ilha.

Em Havana, o preço médio das moradias gira em torno dos 31 mil dólares, um valor surreal para um cubano, cujo salário médio gira em torno dos 15 dólares mensais.

E os que desejam adquirir um imóvel ainda precisam arcar com reformas: segundo o próprio governo, pelo menos 60% das habitações do país estão em estado regular ou péssimo e 85% dos edifícios necessitam de algum reparo.

O próprio governo admite a situação caótica das moradias. Segundo seus representantes, a meta dificilmente será cumprida este ano, quando estima-se que 70% das atividades do setor imobiliário serão tocadas pelo setor privado. 

Diante da crise, o governo vem estudando ampliar os direitos de propriedade sobre as casas e terrenos ocupadas por famílias e aumentar o subsídio ao setor imobiliário.

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Outro fator que só aumenta o problema é a própria geografia da ilha, que fica na rota de ciclones e sofre com as intensas chuvas.

Em 2013, um único temporal foi suficiente para que o governo tivesse que evacuar, às pressas, mais de 2200 pessoas. As chuvas ainda foram responsáveis por causar mais de 200 deslizamentos de terra nesse único incidente.

Mesmo com todos esses problemas em vista, o governo cubano não mede esforços para piorar ainda mais a situação.

A mesma lei de habitação, que promete ampliar os direitos de propriedade sobre as casas, vem sendo questionada por blogs independentes. Segundo o Diario de Cuba, a nova lei ampliou o poder do governo de demolir casas construídas sem autorização – mesmo que seus moradores estejam morando no lugar há anos e estejam em dia com suas contas.

Alguns cubanos que presenciaram a demolição dessas casas ainda relatam sobre oficiais do governo confiscando bens como eletrodomésticos dos moradores afetados.

“Tudo que ele tinha dentro de casa foi levado por caminhões, da cama até a geladeira. E até hoje não devolveram”, relatou uma cubana que não quis se identificar.

Outros são pegos de surpresa e podem parar na cadeia, enquanto o caso é julgado. Ao final, são soltos e enviados para a casa de familiares, mas os que não contam com essa sorte precisam recorrer aos albergues do governo, onde as condições de vida são as mais precárias possíveis: falta energia, água, esgoto e as obras de reforma raramente são concluídas.

Ironicamente, enquanto oficiais do governo cubano destroem moradias inteiras, o país sofre com uma de suas maiores crises de escassez de material de construção, o que vem aumentando o preço das casas já construídas e travando a construção de novos imóveis.

A falta de materiais está levando o governo a entregar imóveis inacabados, sem portas, pisos, pintura ou azulejos. E os poucos cubanos que tiram a sorte de receber essas moradias ainda precisam pagar pelo aluguel, mesmo que a construção não esteja completa. 

Caso as novas moradias continuem sendo construídas no ritmo atual, é possível que o deficit habitacional do país só seja completamente resolvido em 2040 – isso, claro, se o socialismo não ruir antes.