5 vezes em que Dilma e o PT acreditaram em delatores

Ontem, durante uma coletiva de imprensa, a presidente Dilma afirmou claramente para a mídia – “eu não respeito delator” – quando questionada sobre as afirmações de Ricardo Pessoa, da UTC, sobre as supostas doações ilegais feitas pela construtora à sua campanha.

Segundo a Revista VEJA, Pessoa teria relatado, durante uma delação premiada, que campanhas de diversos políticos, incluindo a de Lula em 2006 e a de Dilma em 2014, teriam recebido repasses ilegais que somam cerca de 10 milhões de reais.

Na coletiva, realizada em Nova York, Dilma afirmou que, durante a ditadura militar, tentaram transformá-la numa delatora durante o período em que esteve presa. As palavras foram reforçadas por uma postagem em sua página oficial do Facebook, onde reiterou seu descrédito pelas informações delatadas.

O discurso, no entanto, choca-se com suas próprias posições anteriores e com a de seu partido, o PT.

Em 2008, quando ainda era Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma chegou a afirmar, durante uma audiência, que “qualquer comparação, entre a ditadura militar e a democracia brasileira só poderia partir de alguém que não dá valor à democracia brasileira”. A afirmação, entretanto, parece não valer para a comparação realizada pela presidente entre os delatores dos tempos do regime e os do atual período democrático.

Mas a lista de incongruências entre o discurso recente e as pautas levantadas anteriormente pela presidente e pelo próprio PT não param por aí. Em algumas oportunidades, seu partido já defendeu a palavra de delatores, e mais: pediu à justiça que opositores fossem investigados e chamados para delatar.

Aparentemente, Dilma não confia em delatores quando a palavra deles mostra-se contrária a suas bandeiras. Mas tudo muda de figura quando a delação põe em cheque a reputação de algum opositor. Conheça 5 vezes em que isso aconteceu recentemente.

1) Durante as eleições de 2014, Dilma citou uma delação para atacar Aécio Neves.

14out2014---a-candidata-a-reeleicao-presidente-dilma-rousseff-pt-e-o-candidato-a-presidencia-aecio-neves-psdb-participam-do-debate-da-band-o-primeiro-do-segundo-turno-das-eleicoes-1413341004119_1920x887

Num dos momentos mais acirrados dos debates presidenciais do ano passado, Dilma não parou para pensar nas delações forçadas da ditadura e citou uma denúncia feita ao Ministério Público Federal pelo delator Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, sobre um esquema de propina envolvendo o PSDB para acusar a candidatura de Aécio Neves:

“O ex-diretor da Petrobras afirmou ao MPF que o ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, recebeu propina para esvaziar uma CPI da Petrobras. Veja o senhor que é muito fácil o senhor ficar fazendo denúncias. Por isso é que eu digo que o que importa, candidato, quando a gente verifica que o PSDB recebeu propina para esvaziar uma CPI, o que importa, candidato? Importa investigar!”, disse.

Dessa vez, ela resolveu acreditar nos delatores.

2) Em fevereiro, um deputado petista pediu que a Câmara ouvisse denúncias feitas por um delator contra José Agripino.

Senador-José-Agripino-2-Foto-Mariana-Di-Pietro

No dia 24 de fevereiro, o deputado petista Valmir Prascidelli apresentou um requerimento à Comissão de Viação e Transportes da Câmara solicitando a convocação do empresário George Olímpio para ser ouvido na Comissão.

A presença do empresário foi solicitada por conta de sua delação ao Ministério Público do Rio Grande do Norte, quando denunciou um esquema de propina envolvendo o Detran e José Agripino, senador pelo DEM e ex-coordenador de campanha de Aécio Neves.

Pelas denúncias de Olímpio, o senador, junto com outros políticos do PSB, teriam exigido pagamentos superiores a R$ 1 milhão para que sua empresa continuasse operando o serviço de inspeção veicular no estado. O pagamento da propina teria sido aceito pelo empresário, o que culminou em sua prisão.

3) Em março, a bancada do PT pediu que Aécio Neves fosse investigado na Lava Jato, por conta das delações de Youssef.

Alberto Youssef

As bancadas federal e estadual do PT de Minas Gerais querem que Aécio Neves seja investigado na Operação Lava Jato. O motivo? Ligações apontadas pelo doleiro Alberto Youssef entre o tucano e um esquema de corrupção na Furnas Centrais Elétricas, durante sua delação premiada.

Num vídeo vazado de sua delação, o doleiro disse ter ouvido rumores de que o senador tucano estaria envolvido num escândalo de desvio de dinheiro da Furnas, mas não foi capaz de confirmar os boatos.

Mesmo assim, as bancadas do Partido dos Trabalhadores levaram em março um pedido à Procuradoria Geral da República para que o tucano fosse investigado na Lava Jato. Apesar dos apelos, o nome de Aécio não foi incluído na Operação por falta de provas.

4) Em maio, o Partido dos Trabalhadores pediu delação sobre o Cartel do Metrô de São Paulo.

O deputado federal Rodrigo Garcia toma posse nesta segunda-feira, no Palácio dos Bandeirantes

Será que Dilma não acredita no Cartel do Metrô em São Paulo? Pois políticos do PT paulista querem que a investigação vá mais a fundo… através de delações.

Em maio, líderes partidários afirmaram que pretendem pressionar a Procuradoria-Geral de Justiça para que as denúncias sobre o cartel sejam aprofundadas através de delações, que até o momento não foram usadas nas investigações. O caso do metrô atinge diretamente Geraldo Alckmin e o PSDB paulista, que operou as obras entre 1998 e 2008, período em que houve a denúncia de formação de cartel.

Ao que tudo indica, se as investigações sobre o cartel continuarem, só restará à presidente ir contra o próprio partido e negar o escândalo de corrupção tucano. Ou se retratar sobre o que disse ontem – e aí, confirmar que o dinheiro de sua campanha era ilegal.

5) Em 2013, foi Dilma quem sancionou a Lei das Delações.

dilma-855905

Dilma não respeita delatores? Ou não respeitava?

Pois em agosto de 2013, a presidente sancionou a Lei 12.850 que prevê, nada mais, nada menos, que as delações como um instrumento investigativo. No Artigo 4º, a lei é clara:

“O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e com o processo criminal.”

Nos artigos seguintes, a Lei detalha como ocorrerão as colaborações e dá detalhes sobre a identidade do delator, além de limitar o acesso às informações.

Por algum motivo, a mesma Dilma que sancionou a Lei referida, hoje se desfaz dos beneficiados pelo instrumento legal. Mesmo assim, não perde a chance de usá-la quando o assunto é denunciar a oposição. Nessas horas, ela vê, num mesmo peso nas balanças da justiça, valores diferentes. Depende da presença ou não da estrela de seu partido nas delações.