As 7 ideias mais estúpidas defendidas por Marcelo Crivella

Levados a escolher entre onze candidatos nas eleições municipais deste ano, nada menos do que 4 em cada 10 cariocas optaram por “não votar”. São eleitores que saíram de casa para apertar um número aleatório e anular o voto ou votar em branco (18,1%), ou ainda, que simplesmente optaram por não comparecer às urnas (20%). Nesse clima de quase absoluta falta de opções viáveis, o eleitorado da Cidade Maravilhosa chega ao segundo turno tendo de escolher entre dois dos candidatos com maior rejeição.

O bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus – a IURD, ligada ao bispo Edir Macedo – Marcelo Crivella, primeiro colocado nas eleições até aqui, está na política há pouco mais de uma década. Neste período, ajudou a fundar o Partido Republicano Brasileiro (PRB), junto de José Alencar, então vice-presidente do governo Lula, e consolidou-se como apoiador tanto de Lula quanto de Dilma durante os últimos anos. Ocupou cargos, indicou outros bispos para ministérios, pediu votos, abraçou Dilma em comício e posicionou-se ao lado de figuras conhecidas, como Lindbergh Farias, para combater o PMDB no Rio.

Como mostraram os resultados do primeiro turno, a eleição carioca passa longe de um embate de ideias ou ideologia. Crivella sedimentou sua base de apoio nas zonas Norte e Oeste, as duas regiões mais pobres da cidade, e fez ampla vantagem entre eleitores com baixa escolaridade. O apoio recebido dos evangélicos e a imagem assistencialista e paternalista criada com a implementação de programas como o “Cimento Social” falaram mais alto que sua definição no espectro político. Nem mesmo acusações de uso eleitoreiro do programa ou suspeitas de beneficiamento de pessoas ligadas à sua igreja pesaram na conta.

Seguindo este mesmo perfil de eleitor, Crivella espera contar com o apoio maciço daqueles que votaram em Jandira Feghali (PCdoB), cujos votos apresentaram características semelhantes. Por outro lado, o candidato adota um discurso tecnicista, fiscalmente responsável e conservador nos costumes.

No jogo para convencer o eleitorado que votou em Pedro Paulo (PMDB), Carlos Osório (PSDB) e Flávio Bolsonaro (PSC), Crivella apresenta um programa repleto de palavras de ordem, como meritocracia na remuneração de professores, aumento de concessões (PPP’s) e redução de burocracia. No entanto, em uma análise mais profunda de suas promessas, que enxergue além de clichês e promessas sem início ou fim, apenas “meio”, não é difícil encontrar o viés paternalista que Crivella carrega.

A exemplo da última eleição para governador, sua candidatura em 2016 conta com diversas denúncias, incluindo algumas levantadas pelo candidato Índio da Costa, de uso dos cultos da Universal para propaganda política. É muito provável, portanto, que, mesmo eleito, o candidato tenha de enfrentar o julgamento do Tribunal Regional Eleitoral, como ocorreu na disputa anterior: em 2015 o TRE-RJ decidiu pela cassação de sua chapa para governador (eleição na que ele havia perdido para o candidato do PMDB, Luiz Fernando Pezão).

Como para nós o que importa é a clareza na apresentação das ideias – ou a falta dela – listamos abaixo as sete ideias mais estúpidas defendidas por Marcelo Crivella nestas eleições e em sua carreira política. E se você perdeu, confira aqui a primeira parte da nossa análise, sobre o plano de governo de Marcelo Freixo (PSOL).

1) Mudar o discurso conforme a plateia.

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“Não há cartilha mais comunista que o Evangelho!”

A frase, dita pelo então senador Marcelo Crivella em 2007, faz parte de um discurso em homenagem aos 85 anos do Partido Comunista do Brasil. Nele, o bispo destaca que ser cristão e seguir os ensinamentos da bíblia em nada lhe afastam da possibilidade de elogiar as causas e atuações do PCdoB ao longo de sua história.

Para Crivella, garantir o apoio do PCdoB naquele momento era um fator importante, como é hoje. Historicamente o partido é oposição ao PMDB, maior força política do estado do Rio de Janeiro. Vendo por este lado, o senador estende elogios ao partido.

Como mostra o resultado obtido pelo Datafolha, boa parte dos eleitores de Jandira migrarão para Crivella, tendo em vista que ambos comungam a mesma base de apoio, no eleitorado de menor instrução.

Como político profissional, o discurso de Crivella aprimorou-se e hoje apresenta nuances mais difíceis de serem identificadas. Em determinada entrevista, o senador alega veementemente que não pretende aumentar um único imposto. Em outra, alega que “vamos arrecadar muito ISS”; em uma terceira, alega que irá trabalhar para que o Uber passe a ser taxado no município do Rio de Janeiro.

Ainda em 2008, o senador expunha sua firme opinião acerca da homossexualidade, que se trataria de um “pecado”, posição reiterada em 2009 em uma entrevista concedida ao Programa do Jô, na Rede Globo. Nessa ocasião, Crivella critica o projeto de lei que criminaliza a homofobia, que estava em vias de ser votado no Congresso. Em julho de 2014, o senador reafirma sua crença de que trata-se de um pecado e uma atitude “não-natural”. Em setembro do mesmo ano, Crivella passa a defender a criminalização, em uma sabatina realizada pelo jornal O Globo. Em apenas dois meses, a opinião do candidato mudou da água para o vinho, faltando então apenas dois milagres para uma eventual canonização.

Em seu projeto de governo, do pouco que é possível distinguir, está uma crítica constante à corrupção e o registro de que fará uma gestão “técnica”. Seu repúdio e a garantia de que não fará um governo junto de pessoas consideradas “ficha suja” fazem parte das promessas e do modo como afirma que será conduzida sua gestão, caso eleito. Nada disso, porém, impediu Crivella de alinhar-se ao ex-governador Anthony Garotinho, considerado pela justiça um ficha suja. Para O Globo, o discurso novamente foi de que “alianças importam”.

2) Ter como principal aliado o ex-governador Anthony Garotinho.

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Com a firme crença de que “é preciso fazer alianças”, o senador e candidato a prefeito cedeu a um acerto com outro cacique político da cena fluminense, o ex-governador Anthony Garotinho, líder do Partido da República (PR) no Rio de Janeiro.

Longe dos padrões técnicos e do conceito de ficha limpa que Crivella propaga em seu discurso e plano de governo, o ex-governador, que já foi considerado inelegível graças à acusação de compra de votos, tornou-se seu principal aliado na disputa pela prefeitura da cidade. O motivo para “tolerar” os “pequenos deslizes” que tornaram Garotinho o líder com maior número de inquéritos e acusações na câmara em 2013 parece ser bastante pragmático: o tempo de TV.

Das 29 acusações que pesavam contra os líderes, nada menos do que oito se dirigiam a Garotinho.
Graças à aliança com o partido comandado pelo ex-governador, responsável por indicar o vice de sua chapa em 2016, o tempo de TV do bispo mais do que dobrou. O PR foi responsável por acrescentar 37 segundos aos 27 segundos anteriormente detidos por Crivella.

Segundo noticia O Globo, o apoio teria duas funções para Garotinho: a primeira, garantir cargos, como uma provável indicação para a Secretaria de Obras, responsável pelo terceiro maior orçamento municipal, atrás apenas de saúde e educação. A segunda, o apoio de Crivella a Garotinho em uma eventual candidatura em 2018.

Em outra contrapartida, o PRB retirou a candidatura de Alexandre Vale, em Campos dos Goytacazes. Vale, apresentador e vereador bastante popular na região, ameaçava tirar votos do sucessor de Rosinha Garotinho, prefeita da cidade, que é considerada um berço político da família Garotinho.

3) Apresentar um programa de governo mais clichê que final de novela das 8.

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Ainda que não seja muito mais que uma lista quase infindável de promessas, programas de governo ajudam a nortear as intenções dos candidatos e verificar sua maneira de detectar e encarar problemas. Em uma análise do programa de Marcelo Freixo, por exemplo, é possível encontrar a criação de estatais, conselhos municipais e órgãos públicos, além do aumento de impostos, como prática corrente. No plano de Marcelo Crivella, nada disso é contemplado.

Frases como “colocar a real necessidade da população como foco prioritário da ação governamental” supostamente indicam o que pretende o governo do candidato. Em seguida, encontramos uma análise de obras como a do Elevado do Joá, que deverão ser “reforçadas”, uma listagem de locais que receberão novas obras e outras ações que devem ocorrer ao longo de 4 anos.

Outras alusões, como “aumentar em R$ 250 milhões o orçamento da saúde anualmente”, desprovidas de qualquer contexto, dão a tônica do discurso. Com um orçamento de R$ 6.6 bilhões, saúde é a pasta que mais recebe verbas do governo atual e, a depender do plano de Crivella, receberá um acréscimo de 3,78% ao ano. Trata-se aqui de algo desnecessário em um plano de governo e sem efeitos práticos. Como é obrigado a destinar mínimos constitucionais e reajusta anualmente seu orçamento com base na inflação e em aumentos de arrecadação, é provável supor que a verba destinada à saúde irá aumentar independentemente de valores jogados a esmo em um programa como esse. Mas convenhamos, R$ 250 milhões é uma cifra bonita, não é? Quase todo o plano de Crivella segue essa mesma linha.

Acrescentar 20 mil vagas para creches é outra proposta, desta vez para a educação. Novamente, não há qualquer explicação de quanto isto representa, o que é pouco útil, uma vez que esses números apenas dão a impressão de que a tarefa está sendo cumprida. Ainda na questão educacional, o programa prevê “aumentar em 20% o orçamento” para esta área. Não há, no entanto, nada explicando que educação também obedece um mínimo constitucional e que os orçamentos são reajustados anualmente. Tais 20% até 2020 não cobrem sequer a inflação prevista no período. Mais um número sem qualquer base ou contexto, mas que agrada aos leitores. No mesmo tópico, o governo prevê aumentar as verbas destinadas ao Vale Cultura, um projeto do governo federal. Não há qualquer menção ao fato do programa não ser da prefeitura e desta não ter acesso à base de dados.

“Colocar para funcionar” é outro termo bastante utilizado. Deveria ser ponto batido que, dada a existência de um hospital, clínica ou qualquer equipamento público, este deve cumprir a função para a qual foi construído. Ao que tudo indica, porém, dizer que isso será efetivado cabe em um plano de governo. Imagine que um plano contivesse a frase “vou trabalhar para melhorar a cidade”, ou “prometo gerir bem o orçamento público”. Gabar-se de colocar algo para funcionar ou de promover algo de forma eficiente tem tanto peso quanto este tipo de declaração.

Em um raro lampejo de efetividade, o programa informa que um modelo de remuneração variável nos salários de médicos e outros profissionais de saúde será implementado. A qualidade do serviço público será posta na prancheta na hora de calcular o salário final. Mas essa intenção acaba ficando perdida no programa, em meio a uma declaração de que o governo irá “garantir a igualdade na qualidade do serviço prestado em diferentes regiões”.

Entre boas intenções e palavras bonitas feitas para agradar um eleitorado de classe média, acostumado à burocracia e à ineficiência do serviço público, o plano pouco acrescenta de novidade e acaba dando a impressão de que está ali apenas para cumprir tabela.

4) Ter sido Ministro da Pesca no governo Dilma.

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A pouca expressividade do PRB, partido de Marcelo Crivella, não impediu que este fosse contemplado com um dos 39 ministérios do governo Dilma. A ele coube a vaga de Ministro da Pesca.

Criado em 2003, o ministério possuía um orçamento estimado em R$ 300 milhões, ou 0,015% do orçamento geral apresentado pelo governo no mesmo ano. Sua principal função era realizar o cadastramento de pescadores e famílias para que recebessem os recursos do seguro-defeso, uma espécie de indenização paga pela Previdência aos pescadores para que não trabalhem durante certos períodos (para garantir a procriação da vida marinha).

Trata-se da única experiência de Crivella como gestor público: o ministério de menor orçamento. Como se não bastasse, ela não pode sequer ser considerada positiva. Em 2015, a Controladoria Geral da União apresentou seu relatório de auditoria com relação à gestão de 2014 do ministério, então sob o comando do candidato, contendo inúmeras irregularidades e suspeitas de mau uso do dinheiro público.

Para a CGU, há indícios de contratos firmados de forma irregular, cadastramento fraudulento de pessoas, além de conflito de interesses na seleção de funcionários terceirizados.

Segundo o ministério, após a divulgação do relatório, algumas mudanças foram realizadas e a cobrança sobre a prestação de serviços tornou-se mais rigorosa. Em um dos casos, a fatura mensal de manutenção predial caiu de R$ 35-40 mil, para R$2-3 mil, após a adoção de novas posturas. Isto, no entanto, aconteceu já na gestão de outro ministro.

Para o ex-ministro Crivella, o relatório está equivocado.

5) Omitir aumento de impostos ao mesmo tempo em que propaga aumento de gastos.

Agência Brasil - ABr - Empresa Brasil de Comunicação - EBC

“Vamos arrecadar muito ISS” é a resposta padrão do candidato para explicar os aumentos de gastos previstos em seu programa. Questionado sobre sua pretensão de aumentar impostos, o candidato foi categórico em um pinga-fogo para o G1, afirmando que não fará isso.

Na mágica do discurso, os gastos crescem e sobra mais verba para saúde e educação, aumentos salariais e ampliar em quase 40% o orçamento da pasta de cultura, chegando a 1% do orçamento. Em outra proposta, as 16 UPA’s do governo do estado passariam à gestão da prefeitura, gerando um gasto mensal estimado em R$ 8 milhões, que se somaria aos aumentos salariais prometidos para funcionários das áreas de saúde e educação.

Na prefeitura de Crivella, corte de gastos não é especificado e aumentos estão explícitos. Do começo ao fim, novos programas, ampliação dos programas já existentes e críticas ao fato de que a gestão atual “não põe para funcionar” equipamentos parados fazem supor um crescimento expressivo no gasto público, ainda que em áreas vitais como saúde e educação.

Segundo o tribunal de contas do município, apenas nos próximos 6 anos, a previdência municipal precisará de aportes de R$ 1,3 bilhão, valor equivalente ao que Crivella espera colocar na saúde. Não há uma linha sequer sobre esse fato, apenas uma promessa de que irá parar de tirar recursos do fundo previdenciário. Em outras palavras: Crivella prevê reduzir a receita em função de menos saques ao fundo e elevar os gastos em função dos aportes que serão demandados.

Sem espaço fiscal para ampliar gastos e com um déficit de 0,32%, a prefeitura do Rio passa por uma turbulência, onde a responsabilidade fiscal está em risco, e o cumprimento de promessas que demandem novos aportes é, no mínimo, duvidoso.

6) Tolerar o uso da religião para promoção política.

Senador Marcelo Crivella (PRB-RJ)

As ligações explícitas de Crivella com a Igreja Universal têm sido há um bom tempo seu principal entrave para conquistar o voto do eleitorado de classe média. Ainda que de temperamento moderado, Crivella mantém-se fiel à postura da igreja. Sua atitude de considerar a homossexualidade como um “pecado não-natural” é apenas parte do pacote.

Por isso mesmo, o medo de que sua postura religiosa possa interferir na gestão existe, e não é sem motivos. Em 2014, Edir Macedo, de quem Crivella é sobrinho, pediu abertamente votos para elegê-lo senador. Nas palavras de Macedo: “Votar 10, de Crivella, é votar na gente”.

“Em nome de Jesus, vote Crivella”. Frases como esta permeiam os discursos de bispos e pastores da Universal, em especial pela periferia carioca. Em 2015, o Tribunal Regional Eleitoral entendeu que isto poderia ser considerado crime e cassou a candidatura de Crivella a governador em 2014.

Em outra ocasião, o pastor Daniel Santos chegou a chamar de “Judas” os fiéis que não votassem no bispo licenciado.

Na mesma decisão que proíbe a Igreja Universal de pedir votos, a juíza do caso explicita que considera irregular o uso de veículos de comunicação, como os que possui o bispo Edir Macedo, para fazer propaganda para algum candidato.

Crivella chegou a afirmar que não concorda com o ato e que não compareceu a igrejas durante a campanha. Mas isso não impediu que a prática continuasse a ocorrer.

Nas eleições deste ano, o candidato Índio da Costa chegou a compartilhar um vídeo denunciando o ocorrido.

7) Defender a ética em seu plano de governo, ao mesmo tempo em que chama alguém acusado de corrupção para ajudá-lo a elaborar o plano.

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Em tempos de Petrolão e Lava Jato, não é muito difícil imaginar os motivos de tamanho apelo à ética e ao rigor técnico em planos de governo, ainda que pouco elaborados como é o caso de Crivella.

A escolha pautada em critérios técnicos e a não-aceitação de fichas sujas é, segundo ele, uma forma de apresentar-se como uma alternativa ao atual projeto do PMDB. Seu vice, por exemplo, indicado pelo partido de Garotinho, é um especialista em trânsito.

Apelos à meritocracia são constantes. “Ética” é uma palavra repetida mais vezes do que “impostos” ou “aumento de gastos”. Tudo caminha conforme o esperado. Exceto a realidade.

O ex-secretário de ordem pública e assistência social, Rodrigo Bethlem afirma que “contribui com ideias” para o plano de Crivella. Bethlem, que foi aliado de Paes, encontra-se envolvido em um escândalo descoberto por meio de gravações feitas por sua ex-mulher, filha do presidente da Câmara do Rio de Janeiro.

Nas gravações de 2011, Bethlem afirma à ex-mulher que sua principal fonte de renda é um contrato de Assistência Social, que lhe garantem R$ 85 mil em propina. No mesmo áudio, consta uma fala do ex-secretário de Paes afirmando que “você está careca de saber que fui à Suíça para abrir uma conta lá… Não seja hipócrita”, dirigindo-se à ex-esposa.

Após ser descoberto, Bethlem disse que foi à Suíça a passeio. Apesar disso, o Ministério Público descobriu 5 contas movimentadas por ele, por meio de empresas com sede no Panamá e nas Ilhas Britânicas.

Nada disso porém, impediu Crivella de contar com o apoio de Bethlem para elaboração do seu plano de governo.