Ela ajudou refugiados sírios na ilha de Lesbos. E contou pra gente o que viu.

A guerra civil na Síria teve seu start em 2011, quando protestos associados à “Primavera Árabe” eclodiram por todo o país. Com o calor das manifestações, frentes armadas se formaram.

O primeiro grupo a tomar força foi o “Exército Livre da Síria (o Free Syrian Army, ou FSA)”, um grupo formado por 7 soldados do exército que resolveram se rebelar contra Bashar al-Asad. Com a proposta de lutar contra qualquer “força de segurança do governo que ataque civis”, o FSA cresceu – mas sua influência na região diminuiu à medida que grupos rebeldes vindos do norte se tornaram mais efetivos em relação aos ataques militares contra o exército sírio.

Em 2013, quando um dos comandantes do FSA foi morto pela al Qaeda, maiores detalhes sobre o Al-Nusra Front, outro grupo associado ao FSA, começaram a surgir.

De acordo com The Daily Telegraph, muitos dos soldados que faziam parte da Al-Nusra Front eram veteranos dos conflitos no Iraque e no Afeganistão. A relação entre soldados veteranos que lutaram contra os Estados Unidos durante a invasão americana do Iraque em 2003 e o crescimento de grupos rebeldes dentro da Síria foi feita com frequência por especialistas. Ao contrário do que políticos em Washington D.C. diziam, o FSA e a Al-Nusra Front não eram grupos confiáveis.

A partir do momento em que o presidente Barack Obama decidiu mostrar apoio à causa, republicanos como o Senador John McCain se juntaram ao núcleo intervencionista. Apesar dos esforços de anti-intervencionistas como o senador Rand Paul, também republicano, o governo dos EUA continuou enviando cada vez mais ajuda externa aos rebeldes “moderados.” Em poucos meses, imagens do grupo ISIS dirigindo caminhonetes da marca Toyota que haviam sido doados pelos Estados Unidos, inundaram a internet.

Com a ajuda indireta do governo americano e de outras potências locais como a Arábia Saudita, o Estado Islâmico se fortaleceu, e a influência do FSA definhou. Num piscar de olhos, milhões de sírios veriam suas casas, vilarejos e cidades completamente apagadas do mapa pelo grupo militar mais poderoso da região.

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De acordo com a European University Institute, algo como 9 milhões de sírios largaram suas raízes para fugir da guerra entre rebeldes, Estado Islâmico e o governo.

Mais de 3 milhões fugiram para nações vizinhas, como a Turquia, o Líbano e a Jordânia. Israel é o único país vizinho da Síria que não absorveu nenhum refugiado. O governo israelense é também o único da região que oferece ajuda médica aos militantes que participam de lutas armadas contra o governo sírio.

Por volta de 150.000 refugiados pediram asilo na União Européia enquanto outros países da região se ofereceram para absorver 33.000 refugiados sírios. Algo próximo dos 85% desses refugiados vão para a Alemanha.

Em um vídeo feito na Hungria, um refugiado sírio de 13 anos explicou ao policial que “se eles colocarem um fim à guerra, nós voltaríamos para a Síria”. O que força milhões de famílias e indivíduos sírios a fugir não é somente a promessa de uma vida melhor. Eles querem sobreviver.

“Precisei me segurar para não chorar”

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Em uma entrevista para a BBC, a estudante brasileira Stella Chiarelli contou que “famílias com crianças muito pequenas, grávidas e idosos chegam em botes infláveis superlotados” na pequena ilha de Lesbos, na Grécia.

Num bate papo com a nossa publicação, Chiarelli contou que, durante o período que passou no Brasil durante as férias do seu curso de Arqueologia, em Istambul, na Turquia, o Estado Islâmico invadiu a cidade de Kobane. Como outras cidades próximas da fronteira com a Turquia também foram invadidas, quase um milhão de refugiados cruzaram a fronteira em busca de segurança.

“Quando voltei para Istambul tive um choque. A cidade estava completamente diferente, com muita gente nas ruas pedindo dinheiro. Eram famílias inteiras, com muitas crianças e também idosos. Fiquei arrasada.”

Foi o contato com essa realidade que influenciou a brasileira. Quando amigos a convidaram para ir para à pequena ilha de Lesbos para trabalhar como voluntária, ela não hesitou. Em Lesbos, Chiarelli conversou com diversos refugiados.

“Todas essas pessoas estão nessa situação porque querem e precisam de algo melhor. São pessoas fugindo para sobreviver. É isso o que me emociona mais.”

Em um dos encontros com refugiados vindos do Afeganistão, Chiarelli nos disse que uma família relatou que quando o “Talibã comandava a cidade deles” era melhor, e que quando o Estado Islâmico chegou na região “era impossível sobreviver.”

“Quando alguém te fala que o Talibã não é algo tão ruim comparado ao Estado Islamico você só consegue imaginar o que isso quer dizer”, diz.

“A mãe dessa família me falou que os pais dela foram mortos pelo Estado Islamico, o marido tinha sido agredido por eles também, cortaram a barriga dele e ele teve que passar por cirurgias para não morrer. Ela falou que a pior parte era ver os corpos com cabeças cortadas nas praças da cidade.”

De acordo com a brasileira, a família vendeu tudo o que tinha para fugir dos militantes.

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Para continuar seu trabalho voluntário em Lesbos, Chiarelli decidiu usar a internet como fonte de apoio. Com a ajuda do site de crowdfunding Kickante, a estudante brasileira está pedindo para que o público a apoie financeiramente para que mais refugiados sírios, afegãos, iraquianos e africanos possam receber sua ajuda. Você pode contribuir com a causa clicando nesse link.