Ele era filho de um imigrante sírio. E sem a livre imigração o mundo não o teria conhecido.

As últimas décadas representaram um marco para a humanidade. Reduzimos distâncias e barreiras, permitimos aos cidadãos de todo o mundo terem um melhor acesso à informação e a trocarem ideias que resultassem em avanços nas mais diversas áreas. Nos últimos anos, governos de quase  todos  os países do mundo abraçaram a causa da integração econômica, defenderam reduções de barreiras comerciais, o livre fluxo de capital e todo o repertório do economês conveniente na hora de realizar negócios. Do outro lado da globalização, entretanto, aquele que diz respeito à mão de obra, ganhou pouca ou nenhuma importância. O livre fluxo de pessoas é uma pauta definitivamente longe da maior parte dos governos ao redor do mundo.

Como que para nos lembrar das consequências trágicas deste contraste, o mundo assiste a pior crise de migração do século. Vivendo seus próprios apuros, de origem econômica, a Europa apresenta reações diversas. Apenas em 2015, 330 mil refugiados chegaram ao continente pelo Mediterrâneo, dos quais 2.500 perderam suas vidas na travessia.

Ao chegarem em território europeu, porém, a batalha continua: é a hora de enfrentar a forte resistência de grupos radicais xenofóbicos e de anti-imigrantes dos mais diversos credos. A Alemanha, por exemplo – país que deve receber 800 mil pedidos de visto este ano, número 4 vezes maior do que no ano passado – vê uma crescente onda de grupos neonazistas invadirem as manchetes dos principais jornais. Na conturbada Grécia, grupos mascarados atacam botes para evitar que cheguem à costa. Na internet, por todos os cantos, crescem acusações de que a imigração é orientada e amparada por motivações políticas – não é incomum lidarmos com questionamentos sobre  a escolha dos países no norte europeu como destino dos refugiados sem levar em conta que países como o Líbano e Turquia, vizinhos à Síria, já possuem juntos 3 milhões de refugiados.

Nesta semana, a imagem do menino Aylan Kurdi, de 3 anos, encontrado morto em uma praia na Turquia, vítima de um naufrágio, mostrou ao mundo aquilo que já deveria estar cicratizado. Em uma guerra, os mais prejudicados são sempre os inocentes. O impacto de uma fotografia é por si, capaz de provocar inúmeras mudanças – e já vimos algumas desde então, como a crescente manifestação de apoio aos imigrantes na Alemanha ou a repentina proposta do primeiro-ministro Finlandês de oferecer sua casa de campo para abrigar famílias de refugiados. Para compreender e implementar mudanças reais entretanto, não é preciso ir muito adiante e sonhar com uma utopia futura. O passado pode e deve nos servir muito bem de lição.

Há 5 anos, o mundo virou os olhos de Wall Street para a Tunísia quase que repentinamente. O tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo, após se ver sem saída contra os achaques dos burocratas em seu país, que lhe impediam de manter seu negócio e garantir o sustento de sua família. A revolução que se seguiria, derrubou presidentes que se mantinham a décadas no controle, como os da Líbia e do Egito – além de resultar em conflitos civis como o da Síria. O que para nós no ocidente ficou marcado, porém, foi o crescimento do uso da tecnologia para informar ao mundo o que se passa nestas regiões tão isoladas e parcas de informação.

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Décadas antes, a imigração era um problema menor. Países europeus ainda não haviam se convertido em verdadeiros condomínios de luxo, como funciona a prática do excludente Estado de bem estar social – aquele que cobre do berço ao túmulo de “benefícios” os seus cidadãos, criando uma revolta no inconsciente coletivo contra qualquer imigrante que ameace seus caros privilégios.

Há algumas décadas, nos Estados Unidos, os resquícios de um país de imigrantes ainda era forte, a fronteira com o México não se resumia a um imenso muro e as famílias podiam se orgulhar de seus pais e avós que atravessaram um oceano em busca de melhores condições de vida. Foi nestas condições que o sírio Abdulfattah Jandali imigrou para o país, aos 23 anos, em 1954. Jandali era pai biológico de um garoto que mudaria para sempre o mundo – e que acabaria adotado por um casal de americanos. Seu nome era Steve Jobs. 

A historia de Jobs, porém, não é um caso isolado. Para nós brasileiros, pode parecer estranho que alguém se oponha tão ferozmente a imigrantes – sejam eles árabes ou europeus – ou ao menos deveria ser estranho em um país que possui mais libaneses que o próprio Líbano. Nos Estados Unidos, a irracionalidade grita por ideias como as de que os imigrantes roubam empregos, parasitam o país e exportam criminalidade. A realidade, no entanto, passa longe disto.

Como mostrou a revista Forbes recentemente, 40% das 500 maiores empresas americanas foram fundadas por imigrantes ou por seus filhos. Este número inclui desde gigantes da área de bens de consumo, como a Procter & Gamble, até gigantes tecnológicas como a Google. Na área de tecnologia, a possibilidade de utilizarem seu conhecimento em um país pacífico e que recompense a inovação, faz com que 75% das companhias de tecnologia possuem ao menos um imigrante em cargos chaves, como presidente, vice-presidente de engenharia ou diretor de tecnologia.

A família de Sergey Brin fugiu da União Soviética perseguida pelo anti-semitismo. Na América, ele fundaria o Google.
A família de Sergey Brin fugiu da União Soviética perseguida pelo anti-semitismo. Na América, ele fundaria o Google.

Metade das 50 maiores startups americanas possuem ao menos um de seus fundadores como imigrante e entre 1995 e 2005, imigrantes fundaram ao menos 52% de todas as companhias do Silicon Valley. Ainda segundo um estudo dos economistas Gihoon Hong e John McLaren, cada imigrante é responsável por gerar 1,2 empregos novos. E isso é positivo, especialmente num cenário como o atual, quando boa parte dos países desenvolvidos lidam com uma forte escassez de mão de obra.

Segundo estudos realizados pelo BCG, o Boston Consulting Group, e pela Marshall School of Business, a escassez de mão de obra deve colocar em risco US$ 10 trilhões da economia mundial, cerca de 15% do seu PIB atual. Isto significa uma escassez de trabalhadores da ordem de 17 milhões no Japão, 35 milhões nos Estados Unidos e 80 milhões na União Europeia. E isso tudo porque as taxas de crescimento na força de trabalho em países como a Alemanha irão cair por volta de 1,2% ao ano entre 2020 e 2030.

Não bastasse tratar-se da melhor alternativa para garantir o crescimento das economias já desenvolvidas, imigrantes são também o grupo que mais empreende – e apesar de nem todos serem empreendedores visionários como o sul-africano Elon Musk, eles empregam juntos 10% da força de trabalho americana.

As razões que os levam a empreender são diversas – em geral estão ligadas às dificuldades de adaptação ou a uma vantagem educacional. Independentemente disso, em tempos onde as barreiras chocam, uma coisa é certa: nunca subestime alguém capaz de atravessar o mundo em busca de uma vida melhor. Ou você pode deixar de ter o seu iPhone no futuro.