Eles atuam contra o impeachment. E foram eleitos financiados por essas empresas.

*por Rodrigo da Silva e Felippe Hermes

Você certamente já viu muitos desses nomes usarem seus espaços nos palanques políticos para defender o governo Dilma. Normalmente eles usam expressão viciadas como “golpe” e “imprensa golpista”, dizem que a insatisfação é característica de uma parcela mais rica da população, que não consegue lidar bem com o fato de que os pobres finalmente ascenderam no país (ainda que a realidade aponte outra direção), e acreditam piamente que a Lava Jato é uma trama jurídica construída para deslegitimar a candidatura do ex-presidente Lula em 2018.

De fato, mais do que lutar pelos interesses da população, os políticos da base do governo gastam toneladas de saliva em própria defesa. Assim, lutar pela manutenção do atual quadro no poder é, em essência, pedir que nada mude no establishment político do país. É defender mais do que meras ideias – mas cargos, comissões, um batalhão de amigos empregados em estatais, influência no jogo e vaidade.

Nessa matéria, listamos alguns dos principais nomes da política nacional quando o assunto se trata de defender o atual governo – e de que forma eles foram financiados para sustentar seus sucessos eleitorais nos últimos anos. Todas as doações de campanha registradas aqui são legais – ao menos até o momento em que essa matéria é redigida. Apesar disso, o que chama atenção são os nomes das empresas envolvidas: muitas delas não apenas diretamente ligadas aos mais diversos escândalos com o governo federal, mas investigadas na Lava Jato.

Aqui, todas aqueles nomes que você está cansado de ver nos noticiários políticos (e policiais) nos últimos meses, com alguns de seus representantes presos enquanto criminosos confessos, por alguma razão se interessaram em patrocinar diretamente esses políticos para que eles conquistassem sucesso eleitoral.

Antes que você continue a leitura dessa matéria, no entanto, nós precisamos publicar um aviso.

Essa publicação também é financiada diretamente por alguns entusiastas – seus leitores. Na teoria, o que difere as contribuições ao Spotniks em relação as dos políticos listados aqui, deveria ser um mero capricho ideológico. Ambos são patrocinados de forma livre e coletiva em busca de diferentes benefícios. Os primeiros estão interessados em apoiar um conteúdo informativo crítico e independente, alternativo à mídia mainstream e aos blogs governistas. Os segundos querem representantes no jogo do poder, para criar leis e obter influência política.

Para aproveitar o embalo dessa matéria, estamos lançando nosso novo financiamento coletivo. Lá, será possível reconhecer alguns dos nossos princípios editoriais, nossas metas, todo dinheiro arrecadado pelo crowdfunding e os nomes das pessoas que livremente escolhem patrocinar essa publicação. Também listamos as recompensas que os nossos financiadores recebem por contribuição – além do óbvio crédito por ajudar a manter essa página no ar.

Todo conteúdo publicado aqui não seria possível sem o auxílio desses homens e mulheres das mais distintas posições sociais, de diferentes regiões do país, que acreditam na importância de manter essa publicação ativa. Através dessas pessoas, nós colocamos um satélite de conteúdo no ar.

Quer saber como fazer parte desse grupo e contribuir com a gente? Então dá uma clicada nesse link.

Aqui embaixo, a gente separou como o outro grupo é financiado. Todas as informações constantes nesta matéria são de dados originários do TSE.

Jandira Feghali, PCdoB

img201403061929337017326

“Sem provas, Polícia Federal amanhece com mais uma operação, desta vez o alvo é o ex presidente Lula. O maior líder popular que o Brasil já teve. O presidente que tirou o país do mapa da fome. Nossa indignação não será silenciosa. Vamos às ruas defender o estado democrático de direito. Contra as arbitrariedades. Golpe não!”

Consagrada como a videomaker, ou a youtuber, responsável pelo vídeo vexatório do ex-presidente Lula após o depoimento dado à Polícia Federal, que foi parar no inquérito do Ministério Público de São Paulo, a deputada carioca Jandira Feghali chegou a Brasília com uma votação de 68.531 votos (0,9% do eleitorado).

Para eleger-se, a deputada contou com o apoio de empresas como a Energia Verde Produção Rural (R$ 300 mil) e a Companhia Siderúrgica Vale do Pindaré (R$ 110 mil), ambas pertencentes ao grupo Queiroz Galvão. Além das duas empresas da empreiteira, a deputada contou ainda com financiamentos da cervejaria Petrópolis (R$50 mil), cujo dono foi tema de uma reportagem da revista Época acerca de uma doação de R$ 17 milhões feita à campanha de Dilma Rousseff dias após a obtenção de um empréstimo junto ao BNDES, além da Construtora Talento (R$150 mil), a empresa contratada pela OAS para a realização das obras do triplex do condomínio Solaris no Guarujá, acusada de ser propriedade do ex-presidente Lula.

Ao contrário da Queiroz Galvão, cujos executivos são réus na Lava Jato, as duas empresas não possuem citações na Lava Jato, entretanto. As doações da empreiteira investigada representam 34,95% do total arrecadado pela deputada.

Sibá Machado, PT

Siba Machado foto gabriela korossy ag camara

“Ancorada aos setores da oposição, a mesma imprensa que apoiou o golpe militar de 1964 fomenta, agora, a intolerância política contra o PT e seus militantes. Há uma orientação, uma orquestração de tentativa de criminalizar o PT, o nosso governo e, principalmente, destruir a Petrobras e o patrimônio nacional.”

O deputado Sibá Machado, eleito pelo Acre, possui um especial apreço por buscar desvendar conspirações que envolvam a agência norte americana de inteligência, a CIA, e movimentos contrários ao governo. Para o deputado, a maior crise econômica da história brasileira aliada às investigações do maior esquema de corrupção do país são um mero pretexto para a organização de movimentos cujo objetivo final seria derrubar o governo para entregar a Petrobras aos americanos.

Para se eleger, Sibá contou com R$ 95 mil doados pela empreiteira Engevix, além de R$ 25 mil doados pela empreiteira OAS. Ao todo, o deputado teve 30,05% da sua campanha custeada por ambas as empreiteiras, que estão envolvidas na Lava Jato.

Maria do Rosário, PT

1

“É março, mas o roteiro do golpe mudou. Métodos atuais usam de espetáculos policial-midiáticos. Nefasta conspiração! O autoritarismo se empodera com o desrespeito à Lula. As ditaduras sempre deixam seus ovos chocando nas instituições.”

A deputada gaúcha Maria do Rosário (PT-RS) possui algumas controvérias em sua história quando o assunto são doações eleitorais. Ex-ministra dos Direitos Humanos e uma das maiores defensoras do desarmamento, a deputada já teve entre seus financiadores em uma campanha à prefeitura de Porto Alegre, a empresa Taurus, a maior fabricante de armas do país.

Para se eleger deputada em 2014, porém, Maria do Rosário contou com apoio especial de empreiteiras – com R$ 145 mil da empresa Engevix, R$ 37,5 mil da OAS, R$ 32,25 mil da Andrade Gutierrez, além de R$ 95 mil da empresa Liquiport Vila Velha S/A, uma subsidiária da Odebrecht no Espírito Santo. Segundo reportagem do Estadão, as doações da Engevix para 3 deputados, incluindo Rosário, estariam sendo investigadas pela operação Lava Jato. Não há conclusões a respeito, porém. As empreiteiras representam 23,94% do total arrecadado pela deputada.

Gleisi Hoffmann, PT

844325c23506de79ab2beb924c2fde2e

“Interessa a quem quer assumir o poder, de maneira mais rápida, sem ter que esperar até 2018, e mais fácil, sem precisar se submeter ao escrutínio das urnas. São duas forças nessa situação, que contam com apoio de outros setores com interesses secundários: a oposição, capitaneada pelo PSDB, particularmente Aécio Neves, que não se conforma com a derrota; e parte importante do PMDB, que nunca ganhou uma eleição presidencial pela disputa no voto, capitaneado por Eduardo Cunha.”

Ex-ministra da Casa Civil de Dilma Rousseff, a senadora Gleisi Hoffman concorreu em 2014 ao governo do Paraná, local por onde ela e seu marido, o ex-ministro do Planejamento e das Comunicações, Paulo Bernardo, elegeram-se.

Durante sua campanha ao governo do estado, a senadora contou com R$ 2,795 milhões em doações de empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato, incluindo R$ 475 mil da Queiroz Galvão, R$ 950 mil da Andrade Gutierrez, R$ 420 mil da Galvão Engenharia e R$ 950 mil da UTC, do empresário Ricardo Pessoa, preso em Curitiba. Ao todo, as doações representam 12,89% do total arrecadado pela senadora.

Lindbergh Farias, PT

7087ba2eb28de1de6eadb7bf225250c8aecf42f4

“O sequestro-relâmpago do presidente Lula faz parte de um golpe de Estado em curso no Brasil. Golpe, sim. Não há tanques nas ruas, mas há tropas fortemente armadas, sequestrando, como se fez na ditadura. Não há bazucas, mas há as canetas autoritárias de juízes partidarizados, que causam prejuízo ainda maior às instituições democráticas. Não há ainda derramamento de sangue, mas há o derretimento acelerado dos direitos fundamentais, das garantias democráticas, que provoca hemorragia mortal ao Estado democrático de direito. Há um Estado de inserção informal, mas concreto.”

O ex-cara pintada e atual senador pelo PT do Rio de Janeiro, Lindbergh Farias, utilizou sua atuação no Senado (cargo com 8 anos de mandato), para candidatar-se ao governo do estado em 2014, sem correr o risco de ficar sem mandato. Com uma campanha que custou R$ 7,3 milhões, o senador teve 57,17% da campanha custeada pelas empresas listadas na Operação Lava Jato (segundo as doações declaradas ao TSE).

Os R$ 4,18 milhões recebidos pelo senador se dividem entre R$ 1,425 milhão da UTC, R$ 380 mil da Carioca Engenharia, R$ 1,425 milhão da empresa Queiroz Galvão e R$ 950 mil da empreiteira OAS.

Paulo Pimenta, PT

paulo_pimenta_agencia_camara_comissao_direitos_humanos_minorias_pt

“Não há nenhuma justificativa para o que está acontecendo. Se era a intenção da Justiça ouvir o ex-presidente Lula, bastava que ele fosse notificado. Jamais a Polícia Federal, fortemente armada, chegando em sua residência, trancando ruas, trancando o Instituto Lula, levando pessoas como se fossem criminosos. Nós vamos resistir e reagir a esse golpe.”

Para o deputado do PT gaúcho, Paulo Pimenta, a defesa do agronegócio é uma questão relevante a ponto de atrair interesse de empresas localizadas em São Paulo que desejem financiá-lo. Dentre elas, a Rio Claro Agroindustrial (R$ 95 mil) e a Agroenergia Santa Luzia (R$ 65,5 mil), ambas subsidiárias da Odebrecht Agroindustrial.

O grupo Odebrecht doou também R$ 30 mil ao deputado por meio da Braskem, uma joint venture entre Odebrecht e Petrobras, onde a estatal conta com 47% do capital votante, e a empreiteira 50,1%.

Os R$ 191,5 mil recebidos da empreiteira baiana e suas subsidiárias representam 9,68% do total arrecadado pelo deputado em sua campanha.

Benedita da Silva, PT

01-10-2013-Zeca-Ribeiro-7

“Diante desse ato bárbaro, dessa tentativa maior de golpe, daqueles que não ganharam as eleições, contra o nosso querido Luiz Inácio Lula da Silva. Estou convocando a população brasileira, que sabe que esse país mudou, que nós vivemos um estado democrático e que nós não aceitaremos que haja mais golpe neste país… Juntamente com o Partido dos Trabalhadores e com os setores progressistas e com os brasileiros e brasileiras que não aceitam mais o golpe, vamos para as ruas. Vamos manifestar neste momento a nossa indignação. Eles não passarão, eles não darão um golpe no país, porque nós estaremos juntos.”

A ex-governadora do Rio de Janeiro elegeu-se deputada em 2014 por meio de uma campanha “modesta”, que arrecadou R$ 721,41 mil, em boa parte por repasses do diretório nacional.

Dentre os financiadores da campanha da ex-governadora, a empreiteira Setal destaca-se, com R$ 100 mil, por meio de sua subsidiária, Energex (R$ 50 mil), além da Toyo Setal (R$50 mil). Além das duas subsidiárias do grupo envolvido na Lava Jato, a campanha bem sucedida à deputada de Benedita contou com R$ 190 mil do empresário Walter Guimarães Morais Junior, dono da Zadar construções, uma das responsáveis por realizar as obras para as Olimpíadas cariocas com dispensa de licitações, em um contrato superior a R$ 66 milhões. 

Nilto Tatto, PT

img2016021182603036031

“Os golpistas não conseguiram se controlar, perderam as estribeiras. A decência e o respeito para com as instituições é pouco, frente à vontade incontrolável de fazer um espetáculo de coerção ao ex-presidente Lula. Não havia nada que justificasse esta ação no Instituto Lula e na residência dele. Nada. A não ser a tentativa de destruir a imagem de uma das principais lideranças mundiais.”

Com 30,4% de sua campanha custeada por empreiteiras, o deputado paulista Nilto Tatto recebeu ao todo R$ 555,73 mil de empreiteiras ligadas à Operação Lava Jato, sendo R$ 95 mil da UTC Engenharia, R$ 132 mil da Galvão Engenharia, R$ 100 mil da Carioca Engenharia, R$ 19 mil da Braskem (pertencente à Petrobras e à Odebrecht) e R$ 209 mil da Andrade Gutierrez.

José Guimarães, PT

guimaraes

“Foram além do limite, e a militância do PT tem que reagir. Em nome da democracia temos que dizer ‘não’ ao golpe. A agenda do país mudou, e temos que ter uma agenda de combate ao golpe iniciado pela oposição. Nós vamos incriminar a oposição por ferir a soberania popular.”

O deputado cearense e líder do governo na Câmara, José Nobre Guimarães, ficou nacionalmente conhecido ao ver um de seus assessores parado em um aeroporto tentando embarcar com dólares na cueca. O caso chegou a provocar a renúncia do irmão de Guimarães, José Genoíno, da presidência nacional do PT, em 2005. Em junho de 2012, porém, o STJ considerou não haver ligações do deputado com o caso.

As ligações de Guimarães são claras, no entanto, em relação a suas declarações recentes de que o país precisa de “mais governo e menos mercado” para enfrentar a crise. A despeito da sua preferência pelo Estado, Guimarães financiou sua campanha por meio de doações de empreiteiras como a Engevix (R$ 95 mil), e a Andrade Gutierrez (R$ 190 mil), que juntas representam 17,7% do total arrecadado pelo deputado na última eleição.

Zeca Dirceu, PT

zeca-dirceu-Beto-Oliveira-agencia-camara

“O que ocorre com Lula hoje é uma repetição dos absurdos cometidos com várias outras lideranças do PT. A palavra de um delator vale para a imprensa como ferramenta para denegrir, distorcer e até condenar. Em qualquer lugar do mundo onde existe justiça de verdade, condenações só ocorrem dentro do legítimo estado de direito, com denúncias baseadas em provas e não apenas em delações, e sem vazamentos seletivos e pressão do judiciário.”

O deputado e filho do ex-ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, elegeu-se deputado pelo Paraná em 2014, em uma campanha com receitas de R$ 2 milhões, sendo R$ 950 mil, ou 47,5% delas, de empreiteiras.

A empreiteira UTC, do empresário Ricardo Pessoa, que hoje divide a carcaragem da Polícia Federal em Curitiba com o pai do deputado, doou R$ 95 mil; outros R$ 95 mil fora doados pela Carioca Engenharia, R$ 190 mil pela construtora Etesco e R$ 570 mil pela empreiteira Engevix.

Zé Geraldo, PT

LBJR_sessao-do-conselho-de-etica-da-Camara-dos-Deputados-em-desfavor-de-Eduardo-Cunha_17022016005

“Tudo combinado: vazamento de uma delação inexistente, com acusações contra Lula e com forte repercussão na mídia, e o bote final de Moro! Golpe!”

Para o deputado paraense Zé Geraldo, as ações da operação Lava Jato tratam-se de uma espetacularização e clara “perseguição ao ex-presidente Lula”. A defesa do deputado, porém, restringe-se ao ex-presidente, nenhuma citação a seus financiadores – OAS  e Engevix, que doaram em 2014, 18,91% do total arrecadado pelo deputado, ou R$ 50 mil e R$ 95 mil respectivamente.

Zé Geraldo é mais dos onze nomes aqui listados. Todos pertencentes à base do governo. Todos lutando contra aquilo que eles entendem como um “golpe”. Todos, não por acaso, financiados pelas empresas que a Lava Jato hoje denuncia.