Esqueça os petistas e os tucanos. A maior vergonha de nosso tempo tem outro nome: é o isentão.

É, eu entendo. Você provavelmente não possui identificação com qualquer partido político brasileiro. É cada vez mais difícil ter conexão com as ideias defendidas por eles, não é mesmo? E olha que já são 35 pedindo a sua atenção a cada dois anos – alguns dos quais eu aposto que você sequer ouviu falar, como o Partido Republicano da Ordem Social ou o Partido da Mulher Brasileira (que de mulher tem quase nada: dos seus 17 parlamentares, 15 são homens). Os partidos definitivamente vivem num buraco sem fundo. Segundo o Datafolha, 91% dos brasileiros não confiam neles. É a maior crise de representatividade que se tem notícia desde a redemocratização do país. E não é por acaso.

O cenário é generalizado. Ninguém escapa. Faça a sopa de letrinhas que quiser na hora de formar o nome da agremiação: junte o p com o s, tire o s, acrescente o t, coloque ou não o b no final. Tanto faz. Todos os partidos estão abraçados na mesma cova.

E é nesse cenário que você se encontra nesse momento: seguramente preocupado com a crise econômica que ao final do mês transforma cada nota na sua carteira numa heroica sobrevivente, e provavelmente insatisfeito com a classe política brasileira, independente das siglas ou das ideologias que elas juram defender. Pra você, arrisco dizer, não existe qualquer messias ou salvador da pátria ao final dessa história. Aécio, Lula, Cunha, Dilma, FHC. Pouco importa. Caso qualquer um desses nomes surja envolvido num escândalo com a justiça que eventualmente termine em prisão ou perda de mandato, eu poderia apostar que você daria de ombros à possibilidade de ir às ruas protestar, não é mesmo? A razão disso: você provavelmente não é desses que analisa a filiação partidária antes de acatar se a justiça é justa ou não – tampouco se sente constrangido quando um político toma conta das páginas policiais.

A palavra correta aqui é isenção. O dicionário a traduz como um desprendimento moral. É a ideia de que você não tem rabo preso na hora de falar sobre um determinado assunto. Se o político A, do partido B, foi pego com a boca na botija, pouco importa a condição do político C, do partido D. À isenção, não existe uma moral seletiva, ou a possibilidade de atenuar a responsabilidade de uma pessoa pelas ações de outra. Políticos pegos com a boca na botija são criminosos, independente das ideias que você defende.

Nos últimos tempos, porém, como um efeito desse cenário onde a isenção possui um alto padrão moral nas discussões políticas, quanto mais risível se tornou a ideia de defender publicamente as ações de um governo tão impopular, mais comum foi encontrar um típico muito específico de partidário, camuflado atrás de um conceito de isenção que não se sustenta a um olhar mais apurado: a particular espécie do isento governista.

Sim, você sabe perfeitamente de que tipo estou falando. O isento governista é um desses fenômenos que escancaram a capacidade de potencializar o cinismo que a política tem. Caso ainda não tenha ligado o nome ao sujeito, separei algumas frases que entregam sua condição.

1. “Não sou petista, mas…”

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Essa é clássica. Normalmente o discurso se inicia com ela. A ideia é mostrar independência e desprendimento, como se o isento governista fosse uma voz politicamente consciente, acima do bem e do mal das picuinhas eleitoreiras – quando seu único interesse, longe disso, é cumprir o papel que lhe cabe na defesa do governo.

O isento governista não tem vergonha alguma em assumir sua condição de não-petista, ainda que todos saibam qual partido ele costumeiramente apoia. Mas isso pouco importa: esconder sua identidade partidária é apenas um protocolo para cuspir uma moralidade que chame atenção ao discurso em defesa do partido que ele finge não defender; um mise-en-scéne.

“Eu nem sou um eleitor habitual do PT. O meu candidato a deputado não é do PT”, diz o jurista Celso Antônio Bandeira de Mello, antes de iniciar mais um longo discurso isento governista à publicação Rede Brasil Atual. “A operação contra Lula é confissão de medo da elite brasileira”, continua. “Esse peso se restringe à chamada classe média, sobretudo a classe média alta, que é uma gente, eu diria, lamentável. A classe média alta é invejosa. Não se satisfaz em estar bem. Ela quer que os outros estejam mal para se sentir superior. Já pensou o sujeito que faz universidade, consegue título de mestre, de livre-docente, de titular, e vê que para o mundo ele vale muito menos do que um operário? É humilhante, não é? Eles se sentem humilhados com a presença do Lula.”

Assim, apesar da falsa ponderação inicial, o isento governista segue o script padrão: um discurso construído no coração do partido, passado adiante por liderança políticas, sindicais e estudantis, repetido de forma bestializada pelas redes sociais. E é aí que ele segue para cumprir a segunda parte de seu papel.

2. “E o Aécio?”

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Eis a pergunta que não quer calar. Longos anos dividindo para conquistar fez com que a mentalidade política do governismo não conseguisse escapar da mais furada das falsas dicotomias: a ideia de que quem não é petista, é tucano. Aos isentos governistas, incluir a oposição em escândalos é uma espécie de tábua de salvação, um habeas corpus na defesa do governo, um salvo-conduto para o peleguismo – como se as ações de um grupo de políticos estivesse intimamente ligada as de outro.

Para o isento governista, tão costumaz em seguir cegamente a figura de políticos, imaginar que possa existir uma oposição civil que não possua qualquer identidade com um partido ou uma figura pública é uma tarefa árdua. Aqui mesmo, constantemente passamos por isso: a cada vez que publicamos algo questionando a atuação do governo federal, a acusação que recebemos em troca é a de que somos tucano, não importa o quão distantes do tucanismo estejamos (e nós criticamos o partido, entre outras tantas vezes, aqui, aqui, aqui e aqui).

Dessa forma, para não parecer irracional ou partidário à polícia ideológica dos isentos governistas, não raramente é preciso construir uma espécie de mea culpa politicamente correto, com um enorme parêntese introdutório acusando todos os líderes da oposição, antes de iniciar qualquer discurso contrário ao governo. É isso ou ser condenado à categoria dos indignados seletivos.

Afinal, por que os escândalos da Lava Jato envolvendo o PT chamam mais atenção que os escândalos estaduais tucanos? Por motivos evidentes. Como escrevi aqui: porque são esquemas envolvendo a máquina pública federal, que é do interesse de todo mundo – e com valores muito maiores. E a máquina pública federal é controlada em sua maior parte pelo PT, não pela oposição. Para o ex-presidente do Tribunal de Contas da União, o ministro Augusto Nardes, o escândalo na Petrobras é o maior esquema de corrupção da história do país. Para o Ministério Público Federal, a Lava Jato é a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro que o Brasil já teve. É muita grana. Segundo o coordenador da força-tarefa da operação, as propinas pagas desviadas dos cofres da Petrobras somam mais de R$ 6,2 bilhões (valor 60 vezes maior que o escândalo do Mensalão).

Como os valores envolvidos e o nível de complexidade do esquema demonstram: se a corrupção é uma arte desempenhada inegavelmente por todos os partidos do país, ninguém constrói esse quadro com a excelência do PT. E é por isso que ele está no coração da indignação nacional.

3. “Com o Aécio seria pior.”

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Esse é um perfil de humor.

Assim, a cada vez que um tucano estrela um escândalo, a impressão que o isento governista tem é de que pode gritar a plenos pulmões a máxima que justifica seu estado de espírito isentão: 

– Com o Aécio seria pior.

Sim, caro eleitor. Essa não apenas é uma verdade irrepreensível, independente dos cenários, como alimenta cínicos discursos em defesa daquele que é considerado o governo mais impopular da nossa história republicana.

Dessa forma, a desculpa de que o governo anterior era o culpado por todas as mazelas do país – algo bastante presente nos palanques até pouco tempo – se transforma na inevitabilidade de um governo que sequer existiu, superar o atual estado das coisas. E aqui, não importa quantos desastres econômicos, políticos e sociais ocorram. Não importa quantos escândalos ainda venham a surgir. O atual governo, por pior que seja, é incapaz de ser superado por sua oposição. E isso por si só justifica sua defesa.

4. “Espero que todos sejam condenados. Não apenas o PT.”

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Não raramente, o isento governista questiona o papel das instituições do país. Para ele, há dois pesos e duas medidas nas investigações de corrupção. Há de um lado o PT, duramente combatido. E há os outros partidos, esquecidos. Basta um olhar mais apurado, no entanto, para entender que as coisas não funcionam exatamente dessa forma.

A operação Lava Jato investiga diferentes políticos, de diferentes partidos – como Eduardo Cunha (PMDB), Renan Calheiros (PMDB), Fernando Collor (PTB), Romero Jucá (PMDB), Ciro Nogueira (PP), e tantos outros. Políticos como Pedro Corrêa (PP) e Luiz Argôlo (Solidariedade) já foram até presos pela operação. O Partido Progressista (PP) é o campeão entre os políticos investigados. Mas então, por que a desculpa de que só o PT é investigado insiste em aparecer nos discursos dos isentos governistas?

Porque pouco importa que todos os partidos da base do governo estejam no escândalo de uma estatal controlada há mais de uma década pelo mesmo governo. O que importa é condenar a oposição.

Assim, se os tucanos não estrelam escândalos com números de corrupção iguais aqueles que o PT é acusado – como se houvesse uma sincronicidade na corrupção, como se os escândalos entre oposição e situação se transformassem num jogo de soma zero – há um tratamento desigual da justiça e da imprensa, que realiza a cobertura desses eventos.

A ideia aqui? A mesma do ponto anterior. Banalizar a discussão e transformar tudo numa mera disputa entre tucanos e petistas, o velho nós contra eles – fazendo com que a desgraça do primeiro seja a salvação do segundo. Assim, se há escândalos de corrupção entre os tucanos – e há – logo tudo é permitido: não há razão para se escandalizar com o governo, que não faz nada diferente daquilo que vem sistematicamente sendo feito por outros partidos, e na mesma proporção (algo que não faz o menor sentido).

A ideia do isento governista é desacreditar que exista outra opção viável para o país. Assim, tudo se restringe a uma falsa dicotomia emburrecedora entre dois partidos nascidos nos mesmos porões, com visões de país muito parecidas – e que, não por acaso, não comungam de qualquer identificação por aqueles que agora prometem ir às ruas (e é exatamente por isso que escrevi um manifesto aqui pedindo a renúncia dos tucanos). Ter o PSDB como oposição só interessa a um grupo de pessoas: os petistas.

5. “Não sou petista, mas esses protestos contra o governo são ridículos.”

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Esse é o grande final. A cereja do bolo. A última etapa do processo.

Aqui, após fingir não ser um partidário do governo, transformar os tucanos na única via possível ao petismo, condená-los e defender sistematicamente o governo com os mesmos discursos utilizados da cúpula do partido para a base, o isento governista se transforma num meticuloso crítico de protesto. De todos os tipos de protestos? Nada disso. Dos protestos contrários ao governo – que viram uma espécie de carnaval fora de época, uma micareta de coxinhas ignorantes.

Manifestações a favor do governo no ano passado renderam baterias de escola de samba, churrasco, carros de som tocando músicas populares, militantes pagos para protestar, barraquinhas vendendo comidas e bebidas, como uísque e cerveja, e um clima de absoluto desprendimento com o debate público. Mas essas, ao contrário dos protestos de oposição, são encaradas pelo isento governista, quando não completamente ignoradas em sua crítica independente, como símbolos de uma resistência popular – ainda que rendam um número incomparavelmente menor de populares, devidamente recompensados para erguer suas faixas e bandeiras.

A ideia em focar suas críticas nas manifestações contrárias ao governo segue o mesmo padrão das anteriores: deslegitimar o sentimento de insatisfação com o governo – que toma a esmagadora maioria da parcela mais pobre do país (não por acaso, como apontam diversas pesquisas de opinião, o apoio para o impeachment é maior entre os mais pobres que os mais ricos). Para o isento governista, protestos de oposição, ainda que movimentem milhões de pessoas de diferentes classes sociais em diferentes regiões do país, são um retrato exclusivo de uma população de classe média alta, ignorante, branca, autoritária e vexatória, que não gosta “de ver pobre andando de avião”.

Assim, questionar o governo nas ruas se torna uma chaga, uma doença, estupidamente vergonhosa, pertencente aos mais ricos. Inexoravelmente, os protestos ainda reúnem dois tipos muito particulares de ricos: os tucanos e os defensores da ditadura militar (quando não os tucanos que defendem a volta da ditadura militar). Eis o combo do nós contra eles do isento governista.

Dessa forma, escondendo-se atrás de uma falsa noção de independência, a trupe que defende o governo escondido atrás de sofismas, se transforma num retrato de nosso tempo – desavergonhadamente cínico e pelego.

Por isso, a partir de hoje esqueça os petistas e os tucanos. A maior vergonha de nosso tempo tem outro nome: é o isentão.

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