Esses artistas apoiam Dilma. E estrelaram projetos que receberam essas verbas públicas.

Anteriormente restritos aos jornais e programas de televisão, os chamados “formadores de opinião” tornaram-se figuras cada vez mais constantes em tempos de redes sociais. Em uma época onde cada vez mais nos acostumamos com a ideia de que todo mundo deve ter uma opinião a respeito de tudo a todo instante, encaramos com naturalidade que humoristas, músicos e atores participem do debate político do país não apenas como cidadãos, mas como pessoas cuja fama confere validade ao que é dito.

Durante a campanha presidencial de 2014, presenciamos todas estas opiniões se transformarem em apoios formais. Artistas das mais variadas áreas assinaram um manifesto em apoio à candidata Dilma Rousseff. Acostumados à ideia de que a mídia – e aqueles que emitem opinião através dela – deva agir de forma isenta, quase nunca paramos para pensar que, como qualquer um de nós, tais formadores de opinião pensam também naquilo que é melhor para si.

Entre 2003 e 2014, as autorizações para a captação de recursos apenas pela Lei Rouanet atingiram R$ 61,27 bilhões. Os valores captados efetivamente, entretanto, são mais modestos: R$ 15,758 bilhões. Deste valor, em 2014, por exemplo, nada menos do que 50% ficaram com apenas 3% dos proponentes. Ainda que todos estes valores sejam legais, é natural que qualquer pessoa se questione até onde tamanha quantidade de recursos é capaz de formar a opinião daqueles que vivem de formar opinião.

Leia também a primeira parte dessa reportagem clicando aqui.

Abaixamo, listamos alguns destes formadores de opinião conhecidos por apoiar publicamente o governo.

Chico Buarque

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Consagrado como cantor e compositor, Chico Buarque é figura carimbada em 10 entre 10 manifestos ou cartas de apoio à presidente Dilma. Anti-impeachment, Chico assinou, entre outras coisas, o manifesto em apoio ao ex-deputado e condenado pelo mensalão José Genoíno.

Suas relações com o governo são relativamente próximas. Sua irmã, Ana de Holanda, já foi ministra da Cultura, por exemplo. Mais próxima ainda é a relação de Chico com a Lei Roaunet e a Agência Nacional do Cinema, a Ancine. Seu irmão, Lula Buarque, recebeu autorização da ANCINE para captar R$ 10 milhões para gravar o filme baseado no livro “Leite Derramado” (do próprio Chico). Sua namorada, Thaís Gulin, recebeu da Lei Rouanet autorização para captar R$ 801 mil para produzir seu terceiro CD (projeto 138444), além da sua turnê. O documentário sobre Chico, “Chico: O Artista e o Tempo”, por sua vez, recebeu outros R$ 4 milhões de autorização através da Ancine, sendo parte do valor destinada a pagar direitos autorais.

Chico não utiliza verba da Rouanet para seus shows ou discos. Os recursos, porém, estão nas mais diversas obras que cercam o cantor, como a tradução de seu livro para o coreano, que levou outros R$ 7 mil em patrocínio da Biblioteca Nacional.

Wagner Moura

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Estrela em ascensão em Hollywood e no mercado americano, Wagner Moura não abandono o cinema nacional, onde se consagrou como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite. Através da O2, produtora do cineasta Fernando Meirelles, Wagner deve estrear em breve como diretor. A obra? “Marighella”.

Recentemente, o ator – e agora diretor -, mostrou o quão polêmico deve ser o filme, declarando que “a direita burra achará que Marighella foi um terrorista”. Marighella como se sabe, foi um revolucionário brasileiro, autor do livro “Mini-manual do guerrilheiro urbano”, onde declara que “o terrorismo é uma arma que o guerrilheiro urbano não pode abandonar”.

Moura faz parte do recém instaurado “Conselhão” da presidente Dilma, que envolve sindicalistas, empresários e artistas. O ator é conhecido pelo seu apoio constante a candidatos do PSOL, em especial ao deputado Marcelo Freixo. O ator também já declarou considerar o movimento de impeachment um “maniqueísmo”, “movimento de elite, de gente branca”, além da sempre presente acusação de golpismo.

Seu filme sobre Marighella deverá contar, além do apoio do governo petista da Bahia, com R$ 10 milhões em autorizações da Ancine para captar recursos, sendo R$ 3 milhões em investimento direto da agência.

Gregório Duvivier

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O ator e comediante Gregório Duvivier ganhou projeção com o lançamento do canal do youtube “Porta dos Fundos”. Com a fama, tornou-se também colunista do maior jornal do país, a Folha de São Paulo. Em sua coluna, Gregório costuma criticar movimentos a favor do impeachment e aquilo que ele entende como “golpismo” de uma direita burra e autoritária. Recentemente, o ator chegou à conclusão, em uma entrevista para a TV Portuguesa, de que “querem tirar Dilma para roubar mais”.

Há pouco tempo, Gregório teve alguns de seus tweets antigos expostos em uma coletânea que mostra toda sua opinião num período onde, para se dizer o mínimo, ele não era um entusiasta do governo Dilma. Em um deles, por exemplo, o comediante diz achar “que o filme do Lula não ganha o Oscar” porque “os jurados não vão aceitar Bolsa-Família”.

Recentemente, Gregório foi chamado para escrever crônicas e fazer vídeos com o intuito de “motivar” os funcionários do Banco do Brasil. O valor não foi revelado.

Flávio Renegado

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Para o rapper Flávio Renegado, os cerca de 1 milhão de manifestante que frequentaram os protestos na Avenida Paulista são “membros da Ku Klux Klan que batem panela”. A declaração, igualando os manifestantes brasileiros aos membros da organização racista que defende a supremacia branca fundada nos Estados Unidos, foi feita durante a apresentação do Criança Esperança 2015, na Rede Globo.

Em outra oportunidade, ao lado de Lula no palanque, o rapper acusou o candidato Aécio Neves de cheirar cocaína, evocando uma multidão que sob a complacência de Lula, em plena campanha eleitoral, decidiu gritar acusando o candidato adversário de ser usuário de drogas. Flávio também gravou um vídeo em apoio à candidata Dilma Rousseff.

O rapper recebeu autorização para captar recursos para a turnê de seu primeiro DVD, que percorreu 8 capitais. Os recursos autorizados somam R$ 389 mil (projeto 151644).

Jô Soares

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O humorista e apresentador Jô Soares tem se destacado pelas opiniões favoráveis ao governo e, em especial, à presidente Dilma. Jô, que comanda um quadro especial em seu programa para debater política ao menos uma vez na semana, já utilizou seu espaço na TV para declarar entre outras coisas que “José Dirceu é um homem de uma biografia inconstável”, e que não se pode pré julga-lo a despeito de Dirceu ser condenado por formação de quadrilha no processo do Mensalão.

Quando o assunto é Dilma, porém, Jô vai mais longe. Em um de seus programas, no auge da crise de popularidade enfrentada por Dilma, o comediante foi até o Palácio do Planalto entrevistar a presidente. O apoio de Jô à Dilma também rende opinião como as de que segundo o apresentador “paga-se pouco imposto no Brasil, visto que o país ainda precisa crescer bastante”.

Como diretor de teatro, Jô pode contar com o apoio de leis como a Rouanet, que o autorizaram a captar R$ 1,9 milhão para produzir a peça Troilo e Cressida, obra do escritor britânico William Shakespeare.