Fernando Haddad disse que gostaria de viver numa cidade sem carros. Nós mostramos como seria.

Fernando Haddad, prefeito de São Paulo, declarou ontem, num debate realizado no auditório da FAAP, que não descarta a “possibilidade de uma cidade onde ninguém tem a propriedade de carro nenhum”. O cenário, no entanto, é mais usual do que parece. E de modo especial do outro lado do mundo. Num lugar chamado Coreia do Norte.

Não há um mísero veículo circulando pela larga avenida. No coração do asfalto, posicionada no centro de um círculo branco, uma garota de azul insiste em gesticular para um trânsito imaginário com o seu bastão. É um dia absolutamente comum na vida do país mais isolado do mundo. Algumas nuvens pretas anunciam um temporal.

Nesse exato instante há míseros onze veículos disponíveis para cada mil habitantes na Coreia do Norte – todos devidamente pertencentes aos poucos estrangeiros residentes no país, a nata do Partido dos Trabalhadores e aos militares (a imensa maioria). Com uma das menores frotas do mundo, o número é trinta vezes menor que a proporção sul coreana e mais de setenta vezes menor que a norte americana. Há quatorze vezes mais veículos circulando diariamente apenas na Marginal Tietê, em São Paulo, do que em toda Coreia do Norte.

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No país sem liberdade de circulação, mulheres são proibidas de dirigir com a alegação de que provocam muitos acidentes. No entanto, há mais de 40 anos – sem energia suficiente para ser gasta com luxos como semáforos – são as responsáveis pelo controle do trânsito. Por gesticularem ininterruptamente mesmo quando não há um mísero veículo na via – rodopiando seus corpos esguios como se estrelassem uma companhia de balé do asfalto para uma escassa plateia – são vistas como exemplo de dedicação ao trabalho e amor ao Partido, e só abandonam o posto em fortes dias de calor e chuvas intensas. Ser uma controladora de trânsito é um sonho inatingível para a imensa maioria das mulheres de Pyongyang. As com sorte e beleza suficientes para o cargo muitas vezes acabam em cartazes no cinema do país.

Há meros 724 km de estradas pavimentadas na República Democrática Popular da Coreia; número 115 vezes menor que na Coreia do Sul. Distante do glamour orwelliano da capital e seus arredores – que recebe em quase sua totalidade os 25 mil carros que circulam no país – a maior parte das estradas são de terra, brita ou cascalho, muitas das quais construídas com largas faixas para abrigar tanques e aviões militares em períodos de guerra. Como encontrar um veículo circulando numa estrada é uma cena rara, alguns motoristas solitários buzinam enlouquecidamente quando avistam outro veículo. A cena pode ser vista mesmo quando a distância entre eles ultrapassa um raio de meio quilômetro.

Além de uma carteira de motorista, os norte-coreanos precisam de um certificado de formação de condutores (renovado todos os anos), uma autorização de mobilização militar (para o transporte de soldados em tempos de guerra), um documento de validade de combustível (um certificado confirmando que a gasolina foi comprada de uma fonte autorizada) e um certificado de mecânico (para provar que o carro está em bom estado de funcionamento). Há poucos postos de gasolina no país e o combustível é um bem escasso. Não é incomum encontrar cidadãos norte coreanos sugando o combustível de carros estacionados com a boca para trocar por dinheiro. Quando pegos, podem ser espancados até a morte.

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Num país organizado socialmente através de 3 grandes classes consanguíneas, com mais de 50 subgrupos determinados pelo Estado, há usualmente 3 faixas nas ruas de Pyongyang para a locomoção de cada classe. A primeira faixa está reservada para os altos funcionários do Partido, com permissão para dirigir na velocidade que desejarem. Para os reles mortais, os limites são de 70km/h, 60 km/h e 40 km/h – para a primeira, segunda e terceira faixa, respectivamente. Os pertencentes à terceira faixa não possuem permissão para mudar de pista. Enquanto no restante do mundo os limites de velocidade funcionam como imposições de segurança, na Coreia do Norte – mesmo com a maioria dos veículos nas mãos de uma pequena elite – até as estradas servem para reforçar a hierarquia social.

Na capital, duas linhas úmidas e mal iluminadas de metrô, construídas nos áureos tempos em que a grana soviética pintava as caras no país, servem diariamente um quarto da população local. Nas ruas, disputados em longas filas, os ônibus são quase todos herdados da antiga Alemanha Oriental e os bondes elétricos usam tecnologia tcheca. Alguns dos mil Volvo 144s – comprados da Suécia na década de 70 e que até hoje não teriam sido pagos – são usados como táxis. Uma viagem de ônibus ou metrô custa suados US$0,05. Um quilômetro rodado num táxi pode custar até dez vezes mais. Com um salário mínimo de cerca de US$50, a maior parte da população prefere se locomover a pé ou de bicicleta. Para andar de bicicleta também é necessário um registro específico e as mulheres ainda são proibidas de circular com elas na capital do país.

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Distante desse universo, a família Kim desenvolveu um verdadeiro fascínio pela Mercedes-Benz – marca alemã que historicamente exerce uma paixão peculiar em ditadores, como Hitler, Fidel Castro, Pol Pot, Leonid Brejnev e Saddam Hussein. Kim Il Sung, Presidente Eterno da Coreia do Norte, encontra-se atualmente embalsamado no Palácio Memorial de Kumsusan próximo à sua Mercedes 500 SEL. E a paixão pela estrela de três pontas foi transmitida de pai para filho. Apesar das sanções econômicas impostas pela ONU, que há décadas baniram a venda de itens de luxo no país, segundo relatos de um ex-assessor para compras, Kim Jong-Il acumulou mais de US$20 milhões em carros da Mercedes-Benz. E boa parte com dinheiro de ajuda humanitária. No livro “Escaping North Korea: Defiance and Hope in the World’s Most Repressive Country“, o autor Mike Kim relembra um desses casos:

“[Em 2001], enquanto as Nações Unidas preparavam uma ajuda de emergência no valor de US$ 600 milhões para o país, Kim gastou US$20 milhões importando 200 das mais novas e caras… Mercedes, que ele distribuiu como prêmio a seus seguidores depois do teste de lançamento de um novo míssil de longa distância sobre o Japão.”

Em 2010 a cena se repetiu: Kim presenteou oficiais do alto escalão com 160 sedãs da marca. Um ano antes havia importado duas limousines Mercedes-Benz S600 Pullman Guard por US$3,1 milhões – quantia que poderia ter sido usada para comprar 13 mil toneladas de milho para alimentar a faminta população norte coreana.

As forças que regem o país mais fechado do mundo possuem suas prioridades. E sem carros para os mortais. Como no sonho distópico de Fernando Haddad.