Fui aluno de Marilena Chauí. E isso é tudo que aprendi com ela.

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A primeira vez que vi Marilena Chauí foi no segundo semestre da faculdade de Filosofia da USP, em 2004. Diferentemente das outras matérias que eu já tinha tido, a aula de Marilena tinha um quê especial, provocava um frisson. A sala cheia. Eu já tinha ouvido falar dela, tinha lido alguns xeroxes de um livro dela (Convite à Filosofia) no colegial; mas quem lembra do que aprendeu no colegial? Na USP, sua verdadeira casa, eu aprendia que ela, mais do que uma filósofa badalada, era uma popstar da intelectualidade nacional.

Um aluno matriculado como eu tinha dificuldade de achar lugar para sentar naquela sala de quase 100 lugares. Era tanta gente interessada em Espinoza! O que será que ela tinha de tão especial? Logo descobri que as multidões que lá iam assistir – quem chegava tarde ficava de pé à porta – não queriam realmente ler um filósofo holandês judeu de leitura bastante difícil (ao menos para um aluno de segundo semestre!) do século 17. O interesse ali era a própria Marilena e as aulas introdutórias de seu curso, antes dela começar a ler o tal do Espinoza.

Espinoza foi, a seu tempo, um crítico da religião e de sua influência na política. Propunha resolver todos os problemas da conduta humana de forma puramente racional, dedutiva, geométrica. Marilena, naquelas aulas introdutórias, também fazia pouco da religião – ou ao menos dos três grandes monoteísmos, cristianismo, judaísmo e islã, dos quais ela zombava sem dó (especialmente do primeiro). Mas ao invés de adotar o tom racional, frio e árido do filósofo do século 17, sua exposição era um show de retórica bombástica, mostras de indignação e piadas, aos quais seu grupo de seguidores ria religiosamente.

A tese de Marilena na introdução de seu curso era simples: cristianismo, judaísmo e islã estavam, nas últimas décadas, ficando mais radicais, mais conservadores. E a causa disso era o avanço do capitalismo. O capital, além de explorar os pobres ao redor do mundo, era também, em última análise, o responsável pelo 11 de setembro. Demorei para entender como o capital conseguia fazer tudo isso. Logo concluí que, para ela, “capital” significava algo como uma esfera de raios que atrai e consome tudo à sua volta.

Eu não era um observador neutro. Como católico recém-convertido e defensor do capitalismo (muito antes de haver grupos estudantis liberais, muito antes de alguém ter ouvido falar em “Mises” em qualquer faculdade), aquelas aulas eram uma provocação direta. Os heróis de Marilena – a Teologia da Libertação, Cuba – eram os meus vilões. Não tentei debater; fiz uma ou outra intervenção. No geral, mais do que os argumentos dela, marcaram-me as tentativas constantes de ridicularizar e demonizar tudo aquilo de que ela discordava. Respeito com as crenças alheias? Não aqui!

Marilena tem seu valor como acadêmica. Não é nem de longe uma referência mundial sobre o Espinoza, mas tem um trabalho sério de análise. É em seu outro papel, o de intelectual pública, que ela realmente adquiriu a celebridade que tem. E não lhe falta talento. Lembremos que se trata de uma intelectual que, acusada de maneira bastante convincente de plágio por José Guilherme Merquior, conseguiu levantar uma legião de defensores e acabou transformando a acusação em um debate sobre a “tênue” fronteira entre a influência intelectual e a cópia direta.

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É um fato que poucos catedráticos têm a capacidade de exercer também a função de intelectual. A maioria prefere ficar restrito à função acadêmica, quase nunca se aventurando para fora dos muros universitários. Nesse sentido, é positivo que Marilena faça essa ponte entre mundo do intelecto puro e vida da sociedade. É uma pena que ela submeta sua voz pública a uma ideologia tão retrógrada quanto o socialismo e a um projeto de poder tão cínico quanto o PT.

Há uma percepção de que o ensino de filosofia no Brasil é muito ideologizado: que os professores usam sua cátedra para propagar marxismo rasteiro aos estudantes. No que diz respeito à Faculdade de Filosofia da USP, isso não é verdade nem de longe. A regra na USP é outra: cada professor fechado dentro do texto filosófico ao qual lhe cabe expor, com bom rigor acadêmico, mas sem nenhuma tentativa de relacionar aquilo à discussão filosófica contemporânea. Nesse sentido, aquelas aulas introdutórias da Marilena foram exceção. E quando o Espinoza começou de fato, foi-se embora toda referência ao mundo contemporâneo, a sala logo esvaziou e ficamos só os alunos regulares, boiando à deriva (pelo menos era o meu caso!), sem entender direito o pensamento daquele racionalista do século 17.

Quase não passei. No trabalho do fim do curso tirei 2,5 de 10. Na hora de refazer, não tive dúvidas: comprei alguns livros de comentadores e enchi o trabalho de citações, especialmente da própria Marilena. Foi o bastante para tirar um 6 suado e passar.

Isso se passou em 2004. Em 2005, nova aparição pública de Marilena. Ou melhor, não-aparição. Quando eclodiu o escândalo do Mensalão, ficou claro que o PT, essa comunidade santa que queria apenas promover o bem dos pobres, era tão corrupto e venal quanto qualquer outro partido. O esquema de compra de votos para garantir supremacia na Câmara dos Deputados era uma facada no coração de nossas instituições democráticas. Não que fosse novidade (lembre-se que Celso Daniel já tinha morrido há três anos). E qual a resposta da maior defensora do PT, da filósofa que via em Lula e seu partido a encarnação dos maiores ideais? O silêncio. Marilena, que escrevia no livro recém-lançado ‘O Silêncio dos Intelectuais’ sobre a perda do papel público do filósofo, se limitou a atacar a mídia e dizer que o Brasil vivia um “golpe branco”.

O petismo superou a crise do Mensalão. O crescimento econômico o fortaleceu, e sua consagração foi a eleição de Dilma, sucessora de Lula. Marilena abandonou o silêncio e voltou a colocar as asinhas de fora. Quando, graças ao alto preço de nossas exportações, milhões de pessoas deixaram a pobreza e ingressaram na classe média, Marilena estava lá para achincalhá-los. “Eu odeio a classe média”, “A classe média é fascista”, dizia a intelectual sobre todas aquelas pessoas que ascenderam na vida e ousavam não pautar seus valores pelo socialismo que a velha elite intelectual tentara incutir nelas.

Acontece que a ética petista seguiu corroendo as instituições brasileiras, até que a podridão ficou impossível de esconder. Com o desastre econômico que se seguiu à incompetência e à desonestidade na administração, a queda final do PT tornou-se quase inevitável. Nesse contexto, Marilena faz a única coisa que sabe fazer fora da universidade: acusar. Só que o buraco em que Dilma meteu o Brasil e o PT é tão fundo que a narrativa para defendê-la tem que necessariamente abrir mão de qualquer contato com a realidade.

O que aprendi com minha professora? Aprendi que no Brasil, infelizmente, a panelinha e a intriga política falam mais alto do que as ideias. Mesmo o departamento de filosofia de que ela faz parte rachou – a ponto de professores não se falarem – entre o “grupo da Chauí” e o “grupo do Giannotti”, por pura rivalidade política, disputa por pequenos poderes internos. Aprendi que ser um acadêmico não é a mesma coisa que ser um intelectual, e que ainda que a vida de intelectual pública seja menos rigorosa que a academia, ela também tem seus princípios e sua integridade, que podem muito facilmente ser abandonados quando se procura fama e poder.

Marilena não é uma pessoa sem méritos. É alguém capaz de abarcar grandes períodos do pensamento humano em sínteses sucintas, capazes de nos fazer pensar (coisa que vi em primeira mão quando fui seu aluno novamente, no mestrado). Que tenha usado sua capacidade intelectual e retórica para fazer a defesa vergonhosa do PT por tanto tempo é realmente um grande desperdício. Dizer, como ela fez na semana passada, que o juiz Sergio Moro foi treinado pelo FBI para entregar o pré-sal aos americanos é só a coroação da ideologia cega com a paranoia ridícula. O sono da razão produz monstros.

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