Há realmente motivos para ter orgulho de ser brasileiro?

O juiz apita. A bola rola. Não demora muito tempo, o coro se inicia.

Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.

Não é preciso muito esforço para detectar a origem do canto. Aquela é uma manifestação clara de identidade. Todos os rapazes que estão no campo lá embaixo, vestidos de amarelo, nasceram dentro de uma linha imaginária chamada Brasil. Graças a isso, alimentam características culturais, sociais e históricas que dialogam com as figuras da arquibancada. As consequências são previsíveis – é ver um brazuca chutando uma bola e a vitória dele se torna indiretamente uma conquista de milhões de pessoas que se identificam com a sua natureza e a sua origem.

A frase, no entanto, não é dita por acaso. No início do ano, mesmo em meio a todo caos político e econômico em que atravessa o país, uma pesquisa Datafolha apontou que 71% dos entrevistados disseram sentir orgulho de ser brasileiro (entre os jovens, outro estudo mostrou que esse número chega a inacreditáveis 89%). Quando questionados, em geral, as respostas apontam como motivo nossas riquezas naturais, a solidariedade da nossa gente e a ausência de guerras (numa pesquisa da CNT/Sensus, apenas 0,3% das pessoas apontaram a política como causa de orgulho). Ou seja, a grosso modo, é possível dizer que a maior parte das pessoas que nasceram dentro dessas linhas imaginárias possuem orgulho por conta disso. E ele não fica preso apenas ao futebol.

Mas há de fato boas razões para chegar a essa conclusão? Quer dizer, como é possível medir esse sentimento? Há alguma possibilidade de racionalizar o orgulho de ser brasileiro? Certamente não alcançaremos essa resposta sem apelar para outras inúmeras perguntas.

De fato, nós somos um país muito bonito, é verdade. Praias, florestas, campos, cidades. Mas se analisarmos os últimos dados da Organização Mundial do Turismo, veremos que mesmo nações em desenvolvimento como a Tailândia, o México, o Marrocos, a África do Sul, a Indonésia, o Vietnã, a Bulgária, a Tunísia e até a Argentina recebem mais turistas do que a gente. Qual motivo nos desabona, afinal? Não somos um país tão bonito assim como imaginávamos ou não sabemos acolher tão bem as outras pessoas?

Como é possível, aliás, também tratar nosso povo como pacífico ou solidário quando somos o país com o maior número de assassinatos do planeta? Não dá pra tapar o sol com a peneira: nós somos os líderes globais no quesito medo de tortura policial e mortes por bala perdida do continente; o terceiro mais violento contra jornalistas, o mais violento contra ambientalistas e o quinto mais violento no trânsito. Dá pra sentir orgulho pela ausência de guerras quando alimentamos uma guerra civil interminável que mata mais pessoas por dia do que o confronto entre Israel e Palestina, e outras disputas bélicas ao redor do mundo?

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E se você é mulher, encare o espelho. Há bons motivos para comemorar ter nascido no Brasil? Pense novamente. Nós somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo – em média, registramos uma denúncia de violência contra mulher a cada 7 minutos e um caso de estupro a cada 11 minutos (e como apenas de 30% a 35% dos casos são registrados, é possível que a relação seja de um estupro por minuto). Nos espaços públicos, nossas mulheres ainda ocupam o topo do ranking das mais assediadas em todo o planeta – e não é por acaso que o Brasil, considerado tão acolhedor, é o segundo destino mais perigoso para as mulheres viajarem em todo o mundo. Nós simplesmente não sabemos lidar com elas.

Certamente devemos nos orgulhar por essa nossa vocação empreendedora. Mas esse é apenas um lado da moeda: também temos a economia mais fechada do G20, somos o décimo país mais complexo do mundo para fazer negócios, o líder no ranking global de encargos trabalhistas e de burocracia fiscal, e o quinto menos competitivo do planeta. E aqui o que devemos fazer? Saudar nosso ímpeto empreendedor sobrevivente ou questionar a nossa incapacidade por eleger por tanto tempo autoridades políticas antiliberais que só nos prejudicam?

Você deve estar pensando: mas pelo menos nós somos uma população criativa, certo? É verdade, mas também somos o terceiro país mais ignorante do planeta quando o assunto é o que sabemos sobre nós mesmos e o segundo com o pior nível de aprendizado em matemática básica, ciências e leitura.

Por falar em leitura, aliás, se somássemos a população do Uruguai, da Nova Zelândia e da Irlanda, não alcançaríamos o número de analfabetos que temos por aqui (e isso para não falar dos analfabetos funcionais: segundo um estudo publicado em fevereiro pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa, 27% da nossa população pertence a essa categoria). No total, 50 milhões de brasileiros são analfabetos ou analfabetos funcionais – se nós reuníssemos todos eles e formássemos um país, ele seria o 28º mais populoso do mundo.

E dos que leem, quase ninguém lê de verdade. Um número assustador de 30% dos brasileiros afirmam nunca ter adquirido um único livro em toda vida. Nem os nossos professores leem: segundo o Ibope, quando questionados sobre o título do último livro lido, metade simplesmente respondeu “nenhum” e 22% citaram a Bíblia.

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A verdade é que se analisarmos qualquer ranking de educação ao redor do mundo, estaremos em maus lençóis. Nós definitivamente não sabemos nos educar. Também pudera. Somos os líderes globais em violência contra os professores e o país com o pior salário do mundo na categoria. E isso para não falar dos nossos alunos: eles são os mais indisciplinados do planeta (em média, cada professor brasileiro perde 20% das suas aulas lidando com bagunça na sala).

E toda essa indisciplina não nasce por acaso. De modo geral, nós temos uma grande dificuldade em lidar também com as nossas crianças. Não bastasse o fato de sermos o terceiro país onde mais crianças e adolescentes são assassinados em todo o mundo (a média é de 29 mortes por dia), registramos ainda três queixas de abuso sexual infantil por hora (um em cada quatro desses casos atingem crianças de até um ano de idade; e isso que apenas 10% desses casos são denunciados).

E tem o governo, claro, responsável por boa parte das nossas maiores vergonhas. Segundo um estudo do International Institute for Management Development publicado no início desse ano, ele é literalmente o pior do mundo. Nós temos o judiciário mais caro do Ocidente, o sistema de saúde mais ineficiente do planeta e o Congresso mais caro do mundo em comparação ao PIB. Não bastasse, somos também o país que oferece o menor retorno dos impostos ao cidadão – ou seja, nós não apenas pagamos muito imposto, nós não recebemos quase nada por isso.

A incompetência dos nossos políticos escancara outro grave problema: nós não sabemos nos organizar em sociedade. No índice que mede a qualidade da infraestrutura de um país, organizado pelo Fórum Econômico Mundial, nós ocupamos o vergonhoso 120º lugar em 144 posições possíveis, atrás de países como Etiópia, Suazilândia, Uganda, Camboja e Tanzânia. Só pra ter uma ideia, dos 29.165 quilômetros de malha ferroviária que o Brasil possui, apenas um terço é produtivo. Passados quase dois séculos, o número é equivalente ao período do Império no Brasil.

Nós não sabemos lidar sequer com o nosso cocô. Quase 100 milhões de brasileiros não possuem acesso à coleta de esgoto – e do esgoto coletado, apenas 40% é tratado. 17 milhões de pessoas (uma Holanda) não têm acesso à coleta de lixo e outras 4 milhões de pessoas (uma Croácia) não possuem sequer um banheiro em casa.

Por fim, há o orgulho que ficou escancarado na abertura e no encerramento das Olimpíadas: pela nossa cultura, a nossa arte, a nossa música, a nossa dança, as nossas roupas típicas. O baião, o samba, o frevo, o forró. E esse é certamente nosso ponto mais alto. Mas quanto, de fato, consumimos o que produzimos? Qual a razão para não valorizarmos nossos artistas? Por que, diferente do que acontece em outros países, boa parte deles morre sem reconhecimento e na sarjeta? Qual o motivo para o nosso mercado cultural ser tão dependente dos patrocínios de ações do governo e não conseguir se sustentar sozinho? Será que realmente valorizamos a nossa cultura de verdade ou tudo não passa de coisa pra gringo ver?

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E se não conseguimos justificar boa parte do nosso orgulho, deveríamos ter o oposto disso – vergonha de ser brasileiro? Ou então, quem sabe, usar tudo isso como desculpa para mudar de país e arriscar a sorte em outro canto do mundo? Nada disso. Somos naturalmente orgulhosos: não aceitamos jornalistas gringos expondo as nossas feridas; apontamos com muita frequência o dedo para os outros países para justificar os nossos problemas (“franceses fumam muito, americanos consomem muita coca-cola, ingleses são esnobes”); tratamos todas as críticas internas ao país como mero complexo de vira-latas, um comportamento depreciativo de povo colonizado. Mas oi fato é que é preciso uma boa dose de estupidez para não identificar a nossa posição no mundo, reconhecer que temos um caminhão de problemas e que é parte da transformação do país encarar suas mazelas da forma mais racional possível.

Quanto dos problemas citados acima é culpa dos nossos governantes? Muita coisa, é verdade. Mas há séculos alimentamos um sentimento no mínimo curioso: nós não confiamos nos nossos políticos, mas amamos a ideia de entregar boa parte das nossas decisões a eles. E isso é uma parcela infeliz do que somos. Nosso país foi construído com graves problemas institucionais, chagas que nos acompanham desde a colonização. Em geral, aceitamos a ideia que o governo tem um papel importante no combate às nossas grandes adversidades, da infra-estrutura precária às desigualdades sociais. O problema é que aparentemente essa ideia credita a ele continuar atuando gigante pela própria natureza, em setores injustificáveis, tributando e burocratizando como se não houvesse amanhã. E é aqui que mora o perigo.

Quanto disso faz sentido? Pouca coisa. Quanto mais nos orgulhamos da força de vontade da nossa gente, da sua criatividade, do seu poder em encarar os problemas com bom humor – aspectos genuínos na formação do povo brasileiro – mais terceirizamos suas decisões a figuras duvidosas de terno e gravata em Brasília, como se fôssemos todos estúpidos ou estivéssemos presos a uma distopia dos aspones.

O fato é que geramos os incentivos mais perversos do mundo burocratizando cada aspecto da vida humana: transformamos o jeitinho na única maneira de sobreviver a essa grande repartição pública chamada Brasil. E é essa malandragem institucionalizada a mãe de todos os nossos problemas. É ela a responsável pelo desdém com que tratamos boa parte das nossas responsabilidades, pela cultura do quem quer rir tem que fazer rir, pela corrupção endêmica e apartidária, pela Lei de Gerson. Estamos todos reagindo aos incentivos que recebemos. A boa notícia é que também somos indiretamente responsáveis por eles.

Ou a gente corta todos eles na carne, ou a gente continua mantendo esse orgulho preso aos estádios de futebol.

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