Leia esse artigo antes de reclamar dos preços dos ovos de páscoa

Ovo de Páscoa Alpino, 700g: R$ 65,00. 750g de Alpino em barras: R$ 26,80. Ficou indignado? É pra ficar. Pagamos mais de três vezes o preço do chocolate para tê-lo em formato de ovo. Tá certo que o formato diferente traz um prazer diferenciado, associações psicológicas, tem uma produção mais robusta, etc. Mas três vezes mais caro? Imagine o incremento na sua felicidade se, com o mesmo dinheiro, comprasse chocolate para durar até junho?

Algumas sórdidas pessoas defendem esse diferencial de preços. Dizem que uma casa é muito mais cara que a pilha de tijolos necessária para construí-la. Veja: construir uma casa exige conhecimento, tempo e dedicação. Já fazer chocolate em formato de ovo, para quem já sabe fazer chocolate, é fácil. Basta a fôrma do ovo. Além disso, barra e ovo satisfazem basicamente o mesmo desejo, ao contrário da casa e da pilha de tijolos. Não tem como defender, o preço é exorbitante, revoltante. O culpado por isso deveria se envergonhar.

E o culpado é você. Você, sem nenhuma coação ou coerção, compra um produto barato tornado caro exclusivamente por ter um formato bizarro. Você sai de casa, pega fila, abre a carteira e praticamente implora para a Cacau Show levar todo seu dinheiro. Sim, é isso mesmo que você faz, ainda que as fantasias que passam dentro da sua cabeça – e que você erroneamente considera serem seu “verdadeiro eu” – digam outra coisa. São seus atos que determinam o preço atual, e é com eles que você pode afetar o comportamento da empresa.

Nem todas as nossas ações, contudo, afetam-na. Deitar na cama e sentir raiva do preço do ovo? Isso não afeta o comportamento da empresa. Reclamar no facebook? Não afeta o comportamento da empresa. Ir ao mercado, comprar os ovos de presente e ainda levar um de Nhá Benta só pra você? Isso afeta. O ato mostra que, de acordo com seu próprio juízo, dadas as circunstâncias atuais, o ovo vale mais do que o preço cobrado. Ficar com aquele dinheiro e sem ovo é pior do que ficar com ovo e sem o dinheiro. Para a empresa, seu desejo é uma ordem. Ela fica sabendo, aliás, que cobrou pouco.

cau-pascoa-ovo-frutas-secasbx

Este é um bom momento para lembrar uma profunda verdade que só a ciência econômica traz pra você: o preço de um bem – seu valor no mercado – não tem nada a ver com os custos de produção. Barra e ovo, afinal, têm custos similares. O que define o preço é a escassez relativa do bem, ou seja, a importância que os consumidores dão aos desejos que ele é capaz de satisfazer. A relação de causa e efeito é o contrário do que a maioria pensa: é a expectativa de demanda pelo produto final que determina o valor dos insumos da produção. Se ano que vem, por algum motivo insondável, ninguém mais quiser chocolate no formato ovo, sabe o que acontece com o preço das formas para produzir ovos de Páscoa? Isso mesmo.

As empresas, essas malvadas, gostariam de cobrar ainda mais caro. Elas gostariam que todo dia fosse Páscoa e que os brasileiros fossem viciados em ovos de chocolate todos os dias do ano. Gostariam, só que não podem. Quem determina o que elas podem ou não cobrar são os desejos dos consumidores; se ela cobra a mais ou a menos, seu lucro cai. E como ela quer lucrar, isso não faz o menor sentido. Talvez o que realmente nos revolte não seja o preço em si, mas o que ele revela sobre nós mesmos: que estamos dispostos a pagá-lo.

O lucro significa que a empresa se antecipou a uma demanda real e relativamente pouco atendida da população. É também um convite para outros gananciosos malvados produzirem ovos. Por isso mesmo a produção artesanal e caseira tem crescido. Pequenas empresas e doceiros autônomos tentam entrar no jogo. Infelizmente não é fácil, primeiro por conta das regulamentações estatais feitas sob medida para as grandes corporações do setor alimentício: encarecem e dificultam a produção de modo que só os big players consigam se adequar às regras.

O outro fator nessa concentração do mercado em poucas marcas é, novamente, você. A maioria dos consumidores não quer fugir do tradicional e confiável. O ovo artesanal feito pela tia do coleguinha do filho é mais barato, quiçá melhor, mas vai saber… E se vier feio? E se for ruim? E se ficar parecendo que você não deu muito valor ao presente? Já se vislumbra uma Páscoa destruída, o sentimento do fracasso e outras coisas terríveis que é melhor nem pensar.

Por trás dessa necessidade de conseguir um chocolate de marca adequada e em formato de ovo para o grande dia (pois se adiasse em uma semana sairia muito mais barato), está um dos motores mais poderosos de nossas ações menos inteligentes: a introjeção da expectativa social.

ilustra-album-brincadeira-de-pascoa-1364236775317_956x500

Você, leitora, quando chegar o domingo, ficará desapontada se receber barras normais ao invés de um ovo; mesmo que sejam muitas. Não vai tirar foto pro Instagram. Os olhos do seu filhinho, pai, não irão brilhar, mesmo que você explique a esperteza do negócio. Ou melhor, me corrijo: talvez a criança, o homem e a mulher todos entendessem e até preferissem essa compra mais econômica e duradoura, mas o medo que você tem de fugir à regra, fazer menos que o socialmente esperado e ser julgado por isso falará mais alto.

Você poderia comprar barras. Poderia comprar depois do domingo de Páscoa. O prazer seria o mesmo e o rombo na conta muito menor. Mesmo assim, ainda nos próximos dias, antes do fatídico domingo, você estará lá no supermercado, lamentando a própria burrice, mas comprando. Sim, é burrice, não significa nada, é uma convenção arbitrária e cara; mas você não quer falhar; você precisa se adequar à expectativa alheia, ou melhor, à expectativa que você tem da expectativa alheia. Interesses poderosos se alimentam desse sentimento.

Por isso, deixo para você que se revolta com os preços dos ovos e quer ver mudança neste mundo meu apoio e também um conselho. Recomendo, aproveitando a data, um pouco da culpa católica. Enquanto estiver à caça do ovo ideal nestes dias que antecedem a páscoa, talvez quando for deixar para comprá-lo na sexta-feira santa, talvez até na manhã do domingo, oferecendo o dobro ou o triplo do preço já exorbitante, sentirá dentro de si aquele ódio amargo contra a ganância dessas empresas. Nesse momento, pare, medite na lição espiritual deste texto, bata no peito e repita comigo: mea culpa, mea maxima culpa.

Ou então você pode libertar sua mente e ter uma Páscoa em termos que façam sentido para você, aceitando de olhos abertos o preço das próprias escolhas. Pode ainda entrar na dança e aprender a fazer e vender seus próprios ovos de Páscoa ou criar novas e inesperadas formas de celebrar a data. E daí talvez você descubra a relação entre lucrar e não se curvar à expectativa alheia.