Mentiram (e muito) para você sobre a pobreza nos Estados Unidos

Elas estão em todos os lugares, especialmente nas publicações mais à esquerda do espectro político. Revelam uma realidade que a mídia tradicional insiste em esconder e expõem ao mundo as mazelas de todo um sistema econômico. Servem fundamentalmente para atacar aquele que é conhecido como o berço do capitalismo mundial e evidenciar o abandono que atinge milhões de trabalhadores, expostos a um sistema desumano, que privilegia alguns em detrimentos de outros. Sim, estou falando das manchetes que revelam ao mundo a acachapante pobreza presente nos Estados Unidos.

Nunca se deu conta? Elas estão por toda parte, em publicações como o Pragmatismo Político, a Carta Maior, o Diário Liberdade, o Opera Mundi… Há dezenas de milhões de crianças, idosos, mulheres, americanos de todos as cores e credos, completamente desamparados na mais abjeta pobreza yankee. Mas será que essa história revela toda verdade? Qual é o peso da pobreza na terra da águia de cabeça branca?

Antes de entrar nesse assunto, é preciso esclarecer certos pontos. O primeiro é: não existe nenhuma varinha mágica que cria riqueza a partir do nada. A riqueza é algo que precisa ser produzida, criada. E isso toma tempo. Há dois séculos,  o mundo – e os Estados Unidos de modo especial – vivem uma grande explosão de riqueza. Para os países mais ricos de hoje, mais de 90% da renda atual foi criada de 1820 para cá. Em termos históricos, houve um verdadeiro milagre. Apenas para se ter uma ideia, já em 1950, os americanos eram 7,6 centímetros mais altos e gastavam, em média, duas vezes mais em remédios do que em funerais do que em 1900, quando a proporção era inversa. Sim, em míseros cinquenta anos. Em 1955, aproximadamente 8 em 10 residências americanas possuíam água corrente, refrigeradores, luz elétrica, aquecimento central e máquinas de lavar roupa. Quase ninguém tinha isso cinco décadas antes.

Imigrantes poloneses trabalhando numa fazenda americana, em 1909.
Imigrantes poloneses trabalhando numa fazenda americana, em 1909.

De modo geral, nós estamos ficando mais ricos, mais saudáveis, mais seguros e bem informados. Em proporções globais, em 1820, 75% da humanidade vivia com menos de um dólar por dia. Passados quase 200 anos, o número de pessoas que sobrevive com esse valor ao redor do planeta caiu para 17%. E a tendência de queda só aumenta.

Um dólar por dia, aliás, era o indicador do Banco Mundial para sua linha de pobreza global – o indicador de pobreza absoluta mais usado no mundo – até 2008, quando a instituição resolveu adotar o valor de US$ 1,25. Em outros termos: atualmente é considerado abaixo da linha da pobreza alguém que trabalhe seis dias por semana, por 52 semanas, recebendo até US$ 390 ao final do ano. Em 2008, o governo americano divulgou que 39,1 milhões de americanos viviam abaixo da linha de pobreza. Bastante, não? Mas há porém: ganhando, em média, US$ 10.400 anuais. Um número 26 vezes maior que a medida do Banco Mundial, um verdadeiro abismo que vira um asterisco na propagação da desinformação. Os americanos considerados mais pobres estão anos-luz da maior parte dos habitantes mais pobres do mundo em desenvolvimento e dos americanos mais ricos de apenas algumas décadas atrás.

O cidadão americano médio é 7 vezes mais rico que o mexicano médio e 10 vezes mais rico que o peruano; é também cerca de 20 vezes mais rico que o morador médio da África subsaariana e quase 40 vezes mais rico que os habitantes dos países africanos mais pobres, como Etiópia, Mali e Serra Leoa. Dos norte americanos oficialmente considerados “pobres”, 99% têm eletricidade, água corrente, descarga e uma geladeira; 95% têm uma televisão; 92% têm forno-microondas, 88% têm um telefone; 71% têm ao menos um carro, 70% têm ar condicionado, mais de 60% têm TV a cabo e 42% moram em residências próprias. Repito: dos considerados mais pobres. A maioria esmagadora dos habitantes mais pobres do mundo em desenvolvimento não possuem esse conforto.

E não apenas os mais pobres do mundo em desenvolvimento. Atente para o gráfico abaixo.

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Nele, a população de cada país está dividida em 20 grupos de renda de tamanho igual, classificados por sua renda familiar per capita. Os números de rendimento familiar estão todos convertidos em dólares internacionais ajustados pelo poder de paridade de compra, uma vez que o custo dos produtos varia de país para país – o gráfico se ajusta para o custo de vida dos diferentes países. A constatação é acachapante: os 5% mais pobres dos Estados Unidos, aqueles que compõe o último extrato da pirâmide, a base com menor poder aquisitivo, têm uma renda maior que 68% da população mundial. Sessenta e oito por cento. Quase sete em cada dez pessoas no mundo são mais pobres que os mais pobres dos Estados Unidos.

Como diz o economista Branko Milanovic, autor do estudo:

“Sua renda, assim, depende fundamentalmente da sua cidadania, que por sua vez significa (em um mundo com tão baixa migração internacional) seu local de nascimento. Todas as pessoas nascidas em países ricos, assim, recebem um prêmio pela localização ou uma renda pela localização; todos aqueles que nasceram em países pobres recebem uma penalidade pela localização.

É fácil notar que, em tal mundo, a maior parte do rendimento esperado ao longo da vida das pessoas será determinada no nascimento.”

Dessa forma, os americanos são agraciados simplesmente por nascerem nos Estados Unidos, ao contrário dos nascidos em países como o Brasil, a Índia ou Cuba. E aqui não há segredo. A desigualdade entre os países é consequência de taxas diferenciadas de crescimento no passado. Os países não são pobres por um acaso da natureza: são pobres porque cresceram pouco ou não cresceram por um longo período de tempo. O segredo para esse crescimento passa necessariamente pela construção de instituições inclusivas (direitos de propriedade, livre mercado, racionalismo científico, etc), mas esse é assunto para outro momento.

Há, certamente, pobreza no país de Obama. Há moradores de rua, gente que depende de serviço social, gente que mora em cortiços. Há também injustiça, multibilionários que enriqueceram através de lobby com diferentes governos, guerras estúpidas, trapalhadas históricas realizadas pelos homens que comandam a Casa Branca, imigrantes que lutam para alcançar um lugar ao sol no sonho americano. Mas há, de modo especial, um verdadeiro milagre causado por um conjunto de instituições que permitiram aos mais pobres não apenas ascender economicamente, mas alcançar uma renda média, em poder de paridade de compra, igual ou superior aos mais ricos da maioria dos países do mundo. E isso é mágico.

Em outras palavras: a presença de instituições inclusivas faz da vida do americano que preenche a base da pirâmide melhor; a ausência delas condena boa parte do mundo em desenvolvimento.