Não existe racismo reverso. Existe racismo (e não apenas contra negros).

Os livros de história carregam sempre bons indicadores. Eles estão lá. Não faz muito tempo assim, ainda na aurora do século vinte, curdos foram dizimados por tropas sunitas, indianos sofreram na África Oriental e na Oceania, armênios foram exterminados na Turquia, chineses na Malásia, judeus na Alemanha, brancos foram perseguidos no Zimbábue.

A História é um grande monumento indicativo de que não existe racismo reverso: existe racismo (e não apenas contra negros).

E essa não é exatamente apenas uma vergonha do passado. Ainda há forte discriminação étnica em diferentes partes do mundo contra orientais, latino-americanos (que ainda são classificados como uma categoria sócio-racial nos EUA), árabes, judeus, ameríndios.

Sob qualquer perspectiva que se encare esse assunto, definitivamente não há um monopólio da discriminação racial no mundo. Pior: boa parte desse problema remete a questões políticas e econômicas muito mais complexas do que a mera aversão à cor de pele. Não é como se nós simplesmente rejeitássemos alguém apenas por suas características físicas – nós criamos identidade cultural a esses traços, e a partir deles exercemos a discriminação.

A catástrofe acusa quando misturamos esses pré-julgamentos com visões ideológicas. Como diz o psicólogo canadense Steven Pinker:

“Muitos dos nacionalismos do século XIX e início do século XX eram guiados por imagens utópicas de grupos étnicos florescendo em suas terras natais, frequentemente baseados nos mitos de tribos ancestrais que colonizaram o território na aurora dos tempos.”

Em outras palavras: o racismo pode também ser facilmente confundido com um sentimento anti-urbano, anti-globalização, anti-capitalista (e um grande gatilho para a xenofobia). Muitos dos regimes ditatoriais mais perversos do século vinte, e dos conflitos étnicos mais sangrentos, foram construídos através da propaganda de um passado agrário utópico, ingênuo, pré-capitalista; um desejo romântico reprimido da volta de um tempo aparentemente menos caótico, quando ancestrais étnicos povoavam suas terras em harmonia com a natureza, numa vida mais simples e aparentemente menos desigual.

Não foi uma coincidência o fato de diferentes minorias burguesas (em geral, de grupos étnicos que se especializaram em nichos de intermediação) terem sofrido perseguição em regimes socialistas, como na China, na União Soviética e no Camboja (onde moradores das cidades eram expulsos para o campo). Como conta o historiador australiano Ben Kiernan no livro Blood and Soil, a antipatia por tais grupos econômicos se transformou em hostilidade por grupos étnicos.

É exatamente o que aconteceu com os judeus na Europa que, graças a uma brecha no livro de Deuteronômio (“Para um estrangeiro, vós podeis emprestar sob a usura; mas não emprestarás sob a usura ao vosso irmão”), puderam se especializar em agiotagem, uma das raras atividades que lhe eram permitidas (vale lembrar que emprestar dinheiro era pecado para os católicos).

A origem da palavra gueto, aliás, tão associada à discriminação racial no mundo, é uma contração de borghetto, diminutivo de “burgo”. O termo provém do bairro veneziano Ghetto Novo, instituído em 1516, onde os judeus, uma minoria étnica, podiam viver isolados. Era lá que eles deveriam ser confinados a cada noite e nos feriados cristãos. Por lá também eles eram obrigados a usar um “O” amarelo nas costas.

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A própria palavra “escravo” nos oferece claros indicativos de que nunca houve um monopólio de intolerância racial no mundo: sua origem vem do latim sclavus (“pessoa que é propriedade de outra”), que por sua vez surge de slavus – ou “eslavo” em bom português, uma minoria étnica caucasiana com um longo passado escravo.

Ok, mas onde os negros entram nessa?

Negros foram escravizados no continente americano num período muito específico da humanidade. No século dezoito e dezenove, enquanto eles levavam covardes chibatadas, ainda presos a uma cultura mercantilista e anti-individualista, parte livre do Ocidente desenvolvia instituições capazes de permitir uma explosão de desenvolvimento econômico jamais testemunhada em toda história. Enquanto muitos desses homens livres – em geral, caucasianos – puderam ter acesso a essas instituições (propriedade privada, acesso ao mercado, direito ao crédito), enriquecendo nesse intervalo de tempo, a maior parte da população negra no continente foi exposta a um limbo de subdesenvolvimento, completamente ausente de instituições – um local impreciso, em guetos onde nem o capitalismo de mercado habitava, nem o mundo pré-capitalista fazia mais sentido.

É nesse local marginalizado que nasce o racismo moderno contra negros. É a associação à pobreza, à marginalidade, à violência, à desigualdade, historicamente conectada a esse grande cartão de visitas que é a etnia, cheia de referências históricas, culturais e socioeconômicas.

Quando você não permite, por exemplo, que a instituição da Justiça alcance esses guetos, é perfeitamente compreensível que uma anarquia generalizada, ausente de bons instrumentos de controle, combata a violência.

Ou seja: negros foram vítimas de um sistema bárbaro escravocrata e após o fim desse modelo, foram jogados à marginalidade num mundo totalmente novo, que enriquecia como nunca antes foi possível. A desigualdade era uma consequência inevitável.

E não pense que essa é uma adversidade presa a um passado remoto. Tais problemas institucionais ainda insistem em castigar parte considerável da população negra no continente americano, condenando ela ao subdesenvolvimento.

Quer um exemplo? Uma análise conservadora do Instituto Atlântico aponta que cerca de metade das moradias brasileiras ainda não são legalizadas (leia-se: pessoas que possuem uma moradia, mas não têm o registro formal para capitalizá-la, o direito pleno à propriedade). E onde você acha que essas residências todas estão? Pois é, nas periferias.

Ainda não se deu conta do tamanho da encrenca que isso significa? Parte considerável da população negra brasileira ainda é impedida de ter acesso àquela que é a instituição mais importante do capitalismo: a propriedade privada. E o cenário só piora quando você se dá conta que muitos dos grupos que dizem falar em nome de tal parcela da população, ignorando que essa é parte fundamental da construção de riqueza no Ocidente, pouco a considera uma prioridade em suas causas. O resultado é a inabalável perpetuação da pobreza.

E o que a população negra precisa para sair dessa emboscada? Essa resposta nunca é tão simples como parece. Quer dizer, não há uma varinha mágica, capaz de resolver todos os nossos problemas da noite para o dia. Mas, em geral, há bons elementos para acreditar que o acesso às mesmas instituições que permitiram o desenvolvimento de parte do Ocidente seja a cura para o subdesenvolvimento negro – e num país como o nosso, esse está longe de ser um problema apenas da parcela negra da população (embora essa seja a que mais esteja exposta a ele).

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“E os brancos?”, você deve estar pensando. “Sofrem os mesmos preconceitos que os negros?”

Evidente que não. Mas isso não apaga o fato de que quando quatro negros norte-americanos sequestram um branco, o agredindo, amarrando seus pés e suas mãos e o amordaçado com uma fita adesiva, gritando “vão à merda, brancos!”, o único nome possível para caracterizar essa cena se chama racismo. Qualquer outra indicação diferente dessa (como fez a CNN, por exemplo) não passa de exercício de estupidez.

O mesmo vale quando homens negros são tratados com palavras pejorativas como palmiteiros por se relacionarem com mulheres brancas. A tal Síndrome de Cirilo, como apontam ativistas do movimento negro, é apenas uma versão politicamente correta dos abusos cometidos até bem pouco tempo atrás na sociedade americana, quando casais inter-raciais eram proibidos de se casarem (e por vezes manterem relações sexuais) graças a leis anti-miscigenação (medidas que também foram adotadas na Alemanha Nazista, entre 1935 e 1945, e na África do Sul durante o Apartheid, entre 1949 e 1985). É perfeitamente possível discutir problemas de autoestima, hipersexualização e abandono enfrentados por muitas mulheres negras sem apelar a uma caça às bruxas racial.

E dizer tudo isso não é transformar a intolerância contra brancos em algo moralmente mais condenável que contra negros. Tampouco é colocar em pé de igualdade estatisticamente ambos os casos, como se brancos e negros sofressem racismo com a mesma frequência. Não sofrem.

Nada disso, porém, apaga o fato de que intolerância racial é algo estúpido independente das características físicas da vítima. Não há um monopólio de etnias discriminadas. Tampouco há uma concessão para que determinadas etnias possam discriminar.

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