Não, PSOL: não existe esse negócio de socialismo e liberdade.

É com uma bandeira amarela e um simpático solzinho vermelho que uma multidão de homens e mulheres prometem solucionar de vez todos os problemas econômicos enfrentados pelo país. Segurando cartazes e entoando cânticos de batalha, eles tomam as redes e as ruas ecoando a combinação de duas palavrinhas que funcionam quase como uma combinação sagrada: socialismo e liberdade. Esse é o arranjo que carrega o partido mais identificado com o progressismo em solo tupiniquim, o PSOL. Essa é a associação que conduz seu séquito de seguidores.

Mas quanto dessa combinação é possível? Se você não caiu de paraquedas nesse parágrafo, já deve ter sacado essa resposta no título que abre esse texto. Nada. Socialismo e liberdade é dessas misturas esquizofrênicas presentes apenas nos discursos políticos sem sentido.

E para entender como isso se justifica é preciso desembarcar num cenário distante dos slogans partidários. Mais precisamente num lugar chamado mundo real.

Há mais de 10 bilhões de produtos diferentes que podem ser comprados em Nova York ou Londres nesse exato momento. Em São Paulo, em Belo Horizonte ou no Rio, não é muito diferente. Em resumo, isso é tudo que você precisa saber sobre o funcionamento de uma economia complexa como a nossa: ela envolve bilhões de transações todos os dias, de forma completamente autônoma e descentralizada. E isso é simples de se confirmar. Repare ao seu redor. A vasta maioria das transações que você faz no seu dia a dia não possui qualquer envolvimento direto com o governo. De fato, cada decisão na nossa vida envolve algum tipo de troca, um trade-off. É um jogo. E nós movemos as peças.

E aqui, há uma regra importante, que de certa forma traduz nossa natureza. Em bom economês, indivíduos buscam maximizar sua própria utilidade. Na prática, se ficou complicado entender, pense num conceito parecido com o bem estar, só que um pouco mais complexo. Eu, você, seu vizinho: todos nós agimos para melhorar ao máximo nossas vidas. Os consumidores buscam ficar bem de vida, as empresas buscam maximizar os lucros. E essas transações todas facilitam esse processo. Elas permitem que esse seja um jogo de ganha-ganha (sim, ganha-ganha: não é um coincidência que desde 1800 a nossa renda média tenha aumentado mais de 9 vezes).

Em regra, essas transações ocorrem num lugar chamado mercado. Mercados são organizações extremamente sofisticadas. Pra começo de conversa, eles não funcionam de forma racional sem a autonomia de decisão das pessoas. A participação nessas trocas necessariamente é livre e voluntária – seja comprar, vender, investir, alugar, tanto faz. Nos mercados, não há uma organização central. Ninguém é encarregado de tomar as decisões – ou melhor, todos nós somos.

O mercado, diferentemente das economias planificadas, gira em torno de um negócio chamado preço. Tudo é questão de preço. Pense, por exemplo, num supermercado. Quando os clientes começam a pedir muitos pacotes de macarrão, o dono do estabelecimento inadvertidamente realizará uma encomenda maior com seu fornecedor de macarrão. Se há, porém, uma fome insaciável por massas em toda cidade, um ataque zumbi por comida italiana, o preço das massas no atacado subirá. Pense num cenário em que há problemas com a colheita de trigo e não haverá jeito: na gôndola do supermercado mais próximo de você, aquela sua marca favorita de macarrão estará inevitavelmente mais cara.

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O preço funciona como uma espécie de google, um grande oráculo de informação – e informação é tudo que você precisa ter numa economia complexa. É disso que se trata todo esse negócio de oferta e demanda. Se no supermercado mais próximo houver mais pessoas interessadas em comer macarrão do que pacotes de macarrão disponíveis, então o preço dos pacotes de macarrão subirá. Essa é a maneira mais racional de lidar com a escassez. E escassez é a base da economia.

No mercado, há uma dispersão de decisões e conhecimento. Essa é a grande sacada aqui. É exatamente por esse motivo que economias planificadas tendem a falhar em relação a economias abertas. O monopólio das decisões econômicas restringe substancialmente o número de apostas a serem exploradas a cada momento. Planificadores econômicos são incapazes de mobilizar todo conhecimento necessário para tomarem as bilhões de decisões que acontecem todos os dias em nome de cada um de nós. Sem a eficiência de um sistema de preços e a possibilidade das decisões e do conhecimento estarem dispersos pela sociedade, o resultado final será previsível: escassez de produtos básicos, filas, baixa produtividade e miséria. E você não precisa conhecer absolutamente nada de economia para entender isso, basta ter acesso a um livro de história. Se há uma única lição a tirar de todo século vinte é a de que o socialismo não funciona.

E aqui, um ponto importante: economias planificadas só são possíveis através de uma autoridade central. Imagine-se à frente de um regime socialista. Sua tarefa é planificar a economia. Mobilizado pelos sentimentos mais altruístas possíveis, você busca acabar com a pobreza, diminuir os interesses do capital financeiro, construir um paraíso terreno. E como é que faz isso tudo? Essa é uma tarefa inacreditavelmente difícil (e eu estou sendo bonzinho com o difícil, na verdade ela é impossível). Calcular a alocação dos recursos de uma economia complexa é uma tarefa imensa. A rota de destruição é um caminho inevitável.

Não bastasse toda essa complexidade, o socialismo não é muito bom em lidar com incentivos. E aqui, vou me ater a um exemplo do outro lado do mundo.

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No final da década de 70, os agricultores da aldeia chinesa de Xiaogang estavam desesperados. As 18 famílias que trabalhavam numa comuna coletiva não estavam conseguindo arroz suficiente para elas próprias sobreviverem. Os agricultores tomaram uma drástica decisão: encontraram-se secretamente e dividiram a terra entre si, num contrato em 3 partes. A medida poderia levá-los à prisão. Por isso, acordaram que ninguém jamais saberia daquela história, que continuariam entregando suas metas de colheita ao Partido Comunista e que, se qualquer um deles fosse preso, os outros criariam seus filhos.

Em pouco tempo, houve um verdadeiro milagre. Os agricultores de Xiaogang tornaram-se mais produtivos. Em um ano, a extensão de terra plantada praticamente dobrou e a aldeia passou a gerar excedente de arroz. A produção de grãos aumentou para 90 mil quilos em 1979, mais de seis vezes do que no ano anterior. A renda per capita de Xiaogang acompanhou o passo e subiu dos 22 yuan para os 400 yuan. Produzir para si mesmo e suas famílias era o combustível necessário.

Como uma gripe contra a planificação, as informações de sucesso logo se espalharam. Algumas lideranças locais acusaram os moradores de Xiaogang de “desenterrar a pedra fundamental do socialismo”. Mas os agricultores chineses conheciam as deficiências da planificação econômica melhor do que qualquer sociólogo engajado. Como numa flecha, a agricultura individual rapidamente se espalhou pela região. Era inevitável. O mercado negro atuava como uma metástase nas comunas coletivas chinesas.

Representantes do governo visitaram a aldeia e, logo, a abençoaram. Em uma conferência do Partido Comunista em 1982, Deng Xiaoping, já substituído Mao Tsé-Tung, endossou as reformas. Apenas seis anos depois do acordo secreto dos agricultores de Xiaogang, já não havia mais comunas na China. E o país, com a abertura econômica, viu o maior salto de renda da história da humanidade.

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O que isso tudo significa? Duas coisas. A primeira que incentivos importam. Quanto mais livre você é para cuidar da sua vida e da sua família, mais produtivo você será. A segunda que surtos como o de Xiaogang são inevitáveis em economias planificadas. Assim como é inevitável o estabelecimento da repressão. Foi exatamente isso que aconteceu na União Soviética de Lênin e Stálin, na Romênia de Ceausescu, na China de Mao Tsé-Tung, no Camboja de Pol Pot, na Albânia de Enver Hoxha, no paraíso cubano de Fidel, na Birmânia de Ne Win, no Vietnã de Ho Chi Minh, na Coreia do Norte de Kim Il-Sung, na Iugoslávia de Tito e na Venezuela de Chávez e Maduro, este último apoiado no Brasil pelo PSOL. Nada disso é uma coincidência, um acaso, uma má sorte. O socialismo privilegia o uso da força em detrimento da razão.

É por isso que essa ideia de associá-lo à liberdade beira o absurdo. A centralização política e econômica de um grupo privilegiado de planificadores é a noção oposta do que seja a liberdade humana. Por mais nobres que sejam as motivações de seus líderes, o socialismo não é apenas a total abolição da racionalidade econômica, mas da soberania do indivíduo. O que partidos políticos como o PSOL almejam, no fim, é o total controle – e não a libertação – de um povo, ainda que apoderem-se de falar em nome dele. Graças a isso, a aplicação dessa ideia é possível apenas num único lugar: nos delírios megalômanos de quem acredita deter o poder sobre todas as questões da humanidade. E só.