Não, Trump não é um mero acaso do discurso racista e xenofóbico. Você foi enganado pela imprensa.

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Nunca um candidato, em qualquer disputa, de qualquer partido, foi tão combatido pelo establishment norte-americano como Donald Trump.

Grandes bancos como o Goldman Sachs proibiram seus funcionários de doarem para sua campanha. Dos 100 CEO’s mais ricos da América, segundo a Fortune, o número exato de doações que Trump recebeu foi de zero centavos (pelo menos onze deles doaram para Hillary). A elite financeira do Fórum Econômico Mundial, com alguns dos maiores banqueiros do mundo, assume publicamente que está assustada com uma vitória sua.

A indústria do cinema o odeia (há artistas que prometiam até mesmo nu frontal caso ele não fosse eleito; outros sexo oral). Da televisão, idem (quase todas as redes de televisão estão contra ele; mesmo Jimmy Fallon foi duramente criticado porque o entrevistou sem “colocá-lo em seu devido lugar”).

Até o seu próprio partido não o suporta. Republicanos de peso como Mitt Romney, John McCain e George Bush – os três últimos candidatos à presidência pelo GOP – torcem o nariz para ele. E não são os únicos. A National Review, a principal publicação conservadora dos EUA, o rejeita (e já reuniu alguns pesos pesados da direita americana, como Glenn Beck e Thomas Sowell, para enumerar as razões para isso).

O fato é que é difícil não assumir que, contrariando todas as evidências – enfrentando Hollywood, o Vale do Silício, Wall Street, a grande imprensa e o establishment do Partido Democrata e Republicano -, Donald Trump alcançou um retumbante sucesso ao se tornar o quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos.

“Mas, afinal, há razões para isso?”, é o que o mundo inteiro deve estar se perguntando nesse momento. O que leva alguém a votar em Donald Trump?

É tentador afirmar que o sucesso do magnata é um mero acaso do racismo, do machismo e da xenofobia americana. É o que a imprensa internacional repetirá incansavelmente nas próximas semanas, buscando entender as razões pelas quais Hillary saiu derrotada nas urnas. Só tem um problema: são elementos frágeis demais para sustentar uma vitória tão acachapante (considerando que todos os institutos de pesquisa, à exceção do LA Times, apostavam numa vitória tranquila da candidata democrata).

Mas, cá entre nós, você já parou pra ouvir alguma vez o que Trump tem a dizer? Dou uma dica: você ouvirá um milhão de vezes a palavra “China”. E ela não está inserida em seu discurso à toa.

É verdade, Trump não é um político profissional num momento em que a classe política vive em descrédito nos EUA. Ele também é a representação do politicamente incorreto num tempo em que parte do mundo perdeu completamente a paciência com o politicamente correto. Você tem razão. Isso tudo conta a seu favor. Mas não diz tudo.

O grande trunfo de Donald Trump nessas eleições é outro: seu discurso contra a globalização.

It’s the economy, stupid!

Concorde ou não com suas ideias, Donald Trump soube conquistar o apoio e a militância silenciosa dos operários americanos, da tal classe menos favorecida que os democratas dizem defender (e entre quem especialmente Bernie Sanders falhou miseravelmente em ser ouvido).

Durante toda a campanha, Trump vendeu sua imagem como um antiliberal que condena os atuais tratados de livre comércio (já falou inclusive em rever acordos com Alemanha e Japão), que propõe protecionismo econômico contra mexicanos e chineses e que promete forçar grandes multinacionais americanas, como a Apple, a abandonarem a mão de obra barata chinesa para “trazer os empregos de volta aos EUA”. Você pode dar dar de ombros pra isso, mas é tudo que os operários americanos, que lidam com estagnação salarial, querem ouvir nesse momento.

E é fácil adivinhar as razões. Seu eleitor, em geral, não tem formação universitária, é branco, casado e trabalha no chão de uma fábrica. Para ele, seu discurso anti-migração não funciona como mera xenofobia e racismo barato, como a imprensa americana tanto insiste em sustentar, mas como uma motivação econômica: ele encara o imigrante latino como um potencial candidato a literalmente roubar sua vaga de emprego.

O fato é que Trump sempre soube interpretar esse público ao identificar uma parcela considerável da população que ainda não conseguiu se recuperar da última grande crise. É o seu maior segredo. Foi exatamente esse eleitorado que lhe garantiu a vitória (no Rust Belt, o cinturão industrial americano, onde ele sobrou: Pensilvânia, Ohio, Michigan, Indiana e Wisconsin).

No fundo, como alguém que se apresenta como um pragmático, Trump é mais parecido com aquele cara que gritava “Fora Alca” nos anos noventa do que com o eleitor típico republicano. E não dá pra tentar tapar o sol com a peneira agora: nas últimas décadas, esse era o melhor momento para esse discurso ser tão bem aceito nas urnas.

Para que torço daqui? Que Trump escute seus assessores, receba a pressão necessária de um Congresso majoritariamente republicano, apure as verdadeiras razões que fizeram a América ser grande e convença seu eleitorado que não será possível sair da estagnação salarial abraçando valores historicamente associados aos democratas.

Se a América quer voltar à grandeza de seu passado – que é sempre o sonho utópico nacionalista, afinal – precisa antes de qualquer coisa redescobrir sua vocação para o sucesso. E aqui, não há outra solução possível que não passe pelos livros de história.

A América precisa de menos protecionismo e mais livre mercado.

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