Nesse sábado, o Papa Francisco visitará Cuba. E isso é tudo que ele precisa saber sobre a ilha.

Francisco aterrizará seu avião numa ilha nos próximos dias. Na bagagem, trará um pouco daquilo que ronda seu universo – doses cavalares da fé cristã com discursos políticos, não necessariamente nessa mesma ordem. A ilha em questão, no meio de uma rota em direção aos Estados Unidos, carrega um nome muito peculiar às discussões ideológicas do último século – chama-se Cuba. Nela, como Papa e jesuíta, Francisco levará adiante a mensagem de sua Igreja e as promessas de que um novo mundo é possível.

Francisco, no entanto, é um privilegiado. Em Cuba, o regime de Fidel Castro persegue cristãos como ele desde seus primeiros anos. Como conta o cubano Mario Barroso, líder da Igreja Batista na ilha, nos anos 60, “o regime político vigente declarou guerra ao cristianismo, se filiou às doutrinas leninistas, e literalmente declarou que a religião era a coisa mais danosa que podia existir debaixo do céu. O governo colocou ainda muitos cristãos em campos de concentração, denominados de Unidades Militares de Apoyo a la Producción (UMAP). Em 1965, nós batistas vivemos uma das maiores crises da nossa história porque a maioria dos nossos pastores foram presos. Uma das igrejas que pastoreio, a de Taguayabón, durante mais de ano teve um selo em sua porta, após ter todos os seus móveis confiscados. Um juiz chegou ao ponto de declarar ao pastor Luis Manuel González Peña, que na época era líder dos batistas cubanos, que em 30 anos não haveria mais nenhuma igreja em Cuba”.

A perseguição oficial atingiu em cheio a vida de milhões de cristãos. De dezembro de 1960 a outubro de 1962, 14 mil crianças e adolescentes cubanas foram levados aos Estados Unidos por vontade de suas famílias, amparados pela Operação Peter Pan, realizada pela Igreja Católica – foi o maior êxodo de menores não acompanhados por seus pais já registrado na história do Ocidente. Para a Igreja, o coração do capitalismo mundial era o berço para acolher menores cristãos perseguidos pelo comunismo.

Em 1992, o Estado cubano mudou seu status de ateísta para laico, mas a perseguição religiosa ainda insiste em permanecer em evidência. Como destaca o último relatório da CSW, uma organização de direitos humanos que monitora a liberdade religiosa ao redor do mundo, líderes e grupos de diferentes denominações religiosas relatam problemas que vão desde assédio ao confisco e destruição de propriedades eclesiais. O relatório (que você acessa clicando nesse link) detalha 220 violações diferentes ao longo de 2014. E não pense que há qualquer sinal de melhora: houve um aumento nos últimos anos – foram 180 casos documentados em 2013, 120 em 2012 e 40 em 2011.

Pope Benedict XVI Makes First Visit To Cuba

Os casos se repetem. Um líder nacional do Movimento Apostólico em Cuba, o reverendo Yiorvis Bravo, teve sua igreja confiscada em 2013 (atualmente ele está proibido de sair do país). O reverendo Homero Carbonell, perseguido, se exilou nos Estados Unidos em julho do ano passado. Em setembro, o pastor Esmir Torreblanca teve sua residência e sua igreja demolidos pelo governo; sua esposa e seus filhos, de 2 e de 7 anos de idade, dormiam no momento da demolição – como conta o pastor Marcos Perdomo Silva, os policiais “chegaram e violentamente arrombaram a porta da frente, que estava trancada; a polícia entrou com cassetetes ao lado de um grupo de homens carregando facões; eles começaram a destruir e ocupar as propriedades do pastor e da igreja”. Em outubro, Yoaxis Mercheco Suarez, esposa do reverendo Mario Felix Lleonart Barroso, acabou presa por manifestar sua fé. Há poucos dias, acompanhando os casos de perseguição, o reverendo Jesús Noel Carballeda foi liberado da prisão, após 6 meses de cárcere, por “realizar cultos não autorizados”. Outros inúmeros casos de confisco, prisão, proibição de manifestação de fé e exílio se repetem a cristãos como Francisco na ilha.

“Estamos decepcionados, mas não surpreso ao ver outro aumento significativo das violações religiosas em Cuba, como a que estamos vendo nos últimos cinco anos”, afirma Mervyn Thomas, diretor executivo da CSW. “As promessas do governo de reforma não tem refletido a realidade no país. O governo de Raul Castro continua a manter um controle rigoroso sobre a sociedade civil e os grupos religiosos não estão isentos disso.”

Enquanto confisca propriedades eclesiais, em outubro do ano passado, o governo cubano permitiu a construção da primeira igreja católica em 55 anos. Mas a situação está longe do ideal. Como todas as igrejas do país são anteriores ao regime, boa parte delas está caindo aos pedaços – e para piorar, o governo rejeita apoiar reformas. No ano passado, o histórico mosteiro franciscano de Guanabacoa fechou suas portas depois de esperar por anos pela permissão do governo para realizar os reparos necessários. A maioria dos monges, da ordem que carrega o nome que Jorge Mario Bergoglio escolheu para ser Papa, presente em Cuba por séculos, terá agora de sair do país. 

“Antes, os cristãos eram espancados, presos e, por vezes, assassinados; agora, a pressão contra os seguidores de Jesus é, de maneira geral, mais sutil. Ela continua na forma de assédio, vigilância rigorosa e discriminação, incluindo a prisão ocasional de líderes. Cristãos são monitorados, e cultos e eventos da Igreja correm o risco de terem a participação de espiões. Os cristãos também sofrem ameaças e discriminação na escola e no trabalho”, diz o relatório da Open Doors, outra organização de direitos humanos que monitora a liberdade religiosa no mundo.

Durante todos esses anos, dois Papas visitaram a ilha: João Paulo II, que eu 1997 usou sua influência para que o país decretasse o Natal como feriado nacional, e Bento XVI, que fez o mesmo para a Sexta-Feira Santa. O que terá Francisco a conquistar agora num regime que permanece em eterna vigilância contra membros de sua Igreja, além de provavelmente corroborar boa parte de seus discursos econômicos, ainda é um ponto de interrogação.

Francisco é conhecido por suas contundentes visões políticas e suas posições em relação à economia – reforçada na encíclica “Laudato Si´”, publicada no último mês de maio, e na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, publicada em novembro de 2013, no primeiro ano de seu papado. Na primeira, expressou sua posição avessa aos governos mais alinhados com a economia de mercado através do uso de efeitos retóricos como “mercado divinizado” e “concepção mágica do mercado”. Na segunda, criticou aqueles que “supõem que o crescimento econômico, estimulado por um livre mercado, irá inevitavelmente produzir maior igualdade e inclusão social no mundo”.

Em outras ocasiões, Francisco fez duras críticas ao capitalismo. Como no último mês de julho, em visita à Bolívia.

“Reconhecemos que este sistema impôs a lógica dos lucros a qualquer custo, sem pensar na exclusão social ou na destruição da natureza?”

Para o Papa, é preciso criar um outro sistema.

“Se é assim, insisto, digamos sem medo: queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema já não se aguenta, os camponeses, trabalhadores, as comunidades e os povos tampouco o aguentam. E tampouco o aguenta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia são Francisco.”

O Papa afirmou também que, “atrás de tanta dor, tanta morte e destruição está o fedor disso que [são] Basílio de Cesareia chamava de ‘o esterco do Diabo’ [dinheiro]”. Segundo ele, o capitalismo é uma “ditadura sutil”.

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Em Cuba, uma ditadura ateísta e anticapitalista longe de qualquer sutileza, Francisco promete repetir os discursos que fez nos últimos anos – ao mesmo tempo em que busca se desvincilhar dos rótulos de que seja um “Papa socialista” ou “de esquerda”. Para Francisco, sua posição política é apolítica – retrata apenas um senso comum em busca da construção de um “mundo melhor”. Tais discursos, no entanto, marcam uma posição ideológica muito evidente: mesmo que de forma não-intencional, o líder da Igreja Católica se tornou cabo eleitoral de grandes players políticos latino americanos (como foi para Tsipras, na Grécia), formando opinião a respeito de assuntos econômicos que claramente tem pouca intimidade, enquanto constrói sermões emulando pautas de partidos políticos.

Em 1998, o Papa João Paulo II encarou o establishment cubano ao fazer um duro discurso de confronto à perseguição a cristãos na Praça da Revolução, em Havana:

“Neste sentido, cabe recordar que um Estado moderno não pode fazer do ateísmo ou da religião um dos seus ordenamentos políticos. O Estado, longe de todo o fanatismo ou secularismo extremo, deve promover um sereno clima social e uma legislação adequada, que permita a cada pessoa e a cada confissão viver de maneira livre a sua fé, expressá-la nos âmbitos da vida pública e contar com os meios e espaços suficientes para oferecer à vida nacional as suas riquezas espirituais, morais e cívicas”, disse.

Francisco, no entanto, até agora foi pouco contundente com regimes latino-americanos que, quando não perseguem os membros de sua Igreja, condenam os pobres – através de políticas econômicas desastrosas e com discursos muito parecidos aos seus – a conviverem em cada vez maior intimidade com a pobreza. A visita ao coração da esquerda latino americana, no próximo final de semana, pode apresentar uma nova faceta nesse sentido. Ou corroborar definitivamente que o culto à pobreza franciscana não acompanha apenas seu nome papal, mas também suas posições políticas.