O anticapitalismo só se mantém em evidência por viver à custa do capitalismo

gap-usp

Sim, você tem razão: o capitalismo está longe de ser um sistema econômico perfeito. Na verdade, essa nunca foi a ideia original de seus defensores. Pelo contrário. Condenar sistemas políticos e econômicos que se arrogam da ideia de alcançar a perfeição é parte importante do discurso liberal no século vinte. E tudo isso por uma motivação auto-evidente: a impossibilidade da perfeição nas ações humanas.

Mas, afinal, como um sistema econômico responsável por multiplicar por nove a renda média per capita da população mundial, dobrar a expectativa de vida da espécie humana, diminuir radicalmente a mortalidade infantil e o convívio com doenças como malária, tuberculose, coqueluche, difteria, escorbuto e varíola, reduzir drasticamente o número de pessoas vivendo na extrema pobreza, alfabetizar a humanidade através de um robusto e lucrativo mercado de livros, e diminuir a distância entre as pessoas graças a um sem fim de tecnologias de massa, gerando prosperidade, longevidade e conforto, mesmo aos menos abastados, como nunca antes na história do Homo sapiens, pode ser constantemente encarado como algo perverso e desumano? Se o capitalismo é tão bom como seus defensores propagam por que tantas pessoas o condenam?

De fato, é possível explicar esse sentimento, traçando a origem psicológica e cultural do anticapitalismo. E a primeira coisa que você deve saber a respeito é que ela nasce no coração da nossa própria ignorância.

1. Nós não fazemos a menor ideia de como os nossos salários são formados.

worker-versus-CEO-Pay

Cá entre nós, não é fácil captar toda abstração de uma economia moderna – formação de salários, renda, juros, lucro. É tudo, ao menos aparentemente, subjetivo demais.

Toda noção intuitiva de criação de riqueza que a gente tem, sustentada por uma longa relação da espécie humana com o intercâmbio direto de bens e serviços, ainda valoriza produtores de bens de valor palpáveis (por exemplo, um camponês que troca dois litros de leite por quatro ovos de galinha) em detrimento de mercadores, rentistas e agiotas, que ganham dinheiro apenas fazendo com que as coisas mudem de mão, sem propriamente criar novos objetos. A nossa impressão é que esses caras todos não passam de parasitas ou que, no mínimo, não gostam de pegar no pesado – e se você encarar as taxas de juro das faturas do seu cartão de crédito, sem entender por que raios ela é tão cara, será difícil não sustentar essa mesma noção.

Tudo isso é um grande problema para o marketing desse aplicativo chamado capitalismo, já que ele permite como nenhuma outra ferramenta a proliferação de atravessadores. No final da história, a economia moderna é complexa demais para criar a mínima empatia à maioria esmagadora das pessoas, ainda que ela seja a responsável direta por elevar seus padrões de vida.

Eu poderia apostar, por exemplo, que você não faz a mais remota ideia de como foi construído o mouse que utilizo para produzir esse texto. Nem você, nem eu – e nem o dono da empresa que o produziu, acredite. Um mouse pode parecer algo inofensivamente simples, mas é um instrumento complexo oriundo de uma inteligência coletiva exposta a séculos de evolução.

E não estou falando de uma simples indústria que reúne todas as peças e sai por aí vendendo. Um mouse é algo muito mais elaborado do que isso e possui literalmente o dedo de diversos trabalhadores: dos fabricantes de máquinas de extração de petróleo aos que enchem o tanque do caminhão que transporta seus botões; dos responsáveis pelos processos químicos que permitem que o petróleo vire plástico aos caras por trás da construção de suas peças de metal; do designer que projetou suas curvas às mentes criativas por trás de seu sensor. São centenas, milhares de pessoas envolvidas na construção de um único modelo.

E se você pensa que todo esse processo parou por aí, pense novamente. Toda essa turma não está sozinha. Cada parte interessada nesse bolo é acompanhada por motoristas, secretários, zeladores, seguranças, atendentes, telefonistas e fornecedores de máquinas de café e copinhos de água. E ainda por comerciantes, bancários, consultores, investidores, especuladores e uma horda de atravessadores dos lugares mais remotos do mundo.

geracao-millennial-y-consumo

Não importa quão bem informado esteja a respeito de sua profissão, nenhuma dessas pessoas domina sozinha todas as etapas necessárias para a produção de um único mouse, vendido por algumas poucas notas de reais em qualquer loja de departamento. E ainda assim ele repousa em absoluta tranquilidade em minha mesa, atendendo com precisão a todos os meus comandos, ao lado de um monitor que passou por uma rede ainda mais complexa de trocas. Se todas essas pessoas não estivessem conectadas a uma robusta teia, integradas à condução de uma mão invisível onipresente que direciona cada parte interessada nesse processo, muito provavelmente a chance de você ler esse texto nesse momento seria próxima de zero.

Como diz o economista Friedrich Hayek, “a curiosa tarefa da economia é demonstrar aos homens como eles realmente sabem pouco sobre o que pensam que podem planejar”.

Thomas Thwaites, um estudante de pós-graduação de desenho do Royal College of Art, de Londres, resolveu testar o quão condenados ao atraso estaríamos sem esse aparato todo de divisão de trabalho. Thomas decidiu construir, sozinho, uma torradeira. Para isso, desmontou uma velha torradeira que tinha e, com espanto, descobriu que ela possuía mais de quatrocentos componentes e subcomponentes. Mesmo algo estupidamente simples ainda precisava de:

“cobre, para fazer os pinos da tomada elétrica, o fio elétrico e a fiação interna; ferro, para fazer a grelha de aço e a mola para empurrar a torrada para cima; níquel, para fazer o dispositivo de aquecimento; mica (mineral próximo à ardósia), em torno do qual o dispositivo de aquecimento é enrolado; e, naturalmente, plástico para o plugue, o isolamento do fio e o importantíssimo aspecto polido do estojo.”

Thomas tentou de tudo. Mas nada funcionava. Atrás de minério de ferro, viajou para uma velha mina no País de Gales. Tentou fundir o ferro usando uma tecnologia do século quinze e fracassou de forma retumbante. Usou uma técnica um pouco mais moderna, com dois fornos micro-ondas, e não saiu do lugar (um deles morreu durante o experimento). Falhou também na tentativa de fazer plástico de amido de batata.

Para fugir do fiasco, desistiu da ideia de começar todo processo do zero. Tentou na base do jeitinho. Revirou um depósito de lixo atrás de plástico, fundiu algumas moedas comemorativas para conseguir níquel. Percebeu que “se começasse do zero absoluto, poderia gastar a vida fazendo uma torradeira”. Assim, montou seu experimento como pode. No final, o objeto construído parecia qualquer coisa, menos uma torradeira. Mas era capaz de aquecer um pão quando conectada a uma bateria. Parecia quase perfeito. Thomas, no entanto, não se convenceu. Decidiu ligar seu experimento na tomada. A torradeira faleceu poucos segundos depois.

Thomas descobriu aquilo que, olhando todo processo de cima, nos parece óbvio: ninguém sozinho é capaz de construir uma torradeira. E isso pelo simples fato de que uma única torradeira, assim como um mouse, demanda o trabalho de milhares de pessoas, dos mais diversos cantos do mundo.

Imagine que há mais de 100 mil itens numa loja de departamentos como o Walmart. Ou melhor, esqueça o Walmart e encare a calçada. Segundo o economista Eric Beinhocker, do McKinsey Global Institute, se a gente pegar todos os livros, e os utensílios domésticos, e os sabonetes, e os celulares, e os brinquedos, e os potes de maionese, e os remédios, e todo resto que está à venda numa cidade como São Paulo ou Nova York, há mais de 10 bilhões de produtos distintos sendo comercializados nesse exato instante. Dez bilhões. Em cada megalópole do planeta. Já pensou a quantidade de gente envolvida nesses processos todos? Quantos patrões, e empregados, e fornecedores, e transportadores, e vendedores?

1-Fuf1rYj1KjdKLvN4vyPCGA

Com tanta gente inclusa nesses processos econômicos, com inúmeros empréstimos envolvidos, e juros cobrados, e salários negociados, e comissões pagas, se você faz parte dessa teia, quem garante que no meio dessa complexidade toda você não está sendo explorado por alguém? Se cada uma das centenas de pessoas envolvidas em cada etapa desse processo recebe frações de centavos do montante que gastei ao adquirir esse mouse, quem determina quem recebe mais e quem recebe menos? Como fazer com que os trabalhadores encarem todo esse processo de remuneração como justo, com tão poucas informações disponíveis a respeito das inúmeras escalas de trabalho envolvidas? Até o mais fiel defensor do livre mercado precisa admitir que, ao final do dia, o anticapitalismo soa um fenômeno estupidamente compreensível.

Se você aproximar seu rosto um pouco mais desse texto e tentar enxergar o que está escondido atrás dessas linhas, irá sacar o que quero dizer com isso tudo: não dá pra politizar a origem desse sentimento. Toda essa ojeriza ao capitalismo não nasceu com Marx, nem com Gramsci, nem com qualquer figura política anticapitalista. Pelo contrário. O anticapitalismo é um fenômeno disperso e universal muito mais complexo, oriundo dessa nossa noção ainda primitiva sobre os aparatos abstratos da economia moderna. É ela que dá sustentação aos discursos econômicos populistas – e quanto mais eles inibem o desenvolvimento econômico dos países pobres, mais alimentam esse rancor à economia moderna, girando toda uma roda de infortúnios.

2. Nós culpamos o sistema quando nos esforçamos e não somos recompensados por isso (sem saber como o próprio sistema funciona).

ht_oprah_winfrey_tty_02_jc_150514_1x1_1600

Esta família é muito pobre. Será que se ela se esforçar o suficiente poderá sair dessa situação através dos mecanismos de mercado?

A resposta é: depende. No capitalismo, esforço nunca foi motivo para alguém enriquecer. Nesse sistema, você pode ganhar dinheiro fazendo letras de músicas bem ruins, dessas que você cria na brincadeira em três minutos junto com seus amigos; ou então pintando quadros toscos, criando aplicativos bobinhos de celular, tirando fotos, fazendo vídeos pro YouTube, contando piadas sem graça, vendendo lama do Rock in Rio. Como você pode morrer pobre tendo estudado a vida inteira.

O que determina como você deve ser recompensado no capitalismo não é o seu esforço empenhado em alguma coisa, mas quanto as outras pessoas valorizam aquilo que você cria. E esse é um critério terrivelmente subjetivo.

Anticapitalistas, não por acaso, se escandalizam por que esportistas famosos ganham mais que professores ou por que uma banda de pagode fatura mais no final do mês que um sociólogo. Dentro da mentalidade anticapitalista, se você ganha dinheiro com um food truck definitivamente não deveria ganhar mais que um antropólogo que estuda os costumes dos índios tupinambás. Afinal, por anos o estudioso sentou a bunda numa cadeira, comeu um zilhão de livros chatos pra dedéu, foi testado em inúmeras provas e agora pode nos agraciar com seu conhecimento libertador. Tudo que o cara do food truck tem a nos oferecer é um cachorro quente. Não é justo que todo esse esforço do estudioso seja bem recompensado? No capitalismo, nem sempre.

Você pode estar pensando que essa não é a maneira mais justa de encarar a pobreza, mas o fato é que há duzentos anos, 75% da humanidade vivia em condições de extrema pobreza, como a família acima. Hoje, esse número caiu para 17%, graças a esse sistema. E se há muita gente ganhando dinheiro, há muito dinheiro também mudando de mãos. 

Na aurora da indústria automobilística, duas mil empresas operavam nos Estados Unidos. Apenas 1% delas sobreviveu. E o setor automobilístico não é uma exceção. Atualmente, 10% das empresas americanas desaparecem todo ano.

Das cem maiores companhias do mundo em 1912, dez desapareceram em uma década; mais da metade desapareceu nas oito décadas seguintes. E das empresas que restaram, parte considerável perdeu a relevância – é o caso da US Steel, no topo da lista em 1912, distante atualmente até mesmo das 500 maiores empresas do mundo.

Para que a família da imagem acima saia da sua condição de pobreza através do capitalismo será preciso uma combinação de fatores: 1) ela precisará ofertar algo às pessoas, 2) nós precisaremos valorizar esse algo.

Na foto, essa combinação não parece fazer o menor sentido. Numa zona agrária no interior do Mississippi, mãe e filha se apertam no quintal de uma casa paupérrima. O pai não está presente porque abandonou a família com a gravidez indesejada. A mãe está de visita – a garota mora no sítio com a avó, que lhe espanca todos os dias (de modo especial quando esquece os cânticos bíblicos). Seu futuro é tenebroso: ela será abusada por familiares e amigos ainda na infância, e levada a um centro de detenção infantil (onde sua admissão será negada por falta de camas disponíveis). Adolescente, fugirá de casa. Já aos 14, descobrirá sua primeira gravidez – e entrará em depressão com o abandono repentino do namorado logo após a descoberta. Sete meses depois, perderá seu primeiro filho, prematuro.

Na fotografia preto-e-branco, tudo parece escancarar a tragédia. Mãe e filha repetem um cenário de pobreza extrema que acompanha seus descendentes há séculos, muito antes da chegada forçada à América, ainda em solo africano.

A mãe se chama Vernita Gail Lee e é uma empregada doméstica em Milwaukke. A garota se chama Oprah Winfrey e atualmente controla uma fortuna avaliada em quase 3 bilhões de dólares.

E é evidente que sua história de sucesso bilionário é uma exceção para os padrões da humanidade. Mas é aqui que mora o grande segredo. A beleza da excepcionalidade é que ela não é possível em locais que não permitam liberdade de ação. São as condições permitidas pelas instituições econômicas que possibilitam que, mesmo em situações delicadas com a de Oprah, alcançar o sucesso seja algo plausível. E é essa perspectiva que muda o quadro maior: atualmente, os 5% mais pobres dos Estados Unidos possuem uma renda per capita maior que 68% da população mundial. Ou seja, considerando os diferentes custos de vida, mesmo muitos dos mais ricos ao redor do mundo são mais pobres que os mais pobres americanos.

renda-eua

De fato, se Oprah tivesse nascido em qualquer país do mundo que não alimentasse instituições capitalistas, sua história não seria possível e ela muito provavelmente viveria em condições piores que as dos outros membros de sua própria etnia nos Estados Unidos. Por ter nascido, no entanto, num lugar em que – apesar da renda média per capita dos mais pobres ser maior que da maioria esmagadora dos países ao redor do mundo – se tornar um bilionário é um fato raro, logo, todo sistema é questionado (e a razão para isso merece um artigo a parte, que está disponível aqui).

3. Nós acreditamos em varinhas mágicas que criam riqueza a partir do nada.

hermione-with-a-magic-wand

Dito isso, tome nota: o mínimo que você precisa saber para entender como os países se desenvolvem é aceitar o fato que não existe uma varinha mágica que cria riqueza a partir do nada. E se isso soa algo evidente a você e a qualquer pessoa minimamente razoável, também aponta um pouco da nossa estupidez coletiva – boa parte das políticas públicas dos países em desenvolvimento ao redor do mundo ainda giram em torno dessa ideia. Ou seja, nós sabemos disso, nós apenas não agimos como se soubéssemos. 

Riqueza é algo que precisa ser criada, produzida. E dizer isso também é afirmar outra coisa: o status natural da humanidade é a pobreza. Não é como se houvesse um mundo com uma farta riqueza disponível a todos e fosse o papel dos governos distribuí-la. Isso é tão irreal quanto a noção que para haver um rico é preciso haver um pobre ou ainda que um país só alcança certo grau de desenvolvimento explorando os países subdesenvolvidos.

Criar riqueza definitivamente é algo que toma tempo. Não nasce no pé de uma árvore.

A boa notícia é que o mundo vem desempenhado isso como nunca. Há dois séculos, o planeta vive uma grande explosão de riqueza. Para os países mais ricos de hoje, mais de 90% da renda atual foi criada de 1820 para cá. Você pode dar de ombros pra isso, mas nada parecido aconteceu em dez mil anos de história.

Nem todo mundo está inserido ainda nessa roda, é verdade. Mas quando, por exemplo, cinquenta mil chineses invadem a pequena ilha de Hong Kong todos os anos, abandonando a vida agrária para abraçar as oportunidades da complexa economia moderna num lugar com um PIB per capita nominal pelo menos trinta vezes superior, e imputam nessa escolha o fato de viverem em apartamentos tão claustrofóbicos quanto pequenas gaiolas humanas, não o fazem como mártires da sociedade de mercado, vítimas da desigualdade inconsequente do capitalismo. Fazem por livre escolha. Quer dizer, não é como se as pessoas fossem estúpidas.

Quem está disposto a encarar um cubículo em Hong Kong entende que a maximização do seu bem estar é maior numa gaiola inserida numa sociedade de mercado – que funciona como uma espécie de cidade de chegada para o seu desenvolvimento e o de seus descendentes – do que numa paupérrima vida no campo chinês. É o melhor cenário possível. Qual a outra possibilidade, afinal? Sugerir que exista uma varinha mágica capaz de oferecer vastos metros quadrados no lugar com a terceira maior densidade demográfica do planeta?

Além disso, não existe no mundo real a possibilidade de um pobre ascender de forma imediata ao migrar para um local desenvolvido. Em nenhum lugar. Economias mais abertas atraem mais o interesse de migrantes do que economias fechadas justamente porque oferecem ferramentas para a criação de riqueza. Destruí-las para combater a desigualdade é lutar por um mundo mais igualitariamente pobre.

A questão é que a ideia da varinha mágica parece irresistível. Há muita gente rica no mundo – e certamente grana pra solucionar todos os grandes problemas da humanidade. Por que não usá-la, afinal?

Porque não seria suficiente. Imagine, por um instante, que toda a riqueza do Brasil seja divida igualmente. Você faz ideia quanto daria isso? A conta é simples: seriam R$ 6 trilhões divididos por aproximadamente 200 milhões de brasileiros – ou R$ 30 mil para cada cidadão. Supondo que você viva em uma família com quatro pessoas, esse seria um patrimônio de R$ 120 mil. Nada mal, não? Agora, imagine que este patrimônio tenha um retorno equivalente à taxa que o governo paga por suas dívidas, duas vezes superior a que você obteria na poupança, de 14,25%. Sendo você casado, é bastante possível que na melhor das hipóteses esse seria um retorno equivalente a dois salários mínimos para os cuidados da casa.

Cada membro dessa hipotética família ganharia algo como R$ 350 por mês. Tal quantia é incapaz de suprir as necessidades básicas segundo os critérios do próprio governo (o tal salário do DIEESE). Ou seja: mesmo dividindo tudo que nós temos, numa distopia violenta, nós ainda continuaríamos pobres. Nem a hipotética varinha mágica da divisão dá conta do recado.

E por que nós continuamos acreditando nisso? Porque é confortável. Quando lidamos com um cenário onde o governo assume a responsabilidade pelos nossos cuidados básicos – do nascimento à morte – é natural acreditarmos que o nosso desenvolvimento é um direito adquirido, responsabilidade dos eleitos. Mas não é só porque a gente acredita nisso que a varinha mágica subitamente dará conta do recado, não é mesmo?

4. Nós levamos a sério a opinião de quem é mais interessado no anticapitalismo: os políticos.

Por Vinícius Roratto

E é aí que surge a última parte desse processo: a política. É ela quem condensa todo esse sentimento anticapitalista, fruto:

1) da nossa noção intuitiva de criação de riqueza que ainda valoriza produtores de bens de valor palpáveis em detrimento de mercadores, rentistas e agiotas, que ganham dinheiro apenas fazendo com que as coisas mudem de mão – e que se proliferam no capitalismo;

2) do nosso natural desconhecimento a respeito da formação dos salários, que nos dá a impressão de que somos eternamente explorados por alguém;

3) da nossa valorização natural do esforço como mérito na hora de ganhar dinheiro, tratando como injusto um sistema que não enriquece ninguém baseado exclusivamente nesse critério;

4) da nossa incompreensão sobre o papel da desigualdade – e a falta de entendimento de que ela pode ser danosa quando é fruto de uma sociedade estamental, onde os vencedores são escolhidos arbitrariamente, assim como pode ser perfeitamente natural e até mesmo desejável quando é resultado das diferenças dos seres humanos, gerando bons incentivos para o desenvolvimento das nações;

5) do pecado capital da inveja, do sentimento de tristeza perante o que algumas pessoas têm e outras não tem, da impressão que o sucesso alheio é ofensa pessoal, da grama que é sempre mais verde no quintal do vizinho;

6) da nossa noção equivocada, embora jamais assumida, de que é possível criar riqueza com varinhas mágicas e que existem fartos almoços gratuitos à disposição.

Tudo isso é facilmente capitalizado por artífices políticos que prometem o céu e a terra por suas escolhas em eleições. São eles que não raramente questionam as possibilidades de um cenário de aumento da liberdade econômica, trazendo à política a responsabilidade pelos mais diversos serviços prestados pelo próprio mercado, enquanto regulam e taxam em excesso suas ações.

Com a promessa de corrigir as falhas de mercado e a desigualdade, políticos não raramente aumentam ambos os problemas (como aponta esse estudo do IPEA, um órgão público), concentrando renda em sua classe enquanto financiam as ações do Estado graças aos impostos adquiridos pelas ações do mercado.

6976_967_544

Muitos desses políticos ainda sustentam formadores de opinião, sindicalistas, líderes de movimentos sociais e classe artística, que ajudam a capitalizar politicamente esse sentimento anticapitalista – comercializando livros, discos, filmes, séries de tv, espetáculos teatrais, documentários, jornais, revistas, cursos, publicações online. Para isso, utilizam produtos que vão de smartphones a notebooks, disponibilizados graças a uma teia robusta de mercado, interligada pela globalização.

É uma bola de neve, muito lucrativa, que ironicamente movimenta um sem fim de patrões, empregando um mar de assalariados de todos os cantos do planeta, utilizando de todas as teias de produção em massa do capitalismo acreditando que essa é a forma mais racional para comercializar um produto old-fashioned, pouco consumido pelas classes menos abastadas e que alcança o seu nicho numa juventude anti-econômica, chamado anticapitalismo.

Como disse um sábio austríaco em alemão, ainda na década de vinte, o anticapitalismo só se mantém em evidência por viver à custa do capitalismo.

crowbanner