Por que é tão difícil para a esquerda assumir que errou em relação à Venezuela?

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Ao longo dos últimos anos, não foram poucas as vezes em que representantes da esquerda brasileira lançaram apoio ao governo de Nicolás Maduro.

O PSOL apoiou a eleição de Maduro em 2013, “por expressar a continuidade dos valores da Revolução Socialista Bolivariana”. O PCdoB lançou nota na época comemorando sua vitória, que permitiria “à Revolução Bolivariana entrar numa nova fase, renovando seus objetivos e desafios”. Lula gravou um vídeo de apoio à sua candidatura, que foi utilizando durante a campanha de Maduro, dizendo que o líder do PSUV “se destacou brilhantemente na luta para projetar a Venezuela no mundo e na construção de uma América Latina mais democrática e solidária” (para Maduro, Lula é “como um pai dos homens e mulheres de esquerda na América do Sul”). Luciana Genro se encontrou com Maduro e o apoiou pessoalmente na Venezuela. João Pedro Stédile, o líder do Movimento Sem Terra, foi até Caracas mandar a direita venezuelana “de volta pra Miami” num palanque:

“Lhes trago o abraço de nosso companheiro Lula a cada um de vocês e ao comandante Maduro. Viemos aqui para lhes dizer que nos orgulha o fato de sempre que temos dúvidas recorrermos aos pensamentos, ao exemplo e aos ideais do comandante Chavez. Porque Chavez não foi somente da Venezuela, ele foi do povo latino americano. Chavez era brasileiro, e inclusive nos ensinou a reconhecer o valor de Abreu e Lima que nem sequer nós brasileiros conhecemos. Por isso, viemos aqui para nos abastecer dos ideais e pensamentos do comandante Chavez.”

E o MST não foi o único movimento social ligado ao PT a apoiar o regime. O Levante Popular da Juventude fez o mesmo. Carina Vitral, presidente da União Nacional dos Estudantes, publicou uma foto ao lado do presidente venezuelano declarando apoio nas redes sociais (a UNE, que se diz apartidária, também lançou nota apoiando Maduro em 2014, dizendo que “apoia o processo de revolução bolivariana para que ele não ceda às pressões da direita golpista”).

Na votação que elegeu Maduro, toda a esquerda brasileira se uniu para apoiá-lo. No Brasil, um ato chamado “Brasil com Chávez Está com Maduro” foi realizado em São Paulo. Contou com a presença do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MTST), do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), do Partido Socialista Brasileiro (PSB), da União Nacional dos Estudantes (UNE), do Levante Popular da Juventude, da Via Campesina, da União da Juventude Socialista (UJS), do Cebrapaz, do Foro de São Paulo, do Consulta Popular, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), da Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (Feab), da Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM), da Central de Movimentos Populares do Brasil (CMP), do Movimento de Moradia da Cidade de São Paulo (MMC), do Partido Comunista Revolucionário (PCR), do Partido Comunista Brasileiro (PCB), da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e do Partido Pátria Livre (PPL).

E se já em 2013, o fato da Venezuela apresentar sinais de deterioração do seu tecido social e da sua economia, graças aos equívocos grosseiros provocados pela revolução, não ser suficiente para afastar o apoio de toda esquerda institucional do país, ainda em 2016, com a Venezuela liderando a produção global de pobreza, o cenário se mantém no mesmo lugar. Se há os que fingem, no entanto, que a revolução assumidamente socialista, apoiada por diversos partidos e organizações socialistas ao redor do mundo, nunca foi socialista de fato (como se a falência fosse um critério que automaticamente desaprovasse o ideal socialista), há os que tentam parecer que não é papel do Brasil se meter nas questões domésticas de um país soberano como a Venezuela,  ainda que esse seja um país sob o jugo de uma ditadura perversa – o que apenas soa estupidamente cínico quando essas pessoas passaram a última década se metendo nas discussões venezuelanas, fazendo campanha, construindo palanques, financiando o partido e o governo e usando de seus ativos políticos, como no caso de Lula e Luciana Genro, para influenciar diretamente os resultados eleitorais.

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O fato é que a imensa maioria dos grupos ligados à esquerda brasileira, não apenas não admitem o fracasso triunfal do socialismo venezuelano, como vivem no mais profundo silêncio em torno dessa discussão (ao menos enquanto Maduro permanecer no poder). Por que é tão difícil a esses grupos assumirem que erraram em relação à Venezuela? Qual a razão para manter uma posição política mesmo quando ela se torna a falência materializada?

O fato é que para esses grupos todos, desde que o governo venezuelano esteja em sintonia com seus discursos político-partidários, não importa o quanto a pobreza aumente, a fome mate e a democracia seja perseguida (com a prisão injustificada de políticos de oposição, as ameças de dissolução da Assembleia Nacional, o Estado de exceção declarado por Maduro e os superpoderes permitidos ao presidente, para governar como queira, pisando em qualquer ideal republicano) – esse mesmo grupo, aliás, que finge lutar por democracia no Brasil, quando o único ideal democrata que lhe importa é ter seus próprios representantes no poder, mesmo que eleitos com desvio de dinheiro público ou sustentados através do peso de uma ditadura.

Abaixo, selecionei cinco pontos que escancaram o quão estúpida é a relação da esquerda com o governo venezuelano, que segue com afinco uma cartilha que, não por acaso, gera resultados absolutamente opostos àquilo que essa mesma esquerda diz defender no Brasil. Caso você ainda não tenha se convencido de rechaçar a ditadura bolivariana (e as suas políticas econômicas equivocadas), essa é a hora. Não há mais como disfarçar: ou você está junto Maduro, ou você está ao lado do povo.

1. Maduro é provavelmente o presidente mais homofóbico da América Latina.

Você não viu ninguém do PSOL comentar a respeito, mas Nicolás Maduro é provavelmente o presidente mais homofóbico da América Latina. E nada disso começou agora, do dia pra noite. Pelo contrário. Não é como se figuras como Luciana Genro pudessem ser pegas de surpresa. Muito antes de seu partido anunciar apoio à reeleição de Maduro, o líder venezuelano já havia entupido microfones com declarações rasteiras contra a comunidade LGBT.

Nas eleições de 2013, quando ainda era treinado por João Santana, o mesmo marqueteiro de Lula e Dilma, enquanto o PSOL escrevia notas de apoio por sua candidatura, Maduro insinuava que seu adversário, Henrique Capriles, fosse gay.

“Eu, sim, tenho mulher, escutaram? Eu gosto de mulheres”, provocou num comício, antes de beijar sua esposa, Cília Flores.

Capriles, que já havia sido xingado de maricón um ano antes pelo mesmo Maduro, rechaçou a acusação poucas horas depois.

“Quero enviar uma palavra de rechaço às declarações homofóbicas de Maduro. Não é a primeira vez. Creio numa sociedade sem exclusão, na qual ninguém se sinta excluído por sua forma de pensar, seu credo, sua orientação sexual.”

Poucos meses após o incidente, ainda em 2013, Maduro o acusou de ter um “esquema de prostituição gay e de transformistas” no estado de Miranda (a acusação jamais seria provada). Na ocasião, parlamentares chavistas cobraram o opositor na Assembleia Nacional aos gritos. Pedro Carreño, do PSUV (Partido Socialista Unido de Venezuela), foi um deles:

“Responda, homossexual! Aceite o desafio, bicha.”

Nada disso era novidade no PSUV. Em 2015, Freddy Bernal, comissário para a Reforma Policial do país, ao responder o jornalista Vladimir Villegas, da Globovisión, sobre a presença de policiais homossexuais na corporação, resolveu aplicar o mesmo conceito que Ford havia imortalizado um século antes sobre seus automóveis –  o de que o cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto.

“Um homossexual pode ser funcionário policial, desde que não manifeste publicamente sua orientação sexual.”

Para Bernal, esse seria um motivo de profunda vergonha.

“Imagine um oficial da polícia que queira usar uma camisa rosa, ou pintar os lábios…”

Parece difícil? Imagine algo muito mais extraordinário do que isso, Bernal: o fim da indignação seletiva da esquerda brasileira.

2. Há mais pobres hoje do que antes de Hugo Chávez assumir. E eles passam ainda mais dificuldade.

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Segundo os dados da última Encuesta sobre Condiciones de Vida en Venezuela (Encovi), 81% dos venezuelanos são hoje considerados pobres. Houve um aumento de cinco pontos percentuais em relação à pesquisa do ano passado. Do total, 87% dos venezuelanos possui dificuldades em encontrar alimentos necessários para uma nutrição adequada (adquirem alimentos para no máximo quinze dias). De acordo com a pesquisa, apenas 19% da população não é considerada pobre: 28% (8,4 milhões de pessoas) vive no limiar da pobreza extrema; 19% (5,7 milhões) é considerada extremamente pobre e 34% (10,2 milhões de pessoas) atingiu a pobreza recentemente. A classe média foi praticamente aniquilada. 

Segundo o Censo de 1998, ano em que Hugo Chávez foi eleito, a extrema pobreza atingia 18,7% da população, número quase três vezes menor do que hoje, passados 18 anos de socialismo.

O desemprego agora atinge 26% dos jovens venezuelanos e o país detém o título de economia mais miserável do mundo, segundo o Índice de Miséria 2015, organizado pela Bloomberg.

Em 2014, 5% da população venezuelana não se alimentava três vezes ao dia. Segundo a última pesquisa, esse número aumentou para 20%. E a tendência é de piora, com as medidas adotadas pelo governo para combater a crise hídrica – a produção dos principais alimentos no país caiu 87% no último ano, forçando a Assembleia Nacional a decretar emergência alimentar e convocar a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (a FAO) para enviar uma missão de especialistas ao país e avaliar os riscos à segurança alimentar da população.

Só tem um problema nessa história: a FAO é atualmente dirigida pelo brasileiro José Graziano, ligado ao PT, que atuou no gabinete do presidente Lula como seu assessor especial. Há menos de um ano, Graziano utilizou a organização que dirige para fazer proselitismo político e condecorou Nicolás Maduro com um prêmio. A razão? Sua “luta” pelo combate à fome na Venezuela.

3. As condições de trabalho pioraram. E a escravidão é literalmente a solução encontrada pelo governo para combater a fome.

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E como Maduro decidiu combater a fome? Com uma velha ideia que você conhece muito bem dos livros de história, chamada escravidão.

Há poucos dias, o líder venezuelano determinou a todas as empresas do país, sejam elas públicas ou privadas, que coloquem seus funcionários à disposição do Estado para aquilo que ele entende como trabalho de desenvolvimento agroalimentar do país. O tempo disponível para o trabalho agrário? 60 dias, prazo que pode ser prolongado por outros 60 dias, segundo o decreto publicado nesta semana.

Qualquer um pode ser sorteado para trabalhar no campo: engenheiros, médicos, professores. A única condição é de que os funcionários designados tenham as condições físicas e técnicas para exercer as funções necessárias. Funcionários da Polar, uma fabricante de alimentos e de bebidas, foram os primeiros designados para o trabalho, segundo alguns empresários do setor.

A diretora da Anistia Internacional para as Américas, Erika Guevara-Rosas, combateu o decreto, afirmando que “tentar abordar a severa falta de alimentos na Venezuela forçando o povo a trabalhar no campo é como tentar curar uma perna quebrada com um curativo”.

“O novo decreto é completamente inútil em termos de encontrar formas para que a Venezuela saia da crise em que ficou imersa por anos. As autoridades venezuelanas devem focar em pedir e levar de maneira urgente a ajuda humanitária que milhões de pessoas necessitam em todo o país e desenvolver um projeto efetivo a longo prazo para solucionar esta crise”, disse.

Trabalhos forçados determinaram um padrão laboral no último século em países socialistas como a União Soviética, Cuba, China, Coreia do Norte e Romênia. A Venezuela segue apenas seu script inevitável.

4. Os animais estão morrendo de fome.

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Ainda não está convencido da tragédia que assola a população venezuelana a partir da ótica dos direitos humanos? Encare o cenário pela perspectiva dos direitos dos animais.

Nos últimos seis meses, o zoológico público de Caricuao, o maior de Caracas, já contabilizou a morte de pelo menos 50 animais (entre eles porcos vietnamitas, antas, coelhos e aves). Com a escassez de alimentos, o cenário é caótico. Tigres e leões vêm sendo alimentados com abóbora e manga para compensar a falta de carne disponível. Um elefante come frutas tropicais em vez do bom e velho feno. A situação é tão precária que há poucos dias um cavalo foi tomado pela população e a sua carne desmembrada para consumo humano, como se a Venezuela fosse acossada por uma espécie de apocalipse zumbi.

E não se engane, quando se trata de sofrimento, não são apenas os animais nos zoológicos que padecem; os de estimação também. Um pacote de ração para cachorro, fabricado na própria Venezuela, quando disponível nas prateleiras, chega a custar 13 mil bolívares. O valor é equivalente a cerca de 11 dias de trabalho de um venezuelano que ganha um salário mínimo. Ou seja, quase uma quinzena dos salários no país. E isso para não falar das rações para gato, que alcançam os 20 mil bolívares. Não é difícil imaginar qual caminho esses animais seguem: o abandono.

Segundo a Asociación Venezolana de la Industria de Salud Animal o número de animais abandonados no país aumentou 30% nos últimos meses. E a escassez de ração é apenas parte dessa história. A falta de material de esterilização, de vacinas e medicamentos, também vem contribuindo para o cenário. Segundo a Fundación Amigos Protectores de los Animales, a crise econômica cria ainda um outro problema: a fuga em massa da classe média do país que, ao abandonar seus pertences, também abre mão dos seus próprios animais de estimação.

No ano passado, a Red de Apoyo Canino diz ter conseguido achar um lar para 600 animais. Até a metade deste ano, apenas seis tiveram a mesma sorte.

A chance de um animal de estimação abandonado sobreviver é mínima, haja vista a dificuldade de conseguir alimentos. A maior parte acaba morrendo atropelado.

5. A saúde pública está completamente abandonada. E a educação caminha para o mesmo buraco.

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A crise hídrica, associada à falta de remédios e a escassez de produtos básicos de higiene levaram a Venezuela a testemunhar nos últimos meses uma explosão de doenças como sarna, diarreia, malária e disenteria. O cenário é caótico. Os banhos são cada vez mais raros e as pessoas são obrigadas a armazenar água para administrar a escassez, infestando o país de criadouros de Aedes aegypti. As ocorrências de dengue, zika e chikungunya, não por acaso, explodiram recentemente.

Segundo um relatório da Secretaria de Saúde do Estado de Miranda, houve um aumento de 58,5% dos casos de sarna no estado no primeiro trimestre desse ano.

“O pico dos casos de sarna em Miranda coincide com o mês de recomeço das aulas, onde as crianças não são mais obrigadas a se lavar e trocar de roupas”, diz o relatório. “Embora o Estado tente manter o nível de abastecimento na capital, é possível supor, a nível nacional, que a situação seja mais grave no interior das províncias.”

Segundo o estudo, Miranda registra o maior número de casos de Malária nos últimos 50 anos. Já não há mais remédios para diarreia ou doenças hepáticas no país, além do tratamento de outras tantas doenças.

Há poucos meses, a Federación Médica Venezolana denunciou aquilo que se entende como um verdadeiro “holocausto da saúde”. De acordo com Douglas Leon, presidente da federação, “é aterrorizante trabalhar nos hospitais” venezuelanos que sofrem com “mais de 95% de falta de medicamentos”, enquanto “nas prateleiras das farmácias” a escassez é de 85%.

Os hospitais faliram completamente. Luvas e sabão desapareceram em alguns deles. Há pouquíssima eletricidade disponível para operações. Medicamentos usados no tratamento de doenças como o câncer muitas vezes só são encontrados no mercado negro. Em alguns hospitais, não há água suficiente sequer para lavar o sangue da mesa de cirurgias.

Para driblar o cenário, os médicos improvisam como podem. Muitos usam garrafas de água com gás para lavar as mãos. Outros passam horas bombeando ar manualmente nos pulmões dos bebês doentes.

“Parece que estamos no século 19”, disse o cirurgião Christian Pino, do hospital da Universidad de los Andes, ao The New York Times.

Nos últimos anos, o índice de mortalidade de bebês com menos de um mês de idade multiplicou-se mais de cem vezes nos hospitais públicos (e o de mães que faleceram ao dar à luz nesses lugares se multiplicou por quase cinco vezes no mesmo período).

A educação também não escapa. Com a crise no abastecimento de energia, algo próximo de 40% das aulas já são perdidas e cerca de 40% dos professores não comparecem nas escolas por estarem nas filas de supermercados em busca de alimentos, de acordo com a Federación de Maestros de Venezuela. Salas de aula com poças são usados como banheiros de emergência, porque não há água nos banheiros.

Na prática é inescapável dizer que, passado quase duas décadas da revolução bolivariana, isso é tudo que o governo venezuelano tem a oferecer: o mais completo caos social e econômico. E com o apoio, claro, da velha esquerda tupiniquim, que agora finge que não tem nada a ver com essa história. Pior para o povo venezuelano.

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