Que tal começarmos a sabotar José de Abreu?

Promover vomitaços na página do G20, mostrar a bunda para o Congresso, queimar lixeiras ou simplesmente realizar marchas. Os atos contra o presidente em exercício Michel Temer têm crescido nas últimas semanas, em uma velocidade quase tão impressionante quanto a capacidade que José Dirceu tem de deslocar-se entre um esquema e outro de corrupção.

No meio de tantas formas inovadoras de protestos, uma delas acabou chamando a atenção. Em um país com quase 12 milhões de desempregados, a alternativa do ator global José de Abreu para depor o presidente é, digamos, pouco usual: reduzir a o consumo, travar a economia e parar o país até que Temer decida renunciar ou seja deposto.

José de Abreu é fiel. Diga o que quiser – que o ator recebeu para estrelar comerciais de ministérios como o da saúde enquanto apoiava o governo, ou então que tenha participado de espetáculos que ganharam autorização para captar financiamento via Lei Rouanet -,mas não deixa de ser impressionante que o ator global mantenha sua fidelidade de amigo e parceiro da alta cúpula do Partido dos Trabalhadores, mesmo nos momentos mais difíceis.

Sua amizade com outro “Zé”, o Dirceu, é caso conhecido. Em nome dela, Zé de Abreu foi capaz de se comprometer com o erro, apoiar ideias mirabolantes e até mesmo realizar uma vaquinha para tirar o amigo da prisão. A amizade é tamanha que o ator chegou a provocar Lula e Dilma por permitirem a “prisão injusta do amigo”.

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Enquanto seu amigo era acusado pelo Ministério Público Federal de participar de um esquema de corrupção – o Petrolão – mesmo cumprindo pena por participar de outro esquema – o Mensalão -, Zé provocava seus inimigos “coxinhas”, descrentes do futuro da Petrobras. Em dezembro de 2014, em um momento onde as ações da estatal de petróleo sofriam dia após dia quedas na bolsa, o ator teve uma ideia mirabolante: reestatizar a empresa. Como? Fazendo a militância comprar ações. Zé de Abreu foi um dos mais engajados na campanha, afirmando ter comprado milhares de ações na época. Como ele, outros tantos artistas que apoiaram a reeleição de Dilma entraram na onda.

Como se sabe, pouco mais de um ano depois, as ações que em dezembro de 2014 valiam R$ 9,44, chegaram a valer R$ 4,22. Se Zé as manteve ou vendeu tudo nos momentos de alta, embolsando a grana como bom especulador, é incerto. O que importa é que suas idéias continuaram a florescer. Já no começo desse ano, quando o país já havia perdido 2,7 milhões de postos de trabalho, o ator ainda encontrava bom humor para questionar onde estava a crise.

Seu otimismo, porém, não durou muito. Apenas 28 horas após Michel Temer assumir como interino, em maio, a crise bateu à porta e Zé a reconheceu. Foi taxativo: o dólar subiu e a bolsa caiu com Temer, pois o país está em crise. 

Foi apenas após o impeachment ser confirmar, no entanto, que outra alternativa se tornou inevitável: é preciso parar o país. Para Zé, os trabalhadores devem unir-se, abdicar do consumo, abdicar de qualquer coisa “além do mínimo necessário”, para que a presidente afastada retorne ao poder – ou novas eleições sejam realizadas.

A proposta de Zé parece conter alguma lógica econômica – afinal, sem que a população consuma, o presidente se verá impossibilitado de conduzir o país, que deixará de arrecadar impostos e entrará em grave crise. Mais do que uma simples ideia, no entanto, sua lógica inclui um viés perverso. Afinal, caso houvesse possibilidade de aplicação da ideia, sairiam prejudicados justamente aqueles que não possuem poupança – trabalhadores incapacitados de se proteger. Levado ao pé da letra, o plano de Zé provocaria sérios problemas e seria pouco eficaz no seu propósito.

Mas afinal, o que há de errado com a ideia de Zé de Abreu de “parar a economia”?

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Fazer a economia crescer por meio do consumo é o sonho de qualquer político. A lógica é tentadora: você distribui uma quantidade de dinheiro para as pessoas, elas utilizam estes recursos para consumir, o que gera aumento na produção da economia, que paga impostos e banca investimentos, elevando a arrecadação do governo e a própria produção do país. Simples não? Afinal, com os impostos que passam a ser arrecadados, você pode repetir o ciclo, e desta forma criar uma maneira da economia continuar a crescer. Seria tudo muito bonito, não fosse a realidade – que teima em questionar essa ideia de ficar rico gastando.

Como o Brasil bem descobriu nos últimos anos, para um empresário investir não basta apenas crédito – e para as famílias consumirem, não basta que os bancos ofereçam crédito, é preciso que haja confiança para investir, ou certeza de que a renda será suficiente no futuro para bancar estes empréstimos. E é aí que entra o problema. Se as famílias se endividam demais, param de consumir, e o modelo desaquece. Com menos consumo, a arrecadação cai, e o governo passa a não ter condições de se bancar ou bancar os benefícios que prometeu.

Mas o que isso tem a ver com o que propôs José de Abreu?

Após mais de meia década testando um modelo que fez o crédito imobiliário e automotivo explodirem, boa parte das famílias encontram-se endividadas nesse momento, de modo que “consumir apenas o básico”, como sugere o ator global, tornou-se uma necessidade imposta pela realidade, e não algo alcançado com mero proselitismo político.

Para boa parte das famílias, o futuro do país ainda é bastante incerto, como sugere uma pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas. Segundo ela, os brasileiros não se encontram suficientemente encorajados a elevar seus níveis de consumo, pois não possuem muita certeza se permanecerão empregados.

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E é justamente aí que entra o problema dessa proposta. Reduzir o consumo ao limite seria hoje uma forma de elevar a pressão para que as empresas reduzam o número de seus funcionários. Se o consumo cair ainda mais, por que uma empresa deveria manter alguém contratado? Por que insistir em pagar salários se as pessoas não consumirão mais por esses bens e serviços?

Levada à risca, a proposta colabora para elevar o desemprego no país para muito além dos atuais 12 milhões. Milhões de famílias entrariam na fila do seguro desemprego, elevando os gastos do INSS e aumentando o déficit da seguridade social, o que provocaria um rombo ainda maior nas já problemáticas contas do governo.

Nesta pequena bola de neve, um aumento no déficit público levaria a uma necessidade de que o governo aumentasse o seu endividamento para bancar os gastos. Isso necessariamente tornaria a dívida mais cara – afinal, a capacidade de pessoas e empresas de financiar o governo é limitada. Com este aumento de juros, não demoraria muito para que as famílias passassem a pagar mais juros, afinal, o crédito é escasso. É o caos.

Infelizmente tudo isso não se trata de uma teoria da conspiração ou um exercício de futurologia, ao estilo Zé de Abreu de prever a economia. Trata-se justamente daquilo que já acontece hoje, uma vez que estamos entrando no terceiro ano de resultado negativo das contas públicas.

Atualmente, você paga juros maiores exatamente porque o governo não cabe dentro do próprio orçamento. E neste plano maluco, tudo desce ladeira abaixo.

Nem todo mundo, evidentemente, sairia perdendo nessa história. Pessoas que possuíssem quantias guardadas, teriam seus recursos mais valorizados, uma vez que tudo na sociedade passaria a valer menos. Em outras palavras: quem possuísse uma renda assegurada ou uma poupança, sairia ganhando com o plano mirabolante de José de Abreu. Gente feito ele mesmo.

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