Sabe aquele papo que a imprensa internacional chama o impeachment de golpe? É mentira.

Sob gritos de “não vai ter golpe” e “abaixo a Rede Globo”, Lula discursou em diversas cidades do país nas últimas semanas. No intuito de deslegitimar o processo de impeachment de Dilma, o ex-presidente e sua militância se esforçam em repetir que o processo de impedimento se trata  de um golpe orquestrado por Eduardo Cunha e a imprensa. Duas décadas atrás, porém, coube ao mesmo Lula encontrar-se com Roberto Marinho, o fundador da Rede Globo, para angariar o apoio de sua emissora e legitimar o processo de impeachment do ex-presidente Collor.

Graças ao resultado do encontro, passeatas organizados pelo PT, pró-impeachment, passaram a ter ampla cobertura da emissora, enquanto artigos publicados por deputados como Aluízio Mercadante (presente no encontro), tratavam de exaltar a importância de uma imprensa ativa no processo. Em seu artigo publicado na Folha de São Paulo, “O PT, “O Globo” e o muro da Dinda”, Mercadante ressalta diretamente a importância de revistas como a Veja, uma das responsáveis por levar a tona matérias sobre escândalos envolvendo o ex-presidente Collor.

A guinada de Lula que ajudaria a elegê-lo em 2002, acabou se refletindo também na sua relação com a imprensa. Setores do PT que defendiam a regulação da mídia ganharam pouco destaque, verbas estatais para a publicidade continuaram fluindo, com mais de R$ 6,2 bilhões dos R$ 22 bilhões gastos pelo governo (entre 2003 e 2014) indo diretamente paro o Grupo Globo. Nem mesmo o escândalo do Mensalão fez a imprensa brasileira cogitar um impeachment. O apoio ao presidente em um período de boom da economia parecia inabalável.

Nada muito estranho, portanto, que Dilma tenha herdado parte da boa relação de Lula com a mídia. Em 2012, Dilma foi eleita a “brasileira do ano” pela revista IstoÉ, a primeira a pedir seu impeachment em 2015. No mesmo ano, a revista Veja exaltava o ‘choque de capitalismo’ pelo qual Dilma promoveria um salto na infraestrutura logística do país. Ainda em 2012, o jornal O Globo era um dos mais entusiastas da faxina que Dilma promovia em seus ministérios, expulsando ministros ao menor sinal de corrupção. Dilma era uma caçadora de corruptos, segundo a própria imprensa.

A boa relação com a mídia estendeu-se aos veículos internacionais. Ao longo de oito anos, o Brasil consolidou-se como o quarto país a mais receber investimento estrangeiro no mundo, com mais de US$ 60 bilhões de investimentos anuais, em boa parte graças à visão otimista que a imprensa internacional deixou transparecer. Para a revista The Economist, em 2009, o Brasil era a bola da vez – em um mundo atolado em crises imobiliárias, o país continuava a crescer, atingindo um crescimento de 7,2% no PIB em 2010.

Assim como a economia brasileira, porém, os olhares da imprensa para o Brasil viraram no sentido inverso. Em 2013, a mesma The Economist lançou uma capa, ironizando sua própria edição de 2009 com o título ‘O Brasil estragou tudo?’. Em um presságio daquilo que viria a seguir, a revista, uma das mais tradicionais do mundo, apontava o rumo das decisões tomadas pelo país nos últimos anos.

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Nos dias de hoje, em meio à maior crise já vivida pelo país, vemos uma imprensa que hesita em tomar posição. São poucos os casos de mídia que se posicionam sobre o assunto, como a IstoÉ ou O Estado de São Paulo, pró-impeachment, a revista Carta Capital, contrária ao impeachment, ou a Folha de São Paulo, que sugere uma renúncia como opção. Em países como Inglaterra, França e Estados Unidos, as posições de jornais e revistas costumam ser mais frequentes. E se você acha que a imprensa brasileira tornou-se golpista após o fim da lua de mel com o governo Dilma, deveria dar uma olhada no que a mídia internacional anda dizendo sobre o Brasil.

‘Isso não é um golpe de Estado’ – Le Monde, França

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Segundo maior jornal francês e o maior dentre os alinhados à esquerda (ou centro-esquerda, conforme o jornal se declara), o periódico Le Monde, lançou recentemente um editorial, no qual preocupa-se em destacar que um eventual impeachment da presidente Dilma não é o mesmo que um golpe de Estado.

Para o jornal, o caminho mais fácil para o país seria a renúncia da presidente, uma vez que sua base de apoio no congresso é limitada, impedindo a realização de reformas que retirariam o país da crise. Aprovar um ajuste ou mudar os rumos da política econômica nestas condições é algo impossível de ser feito, segundo o editorial.

A alternativa proposta pelo Monde, porém, não se limita a uma renúncia de Dilma, mas sim à convocação de novas eleições. A proposta encontra eco em alguns políticos brasileiros (como a ex-candidata à presidência, Marina Silva, o presidente do PSDB, Aécio Neves, e Luciana Genro, do PSOL), e cada vez mais soa como uma alternativa plausível para membros do próprio PT – a única alternativa possível para combater o impeachment.

‘Dilma empurra o Brasil para o abismo’ – The Washington Post, Estados Unidos

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Responsável por trazer a público o escândalo Watergate, quando o ex-presidente norte-americano Richard Nixon foi acusado de envolver-se diretamente com escutas ilegais no edifício sede do Partido Democrata (caso que levou ao seu impeachment), o jornal The Washington Post é também um dos maiores e mais tradicionais jornais dos Estados Unidos.

Para a publicação, de orientação mais à esquerda (e tradicional apoiador do Partido Democrata), as acusações de manipulação das finanças públicas são casos graves, mas que dificilmente deveriam render um impeachment. A movimentação da presidente para proteger Lula e impedir seu julgamento pelo juiz Sergio Moro, porém, mudaram a situação.

Para o Post, Dilma está entrincheirada em seu gabinete, recusando-se a sair do poder, o que impede a realização de medidas que tirem o país da crise econômica. A renúncia é o caminho mais digno e útil ao país.

‘Dilma deveria convocar eleições ou renunciar’ – The Guardian, Reino Unido

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Publicado na edição dominical do jornal, chamada de “The Observer”, a crítica do jornal inglês The Guardian (também de orientação de centro-esquerda), mira na renúncia da presidente Dilma como a mais razoável e diplomática das decisões a serem tomadas.

Para o jornal, Dilma não possui condições de governabilidade, fato que a impede de tirar o país da situação em que se encontra. A complicada situação do partido de seu vice também inviabilizaria uma renúncia para a realização de um governo de coalizão, motivo pelo qual a convocação de eleições gerais destaca-se como uma alternativa viável.

O jornal destaca ainda o fato da democracia ser relativamente jovem no Brasil, o que tornaria um processo de impeachment ainda mais traumático ao país. Golpe, no entanto, não há.

‘Corrupção e crise devastam ambições globais do Brasil’ – The New York Times, Estados Unidos

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Para o Times, também um tradicional apoiador do Partido Democrata (de inclinação mais à esquerda no espectro americano), a corrupção na Petrobras, a crise política e o debate em torno do impeachment foram temas suficientemente relevantes para merecer o destaque de capa no jornal. Segundo a publicação, que relata a prisão do senador Delcídio do Amaral e sua delação , indicando que a presidente e o partido do governo possuíam intenção de sabotar as investigações da Operação Lava Jato, a situação política brasileira pode ser resumida em uma palavra: “pânico”.

Estrela dos mercados emergentes, o Brasil viu sua ambição ser reduzida à medida em que a frustração de promessas exageradas (como as de Eike Batista, que recebeu R$ 23 bilhões em aportes via bolsa de valores e não entregou sequer 5% do prometido) viam caindo à tona. Por parte do governo, a frustração foi semelhante. Três anos seguidos de déficit público e dois anos com inflação acima do teto da meta minam a credibilidade do governo brasileiro. Para o Times, no entanto, a falta de perspectiva é o maior dos nossos problemas.

Em outra matéria (não editorial e portanto não refletindo a opinião do jornal, mas de seu correspondente no Brasil), o Times publica uma série de acusações e denúncias que envolvem os ditos “líderes do impeachment”. Para o correspondente do Times, Sergio Romero, Dilma é um caso raro de político, visto que não há acusações pessoais contra ela, ao contrário daqueles que a processam (para Romero, porém, as acusações de uso de extorsão e dinheiro ilícito para eleger Dilma, não contam como crimes que pesem sobre a presidente).

‘Brasil festeja carnaval a beira do abismo’ – The Economist, Reino Unido

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Em fevereiro desse, a edição da The Economist deu destaque ao clima no qual o Brasil entrou em seu “período de festas”. Pela primeira vez em 80 anos, o país irá enfrentar dois anos seguidos de queda no PIB – também por dois anos, teremos uma inflação sem controle.

A revista, conhecida por apostar no Brasil em 2009, vê agora o país pagando por uma sucessão de erros, cometidos entre 2009 e 2014, que levaram o país ao posto de segunda economia que menos cresce no planeta – excetuando-se países em guerra, epidemias ou sob sanções internacionais. Crescemos mais apenas do que a vizinha Venezuela.

Nada disso, porém, é motivo para um impeachment – a saída mais razoável, para a revista, seria uma renúncia da presidente que permitisse ao seu vice criar um governo de coalizão, como aquele que levou Itamar Franco ao poder.

No Brasil, a revista é republicada pela Carta Capital, também envolvida na Lava Jato, citada nos grampos feitos no ex-presidente Lula. Há poucos dias, a revista dedicou uma capa a presidente Dilma em sua edição para as Américas com o título ‘Hora de ir’.

‘Quando um golpe não é um golpe’ – The Economist, Reino Unido

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Pouco afeita a dar opiniões além da economia brasileira, a revista inglesa The Economist reforçou sua opinião política, numa matéria publicada especialmente para a The Economist Americas, sua edição latino-americana.

Para a revista, a palavra golpe tem sido desmoralizada no país, uma vez que esta deveria referir-se estritamente à tomada do poder pelo uso inconstitucional da violência – o que não ocorre no Brasil, uma vez que o processo de impeachment é legalmente previsto na constituição.

O foco maior, entretanto, deveria ser, segundo a revista, em entender por que rompimentos deste tipo são tão traumáticos em regimes presidencialistas. Em um sistema parlamentar, como o inglês, qualquer governo incapaz de governar com maioria que o suporte seria prontamente desfeito e eleições convocadas, o que vem a ser por coincidência, o que pedem alguns dos principais envolvidos nas eleições de 2014.

Já cogitado em plebiscito no Brasil, e tendo existido de fato por um breve período no governo Jânio, o parlamentarismo tem atraído apoiadores nos últimos tempos, em especial porque, segundo alguns, um segundo impeachment dentre os últimos 4 presidentes eleitos (e um histórico de apenas cinco presidentes tendo completado mandatos em 90 anos de história), demonstraria que o presidencialismo não garante a estabilidade necessária ao país.

‘Salvação do Brasil passa pela queda de Dilma Rousseff’ – Le Figaro, França

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Maior jornal francês, de orientação de direita, o Le Fígaro considera que a queda da presidente é a mais urgente das medidas a serem tomadas. Para a publicação, aguardar um processo de cassação da chapa seria traumático ao país, uma vez que poderia vir a ocorrer apenas em 2017.

A crítica do jornal dá destaque à espiral negativa das políticas econômicas adotadas pelo país nos últimos 10 anos.  A crítica se estende à política industrial falha, que resultou em queda no investimento e na poupança, na baixa produtividade e em especial na previdência brasileira, uma das seis únicas do mundo onde não existe exigência de idade mínima para aposentadoria.

‘Mãos limpas brasileira chega ao coração do poder’ – Corriere della sera, Itália

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O italiano Corriere Della Sera destaca a inspiração da Lava Jato na operação italiana, que durante a década de 90 prendeu mafiosos e políticos. Para o juiz federal Sergio Moro, a operação é uma inspiração, em especial pelos artifícios utilizados para garantir a colaboração dos indivíduos envolvidos. Até mesmo uma espécie de delação premiada foi adotada durante o julgamento.

Para o jornal, porém, o grande destaque é a aproximação da operação ao ex-presidente Lula, que agora se vê no centro de algumas das principais acusações. Enriquecimento ilícito e o possível envolvimento do ex-presidente no esquema de corrupção minam a imagem construída por ele.

‘Situação de Lula é um golpe para a imagem do Brasil’ – El país, Espanha

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Mais um dentre os grandes jornais mundiais que possuem versões para o Brasil, o El País dá destaque especial à imagem do ex-presidente Lula, severamente abalada pela operação Aletheia, que levou a Lava Jato ao próprio Lula e o centro do poder.

As denúncias que recaem sobre o ex-presidente recaem sob todo seu legado, segundo o jornal. O fato de duas empresas terem bancado um apartamento de luxo e obras em uma casa de campo são amplificados pela imagem que o próprio ex-presidente sempre buscou – a de um sindicalista que venceu os desafios e chegou ao posto de presidente garantindo um legado com forte impacto na área social.

‘Fora sexo (por enquanto), os escândalos brasileiros têm de tudo’ – CNN, Estados Unidos

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A rede de tv americana CNN lançou recentemente uma reportagem onde elenca as principais dificuldades enfrentadas pelo país, ressaltando que os escândalos de corrupção que tomam conta do país fazem da política brasileira uma grande novela – semelhante ainda à série americana House of Cards, como compara a revista alemã Die Zeit.

Para a CNN, os problemas do Brasil não se limitam à política ou economia, mas se mostram graves quando chega-se a epidemias e falta de planejamento (como no caso dos jogos olímpicos, a serem realizados no país ainda nesse ano).

‘A corrupção é apenas um sintoma de um problema mais profundo no Brasil: um vasto aparato estatal que tentou ser o motor do crescimento’ – The Wall Street Journal, Estados Unidos

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O maior jornal de negócios do mundo, e um dos mais lidos dos Estados Unidos, que há poucos dias entrevistou o vice-presidente Michel Temer, questionando-o sobre a transição e sobre a constitucionalidade do processo de impeachment, publicou também, de forma simultânea, uma matéria onde analisa as causas da depressão brasileira.

A maior recessão da história brasileira, segundo o Journal, se manifesta nos casos flagrantes de corrupção, mas tem origem em outro momento: não em seu desacobertamento, como sugeriu o ex-presidente Lula, ao acusar o juiz Sergio Moro e a operação Lava Jato de atuarem em favor do desemprego. Para os jornalistas que escrevem para o Journal, John Lions e David Luhnow, os problemas hoje vividos pelo Brasil nascem de um entendimento por parte do governo de que a economia deve ser pautada por grandes ações estatais, em especial aquelas lideradas pela Petrobras.

A corrupção que se origina dos volumosos contratos teria surgido por consequência deste gigantismo.

Para o The Wall Street Journal, assim como para a esmagadora maioria das grandes publicações internacionais, o Brasil vive um caos – mas sem golpe.