Sem capitalismo não haveria feminismo

Nunca foi uma tarefa fácil desempenhar o papel de mulher – mas é possível afirmar, sem medo de cometer qualquer equívoco, que essa era uma tarefa muito pior antes do advento do capitalismo. Nos acostumamos a debater a questão de gênero no mundo moderno ignorando o quão incomparavelmente opressivo foi o passado feminino. Por séculos, a natureza das mulheres foi um mero apetrecho submisso ao universo dos homens.

Nesse cenário, o sexo sempre foi um tabu violento. Mary Wood-Allen, uma das lideranças do movimento de Temperança, que antecedeu a Lei Seca nos Estados Unidos no século dezenove, garantia a suas jovens leitoras, através do influente What a Young Woman Ought to Know (O que uma moça deve saber), que era permitido ter intimidades sexuais dentro do casamento – contanto que o ato fosse realizado sem o menor resquício de desejos sexuais. Para evitá-los, em geral, as mulheres eram orientadas a abandonar passatempos mundanos como jogar cartas e ler romances. Os romances eram sempre os principais culpados por estimular pensamentos impuros.

E se em casa o opressão era fiel companheira da vida sexual feminina, fora dela era quase inimaginável. Em 1856, uma jovem dona de casa de vinte e quatro anos, de uma família tradicional de Boston, casada com um homem muito mais velho, confessou em lágrimas ao seu médico, Dr. Horatio Storer, que não raramente se encontrava, de forma involuntária, pensando em outros homens que não o marido. O médico lhe receitou uma série de medidas emergenciais, incluindo banhos frios e uma lavagem completa de suas partes íntimas com borato de sódio, além da eliminação de todos os estímulos, inclusive alimentos condimentados e romances. Storer apresentou o caso para a Boston Society for Medical Observation, argumentando veementemente que “se ela continuasse em seus atos de indulgência provavelmente se tornaria necessário mandá-la para um asilo”.

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A subordinação das mulheres refletia-se também na literatura. Em A Megera Domada, de Shakespeare, uma personagem feminina dá uma lição para outras mulheres sobre a ordem natural:

“Teu marido é teu senhor, teu guardião, tua vida, teu chefe e soberano. É ele que cuida de ti; para manter-te, arrisca a vida, com trabalho penoso em mar e em terra; nas noites borrascosas, acordado; de dia, suportando o frio, enquanto dormes em casa no teu leito quente, tranquila e bem segura. Não te pede outro tributo além de teu afeto, mui sincera obediência e rosto alegre, paga mesquinha de tão grande dívida. A submissão que o servo deve ao príncipe é a que a mulher ao seu marido deve.”

Quase três séculos após Shakesperare dominar os palcos britânicos, o cenário permaneceria irretocável. Para o crítico de arte britânico John Ruskin as mulheres deveriam ser educadas apenas para servir aos seus maridos, e não mais que isso. Ruskin escreveu em seu ensaio Of Queen’s Garden, publicado em 1865:

“Até onde ela governa, tudo deve estar certo, ou nada está. Ela deve ser paciente, incorruptível; instintivamente e infalivelmente sábia – sábia, e não para seu auto-desenvolvimento, mas para a auto-renúncia: sábia, não para fixar-se acima de seu marido, mas para nunca falhar ao seu lado.”

Este é o exemplo típico do que as pessoas pensavam sobre as mulheres. A mulher era um não-ser e a única coisa que se esperava de sua existência era casar-se e ter filhos – especialmente no Reino Unido, onde, em 1861, o censo apontava para uma falta de quase meio milhão de homens. No século dezenove, o divórcio raramente era um artifício permitido às mulheres. Para obtê-lo na Inglaterra, por exemplo, um homem só precisaria mostrar que a esposa havia lhe traído. Uma mulher, porém, teria que provar que seu companheiro havia agravado a infidelidade mantendo relações com animais, cometendo incesto ou alguma outra transgressão bizarra e imperdoável. Até 1857, uma mulher divorciada tinha de abrir mão de todos os seus bens, e em geral perdia também a guarda dos filhos. Antes da Married Property Act, de 1882, quando uma mulher se casava, sua riqueza era passada ao companheiro – e se trabalhasse depois de casada, não era incomum que seus ganhos continuassem nas mãos do marido. Perante a lei, uma mulher não tinha direito algum – não poderia usufruir de plena liberdade de expressão, possuir propriedade, assinar documentos legais ou obter uma educação contra a vontade do marido. Como o jurista William Blackstone afirmou, no final do século dezoito, “pelo casamento, o marido e a esposa tornam-se uma única pessoa de direito; isto é, a existência da natureza legal da mulher é suspensa, ou pelo menos é constituída e consolidada na do marido”. Em certos casos, a mulher não possuía responsabilidade legal individual sequer por crimes que cometesse.

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Antes do nascimento das revoluções que transformariam o mundo num lugar absolutamente diferente de tudo aquilo que já havia sido, era realmente difícil ser mulher – especialmente porque o respeito às normas morais quase sempre lhes negava atendimento médico apropriado. Ao longo dos séculos, o sangue menstrual era visto com desconfiança e médicos procuravam evitar operações durante esse período. Mesmo já no século dezenove, médicos não eram autorizados sequer a chegar perto das partes íntimas de suas pacientes (o ginecologista James Platt White foi expulso da Associação Médica Americana por permitir que seus alunos observassem Mary Watson, uma mulher de 26 anos, dar à luz, mesmo com a permissão dela). A ignorância em relação à anatomia feminina era quase medieval. Isso, obviamente, trazia graves consequências, já que era humanamente impossível para um médico realizar exames de forma adequada. Como regra, se uma mulher fosse acometida por alguma dor abaixo da linha do pescoço deveria apontá-la para a área afetada num manequim. Em 1878, a ignorância era tamanha que o British Medical Journal ainda era capaz de se questionar sobre a possibilidade de uma mulher tocar um presunto e estragá-lo por estar menstruada. No fim de 1892, como Judith Flanders relata em Inside the Victorian Home: A Portrait of Domestic Life in Victorian England, um inglês levou sua esposa, que tinha se tornado míope no início da meia-idade, a um oculista, apenas para ser informado que o problema dela tinha origem em seus órgãos sexuais (e nos desejos libidinosos que a obrigavam a deteriorar seus olhos). A única maneira de restaurar sua visão foi realizando uma completa retirada do útero.

Porém, uma lenta e gloriosa revolução, sem precedentes na história da humanidade, ajudou a alterar os rumos do jogo. Graças às reformas liberais, a circulação de jornais na Europa aumentou oito vezes entre 1712 e 1757. Em 1771, as principais publicações britânicas obtiveram permissão para relatar de forma pública os debates no Parlamento. O que isso tudo indicava? Que a instrução finalmente estava se popularizando. Entre 1786 e 1790, no norte da França, 44% das mulheres já sabiam escrever o nome, indicando um salto de alfabetização para números jamais vistos. Não obstante, a Revolução Industrial foi um resultado direto dessa revolução silenciosa – criou e foi cria da instrução que se espalhava por todo velho continente, originando-se da sinergia entre produção e educação. Sem as máquinas que permitiram a popularização de manuais de alfabetização, e sem o comércio dos livros, livrar-se da ignorância certamente não passaria de um sonho utópico para o Ocidente. Como relata o americano Steven Roger Fischer em História da Leitura:

“Os livros transformaram-se em produtos de distribuição em massa. Subia a renda e, com isso, cada vez mais livros eram comprados e lidos. A leitura proliferava em toda parte. Se no passado a maioria das casas possuía apenas um ou dois exemplares religiosos, agora quase toda casa tinha Bíblia, dicionário, semanário, diversos romances e muitos livros escolares. Médicos e advogados mantinham, e exibiam com proeminência, bibliotecas profissionais essenciais para o exercício da profissão.”

Em toda Europa, graças ao surgimento da Revolução Industrial e de suas máquinas de impressão, mulheres podiam finalmente tirar proveito da distribuição literária, algo antes inteiramente controlado por eruditos e religiosos. Envoltas numa escuridão de ignorância, elas começaram a exigir o acesso ao conhecimento de todo tipo através dos livros, fazendo dessa época o apogeu de títulos como “Maneiras rápidas de…” e “Instruções práticas para…“. Com o surgimento da moda, o segmento religioso, que durante séculos havia sido praticamente o único tema disponível para a literatura feminina, deu lugar aos guias de etiqueta. Algo mágico havia acontecido. Practical instruction in gardening for ladies (Instruções Práticas de jardinagem para senhoras), publicado em 1841 pela britânica Jane Loudon, foi a primeira obra, de qualquer natureza, a incentivar as mulheres a literalmente saírem do universo entediante de seus quartos em seus momentos de folga. Seu estilo direto, como conta Bill Bryson, pegou a um ponto que quase chegava ao erotismo. Gardening for ladies insistia bravamente que as mulheres podiam fazer jardinagem sem qualquer supervisão masculina. Era uma aventura excitante, de liberdade e desprendimento, mesmo que no próprio quintal de suas casas. A obra permaneceu em catálogo, reeditada inúmeras vezes, até o fim do século. E as mulheres, felizmente, não se contentariam apenas com os limites de suas residências.

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Mas o capitalismo não daria apenas instrução para as mulheres. Nos Estados Unidos, elas foram a principal força de trabalho nos primeiros cinquenta anos da Revolução Industrial (em Lancaster, Massachusetts, 88% dos operários fabris eram mulheres em 1818). Na maior parte do país, os homens trabalhavam na terra – onde a força física era uma necessidade primordial. Nas fábricas, onde pela primeira vez na história as forças se equiparavam graças às máquinas, as mulheres testemunharam um processo radical: um pagamento semanal com base em uma escala de hora em hora. Algo inédito na agricultura, que permitiu que elas recebessem, em média, o dobro do que ganhavam no trabalho agrícola.

Muito se fala sobre os abusos sofridos por mulheres e crianças na Revolução Industrial, mas usualmente nos esquecemos que as condições no período que a antecedeu eram consideravelmente piores. A maior parte das famílias vivia miseravelmente, contando com as migalhas que caíssem das mesas das castas privilegiadas. Na Inglaterra, milhares de homens e mulheres infestavam o país na mendicância e na prostituição. Em 1851, uma em cada três moças de Londres, jovens entre 15 e 25 anos, se compunha de prostitutas; outra terça parte eram criadas. Não havia muita escolha. O número total de criados na capital britânica era maior que o da população total de todas as cidades inglesas, se descontarmos as seis maiores. E ser criado estava longe de ser uma profissão gratificante. Jenny Uglow, em sua A Little History of British Gardening, conta a história de uma propriedade onde, quando a família estava presente, os jardineiros eram obrigados a se afastar no mínimo um quilômetro e meio para não tornarem-se presença irritante no campo visual dos proprietários. Numa mansão em Suffolk, no leste da Inglaterra, os criados eram obrigados a colar o rosto na parede quando alguém da família passava. O trabalho nas fábricas representava um salto para as mulheres, uma ascensão social e econômica sem precedentes.

Na segunda metade do século dezenove, houve uma rápida transformação na incipiente indústria americana. A porcentagem total de mulheres operárias havia diminuído como uma flecha – influenciado pela leva de imigrantes -, criando mudanças sociais que as levariam para os cargos mais bem pagos e para os novos campos de trabalho em ebulição no país. Na indústria de algodão entre 1850 e 1905, o percentual de mulheres caiu de 64% para 47% – apesar disso, as mulheres ainda dominavam os dois trabalhos têxteis mais lucrativos: a tecelagem e as máquinas de fiar. O declínio das mulheres no emprego industrial também refletiu no aumento das oportunidades longe das fábricas. Depois de 1850, o número de professoras, em Massachusetts, por exemplo, foi o dobro dos homens. Em 1900, as mulheres estavam presentes em 195 das 303 classificações de emprego enumeradas pelo censo – algo inédito no Ocidente. Na Europa, como o próprio Engels testemunhara em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, citando o discurso de Lorde Ashley na Câmara dos Comuns, em 1844, um pai repreendeu as duas filhas porque elas tinham ido a um pub e foi duramente retrucado – “Vai para o diabo! Nós é que te sustentamos”. Fartas de serem mandadas por um homem, decidiram ir embora de casa. Nada parecido havia acontecido em séculos.

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Não por acaso, o século dezenove assistiu à formação das primeiras correntes feministas. Após um período de tempo inenarrável, pela primeira vez, as mulheres conheceram a possibilidade histórica de pensar sua condição, não mais do ponto de vista biológico, mas como fruto de uma situação social imposta. A Revolução Industrial ofereceu um novo elemento ao universo feminino, imprescindível para que as mulheres deixassem de cumprir o papel de seres de segunda classe – a liberdade de escolha. Agora, pela primeira vez, elas tinham a possibilidade de prover o próprio sustento, sem depender de qualquer outra pessoa – algo fundamental para uma organização civil. A revolução econômica, que beneficiaria as mulheres mais do que nenhuma outra classe durante o período, se transformaria no motor para a revolução social que lentamente se levantava. Como afirma a feminista canadense Wendy McElroy:

“Quando as mulheres deixaram os campos em busca de emprego e educação, elas se tornaram uma força social que não mais podia ser negada. Consequentemente, os direitos das mulheres avançaram extraordinariamente durante o final do século dezenove, algo que não teria ocorrido não fosse a Revolução Industrial.”

Mesmo com abusos, nenhum outro período histórico empoderou mais vulneráveis do que o surgimento do capitalismo no século dezenove. Através dele, as mulheres conquistaram os primeiros sinais de independência em sua longa trajetória pelo Ocidente – como classe econômica em ascensão foram às escolas e às universidades, montaram seus próprios negócios, escreveram seus livros, ganharam o mundo, tornaram suas pautas possíveis – não sem muita batalha.

Se as mulheres operárias ajudaram a libertar o capitalismo das amarras da aristocracia, o capitalismo tornou possível libertar as mulheres da escuridão.