Como as acusações de racismo no Oscar apontam as contradições da esquerda americana

O racismo é a bola da vez na festa do Oscar. Depois de dois anos sem a indicação de atores e atrizes negros na maior premiação do cinema mundial, a comoção em torno da discussão étnica na indústria do entretenimento gerou posições acaloradas, boicotes e a convocação de um comediante negro para cobrir o buraco deixado pelo evento.

Sim, como você deve imaginar, o Oscar é branco demais: apenas 2% dos membros da Academia são negros. Mas isso é apenas parte óbvia da história, repetida exaustivamente nas últimas semanas (e cotas evidentemente não é uma solução). Há outro fator, porém, tão importante quanto questionar uma pauta política num grande evento num ano de eleição, que a esquerda americana pouco ousa discutir a respeito – afinal, existe a preponderância de algum pensamento político por trás de Hollywood? A resposta mais objetiva possível é: sim. E ela aponta para um imenso espelho.

Segundo uma pesquisa do Los Angeles Times, que usou um algoritmo e relatórios específicos para classificar os doadores por cada setor, 9 em cada 10 dólares doados pela indústria do entretenimento em Hollywood aos candidatos presidenciais de 2016 de ambos os partidos possuem o mesmo caminho: a campanha da democrata Hillary Clinton. Entre seus doadores estão Dana Walden, chefe do Fox Television Group, Patrick Wachsberger, co-presidente do Lionsgate Motion Picture Group e Michael Lombardo, presidente de programação da HBO.

Em 2012, nomes como Jeffrey Katzenberg, diretor executivo da DreamWorks, Harvey Weinstein, co-fundador da Miramax Films e co-presidente da The Weinstein Company, Ted Sarandos, chefe de conteúdo da Netflix, David Cohen, vice-presidente executivo da Comcast, Josh Berger, executivo da Warner Bros, Michael Lynton, CEO da Sony Entertainment, Ari Emanuel, CEO da agência WME, Peter Chernin, ex-presidente da News Corp e atual CEO do The Chernin Group, e Richard Plepler, co-presidente da HBO, já haviam doado quantias milionárias à campanha de outro democrata: Barack Obama. 

E os grandes chefões dos estúdios não são os únicos a apoiar o Partido Democrata. Longe disso. Dos 60 roteiristas, atores, diretores e produtores nomeados para a edição do Oscar que premiou 12 Anos de Escravidão com a principal estatueta, 23 contribuíam para um candidato ou um comitê partidário desde 1989. E de acordo com um padrão de longa data de Hollywood, a maioria dessas doações têm sido dirigidas ao Partido Democrata.

Como aponta a Open Secrets, a principal organização de monitoramento das doações eleitorais nos Estados Unidos, a indústria do cinema, da televisão e da música (e aqui considerando todos os seus membros – grandes chefões, roteiristas, diretores, atores, músicos, etc) doou $37.127.743 aos democratas em 2008, ano da eleição de Barack Obama, e $34.156.214 em 2012, ano de sua reeleição. Em 2008, apenas 18% das doações da indústria havia sido dirigida ao Partido Republicano – em 2012, esse número subiu para 21%. Em geral, nos últimos 26 anos, Hollywood foi a 13ª indústria com maior peso nas doações eleitorais americanas, depositando um total de $247.820.485 nos fundos do Partido Democrata, que abocanhou 75% do valor total doado durante o período. No ano passado, a indústria foi a 19ª, entre mais de 80, a mais gastar com lobby em Washington.

Na corrida de 2016 o cenário se repete. Dos cinco candidatos que mais receberam doações da indústria do entretenimento nos últimos 12 meses, todos são democratas. Nessa ordem, são eles: Hillary Clinton, Bernie Sanders, e os candidatos ao Senado, Kamala Harris, da California, Charles Schumer, de Nova York, e Michael Bennet, do Colorado. Segundo a Open Secrets, até agora Hillary Clinton recebeu 16 vezes mais doações de Hollywood do que Ted Cruz, o político republicano que mais recebeu doações até aqui. Donald Trump, que lidera a corrida republicana, recebeu meros $3.708 de doações da indústria até aqui, valor 555 vezes menor do que Hillary – e que ajuda a entender como serão os grandes depósitos de Los Angeles no período eleitoral, caso os dois sejam confirmados candidatos.

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A verdade é que, no geral, a indústria do cinema americano é tão progressista (e branca) quanto o debate democrata – e talvez não seja um exagero do comediante Bill Maher, que apoia a candidatura de Bernie Sanders à presidência, apontar que Hollywood seja “o lugar mais progressista do mundo”. Roteiristas, atores, diretores, chefes de estúdio, agentes e produtores não são apenas identificados com uma visão mais progressista, como depositam anualmente milhões de dólares em comitês de candidatos progressistas. O grande problema é que, ainda que Hollywood ajude a pautar o debate, discursando na imprensa e em seus festivais sobre a necessidade da inclusão das minorias na sociedade americana, no coração do “lugar mais progressista do mundo” há pouco espaço para elas. E é aí que nasce o debate em torno da ausência de negros na principal festa de cinema do mundo. Afinal, quanto desse ideal progressista de parte considerável dos formadores de opinião da esquerda americana, que há anos diz lutar por mais inclusão das minorias, é apenas da boca para fora?

Como aponta um estudo da University of Southern California publicado na última semana, negros, latinos, asiáticos, mulheres, lésbicas, gays e transgêneros são significativamente sub-representados em Hollywood, em comparação com o censo dos Estados Unidos. O estudo, que avaliou 109 filmes produzidos pelos grandes estúdios e 305 séries de 31 diferentes redes de televisão e serviços de streaming, constata que somente 28,3% de todos os personagens com falas nas obras não são brancos, cerca de 9,6% abaixo da composição populacional dos Estados Unidos. Nas 414 obras analisadas, lançadas desde 2014, apenas 1/3 dos personagens com falas eram mulheres, e pífios 2% eram gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros (foram 7 personagens transexuais retratados). Mais da metade das obras também não possuíam personagens de origem asiática e mais de 20% delas não contavam com um único personagem negro com fala. Atrás das câmeras, meros 15% de todos os diretores envolvidos nas obras (3,4% dos diretores de cinema) e 29% dos roteiristas eram mulheres, e 87% dos diretores eram brancos.

Ou seja: a mesma indústria que discursa contra a desigualdade de renda e financia políticos de esquerda enquanto mantém seus membros no topo da pirâmide da economia americana, é a que pauta um debate fantasiado de mea culpa enquanto ignora solenemente os negros em suas obras e transforma a discussão étnica numa mera peça vote democrat de propaganda em ano de eleição. Não por acaso, a mesma cena, a respeito da desigualdade de gênero, aconteceu ano passado, quando Hillary lançou-se candidata – com manifestações acaloradas de atrizes como Patricia Arquette e Jennifer Lawrence.

Longe dos discursos partidários dissimulados e da autopromoção benevolente de gente rica e branca com consciência social, negros, mulheres, latinos e lgbts não são bem vindos nas obras da indústria que se orgulha em ser “o lugar mais progressista do mundo”.