10 coisas que aprendi sendo militante no movimento estudantil

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Como boa parte dos estudantes universitários brasileiros, meus primeiros anos de graduação poderiam ser resumidos em uma mesma rotina: trabalhar durante o dia e estudar à noite. Durante este começo de faculdade, tudo que eu saberia dizer sobre o movimento estudantil é que ele era responsável por emitir as carteiras de estudantes e eventualmente ocupar a reitoria. Assim como a maioria dos meus colegas, quase todo contato que tive com este peculiar grupo nas universidades brasileiras neste período, se resumia aos períodos de confusão no pátio da faculdade, também conhecidos como “eleições”. Por sorte, ou não, isso acabou mudando quando eu mesmo, ainda que por acidente, passei a fazer parte dele.

Para quem acompanha a política brasileira, a opinião é quase unânime: o movimento estudantil é um “cursinho preparatório para políticos profissionais”. O uso político ou partidário que determinados grupos dão às entidades estudantis, e um grande número de políticos oriundos destes grupos, certamente reforçam essa ideia, mas, em tese, o movimento estudantil deveria ser uma ponte ligando alunos à resolução de seus problemas – a burocracia da faculdade.

Professores sem qualquer didática, escorados em suas pós-graduações para receber gordos salários e que se acham donos de cadeiras, além de infraestrutura precária, funcionários que não sabem informar o básico, disciplinas com pouca ou nenhuma conexão com o cotidiano da profissão. Não é preciso muito esforço para definir os principais problemas de qualquer universidade. Para boa parte do movimento estudantil, no entanto, essas são questões pouco revelantes. Durante o início da minha graduação, tive mais notícias do centro acadêmico se envolvendo em um protesto contra a construção de um viaduto do que na resolução destes problemas – o que, se depender de relatos de amigos no país inteiro, não se trata de um caso isolado.

Minha experiência em um centro acadêmico durou dois anos e meio. Muita coisa. Durante esse tempo, minha função era bem específica: representar o CA nos espaços burocráticos da faculdade, participando de reuniões de departamento e coisas do tipo, que fariam qualquer um dormir de tédio. Problemas à parte, essa experiência acabou me dando um outro olhar, de dentro da burocracia da própria faculdade. Um resumo deste período você encontra abaixo.

1. O movimento estudantil não representa quase ninguém.

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Não seria um exagero afirmar que o movimento estudantil tem pouca ou nenhuma representatividade entre os alunos. Em universidades como a USP, uma eleição de DCE ocorre com apenas 16% dos estudantes votando. Em outros casos, como na minha universidade, é possível passar mais de um ano sem representação. O motivo? As eleições simplesmente não possuem quórum – e tudo isso porque os alunos não têm o menor interesse em votar.

Entre as 10 maiores universidades do país, apenas um DCE elegeu-se em uma eleição com mais de 30% dos alunos votando: o DCE da UNB, conhecido justamente por se opor aos grupos tradicionais de movimento estudantil.

Pegue, por exemplo, o último congresso da UNE, onde pouco mais de 10 mil alunos de todo país elegeram a entidade que representa os 7,5 milhões de universitários brasileiros. Em tese, cada um destes 10 mil alunos teve 100 votos. Fazendo as contas, é possível dizer que sequer 15% dos alunos tiveram voz, ainda que indireta, na eleição da entidade que utiliza o nome de todos os alunos para discursar a favor de determinadas pautas. Como todo DCE de universidade federal é filiado à UNE e cada aluno matriculado é formalmente vinculado ao DCE, logo, para o governo, a UNE é a representante dos milhões de estudantes existentes, ainda que ninguém tenha votado nela. Entendeu? É essa organização que sai nas ruas protestando agora em defesa da “democracia”.

Mas nem pense em sugerir votação direta ou mesmo urnas eletrônicas. Para boa parte do movimento, isso não faz o menor sentido. Na reunião que convocou a última eleição de DCE na Universidade Federal do Ceará, por exemplo (que contou com urnas eletrônicas e teve UJS e Levante, do PT, como chapas vencedoras), o argumento utilizado contra as urnas (defendidas pelo grupo vencedor e criticadas pelo grupo ligado ao PSOL), é de que “uma das chapas poderia subornar um fiscal do TRE e assim manipular a eleição”.

2. Os partidos políticos são mais presentes do que se imagina.

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OK. Convenhamos que não há nenhuma novidade aqui. Você não precisa estar dentro do movimento estudantil para saber que há um partido esperando em cada esquina do campus para lhe converter. Há tempos a UNE, a União Nacional dos Estudantes, tem sua presidente ligada ao PCdoB e diretores de alguns outros poucos partidos. Não é uma coincidência que a universidade brasileira é o local onde surge boa parte da militância partidária no país.

O que você talvez não saiba é que dentro dos muros do campus os partidos em si não costumam aparecer diretamente. Junto à universidade não se chamam PT, PSOL ou PcdoB. Eles se escondem atrás de Juntos, Rua, Levante, UJS, Kizomba e uma série de nomes que você talvez nunca tenha ouvido falar, mas que servem exatamente como uma porta de entrada a todos estes partidos – e é exatamente aí que a universidade, ou o movimento estudantil em si, se tornam o tal cursinho preparatório para a política.

Faça um teste simples: procure as chapas que disputam o DCE na sua universidade, ou em uma universidade grande do seu Estado. Tudo que você encontrará são quatro ou cinco nomes. Como na construção dos personagens em Breaking Bad, cada cor resume um símbolo ou um time. A chapa roxa, ligada ao PSOL (que via de regra se coliga com o PSTU), a laranja ou rosa ligada à UJS, a vermelha do Levante (PT), uma chapa de anarquistas revolucionários e, com sorte, uma chapa mais independente, onde o PSDB provavelmente tentará infiltrar alguém (já que nunca tem força para sair sozinho).

Financiar uma campanha de DCE pode ser muito vantajoso para candidatos a prefeito ou vereadores, especialmente se você é um destes candidatos sem uma votação expressiva. Trata-se de uma militância pouco numerosa, mas barulhenta. Não é raro que sindicatos como o da construção civil ou dos médicos se envolvam em campanha.

Como nada é mais caro do que as camisetas, é provável que você perceba o quão articulada está uma chapa pela quantidade de pessoas que andam vestidas logo no início da eleição. Panfletos coloridos gigantes daqueles que custam R$ 0,50 por folha e são distribuídos com a maior naturalidade do mundo? Talvez seja a hora de você conhecer uma maravilha chamada “cota parlamentar”.

Casos como o do Centro Acadêmico que participei, em que mais da metade dos alunos trabalham, podendo sustentar uma campanha, são uma exceção quase gritante entre todos que conheci.

3. De militante do movimento estudantil para político profissional é um passo. Às vezes inevitável.

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José Dirceu, Renan Calheiros, José Serra, Lindbergh Farias, Orlando Silva. A lista de nomes de ex-membros do movimento estudantil que obtiveram cargos na política nacional não é pequena. E o motivo é mais simples do que parece: 9 em cada 10 membros do congresso brasileiro possuem um diploma, e boa parte deles formou suas idéias políticas ainda na época da graduação.

Se por um lado isso explica boa parte do interesse dos partidos em se fazer presentes nas universidades, também mostra a importância do movimento estudantil, que, ainda que não seja capaz de sequer convencer os próprios alunos a votarem, atua como uma importante força política. No início do meu curso, por exemplo, a cidade tinha como prefeita uma ex-presidente de DCE.

Nos próprios alunos, no entanto, este espírito de querer participar ativamente da política é bastante visível. Em 2016, teremos a presidente da UNE concorrendo a um cargo de prefeita. Inúmeros outros membros do movimento estudantil estarão concorrendo a cargos de vereador país afora. Se irão ganhar? É impossível dizer com certeza, mas é notório que há uma confusão entre o poder de arregimentação que o movimento estudantil acredita ter, e o que de fato ele tem.

4. A universidade foi feita para atender professores e funcionários. Se sobrar tempo, ela atende os alunos também.

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Um erro bastante comum está em associar a universidade apenas ao ensino. Na prática, a pesquisa é tão ou mais importante para os professores do que dar aula. Todo professor efetivo tem de apresentar com certa regularidade um projeto de pesquisa para justificar parte das suas horas de trabalho. O projeto por sua vez é relatado por outro professor.

Em dois anos participando dos conselhos da faculdade que aprovam pesquisa, porém, jamais, em nenhum momento, presenciei um projeto de pesquisa ser criticado ou mesmo rejeitado. Em suma, um professor pode estabelecer a sua linha de pesquisa sem ser minimamente questionado. Não é difícil imaginar o peso disso para que de lá saiam trabalhos pouco ou nada relevantes, certo? A depender de um estudo feito pelo próprio centro acadêmico, é exatamente isso o que acontece.

Foi de interesse do CA pesquisar a relevância das pesquisas do corpo docente e traçar um paralelo com os salários (divulgados publicamente). O resultado é que na prática não há nenhuma correlação entre qualidade ou quantidade de publicações com o salário dos professores. Não há incentivo à pesquisa, não há cobrança.

Não apenas os professores se beneficiam desta falta de incentivos que reina na universidade. Em tese, os dez funcionários dos dois departamentos do curso prestaram concurso para 8 horas. Segundo eles próprios, no entanto, o acordo é para que trabalhem 6 horas diárias. Não é raro que trabalhem menos e que os departamentos estejam fechados. O motivo? Não há cobrança alguma de horário. Ponto eletrônico é, segundo o sindicalista do grupo, uma forma de humilhar o funcionário.

5. A paz na terra será alcançada por notas de repúdio.

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Não há dúvida que existem casos recrimináveis no comportamento de alunos e professores. Casos de machismo, homofobia ou racismo são, como em toda a sociedade, comuns. Sendo um centro acadêmico ou um DCE, representantes de todos os estudantes, nada mais natural do que recriminar tais comportamentos. O grande problema começa quando aqueles 2% dos alunos do curso vencem uma eleição com 8% dos votos e então passam a escrever em nome de todos os alunos.

Notas políticas são a maioria. Nestes dois anos já presenciei notas de repúdio à invasão da Palestina por Israel, ao impeachment da presidente, ao uso de drogas pelo candidato Aécio Neves, ao machismo do candidato, ao fascismo de outro candidato, à guerra na Síria, à construção de um viaduto, entre outras tantas coisas que não fazem o menor sentido.

Para os alunos que escrevem as notas, todas essas opiniões são respaldadas pelo Centro Acadêmico, ou pelo DCE, e portanto se tornam a opinião de todos os alunos. Alguma vez você já ouviu “alunos da USP repudiam…” ? Provavelmente o esquema era o mesmo. Um pequeno grupo de estudantes, no comando de um DCE, fazendo sua opinião parecer a de inúmeras pessoas com quem eles jamais trocaram uma palavra sequer.

6. A universidade deve ser um mini-Estado: fornecer saúde, alimentação, transporte, moradia, renda e, talvez, educação.

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O crescimento do orçamento de determinadas faculdades nas últimas duas décadas fez crescer também as demandas dos estudantes. Sob o pretexto de incluir alunos e permitir que se foquem nos estudos, muitas universidades passaram a expandir o número de bolsas (um auxílio de R$400 para alunos fazerem algum tipo de serviço na universidade).

Hoje, em determinadas instituições de ensino, como a UFC, há um aluno bolsista para cada três. O restaurante universitário, que cobra R$1,10 por uma refeição (que chega a custar R$8 pagos pela faculdade), atende quase 20% dos alunos. Um aluno que venha do interior pode solicitar ainda auxílio moradia. Se for andar entre os campi, pode utilizar o transporte gratuito da faculdade. E, mesmo com tudo isso, o DCE ainda protesta por mais medidas, como creche para as alunas que são mães, e assim por diante.

A justificativa é razoável. É inviável que um aluno deixe de estudar, tendo capacidade pra isso, por que não possui condições básicas de renda. Mas, na prática, o subsídio é geral e irrestrito. Alunos cujos pais tenham renda de 30 salários mínimos ainda podem almoçar por R$ 1,10, às custas de toda a sociedade.

Convivendo com isso na faculdade, é bastante provável que o aluno queira replicar esta bolha no seu cotidiano, e saia de lá exigindo do governo todos os mesmos subsídios.

7. É preciso um ofício para abrir um banheiro e outro para colocar o papel higiênico.

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Durante algum tempo, minha faculdade, como inúmeras outras no Brasil, começou a ofertar mestrados pagos para membros de tribunais de contas e outras entidades. A estrutura da faculdade era utilizada para ensinar estes alunos que, em troca, pagavam uma mensalidade, depositada integralmente na conta da faculdade, e não da universidade em si.

Por um período isso foi quase revolucionário. A faculdade não dependia mais da universidade para realizar pequenas reformas. Não era preciso esperar um orçamento ser votado no Congresso Nacional para saber se o sistema de vigilância seria instalado. A faculdade tinha o dinheiro, e podia bancar sem depender do governo federal.

O problema nisso tudo? Podemos começar pelas acusações de privatização do ensino, protestos de que a faculdade estaria sendo roubada e assim por diante. Os mestrados pagos foram proibidos pelo STF pouco tempo depois, mas algum dinheiro restou, utilizado para reforma de um dos prédios, que fica exatamente na entrada da instituição.

Com infraestrutura precária, a faculdade ganhou dois novos banheiros. Para a infelicidade dos alunos, no entanto, eles ficaram fechados por mais de um ano. O motivo? O contrato de limpeza não previa estes dois novos lugares para atender. Uma nova licitação seria necessária.

Foi preciso marcar duas reuniões e enviar um ofício ao diretor para sensibilizá-lo desta necessidade. O centro acadêmico também teve de mandar um segundo ofício para garantir papel higiênico no banheiro.

Devidamente protocolados os ofícios, o banheiro pôde enfim ser aberto, às custas de muita burocracia. E não se engane, esse é o padrão para qualquer coisa no universo universitário brasileiro.

8. É possível um debate onde todo mundo concorda com todo mundo.

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Debater os problemas da sociedade é quase uma obrigação para qualquer universidade. De lá, em tese, saem as mentes pensantes que contribuirão para encontrarmos alternativas, correto? No que depender de boa parte do movimento estudantil, não.

O motivo é uma moda relativamente recente de se disseminar país afora debates, contando com a presença de três ou quatro pessoas onde não há quem discorde. É como um debate sobre drogas, que envolva Jean Willys, Gregório Duvivier, Drauzio Varella e Eduardo Jorge. Tudo muito bonito, muito batuta, mas… Debate? Não é o nome correto, não é mesmo?

Em período de impeachment, foram ao menos três desses “debates” sobre o “golpe” na faculdade de Direito, em que não houve ninguém favorável ao impeachment. Quando questionados, a sugestão foi de que os que apoiam o impeachment deveriam realizar o seu próprio “debate”.

O efeito não é muito difícil de entender. O movimento estudantil replica um movimento de formação de bolhas para garantir que a sua “hegemonia” de representação do estudante não seja quebrada. Não há como permitir debates quando menos de 1 em cada 10 estudantes elegeu você.

9. Um professor pode ganhar R$ 20 mil, ainda que todos os alunos detestem suas aulas.

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Em certa oportunidade, tive uma aula de economia monetária onde apenas dois alunos assistiram à aula. O exemplo é o máximo do mau uso de recursos públicos (talvez de desinteresse dos alunos, uma vez que a aula era realmente boa e proveitosa), mas é mais usual do que parece. Professores que dão aula para cinco, dez alunos, são comuns, especialmente em economia, um curso onde 70% dos alunos não se formam.

Há pouco ou nada a se fazer a respeito, segundo a diretoria da faculdade. Muito menos a respeito de professores ruins. Não há qualquer critério para avaliar um professor de forma eficiente. Em outra disciplina, tive o desprazer de cursar uma cadeira onde o professor decidia passar metade da aula cutucando minhas próprias ideias para, quando eu decidisse retrucar, responder com um singelo “acho melhor você ficar quieto, pois o tema do seminário é outro”.

Infelizmente casos como esses são mais comuns do que parecem. Os meios de ouvidoria de qualquer faculdade são pouco úteis diante de leis que tornam inviável demitir um funcionário público. A maior punição possível é mandar o professor para outro departamento, algo muitas vezes impossível dado o grau de especialização.

10. Formar um aluno pode custar até R$ 468 mil.

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Era uma reunião do conselho da faculdade, daquelas em que todo mundo vota sim para os projetos de extensão e aprova as viagens de professores para congressos, quando o assunto, de forma meio inesperada, caiu no custo de formação de um aluno na faculdade de economia.

Presenciar uma discussão dessas feita por professores é no mínimo curioso. Mais curioso ainda é ver que a discussão foi puxada por um dos professores que mais produz artigos e publicações. Para boa parte deles, seu dever é produzir ciência e ensinar é um fardo para recompensar a sociedade.

Nas contas do professor, os 21 funcionários e 46 professores do curso de economia custam anualmente R$ 15 milhões (para arredondar). Em cada turma de 160 alunos, se formam 32 (Economia é o terceiro curso com maior taxa de evasão no país). O resultado? R$ 468 mil gastos todos os anos por aluno formado.

Para que um trabalhador que ganha um salário mínimo pague impostos suficientes pra custear esta graduação, será preciso que ele trabalhe 79 anos (considerando que ele paga 56% de imposto em média).

No fundo, a conta não tem muita serventia, exceto fazer refletir sobre o custo de cada um dos alunos que demandam mais verbas pra educação, e desperdiçam aquelas que já recebem. Essa é a luta do movimento estudantil.

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