10 empresas que já foram compradas pelos gringos durante a crise e você nem ficou sabendo

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Obtido já há 8 anos, o “grau de investimento” concedido pela agência norte americana S&P significou muito mais do que o reconhecimento de uma bem sucedida política econômica aplicada ao longo de quase um década por dois governos distintos. Para o país, obter uma chancela de “bom pagador” foi o suficiente para garantir acesso ao dinheiro de fundos e investidores institucionais ao redor do mundo. Não apenas o governo pode ter acesso a recursos baratos, mas em especial as empresas brasileiras. Desde então, nossa dívida externa saltou para os atuais US$ 338 bilhões, 90% dos quais em mãos de empresas (públicas e privadas). A recente perda do grau de investimento, portanto, fragiliza não apenas o governo, mas em especial as empresas acostumadas a captar recursos baratos para investir no país.

Para uma empresa de grande porte, como a dona da marca Friboi (a JBS), captar recursos no exterior significa pagar em média 4,75% contra 15% do custo de se captar dinheiro no Brasil (já incluso os bilhões subsidiados pelo BNDES). A falta de confiança no país gerado pelos sucessivos maus resultados nas finanças públicas brasileiras gerou, portanto, um problema muito além de metas de superávit primário. A dívida pública está em franca ascensão, saindo de 53% em 2013 para prováveis 80% do PIB em 2018, com nada menos do que 40% disto vencendo em menos de 7 meses – o que obriga o governo a captar dinheiro com uma velocidade cada vez maior, o que implica obrigatoriamente em juros maiores.

Do somatório de toda esta confusão (aumento de juros, aumento da inflação, aumento dos impostos, aumento do custo de captação no exterior, aumento dos custos de produção e aumento do dólar), surge uma grande questão para os grandes grupos brasileiros: afinal, qual a melhor forma de continuar a se financiar? A resposta deve necessariamente excluir a opção “mercado de capitais”, uma vez que em uma abertura de capital na bolsa de valores, nada menos do que 70% das ações são adquiridas por estrangeiros. A falta de confiança no país impede qualquer tentativa neste sentido. Ao longo de 2015 apenas um empresa arriscou-se a estrear na Bovespa: a seguradora da Caixa Econômica Federal.

Para os grandes investidores internacionais, entretanto, o cenário brasileiro possui outro nome claro: liquidação. Com o dólar namorando os R$4 é possível comprar metade do preço dos ativos que há 3 anos eram vendidos com o dólar a R$2. Nesta brincadeira, por exemplo, o empresário Flávio Augusto conseguiu recomprar a escola de idiomas Wise Up por 1/5 do preço vendido por ele há 3 anos, somando desvalorização cambial e a própria queda no preço dos ativos do país. Acrescente ainda que no restante do mundo ainda é vivida a experiência de juros zero por parte de boa parte dos bancos centrais, e o resultado é um cenário mais do que favorável para compradores.

O que é positivo para compradores acaba tornando-se também uma “opção” para empresas brasileiras.

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Abaixo selecionamos 10 delas que acabaram sendo compradas inteira ou parcialmente pelos gringos.

Azul

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Fundada pelo norte-americano nascido no Brasil, David Neeleman, a Azul tem ganhado destaque nos últimos anos, com um serviço inspirado pela companhia americana Jet Blue, que alinha preços baixos e serviços de qualidade em aviões novos (todos modelos Embraer). A companhia atingiu rapidamente uma participação de 15% no mercado.

Neeleman, que adquiriu recentemente parte da estatal portuguesa TAP, planejou durante anos a abertura de capital da Azul na Bovespa. As condições inviáveis para se abrir o capital ou captar recursos no exterior tornaram a venda de 23,7% da Azul por R$ 1,7 bilhão a melhor opção.

Por lei, apenas 30% do capital de empresas aéreas do país pode ser vendido a estrangeiros. A crise pela qual passa o setor, entretanto, pode levar este valor a subir até 49%.

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Rede D’or

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A empresa carioca que opera 27 hospitais em 5 cidades brasileiras destacou-se como o principal grupo privado de hospitais do país nos últimos anos, catapultada por um investimento do BTG.

Outro setor considerado ‘estratégico’, a área de hospitais era há pouco tempo vedada ao capital estrangeiro. Em 2015, porém, graças à enorme pressão de grupos como o BTG, tal medida foi revista – o que permitiu ao fundo americano Carlyle e posteriormente ao fundo de Cingapura, GIC, adquirirem 24,3% do grupo, ao custo de R$ 4,95 bilhões.

CESP

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Vendida ao grupo chinês CTG, a companhia de energia CESP fez parte do processo de vendas de usinas de energia realizado em novembro do ano passado. Para o governo, vender as concessões vencidas em 2015 representou realizar o maior leilão de privatizações do país desde 1998. Foram captados R$ 17 bilhões, sendo R$ 13,8 bilhões em ofertas de investidores chineses.

Coty – Hypermarcas

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Criada na época do boom de consumo no país, a Hypermarcas deveria ser um conglomerado que agregasse bens de consumo e remédios em seu potfólio. A empresa, que chegou a controlar do adoçante Zero-cal às camisinhas Olla e Jontex até os medicamentos Doril, Coristina e Engov, decidiu focar-se recentemente apenas em sua parte farmacêutica, mais bem avaliada pelo mercado.

Para concretizar seu plano e reduzir o elevado grau de endividamento, a empresa vendeu sua parte de cosméticos para a francesa Coty, em uma transação avaliada em R$ 3,8 bilhões. Outra área vendida pela empresa foi a de camisinhas, comprada por R$ 675 milhões para os ingleses Reckitt Bencksiser.

Ibmec

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Uma das mais prestigiadas escolas de graduação em Economia e Negócios do país, o Ibmec possui hoje 15 mil alunos. Vendido para a norte-americana DeVry por R$ 700 milhões, o instituto é considerado a parte nobre da onda de fusões e aquisições que varreu o setor educacional brasileiro. Ao longo dos últimos cinco anos inúmeras faculdades foram adquiridas pelos três grandes grupos do país (Estácio, Kroton e Ser Educacional), em um processo que levou o país a contar com a maior empresa de educação do mundo.

A expansão do ensino superior brasileiro despertou o interesse de empresas estrangeiras – em especial as norte-americanas. Para a DeVry, a aquisição do Ibmec é a mais relevante até aqui, mas não a única. A empresa controla 16 universidades e 23 campi com 135 mil alunos no país.

Ainda no setor de educação, o ano contou com a venda da Uniasselvi, pelo grupo Kroton, aos americanos do grupo Carlyle (o mesmo que adquiriu parte da rede D’or), em parceria com os brasileiros da gestora de recursos Vinci, por R$ 510 milhões.

BBM

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Mais antiga instituição financeira brasileira ainda ativa, o banco BBM, fundado em 1858 no estado da Bahia, teve como foco a área de crédito agrícola desde sua criação, e agrega hoje gestão de patrimônio e crédito para médias e grandes empresas. Comprado em 2015 pelos chineses do Bank of Communications, o gigante chinês com US$ 1 trilhão em ativos, o BBM é um banco de pequeno porte, somando ao todo R$ 3 bilhões em ativos.

Sua compra, por R$ 525 milhões, entretanto, é considerado o primeiro passo para a entrada do grupo chinês no Brasil. Em 2013, o cearense Bic Banco também foi adquirido pelo Banco de Construções, o segundo maior banco chinês.

Renova Energia

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Maior geradora de energias renováveis do país, a Renova vendeu em 2015, 14 de seus parques eólicos à americana SunEdison. A operação, que custou R$ 1,6 bilhões, foi parte de um acordo maior, que poderá agregar até 1700 MW ao parque gerador da companhia norte-americana (além dos 336 MW vendidos no último ano). A companhia brasileira por sua vez, espera com isto atrair recursos baratos para implementar novos parques.

Altamente dependente de financiamento público, o setor de energia eólica corresponde hoje a 5% da geração total de energia do país, e poderá atingir em 2020, 12% de participação na geração total do país.

ABC

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O grupo de mídia fundado pelo empresário Nizan Guanaes é um dos mais conceituados do país, contando com 15 agências sob sua responsabilidade – incluindo a agência África, responsável pela área de publicidade do Itaú e da companhia Vale. A venda para o grupo americano Omnicom foi realizada por R$ 1 bilhão, concretizando um negócio que já era esperado há anos pelo setor.

A agência África é hoje a quarta maior empresa do setor, cujas 3 maiores empresas, incluindo a Young & Rubicam, do empresário Roberto Justus, são controladas ou possuem parte relevante do negócio em mãos de estrangeiros.

Souza Cruz

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Tradicionalmente uma das empresas mais sólidas da bolsa brasileira, a companhia de tabaco Souza Cruz despediu-se em 2015 do mercado de ações do país com a realização de uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) pelo seu controlador, a companhia British American Tobacco, em uma operação que movimentou R$ 9,3 bilhões.

A saída da Souza Cruz da bolsa não foi a única a ocorrer em 2015, porém. Com apenas uma empresa abrindo o capital, a Bovespa viu 15 companhias saíram do pregão. Companhias como Arteris, controladora de concessões rodoviárias, e o grupo Estrela, de brinquedos, desistiram da volatilidade do mercado após sofrererm grandes quedas ao longo dos últimos anos.

A Souza Cruz anunciou ainda o fechamento de uma importante unidade industrial no país ao final de 2015. A fábrica de cigarros da empresa destinava boa parte da sua produção à exportação, algo que deverá ocorrer possivelmente a partir de uma das fábricas da companhia anglo-americana em Cuba.

Odebrecht Ambiental

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A companhia de saneamento do grupo Odebrecht, criada para gerir as concessões de água e esgoto conquistadas pelo grupo, é parte de um processo que chamou a atenção em 2015: as vendas de operações por empresas ligadas à operação Lava-Jato. Com seus títulos desvalorizados e sem conseguir acesso a crédito, inúmeras empresas como a Queiroz Galvão, a OAS e a Engevix, colocaram sua coleção de ativos à venda ao longo do ano.

Para a OAS, o mais urgente é fechar a venda de sua operação de gestão de aeroportos e outras concessões, a Invepar, que conta com os fundos de pensão como sócios. A canadense Brookfield é a mais provável vencedora deste leilão. Já para a Camargo Correa, que fechou delação premiada com a Lava-Jato e aceitou restituir R$ 700 milhões, a venda da Alpargatas para o grupo J&F marcou o início de um processo que deverá reduzir fortemente as operações da companhia, que se estendem ainda por energia, cimento e concessões rodoviárias, além da construção pesada.

A venda de parte da Odebrecht Ambiental – cerca de 4 concessões vendidas aos americanos da Farallon, por R$ 300 milhões – deve ser parte de um processo maior. No total, a companhia é avaliada em R$ 6 bilhões, e já conta com investidores chineses interessados em adquirir 100% de seu capital. Ao todo, estima-se que a crise nas empreiteiras tenha colocado no mercado nada menos do que R$ 150 bilhões em ativos.

O Brasil está em liquidação.