11 mensagens encontradas no celular de Marcelo Odebrecht que você precisa ler

No último dia 21, o jornal O Estado de São Paulo teve acesso a um documento da Polícia Federal referente à 14ª fase da Operação Lava Jato. O arquivo contém dados encontrados em celulares apreendidos na casa de Marcelo Odebrecht, diretor presidente da empreiteira que leva seu sobrenome, após sua prisão, no último dia 19 de junho.

Entre frases enigmáticas, siglas e códigos, o empresário discute planos para se safar, pede encobrimento de provas e cita até contas na Suíça, que teriam financiado campanhas políticas do PT. Após o vazamento do arquivo, o juiz Sérgio Moro deu um prazo de 48 horas para a defesa de Odebrecht se explicar. Algumas das siglas e códigos presentes nas mensagens já foram parcialmente descobertas pela polícia. Outras, permanecem em mistério – e abrem portas para especulações.

Separamos as mensagens mais reveladoras do arquivo, junto com detalhes e outras revelações que fazem toda a diferença para entender o caso da Lava Jato.

1) A conta na Suíça e o “Risco Swiss”

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Entre as mensagens, diversas vezes Marcelo fala fala sobre uma “cta suíça”. Segundo a PF, a sigla “cta” é exatamente isso que você pensou: conta bancária.

Os rumores são reforçados pela presença de siglas dos bancos Pictet e PKB, ambos de origem suíça. Ainda, no celular de Marcelo Odebrecht, foram encontrados contatos de executivos de bancos estrangeiros, sobretudo do Pictet.

Além de demonstrar medo de que as contas sejam expostas, as mensagens do empresário sugerem que o dinheiro das contas, proveniente de desvios, foi utilizado para financiar as campanhas de Fernando Haddad e Dilma Rousseff.

As mensagens ainda fazem referência ao “Risco US” e “Risco EUA”, sugerindo que alguma empresa ou instituição financeira possa guardar alguma informação confidencial que, caso descoberta, seria um risco para a Odebrecht e outros envolvidos. As imagens abaixo falam por si só.

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2) Dilma curta e grossa

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Em outra conversa, com empresários da Braskem e da própria Odebrecht, Marcelo revela um pouco do perfil de Dilma: “[ela] não gosta de fazer nada que já não seja obrigada”. Na mensagem em questão, é negociada a possibilidade de levar a presidente para visitar obras da Odebrecht no México, durante sua visita oficial ao país, no último mês de maio – mas Marcelo teme que a presidente não aceite o convite.

Na mensagem seguinte, Luis Weyll, da Odebrecht, confirma as datas da viagem presidencial, mas alega que terá que negociar a visita de Dilma até a obra ainda em Brasília.

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3) Tentativas de sabotar a Operação

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Outras mensagens mostram que Marcelo Odebrecht não só tentou esconder provas, como também tinha intenções de sabotar a Operação. “Trabalhar para parar/anular [a operação]”, diz um dos lembretes encontrados no telefone. Odebrecht ainda explicita na frente da frase que o trabalho deveria ser feito em conjunto com “dissidentes PF”. Também lembra de “blindar Tau”, uma das siglas mais misteriosas do documento – especula-se que Tau seja algum banco, pela referência “Minha Conta Tau”, no início da mensagem.

Outros lembretes falam em parar uma apuração interna e desbloquear “OOG”, provavelmente referindo-se à “Odebrecht Oil & Gas”.

Esse trecho, em especial, foi classificado por Moro como “perturbador”.

4) As doações de campanha e a falsa delação

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O empresário ainda escondia um Plano B na manga: montar uma falsa delação.

No trecho, como interpretado pelo site O Antagonista, Marcelo estabelece um fallback (termo em inglês para plano alternativo), com Rogério Araújo (RA), que deveria “livrar todos” em uma delação.

A mensagem ainda destaca uma suspeita antiga da polícia: doações de campanha com dinheiro desviado. No trecho, ele explicita que “Campanha incluindo caixa 2, se houver era soh com MO”. Segundo as investigações, “MO” referia-se à MO Consultoria, uma empresa de fachada de Alberto Youssef.

Outra passagem faz referência ao passado da empresa: a “armadilha Bisol”, uma lista de parlamentares que teriam recebido “presentes” da empresa, encontrada em um escritório da Odebrecht em 1993. A lista foi apreendida e o relator da CPI, José Paulo Bisol, repassou para a revista Veja como prova de um envolvimento dos políticos em um cartel encabeçado pela empresa. Mas, após ser divulgada, foi descoberto que muitos dos presentes não passavam de brindes, como calendários e agendas. Com o escândalo, a operação acabou caindo em descrédito e foi arquivada.

Pelo contexto, é possível interpretar que Odebrecht estava preparando alguma armadilha semelhante, como plano B para sabotar a Lava Jato.

5) A tal “tática Noboa”

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Além do Plano B, Marcelo pode ter pensado num Plano C: fugir do país.

Noboa, aqui, pode ser uma referência ao ex-presidente do Equador, Gustavo Noboa. Em 2003, acusado de manipular fundos da dívida externa do Equador enquanto presidente, Noboa fugiu do país e pediu asilo político na República Dominicana, onde permaneceu até 2005, quando voltou para o Equador e foi finalmente preso.

A família Noboa mantém relações muito próximas com a Odebrecht – foi durante o governo de Gustavo que a empresa brasileira começou a operar no Equador.

Por outro lado, foram encontrados outros contatos de sobrenome Noboa no celular de Marcelo, que aparentemente não possuem relação com o ex-presidente equatoriano. As dúvidas persistem.

Notas da polícia sobre o caso:

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6) “Ela cai, eu caio”

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Num trecho enigmático, Odebrecht faz uma anotação “FP: – se ela cai eu caio”.

Segundo apurações dos investigadores até o momento, FP é Fernando Pimentel, atual governador de Minas Gerais e ex-ministro do Desenvolvimento. Pela formatação, acredita-se que o lembrete servia para Pimentel avisar “ela” dos riscos da operação e “dar a dimensão” do que viria a acontecer caso alguém fosse preso.

Até o momento, não se sabe exatamente quem é a mulher referida no trecho, mas especula-se que possa ser Carolina Pimentel, esposa de Fernando, também investigada, ou a presidente Dilma, com quem Pimentel tem amizade desde os 17 anos.

7) “Não movimentar nada e reembolsaremos tudo”

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As estratégias para esconder provas eram encobertas de uma espécie de “seguro”.

Nesse trecho, Marcelo anota uma mensagem a ser passada para Marcelo Faria (MF) e Rogério Araújo (RA), executivos da Odebrecht, pedindo que não movimentem contas bancárias, para não levantar suspeitas. Marcelo ainda promete reembolsar todos os gastos que os executivos e suas famílias tiverem no período e garante: “Vamos segurar até o fim”.

A polícia ainda não sabe a qual conta exatamente o executivo se referia.

8) Encobrimento de provas

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Após pedir para que os executivos não movimentem dinheiro, Marcelo faz outra súplica: “Higienizar apetrechos MF e RA”.

De acordo com a polícia, os apetrechos seriam notebooks, tablets, celulares, pendrives e qualquer outra prova, que deveriam ser “limpos” de qualquer indício. Ele também diz sobre “vazar doação campanha”, mas não se sabe ao certo a qual campanha seria alvo desse vazamento. O juiz Moro também se mostrou preocupado com esse trecho e está esperando que a defesa elucide os pormenores do documento.

9) Lula e Cunha

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Num pequeno trecho, logo abaixo da passagem em que pede para “limpar apetrechos”, Marcelo cita os nomes “Lula” e “ECunha”, numa provável alusão ao Presidente da Câmara, Eduardo Cunha e ao ex-presidente.

De acordo com a polícia, as outras siglas se referem, respectivamente, a Geraldo Alckmin, Fernando Pimentel, Adriano Sá de Seixas Maia (executivo da companhia) e Michel Temer.

10) Mais sobre Lula

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Num e-mail, reproduzindo a agenda de John Mahama, presidente de Gana, em sua viagem ao Brasil, há uma menção sobre “um encontro com LILS”. LILS seria uma referência a Luís Inácio Lula da Silva ou ao Instituto Lula, formalmente LILS Palestras, Eventos e Publicações Ltda.

O trecho confirma uma denúncia feita pela ÉPOCA, em abril, sobre suspeitas de tráfico de influência durante a visita do presidente ganês ao Brasil. Na matéria, a revista já denunciava o encontro de Lula com o presidente e executivos da Odebrecht, para a negociação de contratos bilionários.

11) 100 para Dilma e 100 para Vaccari

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Outro trecho obscuro, embora essencial, diz sobre alguns valores: 100 para “PR” e 100 para “Vac”. Pelo que se entende até agora, PR nada mais é do que Presidente da República (a sigla é usada em outros trechos com esse sentido) e Vac é João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT.

Se as expectativas se confirmarem, a República inevitavelmente irá desabar.