5 exemplos de que o capitalismo está transformando os países mais pobres do mundo

Students use tablets in a classroom in Mae Chan, a remote town in Thailand's northern province.

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A era dos grandes governos acabou. Em pouco tempo, como num estalo de consciência, despediremos impiedosamente de nossas vidas todos os “salvadores da humanidade” que há décadas se digladiam atrás de nossos votos: o comércio se tornará definitivamente o grande redentor da humanidade. Cairá burocrata por burocrata. Não sobrará um mínimo político oportunista para contar a história.

De produtos entregues em drones a pós-vendas descoladas em mídias sociais, há duas décadas o comércio passa por uma revolução sem precedentes. O nascimento da grande rede encurtou distâncias e maximizou o contato humano. Grandes marcas se tornaram verdadeiros códigos abertos – editoras de conteúdo, desenvolvedoras de aplicativos, produtoras de eventos, instituições de caridade e organizações sustentáveis – modificando radicalmente a maneira de se relacionarem com seus consumidores. Vender não seria o bastante. A livre troca dois ponto zero surgia carregada de conceitos como sustentabilidade, inovação e preocupação social. Os governos finalmente estavam fora de moda; sucumbir era uma questão de tempo. O comércio se transformara no grande redentor da humanidade.

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Talvez poucas palavras traduzam esse espírito como Groundswell: o nome que se dá ao movimento espontâneo de indivíduos que – normalmente através da grande rede – se conectam para obter informações, ideias, indicações, reclamações e descontos uns dos outros. No inevitável Groundswell, onde todos estamos inseridos, as empresas perdem a cada dia o controle da comunicação de suas marcas e repassam esse poder definitivamente para os consumidores. Dessa forma, se “a sociedade capitalista é uma democracia na qual cada centavo representa uma cédula eleitoral”, como atestou Mises, o Groundswell seria uma evolução institucional da democracia dos consumidores. E esse novo arranjo segue tendências muito parecidas com a da velha democracia participativa: uma maior exigência dos próprios consumidores, não mais interessados apenas em produtos que melhorem seus padrões de vida, mas em compreender o impacto que essas marcas causam na sociedade.

O Cone Cause Evolution Study encontrou 83% de americanos que dizem preferir adquirir marcas que apoiam causas sociais e 41% que haviam adquirido um produto apenas porque ele estava associado a alguma causa social. Esse número dobrou nessas últimas duas décadas. 85% dos consumidores possuem uma imagem mais positiva de uma empresa quando ela suporta causas sociais pelas quais eles se preocupam. Além disso, 90% querem que as empresas lhes mantenham informados de que maneira estão apoiando causas sociais. E o impacto não termina por aí: 80% dos americanos são propensos a trocarem de marcas, com qualidade e preço similares, por apoiarem uma causa social; 86% afirmam que a compra de um produto relacionado a uma causa social não substitui suas doações tradicionais para seus institutos de caridade favoritos.

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E se vimos ao longo das últimas duas décadas uma forte exigência de humanização das empresas por parte dos consumidores, seus funcionários não fogem à regra. Funcionários que estão mais envolvidos em programas sociais de suas empresas são 28% mais propensos a terem orgulho dos seus valores e 36% mais propensos a sentirem um forte senso de lealdade em relação aos funcionários que não estão envolvidos. São números nunca antes vistos. Como aponta o estudo:

“Os atuais consumidores e funcionários com consciência social são verdadeiros ‘acionistas de causas’, porque eles possuem mais do que apenas uma participação nos esforços de responsabilidade de uma empresa – eles possuem interesse no resultado. Eles investem nas iniciativas de uma empresa, seja com seu poder de compra ou seus meios de subsistência. De forma muito parecida com um acionista financeiro tradicional, eles olham para uma empresa e sua administração com uma visão de curto e longo prazo sobre a forma de alcançar o maior retorno (neste caso, retorno social e ambiental), mas ao longo do caminho ainda querem ter uma palavra a dizer. Eles esperam fazer a diferença, emprestando seu tempo, dinheiro e inteligência.”

Acostumados a encarar nossos governos para solucionar os problemas do mundo, estamos vivendo uma nova era em que olhamos com maior atenção para o comércio: é o capitalismo transformando o planeta – e não mais apenas no jogo de soma positiva e no aumento da produtividade que desde 1800, viu a população mundial crescer seis vezes, mas a expectativa média de vida mais do que duplicar e o rendimento real aumentar mais de nove vezes.

Seja através de iniciativas transformadoras, seja com empreendedorismo social, estamos entrando num novo tempo em que o capitalismo está colocando a mão na massa para solucionar os grandes problemas do mundo.

1. Conectando Pessoas

A One Laptop per Child é um projeto sem fins lucrativos – financiado por organizações como AMD, Chimei, eBay, Google, Marvell, News Corporation, Nortel, Red Hat e Quanta – que desenvolve laptops de baixo custo, o “XO Laptop”, com a proposta de abrir uma janela para o mundo para milhares de crianças e revolucionar a educação nos países mais pobres do mundo. Mas esse não é o único passo.

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Conectar pessoas é um dos grandes desafios dos países em desenvolvimento. E a grande rede é uma aliada nessa empreitada. Foi pensando nisso que o Google desenvolveu o Project Loon, que promete fornecer acesso wi-fi a regiões remotas do globo. A ideia consiste em posicionar balões especiais numa distância de 32 quilômetros do solo para fazê-los fornecer acesso wi-fi em regiões com infraestrutura precária. Calcula-se que cada balão possa realizar transmissões para uma área de até 40 quilômetros, com a possibilidade de ampliar a cobertura fazendo os globos trabalharem de maneira conjunta. Os balões teriam capacidade para voar durante 100 dias, a uma altitude superior a dos aviões. O projeto está em plenos vapores e as novidades podem ser acompanhadas na rede social da empresa.

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Com a mesma proposta, e um grupo de especialistas em informática, aeronáutica e tecnologia aeroespacial, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, desenvolveu a iniciativa internet.org. O projeto foi desenvolvido com duas formas de abordar o problema da cobertura de internet no mundo: com drones propulsados por energia solar, capazes de voar durante meses, proporcionando conexões para áreas suburbanas em regiões limitadas; e satélites que emitem o sinal de internet à Terra para regiões com baixa densidade populacional. Em ambos casos, a conexão chegará através de raios laser infravermelhos (Free-Space Optical Communication).

Segundo destaque do próprio Google , durante a inauguração do encontro “The Next Billion” no México, um bilhão de pessoas nos países emergentes se somarão à internet em 2015. Um passo importante não apenas para a inclusão digital, mas no combate à pobreza.

2. Matando a sede

As mulheres indianas gastam em média 25% do seu tempo todos os dias apenas para buscar água. Foi pensando nesse problema que a Wello se instalou na Índia. Ao longo de 15 meses a companhia colocou a mão na massa, entrevistou mais de 1500 membros das comunidades carentes indianas, além de profissionais e especialistas na área, e gastou inúmeras horas tentando encontrar soluções para a coleta, armazenamento e uso da água, na concepção e criação de protótipos em campo. O resultado disso foi a criação da WaterWeel.

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O protótipo consiste numa espécie de roda fechada que pode ser empurrada facilmente pelos terrenos acidentados das comunidades indianas. Com o novo utensílio as mulheres podem transportar 50 litros de água por vez – quantidade 3 a 5 vezes superior ao método tradicional, com aqueles vasos pesados na cabeça. Fabricado localmente – numa cidade chamada Ahmedabad – e com um preço acessível, a iniciativa está permitindo que as mulheres indianas economizem tempo e dediquem-se à família ou a atividades que tragam rendimentos financeiros.

3. Iluminando o mundo

Mais de 1.5 bilhões de pessoas ainda não possuem acesso à eletricidade em todo mundo. Isso é quase 20% da humanidade. Obrigadas a usarem combustíveis sólidos para a iluminação – especialmente carvão, madeira e querosene – todo ano mais de 1 milhão e 500 mil pessoas morrem vítimas da fuligem e da fumaça originadas de fogueiras, de enfisema e doenças respiratórias, em sua maioria mulheres e crianças.

Para tentar amenizar o problema, uma dupla de designers ingleses – Martin Riddiford e Jim Reeves, diretores da Therefore – desenvolveu uma lâmpada que precisa apenas da força da gravidade para ser acesa. Isso mesmo, a força da gravidade. A Gravity Light, como foi apelidada, é feita de LED e permanece acessa por meia hora para cada 3 segundos em que carregar algum peso como um saco cheio de pedras ou areia. Inacreditável, não? Foram gastos 4 anos de pesquisa e trabalho, e seus resultados só são possíveis porque as engrenagens do interior do aparelho convertem o peso em energia. Simples assim: sem custos de manutenção, sem descartes de bateria. A energia produzida pela engenhoca ainda serve para ser utilizada para abastecer aparelhos como rádios e baterias. E isso tudo por $5. Num primeiro momento aldeias da África e da Índia estão recebendo a iniciativa.

Outro projeto que promete facilitar o acesso à energia em comunidades carentes ainda estacionadas no século 19, foi desenvolvido pelos designers sul coreanos Kyuho Song e Boa Oh. A Window Socket é uma tomada inusitada: basta “pregar” o aparelhinho num vidro exposto ao sol e aguardar de 5-8 horas para ter a carga completa e armazenada em uma bateria com capacidade interna de 1.000 mA / h (algo próximo das 10 horas de duração) e média de 5-8 horas para carregar totalmente um celular.

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Simples e fácil de usar, o produto é fabricado em plástico, com uma tomada para um lado e um painel solar ajudado por uma ventosa plugada às janelas. Assim, a eletricidade é produzida com a ajuda de um conversor a partir da luz do sol. Como mágica!

4. Impulsionando negócios

Já ouviu falar em Kiva? Se nas terras tupiniquins o governo estende seu braço para alavancar os negócios dos amigos do rei, se bailouts já salvaram incontáveis engravatados corporativistas ao redor do planeta com dinheiro de impostos, Kiva – da palavra swahili “acordo” – é a mensagem do mercado para os pequenos empreendedores das regiões mais pobres do mundo.

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Kiva é uma organização que permite, desde 2005, o empréstimo de microcrédito através da internet para pequenos negócios de países subdesenvolvidos. Com sede em San Francisco, na Califórnia, a organização vive de doações e parcerias com grandes empresas – como HP, Visa, Chevron, Intel e Facebook -, e funciona como intermediária para qualquer pessoa que queira emprestar dinheiro (normalmente pequenas quantias múltiplas de $25) para empresas do terceiro mundo através da internet.

Presente em 76 países, a organização já foi responsável pelo empréstimo de mais de $560 milhões, vindos de mais de 1 milhão e 100 mil indivíduos dispostos livremente a impulsionarem a iniciativa privada incipiente nos países mais pobres do planeta. 

5. Construindo moradias

O recente big bang que testemunhamos com o universo das impressoras 3D é desses com potencial suficiente para transformar o mundo como jamais vimos. Partindo dessa premissa, uma empresa com sede em Shangai – a WinSun Decoration Design Engineering Co – pretende revolucionar o problema habitacional dos países em desenvolvimento. A companhia demonstrou recentemente as capacidades de sua impressora gigante 3D através da construção de 10 casas em menos de 24 horas. Isso mesmo, uma comunidade inteira nascendo num único dia.

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Construindo a partir de materiais reciclados, a impressora 3D – que mede 150 metros de comprimento, 33 metros de largura e 20 metros de profundidade – cria blocos de construção por camadas de uma mistura de resíduos de cimento e vidro em padrões estruturais, ao invés de construir tudo de uma vez só. Os blocos são impressos numa fábrica e rapidamente montados no lugar. Para ajudar no processo, a companhia pretende construir 100 fábricas de reciclagem ao redor da China para fornecer material de construção.

Com menos de $5 mil é possível realizar um sonho distante para incontáveis famílias das regiões mais pobres do globo: um lar para viver em segurança.

Conectando pessoas, matando a sede, iluminando o mundo, impulsionando negócios, construindo moradias: a livre iniciativa é a grande propulsora na resolução dos principais problemas da humanidade.

A era dos grandes governos vive seu último respiro.