6 clichês que quem é liberal costuma ouvir de quem é de esquerda

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Se você é liberal e já discutiu sobre política com algum amigo de esquerda, certamente já deve ter ouvido algumas das frases abaixo. Em tempos em que os discursos políticos se acentuam, os esteriótipos são inescapáveis – seja por mera ignorância a respeito das coisas que você defende, seja por puro cinismo.

Esse texto é um pequeno manual dos clichês que os liberais costumam ouvir de quem é de esquerda. Evidentemente ele é pontuado a partir de uma visão igualmente estereotipada da esquerda – afinal de contas, nossa identificação por grupos é construída a partir de clichês (os liberais também não escapam disso). Portanto, não há regras aqui. Você pode perfeitamente ser de esquerda e nunca ter dito uma vírgula do que está exposto abaixo (e há certamente uma lista possível com clichês que quem é de esquerda costuma ouvir de quem é liberal – que, por motivos evidentes, não me sinto apto a escrever). Mas fique tranquilo: não o mandarei ir a Cuba até o final desse texto.

Mea culpa à parte, eis os 6 clichês que quem é liberal costuma ouvir de quem é de esquerda.

1. “Você não se importa com os mais pobres.”

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Por alguma razão desconexa da realidade, aparentemente não é possível conciliar a defesa do liberalismo com o cuidado aos mais pobres. Aos menos não para quem é de esquerda. No inconsciente coletivo político, quem combate medidas de esquerda, indiretamente ataca os mais vulneráveis – como se houvesse um monopólio ao cuidado deles, devidamente preenchido por um único lado do espectro político. Mas vamos combinar o seguinte? Esse monopólio não existe.

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Liberais, é verdade, costumam torcer o nariz a direitos trabalhistas como o salário mínimo, o décimo terceiro e o FGTS. Mas isso não acontece por mera mesquinharia. Não é como se os liberais formassem uma associação maquiavélica dos adoradores dos patrões e dos inimigos dos trabalhadores, como os clichês buscam apresentar. A descrença nos direitos trabalhistas normalmente se justificam porque os liberais não costumam enxergá-los como um benefício real aos trabalhadores – e cada um desses motivos é acompanhado por argumentos econômicos (sim, há uma vasta literatura a respeito).

Quem diz que existem muitos pobres no país e que esse é um sério problema atesta o óbvio. A diferença aqui, são os modelos defendidos para que essa pobreza seja atenuada. Os liberais acreditam que ela só será combatida de fato com políticas que reduzam o tamanho do Estado brasileiro – menos burocracia, menos impostos, mais concorrência, mais liberdade econômica. Dessa forma, não apenas quem empreende, mas quem é empregado conseguirá alcançar uma melhor qualidade de vida.

E esse não é um discurso vazio, desencontrado com a realidade. Na prática, longe das discussões políticas, quanto menos livre economicamente um país, mais pobre ele é.

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Liberais enxergam os entraves à liberdade econômica como barreiras ao desenvolvimento dos mais pobres. Até porque excesso de burocracia e impostos acachapantes doem mais no bolso deles, não é mesmo? Ainda assim, a ideia de que a esquerda estatizante monopoliza os cuidados por eles, insiste em ludibriar o senso comum. Mais falso que chifre em cabeça de cavalo.

2. “Você defende os interesses dos mais ricos.”

Milken Institute Global Conference

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2. “Você defende os interesses dos mais ricos.”

Milken Institute Global Conference

Esse é outro discurso que qualquer liberal já ouviu inúmeras vezes: a ideia de que o liberalismo defende os interesses dos mais ricos.

Pare e pense. Você é um empresário bem sucedido que emprega milhares de pessoas e mantem um alto padrão de vida por isso. Qual seu interesse no negócio? Abocanhar a maior fatia do mercado possível – afinal de contas isso se traduz em grana no bolso. Agora, diga com sinceridade. Qual cenário você prefere aqui: um que diminua impostos e a burocracia no país, para que em pouco tempo você receba concorrência e diminua sua participação no mercado, ou um que mantenha ele fechado? Evidente que há empresários que apostarão suas fichas num cenário economicamente mais livre por suas próprias consciências – e ainda outros que buscarão essa liberdade porque se sentem prejudicados na busca pelas primeiras posições. Mas os incentivos econômicos para os que são realmente grandes levam ao intervencionismo, não ao livre mercado.

Não é uma coincidência que tantas empresas se aproximem de diversos governos ao redor do mundo para fazer lobby. É isso que operadoras de telefonia fazem contra o WhatsApp. É isso que os grandes cartéis de táxi fazem contra o Uber. É isso que operadoras de televisão por assinatura fazem contra a Netflix. Para um liberal, o Estado é um grande agregador de poder. Através dele, políticos dos mais diferentes partidos costumam aproximar capital econômico para a construção de capital político – e em contrapartida, grandes empresários ajudam a alimentar a roda, em busca do cálice de ouro.

Há alguns séculos, o mundo ocidental construiu o laicismo: a ideia de que não cabe à religião se meter nos assuntos de Estado. É exatamente isso que os liberais proclamam nesse momento: que agora, ocorra uma separação do Estado com a economia. Sem isso, os grandes papas do mercado permanecerão exercendo suas influências através do governo e cobrando muito caro por suas moedas de troca.

3. “Você é só mais um reacionário.”

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Da mesma forma que o inconsciente coletivo político tende a entregar o monopólio da preocupação pelos mais pobres à esquerda, faz o mesmo em relação às minorias. Acontece que o liberalismo não é apenas uma filosofia econômica, mas política. O livre mercado é incompatível com um cenário com restrições à liberdade individual. E é por isso que os liberais também defendem bandeiras muito caras às minorias – como a união e a adoção de crianças por casais LGBTs, o fim da guerra às drogas e o direito das pessoas seguirem a religião que bem entenderem (ou de não seguirem qualquer religião).

Sabe o “meu corpo, minhas regras”? Pois é. Essa é a base do liberalismo: a defesa radical da propriedade. É o seu corpo. São as suas regras. Desde que elas não atrapalhem as demais pessoas, você manda.

O liberalismo, em si, é amoral. O mercado é um lugar onde ocorrem interações voluntárias entre pessoas dos mais diferentes tipos. E nele, cabe às pessoas qualquer julgamento. Seja apoiar ou boicotar uma empresa que abrace ou critique aquela causa social que você dá tanta importância. Seja montar uma empresa para atender os interesses de uma minoria em especial. 

O liberal é aquele cara que defende que um casal gay tenha o direito de portar armas para proteger a sua plantação de maconha. E tudo isso enquanto ele mesmo possa manter um código de conduta conservador no seu trato pessoal – ele só não tem o direito de obrigar as pessoas a serem iguais a ele.

E é por isso que, cada um no seu quadrado,  amigo de esquerda, reacionária é a sua ignorância a respeito das coisas que lhe são estranhas.

4. “Você diz que é liberal, mas no seu paraíso, os Estados Unidos, o governo americano…”

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Estados Unidos. É inevitável, em algum momento ele irá aparecer numa discussão, feito um coringa. No inconsciente coletivo político, os liberais possuem um compromisso estabelecido com o governo americano. Não tem como escapar.

Mesmo falsa, a associação possui uma explicação evidente: os Estados Unidos é encarado como o lar do capitalismo mundial. Essa, no entanto, é uma meia verdade. No ranking de liberdade econômica da Heritage Foundation, os americanos aparecem apenas na 12ª posição – há países latino americanos, como o Chile, com maior apreço à liberdade de mercado. Mas ainda que ele aparecesse na dianteira do mundo, isso não muda o que está em jogo aqui: das guerras aos seguros desemprego, o que diz respeito ao governo americano não diz respeito ao liberalismo. Ou diz tanto respeito quanto o governo da Índia, do Equador ou de Moçambique.

Associado a isso, segue outra ideia: a denúncia conspiracionista de que organizações ou publicações liberais, feito essa aqui, são financiadas pelo governo americano ou por grandes empresas yankees para desestabilizar o cenário político brasileiro e provocar a privatização da Petrobras. A denúncia é risível – não é preciso receber dinheiro algum para atestar a necessidade de privatizar uma gigante estatal como a Petrobras, inepta e no centro de inúmeros escândalos de corrupção nos últimos anos. Mas caso você queira financiar essa ideia, nós aceitamos contribuições através de um financiamento coletivo. É ele que mantém esse site em pé.

5. “Você diz que é liberal, mas usa serviço público.”

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Imagine a cena. Um liberal andando na rua em direção a uma delegacia para dar queixa porque foi assaltado durante o trote que passou ao ser aprovado numa universidade pública. Temos um combo aqui. Para boa parte da esquerda, a cena representa um road movie da hipocrisia. Afinal, a rua, a delegacia e a universidade são órgãos públicos. E aparentemente, usar serviços públicos é um sacrilégio para qualquer liberal. 

Mas há um ponto que passou batido nesse roteiro: liberais não vivem num universo alternativo, em que podem simplesmente optar por não escolher conviver com o Estado. Além disso, eles também são obrigados a pagar religiosamente por todos os impostos. Qual a opção coerente aqui? Que eles paguem pelas universidades públicas e não as utilizem? Seria algo tão grotesco quanto forçar antiliberais a não utilizarem qualquer serviço feito pela iniciativa privada.

Imagine que você mora numa cidade distante e conviva com apenas uma opção de banda larga. O que acontece nesses lugares? Você já sabe: o serviço normalmente é caro e ruim. Mas você, não querendo voltar ao século dezenove, o contrata. Seria justo força-lo a pagar e acusá-lo de incoerência por utilizar um serviço que você vive criticando? Nem precisa responder.

É dessa forma também que se sustenta outro clichê:

“Quando a crise vem, os liberais correm pra pedir socorro do Estado.”

Os “liberais” quem? As grandes corporações? Os bancos? Acho que o ponto dois dessa lista dá conta disso.

6. “O seu partido, o PSDB…”

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Epa, calma aí! Como assim, “o seu partido, o PSDB”? Que história é essa, cara pálida?

Quem é liberal e nunca foi chamado de tucano que atire a primeira pedra. O PSDB é quase sempre a resposta para todas as lacunas, como se você, no fundo, construísse todo um discurso para no final angariar a simpatia pelos tucanos. Só tem um problema: não apenas eles não possuem a menor simpatia pelas ideias liberais, como – não por acaso – não possuem simpatia dos próprios liberais.

Sabe aquela abstração de que eles são neoliberais? Bobagem. O PSDB é um partido de centro-esquerda, social democrata. Embora certamente mais ao centro que o PT, o partido de FHC jamais praticou qualquer espécie de liberalismo – ou ainda de neoliberalismo, seja lá o que você queira dizer com isso – enquanto esteve no poder. Se os liberais criticam o atual governo, isso não se dá por qualquer conexão com os tucanos, mas porque entendem que o Partido dos Trabalhadores segue na completa contramão daquilo que o liberalismo defende. Ou seja – apesar dos tucanos.

Além disso, se a mera oposição ao PT conectasse os tucanos aos liberais, convenhamos – a julgar a posição deles nos últimos anos, não haveria qualquer razão para a associação.