6 vezes em que nossos jornalistas não se escandalizaram com manifestações pró-ditadura

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Você provavelmente já viu essa cena. Um protesto rolando contra o governo em algum canto do país, a televisão com a câmera fechada num grupo minoritário com cartazes pedindo intervenção militar e um jornalista escandalizado do outro lado. A cena se repete sempre que acontece uma manifestação contra o governo.

Não raramente, o grupo monopoliza a atenção e a discussão dos estúdios de televisão, ganha manchetes de jornal, destaque na grande imprensa online. Num passo, vira moeda política para deslegitimar as manifestações e eventuais descontentamentos com o governo.

“Eu tenho vergonha daquelas passeatas de São Paulo, daquela turma à la Bolsonaro pedindo volta da ditadura e o impeachment de uma presidente desse jeito”, afirma Lindbergh Farias, senador pelo PT do Rio de Janeiro, principal rosto dos protestos que pediram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor, há mais de duas décadas.

Se há cartazes lançando juras de amor aos militares em uma multidão contrária ao governo, nem todas as manifestações pró-ditadura exercem o mesmo poder de escandalizar os grandes caciques da imprensa política brasileira. Aqui, as 6 vezes em que eles fizeram de conta que nem toda ditadura é tão ditadura assim.

1) Quando o PC do B lançou apoio à ditadura norte coreana.

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Há pouco mais de 2 anos, o PC do B, partido que compõe a base do governo Dilma, divulgou em seu site oficial uma carta em apoio à Coreia do Norte – país que há mais de meio século vive uma ditadura militar. A carta, segundo o partido, foi assinada por PT, PSB, pelo Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (!), CUT, MST, UNE, UJS e outros movimentos sociais e meios de comunicação de esquerda (posteriormente, PT e PSB negaram apoio ao manifesto).

“Nosso total, irrestrito e absoluto apoio e solidariedade à luta do povo coreano para defender a soberania e a dignidade nacional do país.”

E não se engane: essa não foi a primeira vez em que isso aconteceu. Dois anos antes, o partido afirmou ter recebido com “profundo pesar” a notícia da morte do ditador do país, Kim Jong-il:

“O camarada Kim Jong Il manteve bem altas as bandeiras da independência da República Popular Democrática da Coreia, da luta anti-imperialista, da construção de um Estado e de uma economia prósperos e socialistas, e baseados nos interesses e necessidades das massas populares.”

Aldo Rebelo, então Ministro do Esporte, disse na ocasião que sua “opinião sobre isso é a opinião do partido”. A Coreia do Norte era um exemplo para o mundo.

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Na imprensa, poucas vírgulas sobre o tema. Nenhum formador de opinião escandalizado com a posição pró-ditadura por um representante oficial do governo.

2) Quando partidos defendem regimes políticos ditatoriais na tv aberta.

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E essa não foi uma cena isolada. Durante a última campanha presidencial, como é de praxe a cada 4 anos, discursos contrários ao Estado de direito eram sustentados sem o menor pudor nos palanques. E tudo bancado com dinheiro público – grana que sai do seu bolso.

Em entrevista para a nossa publicação, Rui Costa Pimenta, candidato à presidência pelo Partido da Causa Operária, afirmou:

“Eu vejo que a revolução acaba sendo violenta, nós temos que ser realistas a respeito disso, mas na verdade a violência é sempre uma reação à violência maior dos inimigos.”

O discurso é documentado no programa oficial do PCO:

“Nosso objetivo central é o socialismo, ou seja, o fim da propriedade privada dos meios de produção que devem ser colocados a serviço da sociedade. Este objetivo só pode ser alcançado por um governo operário estabelecido pela revolução das amplas massas operárias e populares.”

Duro? Não se engane: o PCO não foi o único partido a defender uma ditadura proletária usando o seu dinheiro nessas eleições. O PCB, que lançou o candidato Mauro Iasi à presidência, defende em seu programa oficial um Bloco Revolucionário do Proletariado:

“O PCB defende que somente a Revolução Socialista, entendida como um forte e poderoso processo de lutas populares que desemboque na construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo e à ordem burguesa, será capaz de realmente resolver os problemas vividos pelos trabalhadores e setores populares.”

Tudo às claras, em tv aberta, na sua residência, com o seu dinheiro. O PCB recebeu R$ 899.094,03 através do fundo partidário nos primeiros 7 meses de 2015. O PCO embolsou R$ 802.792,18 no período.

Em outras palavras: você banca partidos políticos que buscam implantar um regime contrário ao Estado de direito no Brasil e que usam do próprio sistema democrático “como se fosse uma campanha de propaganda privilegiada” para a construção desse regime, como nos atestou a principal figura do Partido da Causa Operária, e a grande imprensa não tem absolutamente nada a dizer a respeito.

3) Quando Raquel Dias, do PSTU, disse que o seu partido se prepara para a “luta armada” para implantar uma revolução.

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E a história piora. Nas últimas eleições, a candidata cearense ao senado pelo PSTU, Raquel Dias (que recebeu míseros 1,05% de votos nas eleições) afirmou em campanha que o seu partido se prepara para a “luta armada”:

“Achamos que para que os trabalhadores tomem o poder em suas mãos, o controle sobre sua própria vida, é necessário uma revolução armada.”

Quando questionada se o PSTU, partido que lançou Zé Maria à presidência nas últimas eleições, estava se preparando para isso, sua resposta foi taxativa:

“Estamos nos preparando, sim, só não vou dizer como. Como a gente vive num Estado opressor, mas que se apresenta como democrático, e o armamento é uma ação contra o próprio Estado, não posso dizer como estamos nos preparando.”

O PSTU recebeu R$ 1.613.827,90 do fundo partidário nos primeiros 7 meses de 2015.

Somados, PCB, PCO e PSTU receberam mais de R$ 3 milhões do seu bolso no período.

4) Quando Lula disse que não pode haver “preconceito” contra ditadores.

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Aconteceu na Cúpula da União Africana, em 2009. Após chamar o ditador líbio Muammar Gaddafi de “meu amigo, meu irmão e líder”, o então presidente Lula disse que não se pode ter “preconceito” contra líderes não democráticos.

“Eu não trabalho com preconceito, porque se trabalhasse, não estaríamos nem na ONU, tamanha é sua diversidade.”

E foi exatamente sem ditadurofobia que Lula resolveu um impasse, em 2010, enfrentado por executivos da OAS com o ditador de Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que tomou o poder por meio de um golpe de Estado há 35 anos – se você ainda não ligou o nome à pessoa, Nguema é o ditador que patrocinou o desfile de 2015 da escola de samba Beija-Flor, campeã do carnaval carioca.

O caso foi revelado na 14ª fase da Operação Lava Jato. Segundo grampos obtidos pela Polícia Federal, Lula era tão amigo do ditador que foi o único a acolher seu filho, Teodorín, envolvido em esquemas de lavagem de dinheiro.

“Falei com o Brahma [Lula]. Contou-me que quem esteve aqui com ele foi o presidente da Guiné Equatorial, pedindo-lhe apoio sobre o problema do filho. Falou também que está indo com a Camargo (Corrêa) para Moçambique x hidrelétrica x África do Sul”, relata uma das mensagens de Léo Pinheiro, ex-presidente da construtora OAS.

O assunto voltou à tona no mês seguinte em outra mensagem de Pinheiro:

“Deixa acabar as eleições para marcarmos. Ele me falou que o nosso amigo da Guiné veio só para pedir apoio ao filho. Me disse que foi um apelo de pai e que ninguém o atende. Somente o nosso Brahma lhe deu acolhida e entrou em campo para ajudá-lo.”

A maior parte da grande imprensa manteve o silêncio. Sem ditadurofobia.

5) Quando Luciana Genro e seu partido, o PSOL, saíram em defesa da ditadura venezuelana.

A Venezuela é o grande regime de exceção na América do Sul. Com eleições teatrais, sem repartição de poderes, com perseguição à oposição, sem liberdade de expressão e muita repressão militar, o país de Nicolás Maduro se transformou na ditadura típica latino-americana. Engana-se, no entanto, quem pensa que esse modelo seja rejeitado por Luciana Genro, candidata à presidência pelo Partido Socialismo e Liberdade nas últimas eleições. Pelo contrário.

O PSOL lançou apoio à candidatura de Maduro em 2013, “por expressar a continuidade dos valores da Revolução Socialista Bolivariana”.

“Em nota, o PSOL declara solidariedade ao povo venezuelano e apoio à candidatura de Nicolás Maduro, por expressar a continuidade dos valores da Revolução Socialista Bolivariana. Segundo o texto, o PSOL já havia manifestado sua solidariedade ao povo venezuelano, em duas oportunidades recentes: na eleição presidencial de 2012, em apoio político à candidatura de Hugo Chávez, e mais recentemente, em clima de profunda tristeza, manifestou seu pesar pelo falecimento do ex-presidente, “tão significativa personalidade na luta antimperialista latino-americana”. “Por coerência não poderíamos nos furtar a assumir posição diante das próximas eleições, previstas para 14 de abril, declarando nosso apoio  à candidatura de Nicolás Maduro, por expressar a continuidade dos valores da Revolução Socialista Bolivariana”.”

Com poucas exceções, quase nada se falou a respeito na grande imprensa tupiniquim.

6) Sempre que rola uma manifestação pedindo uma ditadura… proletária.

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Eles estão na rua. Levantam seus cartazes, suas bandeiras, suas cores, em defesa de uma ditadura. Defendem um modelo político impossível de ser seguido pela democracia liberal representativa, centralizado nas mãos de um partido único, possível apenas com forte poderio militar e muita repressão. Mas não recebem a mísera atenção dos grandes baluartes da imprensa tupiniquim. São os manifestantes que ainda nos tempos atuais protestam em nome da instauração de uma ditadura proletária.

“Hoje, eu continuo sendo socialista, portanto de esquerda, mas sou uma pessoa que acredita que a democracia é uma questão essencial, coisa que nós, na época da esquerda leninista, nós não considerávamos. Nós éramos pela ditadura do proletariado. Nós éramos contra a ditadura militar, mas éramos a favor da ditadura do proletariado. Isso aí é preciso dizer a verdade toda. E às vezes eu ouço meias verdades. Como a ditadura militar nos oprimiu barbaramente, de forma violenta, muitas vezes as pessoas pensam que não existia no campo da esquerda coisa igual e até pior, em vários aspectos”, diz Eduardo Jorge, candidato à presidência pelo PV nas últimas eleições.

De fato, ditaduras – de esquerda ou direita – são injustificáveis e indefensáveis. Se a liberdade de expressão, no entanto, é um direito inalienável – e garantia para que mesmo ideias sórdidas sejam defendidas – o uso desse direito por parte da grande imprensa para criticar a estupidez dos defensores desses regimes gera um processo de completa indignação seletiva.

Se todas as formas de ditadura são repugnantes, apenas uma escandaliza a maior parte dos nossos jornalistas.