8 empresas que quebraram com a crise (e que você sequer ficou sabendo)

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A falência da operação brasileira da fabricante de geladeiras Mabe, responsável pelas marcas Dako, GE e Continental, trouxe para muitos uma amostra do tamanho da gravidade da crise pela qual o país atravessa. Imaginar que marcas de empresas consolidadas e respeitadas possam simplesmente quebrar é um exercício bastante improvável. Em economias saudáveis, falências são quase sempre sinônimos de inovação – como o caso da companhia Kodak, que faliu graças à concorrência das máquinas digitais. Em economias em crise, no entanto, a falência tem sempre um caráter menos nobre, indicando uma forte queda na demanda, aumento de custos ou crédito mais escasso. As causas são diversas, e a prática tem se tornado cada vez mais comum.

Desde sua criação em 2005, a nova Lei de Falências jamais havia registrado um número tão alto de pedidos de recuperação judicial – que em 2015 apresentou nada menos do que 54,4% de aumento. Pedir proteção judicial para se reestruturar é uma tática comum, e em muitos países uma forma de evitar falências e demissões em massa. Nos Estados Unidos, nada menos do que 30% das empresas que entram com pedido de recuperação judicial voltam a operar normalmente. No Brasil, porém, este número está em 1%.

Ao longo do ano que passou, 4.200 pessoas perderam seus empregos diariamente, 95,4 mil lojas fecharam as portas (13% do total) e 60 mil empregadores desapareceram (ou 5,7% do total). Inúmeros setores estão enfrentando dificuldades – muitos, como a siderurgia, ainda aguardam um bote salva-vidas do governo, em forma de aumento de imposto de importação. Nada, porém, ilustra tão bem o aprofundamento da crise quanto o desaparecimento ou o estado de falência de algumas das marcas mais conhecidas do país em suas áreas.

Abaixo, listamos 8 delas ocorridas durante a crise.

Mabe

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A fabricante de fogões e geladeiras mexicana opera no Brasil desde 2003. No país, a empresa ganhou destaque pelas inúmeras aquisições desde sua entrada no mercado. Ao longo de 12 anos, os mexicanos experimentaram um crescimento vertiginoso, atingindo uma participação de 16% no mercado de geladeiras, que movimenta R$ 9 bilhões anuais, com cerca de 2/3 disto nas mãos de 3 empresas multinacionais (Mabe, a sueca Electrolux e a americana Whirpoll).

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Desde 2013, porém, a Mabe enfrenta problemas. A empresa, que já chegou a dobrar de faturamento a cada 3 anos no país, agora enfrenta a falência derradeira, deixando cerca de 2 mil funcionários desempregados.

O setor de eletrodomésticos registrou em 2015 queda de 14% no faturamento. O resultado, quando somado à inflação do setor, leva a perdas de quase 20%.

Leader
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A varejista carioca, tal qual a multinacional mexicana, vivenciou o boom do varejo brasileiro e agora encontra-se em situação complicada também por conta do derretimento das vendas no varejo. Some-se a isto uma aliança conturbada com o banco BTG, que atualmente controla a empresa, e o passado recente da Leader mostrou-se nada tranquilo.

Para o BTG, a aquisição de empresas para posterior consolidação (a Leader adquiriu logo em seguida as lojas paulistas Seller), tratava-se de uma aposta óbvia na falta de profissionalização de uma série de setores da economia brasileira. A virada na economia, de um crescimento para a atual recessão, e a falta de capacidade operacional, levaram não apenas a Leader a se tornar um investimento frustrado, como também empresas como a Eneva, anterior MPX de Eike Batista, a Sete Brasil, que deveria produzir sondas para o pré-sal, e a Brasil Pharma, a beirar a falência com pedidos de recuperação judicial ou necessidades de aportes do controlador. Em comum, todos contaram com aportes do BTG.

Atualmente a Leader possui mais de R$ 1 bilhão em dívidas e teve seu pedido de falência confirmado pelo BTG.

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Luigi Bertolli
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2015 registrou o pior ano para o varejo desde 2001. A queda do setor de 4,5%, entretanto, parece tímida quando comparada a do setor de tecidos, vestuário e calçados, que caiu 8,6% no ano. A exemplo de outras empresas como a rede de lojas Shoestock, que em 2011 registrou um faturamento de R$100 milhões (até falir em 2015), o grupo GEP, dono da marca Luigi Bertolli e representante da GAP no Brasil, também sentiu os efeitos da crise.

A empresa, que conta com 97 lojas no país e possui R$ 544 milhões em faturamento, enfrentava problemas desde 2013. O momento atual, porém, foi definitivo para a decisão de pedir a recuperação judicial, que ocorreu no início desse mês.

As dívidas do grupo somam R$ 513 milhões.

Proema & Arteb
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A queda de 26,55% nas vendas de veículos em 2015 não demorou a criar suas primeiras vítimas. Enquanto empresas como General Motors e Fiat iniciam férias coletivas para evitar demissões, empresas ao longo da cadeia do setor automotivo, com menor margem de manobra, apelam para pedidos de recuperação judicial, ou mesmo falência.

Duas das maiores companhias brasileiras de produção de peças automotivas, Proema e Arteb são o exemplo mais visível desta crise que afeta o setor, acostumado a crescimentos vultosos nos últimos anos, boa parte em função do crédito fácil.

Com uma queda de quase 65% nos pedidos, a Proema, que atende as montadores Fiat, General Motors e Mercedes-Benz, acumula dívidas de R$ 1 bilhão. A Arteb por sua vez, líder no segmento de iluminação automotiva, demitiu 220 de seus 1,3 mil funcionários para logo em seguida entrar com o pedido de recuperação judicial.

O setor de autopeças registrou um recuo de 17,7% no seu faturamento, gerando perdas de 29,8 mil postos de trabalho.

Bmart
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A loja de brinquedos paulista Bmart percorreu duas décadas da economia brasileira enfrentando os altos e baixos desde sua criação em 1995. Como todo o setor varejista, a rede aproveitou-se do crescimento do crédito pós-Plano Real para expandir-se, até chegar a cerca de 28 shoppings em 3 estados.

A empresa, que fatura R$ 150 milhões anuais e emprega 1,7 mil funcionários direta ou indiretamente, possui hoje dívidas de R$ 118 milhões. Com o aumento do custo financeiro decorrente da alta dos juros, a Bmart, que já vinha de dificuldades, optou por entrar com o pedido de recuperação judicial.

Dentre os motivos para pedir a recuperação, a empresa lista ainda o aumento de impostos, como PIS/Cofins. Na média, impostos são quase 40% dos preços de brinquedos vendidos no Brasil.

Tonon Bioenergia
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Do congelamento de preços praticado pela Petrobrás, que gerou prejuízos superiores a R$ 100 bilhões à estatal e tornou inviável a produção de etanol em muitos estados, ao aumento do custo do crédito, as falências no setor sucroalcooleiro se multiplicam com velocidade. Apenas em 2016, seis usinas já pediram falência no país.

A crise no setor, que já levou à falência da Usina São Fernando, do empresário José Carlos Bumlai, e ameaça pôr a perder os mais de R$ 10 bilhões investidos pela Odebrecht no setor, fez em dezembro de 2015 sua mais recente vítima: a Tonon Energia decidiu pedir recuperação judicial, após atingir R$ 2,8 bilhões em dividas.

Segundo a presidente da ÚNICA, União da Indústria de Cana de Açúcar, a concorrência desleal da Petrobras tem ocasionado a maior crise da história do setor, com cerca de 44 falências e 33 pedidos de recuperação judicial até abril de 2014, número que apenas cresceu em 2015.

EISA
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A esperança de recuperação do Estaleiro Ilha, adquirido pelo empresário German Efromovich, também controlador da Avianca, não durou muito. Com a crise que afeta o setor, antes um dos mais efervescentes graças às constantes encomendas da Petrobras, o Estaleiro Ilha pediu falência em dezembro passado, alegando insustentabilidade dos custos financeiros.

O pedido de recuperação do estaleiro engloba as operações do estaleiro na Ilha do Governador, e na subsidiária Eisa Petro 1, criada para atender a demanda da Petrobras.

A crise na industria naval também atingiu o Estaleiro Enseada, da empreiteira OAS, que pediu recuperação judicial para reestruturar R$ 700 milhões em dívidas. O estaleiro atlântico sul em suape por sua vez, símbolo da nova era da industria naval brasileira, demitiu cerca de 200 trabalhadores. Já no sul, os efeitos da Lava Jato são visíveis, o estaleiro brasil da Toyo Setal, QGI (parceria entra Queiroz Galvão e Iesa), e Rio Grande I, da Ecovix, encontram-se desativados ou operando abaixo da capacidade. A redução na demanda pela Petrobras pode terminar por levar o setor naval a sua terceira quebra nas últimas 4 décadas.

Unimed Paulistana
Unimed-Paulistana

Para cerca de 1,2 milhão de brasileiros, 2015 foi o ano de dizer adeus ao plano de saúde privado. Cerca de 64 planos de saúde encontram-se sobre intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), e outras 74 operadoras encontram-se em processo de fechamento. Para os gigantes do setor, o momento é de cautela. A Amil, agora sob controle da americana UnitedHealth, viu seu lucro cair aproxidamente 94% em relação ao esperado.

Com cerca de 744 mil clientes, a Unimed Paulistana encontras-se em estado falimentar. Sua liquidação foi decretada pela ANS em função das dívidas que somam mais de R$ 263 milhões apenas em passivos tributários. Com mais de 1,1 milhão de clientes, a Unimed Rio encontra-se sob intervenção da mesma ANS.

A crise no setor de saúde não deixa dúvida: a economia do país está doente.