8 maneiras de transformar as universidades brasileiras nas melhores do mundo

Para um país tão acostumado a relegar a ciência ao segundo plano, o anúncio do fim do programa “Ciência Sem Fronteiras” poderia representar um enorme baque. Trata-se de um dos programas de maior orçamento com a finalidade de desenvolver nossos jovens cientistas. Poderia… não fosse a ciência limitada, em boa parte, ao nome do programa.

Com um orçamento médio de R$ 105 mil por aluno, o programa sofreu duras críticas mesmo daqueles que apoiavam a ideia. Para estes, o investimento em alunos da graduação em detrimento da pós-graduação ou a quantidade de vagas limitadas para universidades brasileiras de ponta mostram que seria necessária uma reformulação geral.

Na prática, o programa, com seu custo de R$ 3,2 bilhões anuais – cerca de 75 vezes o orçamento de investimento do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, ou 60% da verba destinada pela CAPES para financiar todos os mestrandos do país -, tornou-se o curso de inglês mais caro do mundo. Em alguns casos, como nos Estados Unidos, cerca de 40% dos alunos alunos enviados pelo programa necessitavam de algum curso complementar para garantir fluência no idioma.

Garantir aos alunos brasileiros experiência internacional não é uma ideia aleatória, daquelas surgidas no gabinete de algum burocrata em Brasília. Tornar as universidades brasileiras referência mundial em pesquisa tem sido um desafio encarado por inúmeros gestores que se propuseram a fugir do feijão com arroz da burocracia e inovar.

No entanto, entender o que faz uma universidade liderar sua área não é uma tarefa fácil. Em Harvard, repetidamente eleita a melhor do mundo, alunos com renda familiar de até US$ 65 mil anuais não pagam um centavo para estudar, enquanto alunos com renda de até US$ 80 mil anuais recebem um desconto de cerca de 80%. Em Stanford, outra das que encabeçam os rankings mundiais, nove entre dez alunos saem da universidade sem dever um centavo, graças a doações de ex-alunos que complementam as mensalidades e garantem a muitos a oportunidade de estudar.

Para qualquer universidade que se destaque, a regra é clara: ninguém deve ser impedido de estudar por condições financeiras. Tudo o que é preciso é retribuir à universidade, foco em pesquisa e resultados na sala de aula. Se você for bom o suficiente, estudar o suficiente… não se preocupe com mensalidade. Você ganha para estudar.

Nas universidades brasileiras, onde a chance de um aluno de escola particular conseguir uma vaga supera em 15 vezes a chance de um aluno de escola pública, os problemas são inúmeros. E, claro, não param por aí.

Abaixo, selecionamos alguns exemplos que mostram como fazer ciência por aqui pode ser algo possível e, principalmente, como sua universidade pode ser também uma das melhores do mundo.

1) Não depender do bom humor dos políticos para investir.

A reunião com o diretor da faculdade de economia da Universidade Federal do Ceará corria bem, até que o caso da reforma do prédio começou a ser comentado. Por se tratar de um prédio de 70 anos, o número de reformas necessárias não era pequeno e, consequentemente, a verba também não.

Segundo o diretor, a universidade havia licitado três elevadores, o que permitiria dar andamento a um dos pontos mais relevantes da reforma: acessibilidade. Tudo teria corrido tranquilamente, não fosse um pequeno detalhe: não havia verba no orçamento para realizar as obras do fosso do elevador e os elevadores teriam de esperar a aprovação de recursos no orçamento do ano seguinte para serem colocados.

Casos como este podem parecer uma piada de mau gosto, mas, para qualquer um que já tenha encarado a realidade das universidades brasileiras, é plenamente plausível.

Basta observar, por exemplo, que as universidades são hoje impedidas de manter fundos de doações de ex-alunos para custear gastos desse tipo, ou que ainda que um ex-aluno tenha toda a vontade de ajudar, ele estará impedido de fazer isso sem submeter-se à lei de licitações.

Doar para uma universidade pública brasileira é uma tarefa das mais difíceis, além de ter um imenso potencial de provocar dores de cabeça.

Nada disso, entretanto, ocorre ao acaso. Impedidas de manter contas próprias e organizar os próprios recursos da maneira como acharem mais produtivo, as universidades brasileiras tornaram-se ao longo dos últimos anos meramente pagadores de salários e, por isso, reféns dos políticos da vez.

Ao redor do mundo, casos como este possuem enorme contraponto. Em Berkeley, a melhor universidade pública do mundo, apenas 10% dos recursos para manter a universidade são públicos. Ao todo, cada aluno da universidade americana custa R$ 76 mil anuais, contra R$ 56 mil de um aluno da USP.

2) Melhorar as relações das universidades com seus ex-alunos.

A luta das universidades públicas para fugirem da mesmice e da dependência de políticos não é uma novidade. Entre o desejo e a realidade, porém, há uma longa distância.

Em 2012, a justiça condenou a USP a devolver R$ 1 milhão que haviam sido doados pela família do banqueiro Pedro Conde para reformar o auditório da faculdade de direito. Em troca, a família pediu que a universidade desse o nome do banqueiro à sala. Resultado? A universidade se recusou, pois nomes de auditórios e salas de aula só podem ser dados a ex-professores da casa.

Por aqui, dentre 2,5 mil universidades, apenas 8 possuem algum tipo de fundo para receber recursos de ex-alunos.

Em um dos casos pioneiros, os alunos da politécnica, escola de engenharia da USP, lançaram um fundo em 2012. Hoje, os recursos já ultrapassam R$ 10 milhões, e são responsáveis por bancar cerca de 74 projetos.

A lógica é simples: em Yale, por exemplo, onde o fundo de US$ 20 bilhões cresce a cerca de 13% ao ano, todos os anos são retirados 5% para uso da própria universidade.

3) Aumentar a relação da universidade com o mercado.

Larry Page e Sergey Brin são dois dos nomes mais conhecidos do mundo da tecnologia. No final da década de 90, ambos estavam ainda na universidade, buscando um projeto de graduação para chamar de seu. Foi justamente neste período que decidiram optar por algo relativamente novo: minerar e organizar dados na internet.

Como qualquer coisa que envolvia internet na época, encontrar recursos para bancar a ideia não era fácil. Em Stanford, porém, possuíam uma boa vantagem. O laboratório integralmente financiado por Bill Gates na universidade e a verba anual para pesquisa era o que precisavam para desenvolver sua empresa, a Google.

Parcerias como esta não são nenhuma novidade. Muito além dos bilhões doados para manter as necessidades do dia a dia, as universidades americanas ou europeias refinam a cada ano sua estratégia para integrar seus alunos cada vez mais aos investimentos em pesquisa e desenvolvimento feitos por via externa, ou seja, por empresas que buscam se associar a estas pesquisas.

A relação torna-se complementar à medida que tais empresas passam a gerar recursos e experiência aos estudantes.

O que pode chegar a cobrir 1/3 do orçamento de pesquisa de universidades como a UCLA, no Brasil não passa de 6%, o percentual de verbas para pesquisa da Unicamp que parte de uma fonte privada de financiamento.

4) Aprender inglês e se juntar a equipes de pesquisa internacional.

Quis o destino que, ao contrário de 70% das melhores universidades do mundo, as universidades brasileiras estivessem sujeitas a um idioma pouco difundido. Diante deste fato, que nos leva à principal causa do pouco número de citações de pesquisas brasileiras ao redor do mundo (produzimos de fato menos de 2% do total de pesquisa e menos de 1% do total de patentes), restam duas opções: se adaptar, ou aceitar a situação e continuar a produzir pesquisa com impacto quase exclusivamente local.

Dentre as 200 universidades mais bem avaliadas no mundo, nada menos do que 198 possuem o inglês como idioma básico. As duas exceções? Universidades francesas.

Medidas como esta são fundamentais para atrair grandes pesquisadores mundiais (algo que já foi tentado por algumas das principais universidades brasileiras) e garantir maior impacto das ideias produzidas aqui.

Participar de grupos de pesquisas em consórcios internacionais é rotina para qualquer universidade que integre o top 100 mundial. Pesquisar a cura de alguma doença, novos métodos para o uso de algum material ou avançar na compreensão de algum ramo ainda incerto da física são obrigações para qualquer pesquisador que queira garantir boas verbas e um bom retorno para sua universidade. Não há como isolar-se do mundo e pesquisar sozinho, em algum laboratório perdido por aí, esperando algum dia ser reconhecido pelos seus méritos.

5) Diferenciar salários e importar professores.

Ao contrário do sistema universitário brasileiro, onde todo professor deve pesquisar e dar aulas ao mesmo tempo, em boa parte das universidades do top 100 mundial esta é uma divisão bastante clara: existem aqueles que se dedicam à pesquisa e outros ao ensino. O resultado é uma melhor divisão do trabalho, que permite aos professores especializarem-se no que fazem.

Também diferentemente da lógica de remuneração adotada em universidades brasileiras, que premia a longevidade do professor na casa e o número de cursos ou especializações que ele fizer durante o período, em universidades como Harvard ou Stanford, o padrão é criar mecanismos que premiem o engajamento do professor em pesquisa ou demais áreas de conhecimento.

No atual sistema, um professor que publique dez papers em jornais extremamente bem conceituados pode receber menos do que um professor que não publicou nenhuma pesquisa, simplesmente por estar há menos tempo na universidade.

Acontece que, como qualquer indivíduo, professores irão reagir a incentivos. Se publicar e produzir mais ciência não for compensatório, ou ainda se for algo capaz de lhe criar problemas (afinal, a dor de cabeça para conseguir verbas não é pequena), o natural é que tais professores deixem de investir nesta área e se contentem em replicar o mesmo conteúdo ano após ano.

Trazer professores renomados não é uma ideia nova. Mas, convenhamos: ainda que os salários de professores catedráticos por aqui sejam mais do que razoáveis (os top 20 da USP por exemplo estão todos acima dos R$ 40 mil), convencer um professor a trocar Yale por uma universidade federal brasileira requer certo esforço financeiro. Na prática, um novo professor, com métodos e rigor distintos, agrega não apenas às suas próprias turmas, mas ao próprio corpo docente da universidade, adequando-o aos padrões internacionais.

6) Foco em pesquisa.

Você já deve ter reparado que, quando se trata de tornar uma universidade referência, ensino é um mero detalhe quando comparado à pesquisa. De fato, o que torna Harvard, MIT ou Yale referências em suas áreas são suas pós-graduações e qualificações em produção científica

Produzir ciência não é algo alheio à realidade brasileira. Somos o 13º país do mundo em quantidade de pesquisa produzida. Ao mesmo tempo, amargamos uma 40ª colocação em qualidade do que é produzido.

Entender o que leva a essa disparidade não é muito difícil. Basta ver que produzir, não importa o quê, pode ser uma maneira de pontuar naquela escala de progressão da carreira, ou ainda de agregar benefícios pessoais.

A distinção entre professor pesquisador e professor focado em lecionar é algo comum em boa parte do mundo. Por aqui, porém, as exigências são claras: é preciso que um professor faça um pouco de tudo, ainda que nenhuma dessas tarefas seja executada da melhor maneira possível.

Foco em pesquisa não é algo simples. Não basta selecionar professores e dar a eles a tarefa de produzir ciência. Construir laboratórios, garantir uma remuneração razoável aos alunos que estarão lá auxiliando e financiar projetos são medidas fundamentais. Nada disso parece sequer próximo da realidade das universidades brasileiras. Optar por gastar menos com salários e mais com pesquisa não é viável. Não há sindicato de pesquisadores pressionando por mais verbas na mesma medida em que há sindicatos de professores pressionando por melhores salários.

A luta é injusta e evidencia um grande problema da universidade brasileira: ela existe para servir à própria burocracia, e não à sociedade que arca com seus custos.

7) Investir no ensino básico.

Imagine, por exemplo, que com o orçamento destinado ao Ciência Sem Fronteiras seria possível garantir merenda escolar para até 40 milhões de alunos no ensino médio. Você talvez se pergunte o que isso tem a ver com investir em universidades, mas precisamos reconhecer que é impossível não ser clichê neste ponto: “quem faz a universidade é o aluno.”

Com oito em cada dez alunos saindo do ensino médio com dificuldades em matemática e sete em dez com dificuldades em gramática, esperar formar bons engenheiros, economistas, médicos, biólogos, etc., é como esperar um milagre.

Em um país onde 67% das escolas não possuem esgoto tratado e uma em cada quatro não possui sequer água filtrada (de fato, 99,6% das escolas não têm estrutura adequada, segundo pesquisa da UnB), tudo acaba contribuindo para que nossos problemas se estendam até as universidades.

Quando nos deparamos com os resultados da OCDE, organização que reúne alguns dos países mais desenvolvidos do mundo, o resultado é nítido: nenhum país investe tantas vezes mais em ensino superior do que o básico como o Brasil. Quer saber como ainda pode ficar pior? Basta lembrar que a presença de pessoas das classes A e B em nossas universidades é quase duas vezes a média nacional. Em outras palavras: nossas universidades perpetuam a desigualdade, criam um abismo de renda e, no fim, não retribuem ao país de forma satisfatória.

8) Acabar com as especializações gratuitas.

Barrados ontem pelo Congresso, os chamados mestrados pagos foram, ao longo dos últimos anos, uma maneira de capitalizar universidades e permitir investimentos. Na visão dos deputados que barraram a medida, isto representa um ataque ao direito à educação.

Na prática, porém, onde os recursos são escassos, obrigar uma universidade a bancar uma pós-graduação, cujo resultado será sentido essencialmente pelo aluno que se dispuser a cursá-la, significa retirar dinheiro de setores mais amplos, como a graduação, ou ainda do ensino básico.

Poucos países do mundo possuem uma disparidade tão grande quando o assunto é gasto em ensino superior e ensino básico. Talvez você esteja pensando que de fato é preciso investir bastante em pessoas altamente qualificadas, mas não podemos esquecer que falamos aqui de recursos limitados e, portanto, recursos que devem gerar o maior ganho social possível.

Investir em educação básica é, de longe, a maneira mais fácil de disseminar educação pela sociedade. Em um país com um déficit educacional como o nosso, formar bons engenheiros requer muito mais do que uma grande quantidade de dinheiro.

Acabar com a gratuidade das pós-graduações lato sensu é uma maneira de tornar as universidades mais independentes e consequentemente drenar menos recursos do orçamento público para a educação superior.