A Carta Capital está indignada com os comentários de ataque a José Dirceu na internet

***FOTO EMBARGADA PARA VEÍCULOS DE RS E SC*** PORTO ALEGRE, RS. 15.12.2012: PT/DIRCEU - O ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu partcipou de evento do Partido dos Trabalhadores na manhã deste sábado no salão da igreja Pompeia, em Porto Alegre. Ovacionado pelos militantes, Dirceu não deu entrevistas e disse que só falará com a imprensa após o fim do julgamento do mensalão. O evento faz parte de uma série de iniciativas do partido em que ele percorre o país para se dizer inocente e buscar apoio dos partidários. (Foto: Diego Vara/Agência RBS/Folhapress)

Publicidade

A Carta Capital está enfurecida. A razão? A falta de sensibilidade das redes sociais a José Dirceu.

Na tarde dessa sexta-feira saiu a notícia de que o ex-ministro de Lula teve um princípio de AVC, em Brasília. Em poucos minutos choveram “mensagens de ódio” na web. Para a revista – através da matéria “José Dirceu tem suspeita de AVC e milhares pedem a sua morte”, assinada por Lino Bicchini, seu editor de mídia online – tal fato ilustra o quanto perdemos “nossa humanidade”. Para a CC, a cena revela o “nível do debate político no Brasil”.

Há um fato claramente distorcido aqui – esse não é um debate político. José Dirceu é um corrupto, condenado pela Justiça por seus crimes. Na linguagem mais clara possível: Dirceu é um ladrão, um bandido, um criminoso – julgado, condenado e preso. Seu banditismo propaga a morte nos hospitais, o analfabetismo nas escolas, as doenças ocasionadas pelo estado decrépito de nosso saneamento básico, os assassinatos de cada dia nas esquinas desprotegidas pela segurança pública. O jornalista diz não querer “entrar no mérito sobre a conduta de José Dirceu, o que ele fez ou deixou de fazer”, mas é impossível desassociar um fato de outro, não de forma honesta. José Dirceu não é apenas um ex-ministro, uma figura política e ideológica, mas um bandido público.

Esse não é o primeiro caso de comoção pela doença ou morte de uma figura pública. A morte de Margaret Thatcher, uma das maiores ícones da direita no século vinte, foi noticiada pela mesma Carta Capital, em 2013. Esse era o “nível do debate político” na seção de comentários da revista.

carta-capital

Publicidade

Quando Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, teve sua morte noticiada pela Carta Capital, era essa “nossa humanidade”.

civita

Não houve qualquer comoção da revista em relação a esses comentários; nenhum artigo pedindo a reflexão de seus leitores; nenhuma lição de moral com o nível do debate.

Nas últimas semanas, José Dirceu voltou ao noticiário, envolvido em novos escândalos. Segundo a Justiça, Dirceu faturou R$29,2 milhões com a prestação de “serviços de consultoria” durante 9 anos para mais de 50 empresas. A suspeita é que a JD Assessoria de Consultoria, sua empresa, tenha prestado esses “serviços” como fachada para encobrir dinheiro desviado da Petrobras. Nessa semana, o presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, afirmou a investigadores da Operação Lava-Jato que os pagamentos a Dirceu eram descontados das comissões que sua empresa devia ao esquema, que correspondiam a 2% do valor de seus contratos na Petrobras. Dirceu recebeu mais de um milhão de reais por seus “serviços de consultoria” mesmo impossibilitado de prestá-las, dentro da prisão. Segundo seus interlocutores, seu princípio de AVC é fruto do estresse elevado com o noticiário da Lava-Jato e de uma nova condenação.

Mas isso tudo não é o suficiente. Dirceu pode ser condenado pelos crimes que for, sempre haverá uma militância e uma mídia chapa-branca disposta a defendê-lo direta ou indiretamente, boquiaberta com a “selvageria” da opinião pública enquanto silencia em relação à selvageria com o dinheiro público do partido que está no poder. Para a Carta Capital, não há debate político sério no país porque não há respeito à figura de um bandido público envolvido em inúmeros escândalos. O fato é que sem honestidade intelectual qualquer debate perde o sentido.

Publicidade

Nunca é demais lembrar também como a militância petista tratou o tucano Mario Covas, então governador de São Paulo, numa das cenas mais lamentáveis da nossa história republicana. Enquanto Dirceu dizia que os tucanos tinham que apanhar “na rua e nas urnas”, o governador de São Paulo era violentado nas esquinas pelo seu bando.

A cena aconteceu em maio de 2000. Na época, Mario Covas lutava contra um câncer – que o levaria à morte pouco tempo depois – e fazia tratamento quimioterápico. Esse era o nível do “debate” proposto pela militância. A ele, claro, só resta o silêncio da Carta Capital.

Comments

Deixe uma resposta

Loading…