O preço da água está subindo. E isso é muito bom.

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Muitas cidades do Brasil amargam secas inéditas em nossa história. As represas estão secando; há possibilidades reais de que, muito em breve, nossas pias e chuveiros e privadas sequem. E daí…

Momentos de crise costumam ser momentos ruins para se tomar decisões que afetem todo o sistema. São momentos de muita emoção e pouca razão. E nas horas de escassez é que nosso instinto anticomércio fala mais alto. Em especial para coibir uma prática que é universalmente condenada: o aumento de preços.

Pô, justamente quando uma coisa começa a faltar, e as pessoas mais precisam dela, os vendedores aumentam o preço? Não é justo. No caso da água, o preço que as empresas de distribuição cobram é determinado politicamente, embora já tenha uma política de multas em vigor (que, na prática, é um aumento de preço). Mas a água dos canos pode, em alguma medida, ser substituída: por água que vem em caminhões-pipa, por galões, por aparelhos coletores de água de chuva e de reutilização da água doméstica. Muitos desses já vêm aumentando de preço; e se o racionamento chegar com tudo, aumentarão ainda mais.

E isso é bom.

Sim. Deixem os preços subirem. Eles devem subir. Quando a água fica mais escassa, fica também mais valiosa. E quando o preço sobe, sabe o que acontece? Duas coisas: a primeira é que os consumidores vão restringir mais seu consumo, para não perder dinheiro à toa. A segunda é que aumenta o estímulo para mais gente querer trazer e vender água na região. Dependendo do preço, tem gente mesmo dentro de São Paulo que estará disposto a usar seu carro ou caminhão para pegar água em regiões ou represas que a tenham e trazer a regiões onde ela falta. Mais caminhões-pipa serão alugados e chegarão à cidade para esse fim. Talvez até você, leitor, se anime a vender água.

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Se o governo não deixar o preço subir, o estímulo para as pessoas economizar água será menor; assim como o incentivo para ofertar mais água. Mais desperdício, e menos água sendo ofertada.

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Mas e os pobres? Tem gente que realmente precisa e não pode pagar? Ok, que o governo forneça a eles com preço baixo ou de graça, ou pague uma bolsa-água emergencial durante esta crise. Mas não mexam no sistema de preços. Ele é nosso principal aliado para amenizar uma situação que já está tão dramática.

Na verdade, a coisa só chegou ao que chegou porque nos acostumamos a pagar um preço baixo pela água, faça chuva ou faça sol. Ninguém aprendeu a economizar, ninguém pensou em criar sistemas domésticos de reuso e captação de chuvas, porque simplesmente nunca valeu a pena. Agora, com água faltando e o preço da água subindo, começa a valer a pena. Antes tarde do que nunca!

Além disso, o sistema de empresas estatais ou de empresas privadas que têm monopólio de suas regiões pelo Brasil inibe a concorrência e a inovação. São Paulo, que tem dos sistemas mais eficientes do país, perde cerca de 36% da água limpa por falhas na tubulação. E como ninguém sentia na pele ou no bolso, ninguém estava nem aí. As coisas mudaram.

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Será ótimo se as chuvas voltarem com tudo e São Paulo, Rio e demais regiões afetadas voltem a ter água à vontade, sem precisar ficar se preocupando com a economia dela o tempo todo. Se não voltar, é um bom momento para mudarmos de mentalidade, de sistema e de hábitos. Não lute contra os preços; use-os em seu favor.