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As 6 maiores contradições de Lula que nenhum petista gosta de assumir

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2017, sem sombra de dúvida, é um ano marcante na carreira política de Lula. Trata-se não apenas de quando o ex-presidente recebeu sua primeira condenação por corrupção na justiça brasileira, como também seu aniversário de 50 anos de vida pública.

Foi em 1967 que Lula pisou pela primeira vez no sindicato dos metalúrgicos do ABC, entidade que lhe transformaria líder político poucas décadas depois. Foi no sindicato, ou mais precisamente em frente às fábricas de automóveis do ABC, que Lula deu vazão a seu incrível poder de oratória, aglutinando multidões nas greves locais. Foi também por lá que descobriu-se um grande articulador.

Como conta o empresário Mario Garnero, conhecido por ter trazido a Volkswagen ao país e fabricado por aqui o primeiro fusca brasileiro, Lula tornou-se peça central do movimento operário do ABC e em 1976, alguns anos após ter ido aos Estados Unidos receber lições sobre sindicalismo na universidade John Hopkins, ajudou a deflagrar a primeira greve dos metalúrgicos no polo automotivo paulista (dois anos depois ele se consagraria como articulador, não da manutenção, mas justamente do fim de outra greve – a de maio de 1978).

A fama do metalúrgico e futuro presidente tornou-se conhecida nacionalmente em 1985, graças a um empresário responsável por comandar uma das maiores empreiteiras do país. Emílio Odebrecht conta que recebeu Lula neste ano, graças à indicação do então governador de São Paulo, Mario Covas, quando questionou ao mesmo como poderia lidar com a greve no polo petroquímico de Camaçari.

Ao ajudar Odebrecht a lidar com o movimento paredista – criando uma relação diferenciada com o sindicato local, nas palavras do próprio Emílio – Lula acabaria recebendo o apoio da empreiteira em 1989, na primeira vez em que concorreria à presidência, com uma única condição: a que controlasse seu partido, o PT, e não estatizasse o setor petroquímico.

Três candidaturas depois, ao tornar-se um dos presidentes mais bem avaliados da história, acordos como este acabariam se tornando parte da vida corriqueira do Planalto.

Desde então, a principal marca registrada pelo ex-presidente foi a sua imensa capacidade de contradizer os discursos que realiza para a base, e aliar-se aos que elege como os grandes inimigos da pátria.

1. Lula e o empresariado

A radical mudança de postura pública de Lula com o empresariado, que antes o via com desconfiança graças aos planos do PT de reestatizar e intervir excessivamente na economia, possui um ponto de virada histórico: a carta aos brasileiros.

O que até então era desconhecido, ao menos do grande público, é que a carta, escrita por Lula e José Dirceu e distribuída por todo o mercado financeiro como um compromisso de que a economia não sofreria grandes mudanças, foi escrita a seis mãos. Emílio Odebrecht atuou, segundo o próprio, como escritor fantasma da peça, escrevendo parte de um texto que viria a se tornar o ingresso de Lula ao mainstream.

Ao assumir o Planalto, o ex-presidente levou adiante votações polêmicas. Como relata o então Procurador Geral da República em 2012, ainda no processo do Mensalão, o esquema para compra de apoio no Congresso foi utilizado em meio a reformas espinhosas, como a tributária e a da previdência

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No primeiro caso, o foco, ao contrário do que sempre desejou a base que o elegeu, jamais foi a regressividade de impostos ou a simplificação tributária para os mais pobres. Lula focou em facilitar a vida do empresariado, reduzindo a complicação que era até então o pagamento do ICMS. De quebra, instituiu ainda a cobrança de imposto de renda sobre o funcionalismo público e limitou as aposentadorias ao teto do INSS.

Utilizar dinheiro oriundo de empresas estatais para comprar apoio e aprovar medidas que contrariavam sua base no próprio funcionalismo, no entanto, era apenas um mero detalhe.

Anos depois, com Guido Mantega liderando o Ministério da Fazenda, Lula desengavetaria um plano para colocar o governo no centro da economia, em total conluio com o empresariado.

Empresas nacionais falidas com a crise de 2008 receberam rápido socorro com dinheiro de aposentadorias de funcionários de estatais, e o BNDES passou a liberar cada vez mais crédito ao grupo que era sempre tratado como vilão nos palanques.

No auge dessa política, o banco público ofertava aos empresários empréstimos com juros iguais à metade daqueles pagos pelo próprio governo, ou três vezes menos do que cobravam os bancos privados. A diferença era paga pelo cidadão comum, que assumia as dívidas feitas pelo Tesouro para bancar a decisão.

Em valores atualizados, a festa que teve seu auge entre 2008 e 2015 concedeu às empresas R$ 1,6 trilhão em empréstimos 67% deste valor para as mil maiores companhias do país.

Apenas à Odebrecht, que hoje na figura de seus dois últimos presidentes acusam Lula de ter atuado como lobista da empresa, foram nada menos do que R$ 38 bilhões para financiar obras em ao menos 10 países distintos, como Cuba e Angola – e pior: tudo isso bancado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador, o FAT, que segundo estimou O Globo, teve prejuízos de R$ 11 bilhões com as operações.

2. Lula e os banqueiros

Em março de 2003, Lula recebeu para um almoço um grupo de nove banqueiros no Palácio do Planalto. Em tom descontraído, perguntou ao presidente do Itaú quanto receberia mensalmente se depositasse por lá seu FGTS. Com a resposta de Roberto Setubal, de que abocanharia 2% ao mês, decidiu indagar ao presidente do Bradesco quanto pagaria então para pegar um empréstimo no banco: 9%. A diferença é o que os banqueiros chamam de spread.

O tom bem humorado da conversa tornou-se uma marca registrada da relação de Lula com os mesmos banqueiros. Ao contrário do que poderia parecer, não havia razões para endurecer com suas instituições, que na visão do então presidente eram aliadas num plano ainda maior: aumentar o crédito na economia e, assim, gerar mais capacidade de compra aos brasileiros.

O resultado é que em nenhum outro governo até então, os bancos brasileiros cresceram tanto. O estoque de crédito no país saltou de R$ 380 bilhões para R$ 1,6 trilhão entre 2003 e 2010, e na esteira da bancarização, incentivada por Lula, os lucros explodiram. No mesmo período, estima-se que os bancos privados tenham embolsado R$ 331,4 bilhões em lucro (conforme as práticas contábeis sugeridas pelo Banco Central). A cifra impressiona, em especial quando colocada lado a lado a de outro ex-presidente: Fernando Henrique Cardoso.

Com Lula, o lucro dos bancos cresceu 533,65% em relação ao período tucano.

E era o próprio Lula quem assumia isso, como quando disso em campanha em sua reeleição que os banqueiros não tinham qualquer motivo para estar contra o governo, já que nunca antes haviam ganhado tanto dinheiro.

3. Lula: o milionário da senzala

1 minuto. Esse é o tempo exato que o ex-presidente Lula levou para ganhar da empreiteira baiana Odebrecht o mesmo que um trabalhador brasileiro médio levaria 6 meses e 17 dias: R$ 13 mil.

A despeito de ter elegido o discurso do nós contra eles, de alegar sofrer ódio da elite por ser nordestino e pobre, Lula tornou-se um milionário com relativa facilidade. Segundo a Receita Federal, seu instituto, criado para agenciar palestras e outros eventos relacionados à sua figura, já movimentou R$ 52 milhões, tendo um faturamento alegado com as mesmas palestras, além de doações de empresas, no valor de R$ 27 milhões.

Na prática, Lula tornou-se um clássico rentista. Aplicou R$ 9 milhões em previdência privada, modalidade conhecida por aplicar a maior parte dos seus recursos em títulos públicos, se aproveitando das altas taxas de juros do país. Além de manter em conta corrente valores próximos de R$ 650 mil. Um comportamento típico justamente da elite.

Considerando um retorno médio de 0,5% ao mês de seu patrimônio, o mesmo que a poupança (e bem abaixo daquele obtido pelos mais ricos no país), Lula entraria com folga na categoria dos chamados super-ricos, aqueles com uma renda superior a 160 salários mínimos mensais.

Assim como Lula, míseros 72 mil brasileiros desfrutam deste padrão de renda num universo de 200 milhões de pessoas.

Fora daqui, considerando apenas os dados da Receita Federal, o cenário é ainda mais explícito: o ex-presidente está entre os 0,006% mais ricos do planeta. Apenas 362 mil pessoas separam a riqueza de Lula de Bill Gates.

4. Lula e a reforma agrária

No Brasil, há três coisas que você pode dar como certas: pagar impostos, morrer eventualmente e ver o líder do MST ameaçando colocar seu exército nas ruas caso algo ocorra a Lula. 

A relação do ex-presidente com a base rural é antiga, datada ainda dos anos 80, quando Lula decidiu expandir sua base de apoio além do sindicalismo fabril.

Em 2003, já empossado presidente, o metalúrgico nomearia o novo líder máximo do Incra, ligado ao MST, e lançaria o segundo Plano Nacional de Reforma Agrária. Segundo dados do governo, seriam 520 mil famílias assentadas. Como relata o professor titular da USP, Ariovaldo Umbelino, em entrevista à revista Carta Capital, a maior parte desse número, no entanto, era apenas jogo de cena que incluía assentamentos de pessoas atingidas por barragens, regularização de assentamentos antigos, além de áreas de regularização fundiária. Na prática, assentamentos que já existiam passaram a ser reconhecidos.

Na ponta do lápis, foram 220 mil famílias assentadas por Lula em seu primeiro mandato, número inferior aos dos dois mandatos de FHC, cuja relação com o MST motivou até a invasão de uma fazenda do ex-presidente em Minas Gerais.

Foi em seu segundo mandato, porém, que Lula daria uma guinada maior em favor do agronegócio, deixando de lado boa parte das vontades da base que acreditava em mudanças radicais na reforma agrária do país com o primeiro metalúrgico eleito presidente.

Com a MP 458, Lula regularizou 67 milhões de hectares de terras na chamada Amazônia Legal. Na prática, aumentando a capacidade de fiscalização de terras e reconhecendo aquilo que movimentos como o MST classificavam como invasão e grilagem de terras.

Como relatam os movimentos rurais que apoiam o ex-presidente, pelos índices de produtividade de 1985, utilizados pelo INCRA, o país teria 120 milhões de hectares de terras improdutivas cadastrados. Bastaria claro, vontade política de Lula.

Faltou, no entanto, combinar com o próprio Lula – na época, mais interessado em promover a indústria do etanol e em garantir os R$ 9 bilhões que a Odebrecht levou para criar a Odebrecht Agroindustrial.

5. Lula e o consenso de Washington

Que tal se o governo gastasse menos do que arrecada e assim economizasse dinheiro para pagar a dívida pública, distribuindo dinheiro para a população carente ao invés de dar comida e outros serviços, adotando juros de mercado, liderando uma reforma tributária que simplificasse a vida dos empresários, privatizasse empresas e deixasse o mercado regular a taxa de câmbio?

Talvez seja difícil listar tantas medidas juntas que desagradassem com tanta força os membros da equipe econômica do Partido dos Trabalhadores, mas práticas como essas são exatamente as que ficariam resumidas como Consenso de Washington.

Por anos, Lula e seu partido lutaram veementemente contra estas políticas, que acusavam de ser uma tentativa imperialista que feria a soberania brasileira.

Na previdência, no entanto, ninguém adotou com tanta ênfase tais medidas quanto o próprio Lula. Nomeando Antonio Palocci para o Ministério da Fazenda e Henrique Meirelles para o Banco Central, Lula promoveu o mais duro ajuste fiscal da história brasileira.

Consolidou programas como Bolsa Família (justamente o segundo ponto destas medidas citadas), e teve de ler nos jornais Maria da Conceição Tavares, uma das principais economistas do partido, chamar de débeis mentais economistas escolhidos por Lula como Marcos Lisboa, por implementa-lo.

Segundo Maria da Conceição Tavares e outros economistas do partido, tratava-se de uma agenda absurda, tocada por garotos ingênuos que não tinham a menor noção de políticas públicas. Substituir o programa de entrega de leite por um cartão que daria dinheiro aos beneficiários? Projeto de lambe-botas dos ianques.

Com Palocci, nunca antes na história deste país o governo federal economizou tanto dinheiro para pagar os juros da dívida e como tal, nunca antes a dívida pública caiu tanto, permitindo assim uma queda de juros, facilitando a vida dos banqueiros incitados por Lula para ampliarem o crédito.

Em 2005, ainda com Palocci, a Fazenda chegou a propor uma lei de teto de gastos que imporia rigorosos limites ao governo, e assim, reduziria o problema da dívida pública no médio prazo (segundo estimativas feitas pelo economista do FMI Carlos Góes, em 2015, nada sendo alterado, o país teria uma dívida de 10% do seu PIB, contra os 67% de fato registrados no mesmo ano, graças à medida do teto de gastos). Em valores de hoje, seria R$ 3,7 trilhões a menos em dívidas.

A medida, no entanto, foi barrada pela então ministra Dilma Rousseff, que resumiu seus pensamentos à máxima de que gasto público é vida.

6. Lula e aliados políticos

Isso era o que Lula dizia sobre Roseana Sarney e sua família em 2002.

Eu fico pensando porque que ela aparece bem nas pesquisas. Vocês sabem por que? Porque a Globo é do pai dela, o SBT é do [Edson] Lobão, a Bandeirantes é não sei de quem. E aí é assim, a TV passa o dia inteiro falando bem dela, e ela aparece em primeiro nas pesquisas.

Isso é o que ele dizia em 2014:

Eu não sei porque este preconceito contra o Sarney. Acho que você precisa se tratar viu? Fazer psicanálise. O Sarney foi eleito pelo voto do povo do Amapá e representa uma instituição independente, o senado federal. Uma instituição importante, que me apoiou sim durante 8 anos.

Mudar de opinião sobre algo ou alguém, é claro, nunca foi nenhum crime. A capacidade, no entanto, de mudar de opinião conforme a conveniência política, é uma característica marcante do ex-presidente Lula.

Em seu governo, Sarney tornou-se um grande aliado, uma vez que presidiu o senado e o ajudou a ganhar enorme trânsito no PMDB. Na mesma oportunidade, Edson Lobão tornou-se ministro de Minas e Energia de Lula, mantendo a tradição de entregar a pasta a algum aliado do PMDB.

Graças a uma operação da PF deflagrada contra uma empresa do marido de Roseana, Sarney rompeu com FHC e aliou-se a Lula. Segundo se especulava na época, a operação era uma tentativa de expor a eventual candidatura de Roseana à presidência pelo PFL.

Nada que impedisse Lula de receber com festa o apoio de Sarney em 2002 – o mesmo Sarney chamado por ele de oligarca e ladrão em 1987.

E Sarney não era o único.

Em 2002, Michel Temer liderava a ala oposicionista do PMDB, que havia apoiado José Serra nas eleições. Nada que durasse muito tempo. Poucos anos depois, Temer acabaria não apenas ganhando a presidência da Câmara dos Deputados com amplo apoio de Lula, como sentaria na vice-presidência da República abraçado por seu partido.

Réu em 9 processos no STF, Renan Calheiros é outro dos aliados improváveis. Desde que rompeu com o atual presidente, o senador por Alagoas tem endossado o discurso do ex-presidente e chamado de grave o que considera uma acusação sem provas por parte do juiz Sergio Moro.

Mesmo Collor, grande inimigo em 1989, em uma das campanhas presidenciais consideradas de mais baixo nível no país até então, tornou-se aliado de Lula quando recebeu apoio do PT para presidir a comissão de infraestrutura do Senado.

Maluf, no entanto, talvez seja o caso mais curioso de como o tempo é capaz de curar grandes indiferenças. Desde os nos anos 70, quando ainda era governador de São Paulo indicado pela ditadura militar, já travava inúmeros embates com os militantes que formariam o Partido dos Trabalhadores, com Lula reiteradamente acusando-o de ser ladrão.

Durante a campanha de Fernando Haddad, no entanto, Lula e Maluf reataram de vez a amizade, selando o apoio do Partido Progressista ao ex-prefeito nas eleições de 2012.

Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.