As 7 maiores bobagens que você já ouviu de Ciro Gomes nos últimos anos

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*Escrito em parceria com Pedro Menezes e Leonardo Tavares Brown

A análise do processo de impeachment ainda ocorre no Senado, mas independentemente do resultado, políticos das mais diferentes visões ideológicas já se articulam para as eleições de 2018 – e ao que tudo indica, Ciro Gomes parece enfim ter encontrado um partido para chamar de seu, o PDT de Brizola. Com duas eleições presidenciais nas costas (1998 e 2002), Ciro vê em 2018 uma oportunidade quase única de coroar sua carreira política, construída em mais de três décadas e iniciada em 1983 pelo PDS, o partido que sucedeu o Arena.

Se você é destes que anda meio perdido e não faz ideia de quem seja Ciro Gomes, não tem problema, faça um teste simples: pense em um político brasileiro, de qualquer vertente. Ciro Gomes provavelmente já o xingou e também elogiou, não necessariamente nesta ordem. Agora pense em um partido. Não é improvável que Ciro Gomes já tenha passado por ele.

Entre um bate boca na porta de casa e uma discussão com uma eleitora na fila do SUS, Ciro quase sempre encontra tempo para fazer o que melhor sabe: falar. Isso, obviamente, não significa que suas palavras sigam convicções necessariamente ideológicas. Como todo bom orador, Ciro fala à plateia o que ela gosta de ouvir. Essa é a velha política, afinal.

Ainda em outro momento onde o Brasil passava por um ajuste fiscal, durante o Plano Real em 1994, Ciro estava no PSDB e apontava uma saída para o Brasil: privatizar.

“O Brasil precisa sanear a sua situação patrimonial, e só há um meio: desmobilizar o patrimônio imobilizado e limpar o passivo no limite do que for possível.”

Nada mais distante do discurso atual. A defesa de um governo grande, que protege a indústria nacional e lidera um “projeto de desenvolvimento” através de intervenções era regra no PT (e na esquerda brasileira) até o início dos anos 2000. Esta agenda começou a sair do armário no fim do governo Lula e se escancarou com Dilma – resultando num enorme fracasso, como qualquer brasileiro é capaz de notar ao sair à rua, independente do que os discursos políticos tenham a dizer. É com este espírito oldschool que Ciro tenta conquistar novas plateias.

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“O Brasil precisa sanear a sua situação patrimonial, e só há um meio: desmobilizar o patrimônio imobilizado e limpar o passivo no limite do que for possível.”

Nada mais distante do discurso atual. A defesa de um governo grande, que protege a indústria nacional e lidera um “projeto de desenvolvimento” através de intervenções era regra no PT (e na esquerda brasileira) até o início dos anos 2000. Esta agenda começou a sair do armário no fim do governo Lula e se escancarou com Dilma – resultando num enorme fracasso, como qualquer brasileiro é capaz de notar ao sair à rua, independente do que os discursos políticos tenham a dizer. É com este espírito oldschool que Ciro tenta conquistar novas plateias.

Ciro é o mais velho cacique ativo dos Ferreira Gomes, a mais “tradicional” família da política cearense. Em Sobral e no estado do Ceará, sua família elege políticos há mais de um século. A oligarquia torna inevitável a associação com o velho coronelismo nordestino. Todas as principais características dos coronéis estão em Ciro, inclusive o estilo de fala.

Apesar de não disputar eleições há cinco anos, desde que saiu do cargo de deputado federal em 2011, Ciro seguiu ocupando cargos públicos nos últimos anos. Foi secretário no governo de seu irmão Cid Gomes – e não era o único, pois Ivo Gomes, outro irmão, ocupava outra secretaria no governo estadual do Ceará.

Durante pouco mais de um ano, esteve no setor privado, mas próximo do governo. Foi diretor da CSN, a Companhia Siderúrgica Nacional, estatal privatizada durante o governo de Itamar Franco e hoje responsável pela construção da TransNordestina, uma obra federal. O emprego incluía representar os interesses da CSN no Ministério da Integração Nacional – de maneira mais direta, fazer lobby no ministério que ele outrora ocupou.

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Durou pouco. Após a aprovação do impeachment de Dilma na Câmara, Ciro foi demitido – ou pediu demissão, segundo sua versão dos fatos. A partir daí, pôde se dedicar em tempo integral à sua atividade atual, rodando o Brasil dando entrevistas e palestras para preparar o terreno até 2018.

Frases de efeito e palavrões direcionados a políticos – como em “Lula não é inocente de nada, Lula é um merda”, ou “[Eduardo Cunha é] o maior vagabundo de todos” – marcam as manchetes sobre Ciro. Em meio a tanta estridência, no entanto, pouco se discute sobre suas opiniões.

Esse é justamente o problema: a fala aberta, direta e engraçada esconde lorotas em seu conteúdo. O uso da palavra não é casual.

Especialmente quando fala sobre economia, seu assunto favorito, Ciro com frequência recorre a erros factuais (a famosa “mentira”), distorções ou omissões de fatos importantes. Tudo com um jeito de tiozão contador de histórias engraçadas. E é justamente por isso que as chamamos de “lorotas”. Poderia ser “migué” ou “enrolação” em alguns lugares do país.

As palavras são muitas, o significado é o mesmo e você o conhece bem.

1. “70% dos juros da dívida são pagos a apenas 10 mil famílias.”

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Como sua defesa das privatizações no período em que foi Ministro da Fazenda deixa claro, Ciro é um ferrenho crítico do mecanismo de dívida pública e da forma descontrolada como ela é gerida. Criticar a dívida em si é um enorme avanço quando se trata de políticos, o problema de Ciro com ela, no entanto, envolve alguns dados não muito corretos.

Hoje em R$ 4,017 trilhões, a dívida pública brasileira tem crescido acima de 10% ao ano nos últimos anos, e ameaça a estabilidade do próprio país, nas palavras do atual Ministro da Fazenda. Para Ciro, porém, a dívida envolve um outro problema, tão grande ou maior que o descontrole de gastos do governo: o rentismo.

E para dar suporte à sua ideia de que ela é um mecanismo para manutenção de um pequeno grupo, Ciro faz uso de um estudo do economista Marcio Pochmann. Quando presidente do IPEA, Pochmann tornou-se conhecido por ser o responsável pela ideia de que a classe média brasileira começa com uma renda de R$ 291 por pessoa. Em suma: uma família de duas pessoas em que apenas um ganhe um salário mínimo, é classe média.

No estudo de Pochmann sobre os efeitos do rentismo, os detentores brutos da dívida, como seguradoras (4,6%), fundos de pensão (23,7%) e governo (5,8%), são deixados de lado – e tudo o que passa a contar são “grupos familiares”.

A manchete gerada por Pochmann mostra aquilo que Ciro tenta traduzir:

“20 mil grupos familiares ficam com 70% dos juros da dívida.”

Seja por desconhecimento ou por questão estética no debate, a palavra “clã” ou “grupos familiares” some para dar lugar à família ou mesmo pessoas. A ideia de que meras 10 mil, ou 20 mil famílias, tenham uma renda de R$ 152 bilhões advinda diretamente do Estado é assustadora, e é justamente este o espírito do número.

Ciro e Pochmann não estão errados ao criticar o parasitismo do setor financeiro ou coisa que o valha – o erro ocorre ao induzir o ouvinte, ou leitor, a acreditar que o governo federal é uma mera vítima no processo, quase que um ser passivo que sofre ataque de especuladores e banqueiros. O problema aqui é que passar a mão na cabeça de governos que há mais de duas décadas acumulam déficits sucessivos em suas contas é uma atitude sem o menor sentido.

Para cumprir um objetivo, o de criticar o setor financeiro, Ciro e Pochmann se valem de estimativas absurdas, ou no mínimo exageradas (afinal, apenas fundos de pensão, com mais de 3 milhões de beneficiários, detêm ¼ da dívida; investidores internacionais, seguradoras e o próprio governo detém outro 1/4, de modo que a estimativa de Pochmann não se sustenta com o menor rigor na análise junto aos dados do Tesouro Nacional), para fazer uma espécie de “terrorismo”. Falar aquilo que o ouvinte quer ouvir é a especialidade de Ciro. Eximir o governo das responsabilidades sobre estes atos é a intenção mais razoável, e natural, vinda de um político como ele.

2. “O protecionismo brasileiro é parte de nossa cultura e um meio de preservar nossa identidade.”

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Raras economias do mundo comercializam tão pouco quanto a brasileira. Entre as 20 nações mais ricas do mundo, por exemplo, nenhuma importa e exporta menos do que o Brasil em relação a seu PIB. E o dado não é de hoje. Há décadas cultivamos uma tradição de comercializar pouco com o mundo.

Em seu debate no Fórum da Liberdade, em que contrapôs o economista americano Tom Palmer, Ciro teve a oportunidade de resumir algumas de suas ideias acerca do livre comércio. Como argumento central, uma espinha: a tese de que o protecionismo é bom e justificável, pois preserva nossa cultura.

A exemplo do que ocorre na Europa e nos Estados Unidos, boa parte das restrições à importação no Brasil se devem ao lobby realizados por produtores rurais, grandes sindicatos industriais e outros grupos de interesse. Por lá, preservar o pequeno agricultor com subsídios sobre o leite, com a compra de etanol de milho e outras coisas do tipo, recebe uma capa protetora de “preservar a identidade nacional”. No imaginário popular, o pequeno produtor de leite francês ou o agricultor alemão são partes das suas identidades, justificando assim sua manutenção, ainda que às custas de toda a sociedade.

Como consequência direta, países como o Brasil, que produzem etanol de cana de forma muito mais eficiente, se tornam impedidos de vender no mercado europeu. Neste jogo anti-livre comércio, tornam-se ambas as regiões um pouco mais pobres, para enriquecer uma parte da sociedade – a dos agricultores que fizeram lobby.

Para Ciro, a grande questão deveria se concentrar naquilo que certas sociedades escolhem, de forma voluntária – não consumir por preços menores, para manter sua identidade. Um exemplo mais prático seria o japonês, que aceita pagar a mais pelo arroz em troca de manter a segurança da produção sempre existente no país (e abrindo mão de comprar arroz mais barato no Paquistão ou no sudeste asiático).

O problema deste ponto de vista está justamente em desconsiderar que, muito mais do que optarmos por consumir apenas parte da renda, nos sujeitamos a grupos de interesse.

Ao contrário do que afirma Ciro, o brasileiro não deixa de comprar carros alemães e americanos porque considera que “consumir carros demais gera um padrão de consumo irreal e não agrega na nossa cultura e bem-estar”. Deixamos de consumir porque o sindicato das montadoras nos impede.

Não foi nossa cultura que abriu mão de computadores modernos e importados, foi precisamente a criação da bizarra “Lei da Informática” e suas restrições pesadas ao comércio.

Nosso padrão de consumo é, portanto, não apenas determinado por nossa cultura ou restrições orçamentárias, mas por restrições em lei, muito bem orquestradas parar gerar ganhos a pequenos grupos em detrimento de toda a sociedade.

Fosse uma questão cultural, como afirma Ciro, não haveria necessidade de garantir estas práticas por lei. Naturalmente a cultura de pagar mais caro por produtos nacionais seria sustentada pela própria população. A existência de leis que impedem a importação de veículos com os mesmos privilégios de veículos produzidos aqui demonstra que o caráter local tem pouco ou nenhum peso na escolha do consumidor.

3. “Metas de inflação só existem no Brasil.”

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Ciro adora falar sobre economia – e responder desafetos. Quando consegue unir as duas coisas é difícil pará-lo.

Foi o erro que cometeu um jovem estudante universitário que decidiu questioná-lo numa de suas palestras este ano. A oportunidade rendeu a Ciro, orador descolado, uma oportunidade de falar por 40 minutos seguidos sobre economia, sempre recorrendo ao garoto como ‘punchline’ humorístico. Está no youtube e já são milhões de visualizações. Não deve ter sido um evento agradável para o pobre rapaz.

Além das piadas, o conteúdo de Ciro na resposta é esparso e geralmente se resume a afirmações genéricas, desacompanhadas de aprofundamento e com o objetivo imediato de inflamar a plateia – “essa coisa de Estado mínimo (expressão não citada anteriormente) é coisa de barão que está com o bucho cheio”, seria um exemplo.

Por não ser, claramente, especialista no tema, a confiança de Ciro ao falar de economia provavelmente vem do desconhecimento do público sobre o assunto. Só isso lhe permite sair sem questionamento após determinadas afirmações. Em dado momento, ao afirmarem que Dilma destruiu o Brasil ao fazer o que ele propunha (cortar juros “na canetada”), Ciro desafia os alunos:

“Você acha que nos Estados Unidos tem regime de metas de inflação? Você acha que a Europa tem? O Japão tem? Isso é coisa do Brasil. Só aqui nós adotamos essa meta de inflação.”

O único problema com a afirmação de Ciro é que, como qualquer estudante do segundo semestre de economia já sabe, ela é mentirosa. Os Estados Unidos adotam metas de inflação. A Europa também. O mundo todo adota esse regime, quase sempre de forma mais fiel que o Brasil.

Bastaria entrar na área para iniciantes do site do Federal Reserve (o ‘Banco Central’ americano) para ler a resposta à pergunta: “Por que vocês perseguem uma meta de 2% para a inflação?”.

O principal papel de um Banco Central, em todo o mundo, é proteger a moeda do país. Em um regime de metas de inflação, o Banco Central afirma que suas atividades terão como prioridade manter a inflação em uma determinada meta.

Cada país tem a sua meta. A do Brasil é de 4,5%. Mais branda que a dos Estados Unidos, de apenas 2% como já citado. E muito mais branda do que em quase todos os países da Europa e Ásia, que também seguem regimes de meta de inflação.

Estes são fatos públicos. Trata-se, portanto, da mais objetiva lorota desta lista, por ser simplesmente uma estúpida mentira. Basta procurar no Google para saber disso. Ou acompanhar o noticiário econômico e abrir um livro sobre o tema.

Simplesmente não é verdade e até a mais leiga fonte pode lhe dizer isso. Não é o caso de Ciro Gomes.

4. Plano Real

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“[O] grande ministro do Plano Real chama-se (Rubens) Ricupero e, em seguida, Ciro (Gomes).”

São as palavras de Itamar Franco, presidente do Brasil durante a troca da moeda para o Real. Ciro e Ricupero, segundo o presidente, teriam mais relevância do que Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda que precedeu os dois.

A versão de Ciro Gomes não é muito diferente:

“Quem bancou o risco político do Real foi Itamar Franco. Ele [FHC], apenas quando percebeu que aquilo [o Real] seria uma coisa importante, como um reles oportunista, pôs-se como um candidato sem ter colaborado em absolutamente nada com o Real. (…). Nós [Ciro e Tasso Jereissati] é que montamos a equipe (…)”.

Quando se fala do Plano Real é a foto de FHC que ilustra os livros de história. Itamar quase sempre é descrito como um presidente fraco, sem confiança da população. Ciro, quando citado, aparece de passagem. É natural que os dois últimos reclamem e sintam-se injustiçados. É igualmente natural que eles esqueçam algumas partes da história – especialmente as que colocaram outro protagonista na narrativa de quase todos os jornalistas, historiadores e economistas.

Itamar era visto como um presidente fraco em 1993. Havia sido eleito ao lado de Collor, na campanha que teve PC Farias como tesoureiro e estava no centro das denúncias que levaram ao impeachment. Com tanta coisa contra, ele decidiu fazer um governo de união nacional.

Muitos partidos não toparam a união, como o PT. O PSDB indicou Fernando Henrique Cardoso para o Ministério das Relações Exteriores. O problema é que a inflação, de quatro dígitos ao ano, persistia, e Itamar já havia trocado o titular da Fazenda quatro vezes em sete meses. Na busca por um nome forte na última dessas trocas, decidiu transferir FHC de pasta – segundo o próprio Itamar, imaginando que ele rejeitaria o pepino para não manchar a biografia.

Neste ponto, a versão de Ciro merece o primeiro questionamento. Há bons motivos para acreditar que ele mente ao dizer que “montou” a equipe do Plano Real. Segundo depoimentos da própria equipe, registrados no livro “Saga Brasileira”, é de FHC o crédito pelo convite e até mesmo pela ideia de um plano para resolver de vez a inflação.

Uma troca de moeda não é simples. Uma moeda só funciona quando há confiança e só é trocada quando algo muito estranho (e provavelmente muito ruim) acontece. O Real seria a oitava tentativa do Brasil no século XX. Por envolver questões como credibilidade e expectativas, o Plano envolvia fatores não-econômicos.

É possível dividir o Plano Real em 4 fases. Na primeira, conhecida como Plano de Ação Imediata, o governo cortou gastos e aumentou a eficiência da máquina pública, para que o Real encontrasse um país menos desorganizado economicamente. Depois, foi criada a Unidade Real de Valor (URV), uma espécie de moeda paralela sem existência física. Na terceira fase o URV se transformou no Real, a moeda nova. E, na quarta, o governo fez reformas para consolidar a nova moeda.

Itamar e Ciro parecem contar uma história na qual a parte realmente importante do Real foi a terceira – a troca de moeda -, quando FHC estava fora do governo. O Real foi lançado no dia 1 de julho, com Rubens Ricupero como ministro, e Ciro o substituiu já no fim do ano. O problema é que as outras 3 fases, provavelmente mais cruciais para o Plano do que a terceira, foram lideradas por FHC.

Durante os primeiros meses do Real, era FHC quem aparecia na imprensa para explicar o que seria o Plano. A imagem de Itamar, negativa para muitos brasileiros, era um dos pontos fracos do projeto. Ao sair do governo, a imagem de FHC como candidato já era umbilicalmente ligado ao Real, e ela só começou a crescer nas pesquisas quando o Plano passou a dar certo.

É importante entender que o Plano Real não foi um ponto na história, mas um período. Ele se inicia com o Plano, em 1994, mas a tentativa de estabilização invadiu todo o mandato seguinte – e, para alguns autores, até mais. Antes de 1994, não era possível sequer fazer contas sobre a situação financeira do governo, pois os números não eram confiáveis. Só depois foram feitas as reformas para, de fato, consolidar o Brasil como um país de economia estável. Neste sentido, o presidente FHC, entre 1995 e 1998, foi ainda mais importante do que o ministro entre 1993 e 1994, que lançou o Plano.

Ciro chegou ao governo apenas ao fim de 1994, a convite de Fernando Henrique. Não faz sentido chama-lo de “O Ministro do Real”, como faz Itamar. Foram menos de 3 meses no cargo.

Segundo relatos, ao fim deste período, Ciro esperava seguir como ministro da Fazenda. Ao ser preterido no cargo, brigou com FHC e rompeu com o presidente recém-eleito.

Esse é mais um ponto no qual os livros de história se chocam com as histórias de Ciro Gomes. Segundo ele, sua saída do PSDB se deu por um motivo ideológico: a aliança com o PFL, o atual DEM.

É provável que seja mais uma lorota. Durante sua carreira, Ciro acumulou quase dez trocas de partido, sempre por conta do seu interesse em novos cargos e candidaturas. Eis o que move os políticos, como todos sabemos: o poder. Exatamente o que Ciro busca ao reescrever sua história, em mais uma lorota desta lista.

5. “A Coréia do Sul cresceu pela ação do governo na economia.”

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Quando o assunto é defender a atuação do Estado na economia, poucos países ganham tanto destaque quanto os tigres asiáticos. As teses são comuns, e variam pouco, ou quase nada. Segundo elas, o governo sul coreano seria o responsável pelo grande aumento de produtividade do país, ao escolher grupos nacionais para crescer e competir com o resto do mundo.

Desta escolha do governo, teriam saído Hyundai, Samsung e quase todos os grupos bem sucedidos. Na prática, a defesa de que ao escolher quem da elite coreana deveria se sobressair entre os demais, o governo teria criado uma política “padrão”, passível de ser implementada em qualquer lugar do mundo. Quer criar um país capaz de dominar a tecnologia e se tornar uma potência mundial em diversos setores? Simples. Deixe que o Estado resolva e escolha os melhores.

Foi justamente com essa ideia em mente que o governo brasileiro patrocinou nos últimos anos uma injeção de R$ 455 bilhões em um dos seus maiores bancos, o BNDES. Com estes recursos em mãos, o banco deveria em tese financiar o aumento de infraestrutura e grandes grupos empresariais, que ganhariam destaque no mundo. Desta política, chamada de “campeões nacionais”, nasceram a Oi, a EBX de Eike Batista, a LBR (da indústria do leite), a Fíbria (de papel e celulose), a BRF e a JBS (a dona da Friboi). Todas estas empresas foram selecionadas para receber aportes de capital de formas distintas (ainda que nenhuma delas seja propriamente uma empresa de tecnologia; deveriam todas, segundo as ideias do banco, se destacar em setores onde o Brasil já tinha uma propensão a crescer).

O modelo brasileiro, ao contrário do sul-coreano, falhou, como deixa bem clara nossa atual recessão. O que fizemos de errado?

Boa parte do equívoco está em não entender exatamente o modelo que queríamos, em tese, copiar. Na Coréia do Sul, a escolha de uma elite local para lucrar com políticas públicas funcionou como um arranjo político, antes do econômico. O país adotou isenções tarifárias em quase todos os setores que deveriam servir de insumo para a indústria que estava nascendo. Por aqui, criamos leis de conteúdo nacional, proibindo importações. Por lá, o investimento na indústria foi acompanhado de investimento em educação básica, algo que novamente não se replicou por aqui.

A maior diferença entre ambos os países, porém, foi o caráter competitivo. Enquanto no Brasil o governo ajudou a fomentar oligopólios, como no caso da Oi, em que patrocinou a fusão de duas operadoras de telefonia no país, na Coréia do Sul, a competição com o mercado externo foi estimulada. Empresa que não conseguia competir com o resto do mundo não era mais subsidiada enquanto por aqui era protegida.

Não bastasse, como deixa claro em um estudo realizado pelo próprio Instituto de Desenvolvimento da Coréia, a intervenção do governo na escolha de grupos locais pode ter contribuído com uma queda de até 1% do PIB anual no país.

6. “O Estado brasileiro só investe porque o empresário tem medo.”

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Era uma vez um país rural, com a maioria da população ainda presa ao campo, em que um presidente com ares progressistas, decidiu desafiar a elite e industrializar o país para libertá-lo. A narrativa pomposa com que políticos têm escrito a história do Brasil no século XX tem sido um dos mitos mais difundidos em toda história econômica do país.

Segundo estas teorias, deveríamos agradecer a ousadia de líderes que decidiram pensar grande. Com algum esforço, é bastante provável que você ainda se lembre de ter ouvido isso na escola. Temos a siderurgia, o petróleo, a mineração e as grandes indústrias graças ao governo, e apenas ele.

Ciro e outros defensores desta tese têm acrescentado ultimamente um ar mais pitoresco à história. Segundo eles, tudo ocorreu porque o empresariado brasileiro teria “medo” de investir – nesse cenário, o setor público tinha quase que um dever patriótico de fazer isso.

Contar a história através de líderes políticos talvez seja um dos maiores equívocos brasileiros. Por aqui, ignoramos todo e qualquer traço de empreendedorismo, nos lembrando, no máximo, do Barão de Mauá, que segundo nossa historiografia oficial era um visionário que desafiou a retrógrada e conservadora elite da época, incluindo a própria monarquia.

Para narrar nossa história da industrialização, por exemplo, é comum ignorarmos que ainda hoje, temos a mesma malha ferroviária do início do século XX, uma malha ferroviária erguida sobretudo por empreendimentos privados – sejam eles internacionais, com o capital inglês, ou mesmo nacionais, ligados ao setor de café. No século seguinte, por ordem expressa das políticas públicas, nos concentramos na construção de rodovias, deixando de lado as ferrovias, cujo custo é inúmeras vezes menor. Tudo patrocinado, é claro, pelo lobby de determinados setores junto ao governo.

Antes mesmo de Getúlio sonhar em promover a industrialização que tinha em mente, nosso maior porto, o de Santos, já havia sido construído com capital privado. Do mesmo capital, da família Guinle, nasceram os recursos para financiar a pesquisa de petróleo no país. O que fez Getúlio quando a iniciativa privada descobriu petróleo? Estatizou e proibiu investimentos privados nacionais e internacionais na área. E foi justamente ao proibir investimentos internacionais que Getúlio expulsou os investidores argentinos responsáveis por construir a primeira refinaria de petróleo brasileira. Quase 15 anos antes da Petrobrás sonhar refinar petróleo, a iniciativa privada já havia construído uma refinaria, e antes da primeira da Petrobrás ser inaugurada em 1954, já haviam duas refinarias privadas no país. O investimento privado na área foi então proibido em 1953.

O mesmo caso pode ser visto em outra área na qual se atribui sucesso a Getúlio – a criação da Vale do Rio Doce. Em seu nascimento, a Vale foi parte de uma expropriação feita pelo ditador de um investimento privado, a Itabira Iron Ore. E não foi a única. A exemplo da geração de energia, a indústria de telecomunicações foi outra construída no Brasil graças ao capital estrangeiro.

Em meio a expropriações constantes, quebras de contrato, surtos inflacionários, descontrole de gastos públicos, mudanças de moeda, regras sobre comércio totalmente arbitrárias, o empresariado supostamente “ficou com medo”.

Ainda hoje, porém, o setor privado é responsável por gerar uma poupança de 18.7% do PIB, contra um governo que deseconomiza 1.5% – ou seja, se temos uma das menores taxas de poupança do mundo, não é difícil entender a razão. Sem poupança, grandes empresas atuam junto ao governo por privilégios, como no caso do BNDES.

7. Quando o discurso de Ciro saiu da teoria para a prática, o resultado não deu muito certo.

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Durante os últimos sete anos, “política de campeões nacionais” se tornou quase um segundo nome para um outro programa, o PSI, o Programa de Sustentação de Investimentos. Em teoria, o PSI deveria sustentar investimentos no setor privado mesmo em um ciclo de queda na economia mundial. Cabia ao Estado, portanto, apoiar o setor privado e ser um agente ativo no desenvolvimento, tal qual sustentam Ciro, Dilma, Lula e tantos outros políticos.

Na prática, o programa se tornou um conjunto de medidas voltadas para o favorecimento de empresas escolhidas pelo governo para impulsionar “interesses nacionais”. Essas medidas incluem compra de participações acionárias e financiamento com crédito subsidiado do BNDES, barreiras tarifárias, aportes de capital através de fundos de pensão e patrocínio de fusões de grandes empresas. Tudo isso a um custo estimado em quase R$ 214 bilhões. No fim, quase 52% dos recursos do programa concentram-se em apenas 57 grupos empresariais.

Em outras palavras, Ciro Gomes é defensor vocal de uma política que está em plena falência (cujo fim já foi anunciado pelo próprio governo Dilma). Depois do fracasso de diversos “campeões” (como a Oi, o grupo EBX de Eike Batista, a LBR, etc) e das investigações da polícia federal que desvendam as relações escusas entre o governo e empresas beneficiadas por essas políticas, se tornou claro que uma política industrial discricionária é apenas uma forma de políticos beneficiarem a si mesmos e aos seus cúmplices.

A defesa entusiasmada que Ciro Gomes faz desse tipo de proposta já seria um motivo pra levantar suspeitas. Uma outra história, mais antiga, torna tudo isso não apenas suspeito, mas bastante contraditório. Ciro Gomes esteve envolvido diretamente na falência da Gurgel em 1993, provavelmente a montadora nacional mais promissora da história. Na época, a Gurgel havia montado uma fábrica no Ceará sob a promessa de Tasso Jereissati de financiar o projeto através do BNB. Mas quando Ciro Gomes assumiu o governo do estado, o acordo de financiamento foi rompido antes que a fábrica produzisse um carro sequer. Ciro se defende afirmando que suspendeu o financiamento porque a empresa não cumpriu as obrigações do seu primeiro empréstimo – o que é uma justificativa estranha já que a planta nem sequer tinha entrado ainda em fase operacional.

Essa situação coloca a retórica de Ciro em uma sinuca: se o banco suspendeu o empréstimo porque o projeto era realmente insolvente, até mesmo a montadora brasileira mais bem sucedida foi um investimento falido do estado. Por outro lado, se a empresa foi uma vítima da picuinha política entre Ciro e Jereissati, isso é um testemunho ainda mais contundente contra a proposta de uma política industrial ativa na qual o governo decide quem são os ganhadores e perdedores. Ciro Gomes está errado, de qualquer jeito.

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