Como a Espanha está se transformando numa plataforma para o chavismo na Europa

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Mais de cem mil pessoas, de todas as regiões da Espanha, participaram nesse final de semana da “Marcha da Mudança”, convocada pelo partido antiliberal Podemos. A Puerta del Sol, em Madri, foi palco daquele que, estimulado pelo sucesso do Syriza na Grécia, promete transformar o país.

“Hoje sonhamos para tornar o nosso sonho realidade em 2015. Neste ano começamos algo novo, este ano é o ano da mudança e vamos derrotar o PP [Partido Popular] nas eleições”, proclamou Pablo Iglesias, secretário geral do partido, eleito eurodeputado em 2014 e principal figura do Podemos. Iglesias destacou que chegou o momento da “mudança, porque a mudança é democracia” e deu como exemplo a vitória da extrema-esquerda grega, “que fez mais em seis dias que os governos que até agora haviam na Europa durante os últimos seis anos”. 

O Podemos, formado no início de 2014, virou febre instantânea na Espanha e Pablo Iglesias lidera as pesquisas de opinião do país como a figura política mais bem avaliada pelo eleitorado. “Sim, podemos!”, eco do “Yes, we can” de Obama; “O povo, unido, jamais será vencido!”, importado da América Latina; e “Paaablooo! Paaablooo!”, ao ritmo que marcam as torcidas de futebol de La Liga quando aclamam seus ídolos, dominaram a manifestação. 

Podemos
Manifestação do Podemos tomou conta das ruas de Madri nesse sábado.

O que o Podemos fez para convencer tanta gente em tão pouco tempo? A resposta é simples. Aproveitando-se de uma histeria coletiva causada graças à crise econômica que tomou conta da Espanha nos últimos 7 anos, responsável por recordes históricos de desemprego e insatisfação popular, inventou-se através um discurso de esperança, único, populista, esbaldando-se da velha retórica do nós contra eles – o povo, a democracia, as políticas sociais, a soberania nacional, contra a mídia, as elites econômicas, os partidos políticos tradicionais, a austeridade, o neoliberalismo, a influência alemã.

“Vamos tirar a máfia econômica e política, tirar os pilantras, recuperar Madri para os cidadãos”, “vamos acabar com o austericídio”, e “vamos acabar com a velha política e criar uma democracia participativa” são as palavras de ordem mais entoadas nos discursos de seus principais nomes.

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“A maior parte das pessoas não se vê representada hoje pelos partidos políticos dominantes, e nem pela velha esquerda”, diz Íñigo Errejón, outra liderança do partido. “Esquerda e direita são metáforas, nada além de nomes, e não são eternos. Nós representamos o senso comum contido em uma identidade transversal e popular, contra a oligarquia”.

A Espanha, governada pelo conservador Partido Popular desde 2011, arrisca uma recuperação – com uma alta de 1,4% do PIB e uma queda de 5,39% do desemprego em 2014, a maior recuperação dos postos de trabalho no país desde 1998. Mas nada disso é suficiente para conter os ânimos do Podemos: o país terá eleições municipais e regionais em maio, além de legislativas a nível nacional no fim de 2015, e o partido cresce como uma flecha nunca antes vista na política espanhola.

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Gráfico de sondagens sobre a intenção de voto na Espanha. A linha roxa representa o Podemos (criado no início de 2014), a azul o PP (Partido Popular, de direita) e a vermelha o PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol, de esquerda). Fonte.

Mas o Podemos não se contenta apenas com a Espanha.

“Se ganharmos as eleições, aí o partido começará verdadeiramente. Estaremos competindo na Liga dos Campeões e a mudança revolucionária que desejamos não vai acontecer sem que a Europa, ou pelo menos a parte sul da Europa, esteja conosco. Isso não é apologia da utopia. Vamos empurrar um pouco, mas o quanto dependerá também dos outros na Europa”, afirma Errejón.

A ascensão do Podemos pode transformar a Espanha na “plataforma de transmissão” do chavismo na Europa. É o que diz o embaixador venezuelano em Madri, Mario Isea, em um relatório entregue ao final do ano passado para os deputados do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). No relatório, intitulado “Caso Rajoy: contexto general y acciones a tomar”, o embaixador critica o atual cenário político espanhol e enumera fatores que impedem uma convulsão social no país, tais como “a longa tradição de salvar e preservar o patrimônio das famílias espanholas, a campanha oficial e midiática de gerar esperança em base de uma suposta recuperação econômica, e por último, a ausência de uma alternativa política; embora esse fator tenha se debilitado graças ao surgimento do Podemos“.

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Mario Isea também relata que internacionalmente os governos de esquerda continuam ganhando força, vide “o triunfo de Evo Moras na Bolívia, a entrada da Venezuela no Conselho de Segurança da ONU e a vitória de Dilma Rousseff no Brasil”.

Mesmo formado há pouco mais de um ano, as relações do Podemos com o governo venezuelano são antigas. A fundação Centro de Estudios Políticos y Sociales (CEPS), ligada ao partido, que possui três líderes do Podemos – Pablo Iglesias, Íñigo Errejón e Luis Alegre – em seu conselho executivo, recebeu desde 2002 pelo menos € 3.700.000 (mais de 11 milhões de reais) do governo de Hugo Chávez, de acordo com o registro de fundações do Ministério da Cultura espanhol. Em alguns anos, os pagamentos do governo venezuelano, justificados como “contratos de consultoria política”, superaram em 80% toda renda da fundação, criada em 2002 para promover políticas de redistribuição de riqueza e que afirma ser “sem fins lucrativos”.

O governo da Venezuela assinou ao longo deste tempo diversos acordos com o CEPS, cujas receitas têm isenções fiscais significativas – a fundação recebeu através do próprio gabinete do presidente Chávez, do Ministério da Planificação e Desenvolvimento da Venezuela, do Banco Central da Venezuela, do Ministério das Comunicações, do Instituto Venezolano de Seguros Sociales, da Telesur e da estatal Compañía Anónima Venezolana De Televisión, além de outros órgãos ligados ao governo.

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Pablo Iglesias, principal nome do Podemos.

Em 2013, numa entrevista para a Compañía Anónima Venezolana De Televisión, em Caracas, onde participou do X Encuentro de Intelectuales, Artistas y Luchadores Sociales en Defensa de la Humanidad, Pablo Iglesias afirmou que o chavismo deve ser um ponto de referência para a Espanha, depois de se emocionar com um vídeo do “comandante” Chávez retransmitido pelo canal.

“O que aconteceu na Venezuela, o que está acontecendo na América Latina, é um ponto de referência fundamental para o sul da Europa. O meu país está passando por uma crise de regimes. No meu país uma transição está ocorrendo porque todos os consensos estão explodindo”, disse. “As guerras são feitas às vezes com armas convencionais, mas também com armas não-convencionais: as ideias, o consenso. Algumas pessoas têm armas, outras mísseis e outras apresentadores de televisão e no meu país há muitos interesses midiáticos obcecados para que não se saiba como a América Latina está politicamente, quando a América Latina pode se converter numa alternativa. Por isso é tão crucial que o que ocorre aqui [na Venezuela] se possa explicar lá, que não possamos permitir que se caricaturize, que se ridicularize o que se passa na Venezuela, o que se passa na América Latina”.

Quando questionado sobre os atuais problemas em seu país, o principal nome do Podemos apontou que os governos de esquerda latino-americanos estão demonstrando que uma nova opção é possível.

“A América Latina, com todas as dificuldades, com todas as implicações que possui com as complexas relações geopolíticas que regem o mundo, está demonstrando que é uma alternativa. A América Latina está demonstrando que se pode ter democracia, que os países podem recuperar suas soberanias, e dizer às instituições econômicas e financeiras internacionais: olhe, não vamos pagar a dívida porque ela é ilegítima; não vamos governar para uma minoria de banqueiros, vamos governar a favor das famílias e a favor dos cidadãos. Isso é o que faz falta – democracia e vontade política – e é isso que a América Latina está demonstrando ser possível”.

Pablo Iglesias também advogou em defesa do controle social da mídia.

“A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que a comunicação é um direito. Todo direito que se privatiza deixa de ser um direito e se converte em um privilégio. É antidemocrático que os grandes meios de comunicação sejam propriedade privada de multimilionários. Um milionário não tem os mesmos interesses que você e eu, e irá defender os seus interesses com seus meios de comunicação. E isso é um direito, como a saúde, como o saneamento, como a habitação. Se consentimos que os meios de comunicação estejam nas mãos dos poderosos, nos estão roubando a democracia.”

Por fim, em defesa das políticas que estrangularam a economia venezuelana, Pablo Iglesias disse que “com 13 anos não se acaba com 500 anos de colonialismo, com 200 anos de colonialismo interno, com a corrupção do regime puntofijista, e em 13 anos a Venezuela tem demonstrado que há coisas que pareciam impossíveis simplesmente porque não se tentavam”.

Para a principal liderança do Podemos, que afirma que “a revolução cubana deve reinventar-se para continuar sendo uma referência de emancipação”, “o sul da Europa está vivendo uma americanização latina”. Não por acaso, a trajetória de Chávez como líder popular em suas manifestações ante as políticas de austeridade do governo Carlos Andrés Pérez, na Venezuela, lhe inspira. “Dizem: ‘Você ganhou contra a democracia’. Contra que democracia? Eu levantei contra um governo tirânico, despótico, genocida”, disse Hugo Chávez em 1998, quando assumiu o poder. “A democracia tem sido vítima de uma deriva autoritária. Nossos países têm se tornado quase novas colônias, onde os poderes não eleitos estão destruindo os direitos sociais”, advertiu Iglesias meses atrás, no coração do Parlamento.

Assim como Chávez – que, para ganhar as eleições de 1998, em campanha chamava Cuba de ditadura, dizia que entregaria o poder em cinco anos e que não nacionalizaria nenhuma empresa, criticando duramente tanto o capitalismo quanto o socialismo, em defesa de uma terceira via “humanista” – Pablo Iglesias não apenas nega em solo espanhol suas origens políticas (“não somos nem de esquerda, nem de direita”, surge eventualmente nos discursos), como renega ter o chavismo como guia – quando questionado por uma jornalista espanhola se tinha a Venezuela como referência, indignou-se: “Isso é o que você diz; se você puder citar alguma vez em que coloquei [a Venezuela] como uma referência, eu agradeceria”.

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No Brasil, o PSOL (e seu grupo independente, o Juntos) luta para se tornar um novo Podemos. Na semana passada, dois membros do partido viajaram até a Grécia para integrar uma espécie de frente internacional de esquerda, em apoio ao Syriza. Mas não pense que esse é um passo novo do partido – em 2012, Luciana Genro também esteve no país, acompanhando as eleições parlamentares.

“Foi uma experiência enriquecedora. Nos dá esperança ver que políticas que também são defendidas pelo PSOL conseguiram sair vencedoras e que já estão sendo implementadas na Grécia”, disse Juliano Medeiros, secretário de comunicação do PSOL, ao jornal espanhol El País.

Em Atenas, os militantes estiveram em contato não apenas com os principais nomes do Syriza, como também com Pablo Iglesias. Ambos os partidos – Podemos e Syriza – são vistos como “irmãos” pelo PSOL e foram convidados a participar de seu Congresso Nacional, que acontecerá no final do ano. Segundo Juliano, o Syriza já confirmou presença.

Na viagem, o militante Thiago Aguiar entregou uma carta escrita por Luciana Genro a Alexis Tsipras, primeiro-ministro eleito pelo Syriza.

“Podes ter certeza que esta vitória não é só dos gregos e nem só da Syriza. Este caminho de mudança vai servir de exemplo para os europeus, em especial portugueses e espanhóis que também vivem a política do ajuste, e com certeza veremos crescer o Podemos e o Bloco de Esquerda. Consideramos uma vitória nossa também, do PSOL. A Syriza irradia e alimenta a esperança dos lutadores por toda a Europa e por todo o mundo”, escreveu.

O sonho de uma esquerda antiliberal internacional permanece mais vivo do que nunca.

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