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Como Gregorio Duvivier reinventou a arte da mentira em Portugal

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Gregorio Duviver é definitivamente um cara engraçado.

Não, não falo da sua carreira como comediante, que pouco conheço. Falo de outra faceta: aquela sua atividade paralela que movimenta textões indignados em redes sociais, artigos em jornais e videos na internet. Gregorio é um profissional da análise política. Desses com a veia cômica, que sempre carregam meio quilo de sarcasmo no bolso para desconstruir os discursos do outro lado do tabuleiro. E não haveria nada de errado com isso – o sarcasmo, afinal, quando bem utilizado é um instrumento refinado na arte literária, presente na obra de grandes figurões como Dostoievski, Shakespeare e Mark Twain -, não fosse o fato que Gregorio quase sempre o utiliza com outros propósitos: como uma maquiagem verborrágica feita sob medida para disfarçar suas limitações analíticas. E é aí que ele vira um cara engraçado. Gregorio usa o cinismo não como uma figura de estilo para engrandecer seus escritos, mas como uma simplória ferramenta discursiva para construir espantalhos que justifiquem sua posição política. A graça está no cinismo das suas próprias idiossincrasias.

Mas estilo textual e incapacidade de construir argumentos consistentes para defender um ponto de vista nem de longe são seus maiores problemas. Gregorio é também um mentiroso compulsivo. E não digo isso na posição de alguém que se enxerga no exato oposto do espectro político, mas como quem respeita o debate honesto de ideias. Como um formador de opinião – o que justifica esse texto -, Gregorio espalha ignorância como quem pensa proteger a bandeira do amor porque acreditar viver num mundo preto-e-branco – e nele, há duas opções inescapáveis para qualquer animal político que se preze: o caminho do bem, onde homens de barba e mulheres de vestido (não necessariamente nessa mesma ordem), sob a égide da descolada cultura tropical, apoiam políticas de esquerda para a construção de um mundo melhor; e o caminho do mal, amparado por grandes empresários de mídia, religiosos inescrupulosos, playboys superficiais, banqueiros sovinas e toda horda de zumbis fascistas dedicados a escravizar a humanidade com políticas de direita e a construção de uma onipresente ditadura dos bons costumes. Não há outro caminho possível. Ou você escolhe o Jean Wyllys, ou você vira parte do time do Marco Feliciano.

E é dessa forma que Gregorio carrega o tom de seu último viral: distorcendo o atual cenário político brasileiro para sustentar sua posição ideológica numa entrevista para a televisão portuguesa, como se não houvesse distinção entre o nonsense de suas esquetes de humor e a realidade. Ainda não assistiu a peça? Saca só. Volto em seguida.

Gregorio entende a força que os discursos de conspiração possuem nas redes sociais, especialmente quando construídos fora do país (há sempre um peso maior de confiabilidade quando os gringos estão envolvidos). E soma a isso a ignorância de interlocutores que não convivem naturalmente com os nossos noticiários. O resultado é desastroso.

“Ele tem 1% de intenção de voto. Ele é unanimamente odiado pela população. As pessoas que votaram na Dilma votaram apesar dele, apesar dele ser o vice. É um sujeito, como vocês viram, que não tem nenhuma legitimidade. Tampouco tem algum tipo de inteligência. É réu hoje da Lava Jato. É a primeira vez no Brasil que um presidente réu é empossado. Em geral os presidentes vão presos depois de serem empossados. Esse sujeito já está sendo investigado antes de ser empossado. É a primeira vez na história do Brasil em que um ficha suja está na presidência.

Então, tira uma presidente democraticamente eleita, com 53 milhões de votos, pra empossar um sujeito que não teria nem 1% de intenção de votos e que é réu. Então uma presidente que não é ré, que não foi julgada, nada foi provado contra ela, é deposta para botar um sujeito que é réu.”

Quando Gregorio acusa as pessoas de terem votado em Dilma apesar de Temer, a pergunta que não quer calar é: afinal, quem colocou esse cara na chapa presidencial? Após seis anos, a impressão que fica é que o tempo de televisão permitido pela coligação, a grana de financiadores atraídos pelo PMDB e o uso da máquina do partido que tem o maior número de prefeitos, vereadores, deputados estaduais, governadores e senadores, possibilitando visibilidade ao PT em palanques fundamentais para a vitória de Dilma, era mera obra de um cara inconveniente. Mas essa é só uma releitura estúpida da história. O inconveniente de verdade aqui é o fato de que Dilma muito provavelmente não seria eleita sem o apoio desse cara. Não por acaso, ela dizia em palanque que Temer era “um homem competente, sério, com tradição política” que “não tinha caído do céu”, e ele era encarado como um pop star nos comícios pelos próprios petistas.

Temer não bancava uma posição figurativa: era o candidato a vice presidente da República do partido com o maior número de políticos eleitos do país. E venceu democraticamente o seu posto, numa corrida presidencial que, longe de possuir candidatos únicos, era formado por chapas (leia-se: todos os votos que a democracia permitiu à Dilma, também concedeu legitimamente a Temer). Fingir que ele caiu do céu, como se não tivesse qualquer mérito pela subida de Dilma ao poder, ou como se alcançasse o seu posto de vice por um outro atalho que não fosse a democracia, é distorcer radicalmente as regras do jogo da própria democracia.

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Mas isso é apenas parte do discurso. No vídeo, Gregorio afirma também que Temer é réu da Lava Jato. E não apenas isso: que “é a primeira vez no Brasil que um presidente réu é empossado”. Só tem um problema com essa história: ela não é verdade. Goste ou não do presidente interino, Temer sequer é investigado pela Lava Jato (ele teve duas citações em delações que não se sustentaram para a abertura de inquérito, segundo a Procuradoria Geral da República). Dilma já foi citada ao menos 11 vezes em delações de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, 5 vezes nas de Pedro Corrêa e outras 72 vezes nas de Delcídio Amaral. E é com base nessas delações que, há duas semanas, Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, pediu ao STF que a presidente afastada seja investigada por obstruir a Justiça em ao menos cinco oportunidades. Ou seja: Gregorio não apenas mente em relação a Temer, como omite em relação a Dilma.

Além de “ilegítimo”, Gregorio, que defende abertamente uma presidente afastada reconhecida por seu vocabulário limitado e por ter fraudado seu currículo Lattes ao afirmar ter um mestrado que não possui, também acusa Temer – doutor em Direito, com um passado como professor universitário, diretor de pós-graduação e autor acadêmico – de não dispor “qualquer tipo de inteligência”.

“Sabe que o novo ministério que o presidente interino acabou de empossar [tem] 24 ministros dos quais 8 estão indiciados na Lava Jato. Um terço dos ministros que ele acaba de nomear eram réus, não são mais porque agora tem foro privilegiado. Então, esse combate à corrupção no Brasil na verdade não é um combate à corrupção, ele é um combate à Dilma, ao PT. Se fosse um combate à corrupção o presidente interino que acaba de ser empossado não seria o Michel Temer, que é um corrupto notório, envolvido em escândalos até o pescoço.”

um ministro investigado na Lava Jato no governo Temer – Romero Jucá – e outro que, assim como Dilma, é alvo de pedido de investigação – Henrique Alves. Além deles, há outros 3 citados em delações: Geddel Vieira Lima, Eliseu Padilha e Moreira Franco. Nenhum deles é réu, como afirma Gregorio. Desses, o único investigado, Jucá, é senador – ou seja: já possuía foro privilegiado antes da nomeação ao ministério. E se foi um equívoco grosseiro – ético e político – de Temer nomear ministros alvos da Lava Jato, concedendo foro privilegiado e papel de destaque dentro de seu governo a políticos que estão no coração do maior caso de corrupção da história do país, nunca é demais relembrar quem são essas figuras.

Romero Jucá era líder do governo Dilma no Senado. E não era o único entre esses citados a trabalhar para o seu governo: Henrique Alves foi seu ministro do Turismo, Eliseu Padilha seu Ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil, Moreira Franco seu Ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos e Geddel Vieira Lima seu vice-presidente da Caixa Econômica Federal. Ou seja: todos aqueles que agora indignam Gregorio, com razão, por estarem na equipe ministerial de Temer e nas delações e investigações da Lava Jato, já estavam no governo Dilma, sem receber quaisquer críticas de Gregorio por isso.

Gregorio também afirma que Temer é “um corrupto notório, envolvido em escândalos até o pescoço”. E a pergunta é: quais? Se Dilma, que tem um pedido de inquérito aberto por obstrução de justiça pela Procuradoria Geral da República, nunca teve “nada provado” contra si, como afirma Gregorio, qual a régua para medir o presidente interino, que não possui qualquer condenação ou investigação por corrupção? O quão notório é algo que particularmente só Gregorio parece conhecer?

“Aconteceu agora no Brasil uma crise, e a gente sabe bem, Portugal está numa crise longa na qual alguém tem que pagar a conta. E Michel Temer assume para fazer com que o trabalhador pague, para que o mais pobre pague. Eu não tenho dúvidas que ele vai aprovar a terceirização, como ele já queria, o corte às conquistas sociais que ele prometeu que não vai, mas não temos dúvidas de que ele vai, porque ele tem um plano que se chama Ponte Para o Futuro, o plano de governo dele. Na verdade é uma ponte para o passado fadada a cair como a ciclovia do Rio de Janeiro. Não tem fundamentação, é uma coisa muito baseada em mercado. Fala 23 vezes a palavra mercado. Não fala nenhuma vez a palavra trabalhador.”

Que Gregorio é um iletrado em economia, disso não resta dúvida. Mas aqui, tudo isso se escancara. Quando ele acusa Temer de citar 23 vezes a palavra mercado e nenhuma a palavra trabalhador, apenas expõe o equívoco grosseiro daqueles que consideram o mercado um ente abstrato, formado por seres de outros planetas ou máquinas de contar dinheiro. O mercado, no entanto, ao contrário das fantasias travestidas de análises empíricas de Gregorio Duvivier, é um lugar onde trabalhadores e empregadores atuam para conquistar a vida. Como ator, por exemplo, Gregorio atua no mercado de atuação. No vídeo, seus entrevistadores atuam no mercado de jornalismo, assim como essa publicação. De fato, cada citação a mercado carrega a palavra trabalhador em seu universo. Nem Gregorio consegue escapar dela.

Tenho todas as diferenças do mundo com Michel Temer – a começar que, ao contrário de Gregorio, nunca dei um único voto a ele. Temer é o principal retrato de um partido reconhecidamente fisiológico e maquiavélico, que se enlaça nas entranhas do poder faça chuva ou faça sol – e os protestos de rua não foram construídos para a sua posse, mas para a queda de uma presidente que condenou o país à tragédia. Também tenho grandes objeções à formação da sua equipe ministerial, composta mais por figurões políticos do que por técnicos especialistas – e a nomeação de figuras ligadas aos escândalos da Lava Jato é só mais um erro grosseiro de seu governo. De fato, o presidente interino comete, de forma previsível, todos os equívocos que a política brasileira tem a oferecer à gestão pública, e será papel dessa publicação fiscalizá-lo – ou seja: elogiá-lo pelos acertos e denunciá-lo pelas falhas. Mas quando Gregorio afirma que Temer pretende cortar programas sociais e que é um corrupto notório, sem qualquer base empírica para sustentar seus pontos de vista, condena o debate político à mediocridade.

No vídeo, Gregorio ainda afirma que Dilma está caindo justamente “por causa” da sua “luta contra a corrupção” e das “conquistas sociais”. Para ele, ter toda sua base política envolvida em escândalos prova que Dilma os condena. Não bastasse, punir 11 milhões de pessoas ao desemprego, 1,8 milhão de empresas a fecharem as portas e devolver 3,1 milhões de famílias à condição de pobreza é aquilo que ele chamaria de “conquistas sociais”. Eis o grande analista político da terra do contrário.

Por fim, ao ser questionado pela bancada de ser um apoiador do governo Dilma, Gregorio negou. Fingiu-se de oposição com a mesma fisionomia de quem passou os últimos instantes mentindo inescrupulosamente a respeito de todas as coisas que disse.

Gregorio Duvivier reinventou a arte da mentira em Portugal.

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