Conheça os países onde não há um McDonald’s (e entenda porque isso é péssimo para a paz mundial)

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Apesar de enfrentar grandes quedas nas suas vendas em alguns países ao redor do globo – EUA e Rússia, por exemplo – a rede de fast-food mais amada do mundo, a gigante americana McDonald’s, pretende expandir seu mercado ainda mais: a companhia chegará na metade de 2015 à mais uma ex-república soviética, o Cazaquistão.  O anúncio foi publicado à imprensa nesse mês.

Segundo o jornal americano Chigago Tribune, o país encravado no coração da Ásia será o 120º a ter os arcos dourados decorando seu habitat. Entretanto, a nação será apenas mais uma dentre uma miríade: números oficiais da empresa dizem que ela possuiu cerca de 35 mil lojas espalhadas pelo mundo, sendo mais de 80% franquias de donos independentes.

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Países que ainda não possuem um restaurante da rede McDonald’s.

Thomas Friedman, colunista do The New York Times, 3 vezes vencedor do Pulitzer, desenvolveu uma teoria interessante na década de 90 a respeito do McDonald’s, em seu livro The Lexus and the Olive Tree, chamada Teoria dos Arcos Dourados (Golden Arches Theory of Conflict Prevention) – ela diz que nunca dois países com um McDonald’s guerrearam entre si. A exceção ocorreu nesse ano, no conflito Rússia e Ucrânia. Tal fato possui uma explicação – e ela está bem distante do molho Big Mac. Nas palavras de Steven Pinker, na obra The Better Angels of Our Nature, a razão está no comércio:

“A história sugere muitos exemplos nos quais a maior liberdade de comércio correlaciona-se com mais paz. O século XVIII viu uma calmaria nas guerras e uma ênfase no comércio, quando os alvarás e monopólios régios começaram a dar lugar a mercados livres, e a mentalidade protecionista do mercantilismo deu lugar à mentalidade do ganho para todos do comércio internacional. Muitos países que se retiraram do jogo das grandes potências e suas consequentes guerras, como a Holanda no século XVIII e Alemanha e Japão na segunda metade do século XX, canalizaram suas aspirações nacionais para o objetivo de se tornarem potências comerciais. As tarifas protecionistas dos anos 1930 acarretaram um declínio no comércio internacional e, talvez, um aumento nas tensões internacionais. A atual cortesia entre Estados Unidos e China, países que têm pouco em comum além do rio de produtos manufaturados numa direção e dólares na outra, é um lembrete recente dos efeitos conciliadores do comércio.

(…) Um país aberto à economia global tem menor probabilidade de se envolver em uma disputa militarizada. Isso convida a uma versão mais expansiva da teoria do comércio gentil. O comércio internacional é apenas uma faceta do espírito comercial de um país. Outras facetas são a abertura ao investimento estrangeiro, a liberdade de seus cidadãos para firmar contratos executáveis e sua dependência de transações financeiras voluntárias em vez da autossuficiência, escambo ou extorsão. Os efeitos pacificadores do comércio nesse sentido amplo parecem ter sido ainda mais robustos do que os efeitos pacificadores da democracia. Uma paz democrática surge forte apenas quando ambos os membros de um par de países são democráticos, mas os efeitos do comércio são demonstráveis quando qualquer um dos membros do par tem uma economia de mercado.

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(…) O capitalismo pertence a uma economia que funciona por meio de contratos voluntários entre os cidadãos, e não através do comando e controle governamental, e esse princípio pode trazer algumas das mesmas vantagens que Kant mencionou para as repúblicas democráticas. A ética da negociação voluntária em um país (como a ética da transferência de poder governada por lei) é naturalmente externada para as relações desse país com os outros. A transparência e a inteligibilidade de um país com uma economia de livre mercado podem tranquilizar seus vizinhos de que ele não está em pé de guerra, e isso pode desativar uma armadilha hobbesiana e tolher a liberdade de um líder para se de dedicar a blefes e malabarismos políticos arriscados. E, independentemente de o poder de um líder ser ou não restringido pelas urnas, em uma economia de mercado ele é restringido pelos detentores dos meios de produção, os quais poderiam se opor a uma interrupção do comércio internacional que prejudicasse os negócios. Essas restrições refreiam a ambição pessoal do líder por glória, poder e justiça cósmica, bem como sua tentação de reagir a uma provocação com uma escalada irrefletida.”

Além da paz mundial, a partir de uma publicação do Freakonomics, Diogo Costa, do excelente blog Capitalismo Para os Pobres, sugeriu a possibilidade do McDouble (em toda a história da humanidade, o alimento que “oferece a melhor combinação de sabor com valor e variedade nutricional pelo menor preço”, com “390 calorias, 23g de proteína (metade das necessidades diárias), 7% das fibras diárias, 20% do cálcio e ferro diário”) ajudar a sanar a fome mundial. Como vimos no mapa, por uma série de razões, a rede não está presente na maioria dos países africanos.

Fast Food Pela Humanidade
Fast Food Pela Humanidade

O cientista político diz:

“Parte do que o McDouble oferece é sabor, prazer. Agentes sociais do Banco Mundial e de outras organizações querem resolver o problema de como oferecer alimentos que nutram o mundo. O McDonald’s quer resolver o problema de como oferecer alimentos que satisfaçam o mundo. O problema é que as pessoas querem mal. Devemos ter preocupações mais saudáveis, mas até nossa preocupação com a saúde tem um custo. Esses dois objetivos precisam se unir para que os pobres possam se alimentar melhor.

Fast food pode ser a coisa mais ordinária do planeta, mas transformações extraordinárias no combate a pobreza se fazem de mudanças ordinárias no dia a dia dos pobres. A China não teria crescido a passos tão largos se não houvesse sido inventado o macarrão instantâneo que custa cerca de U$0,25 o pacote. Os chineses consomem 42 bilhões de pacotes de macarrão instantâneo por ano. Para ir mais longe no nosso próprio passado, um estudo mencionado por Duflo e Benarjee revela que a descoberta da batata no Peru do século XVI responde por “12% do aumento da população mundial entre 1700 e 1900.”

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(…) Pensamos em combater a subnutrição transferindo recursos que aumentem variáveis nutricionais no corpo dos pobres. Mas, para ajudar seres humanos como você e eu, não basta pensarmos na matemática da química. O sabor dos alimentos importa, assim como seu significado. O fantástico do mercado de fast food é conseguir, a um custo tão baixo, transformar pasto em alimentos que as pessoas querem comer. Se por um lado, devemos deixar a demanda por alimentos mais consciente, também devemos aperfeiçoar um capitalismo que deixa sua oferta mais eficiente.”

Já apresentamos aqui o dia em que o comunismo conheceu o Big MacAdemais, apesar de ser difícil de acreditar, ainda há diversos países que não possuem sequer um único restaurante McDonald’s. Seja por motivações políticas ou econômicas, os arcos dourados não estão presentes em 105 países (e dão o ar de sua graça em outros 119, com mais de 34 mil restaurantes). Conheça as razões de alguns desses casos.

Bermudas

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Em 1999, a construção do primeiro McDonald’s no território britânico parou devido a protestos. Posteriormente, o governo aprovou uma lei que proibia a rede americana de se instalar no país. A medida foi tomada para proteger os restaurantes locais da competição que viria com as franquias de fast-food.

Bolívia

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Os restaurantes do McDonald’s operaram no país andino por 14 anos, contudo tiveram que fechar as portas após um movimento político bastante bizarro que visava impedir a empresa de obter lucro. O presidente boliviano, Evo Morales, atacou a rede de fast-food, mencionando um suposto desejo da empresa de “dominação global”.

“Eles não estão interessados na saúde dos seres humanos, apenas em seus ganhos e lucros corporativos”, declarou Morales. A gigante de bebidas Coca-Cola também foi expulsa do país.

Coréia do Norte

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Apesar do famoso amor do líder supremo Kim Jong-un por produtos ocidentais, o McDonald’s é impedido pelo governo – e pela legislação do país – de abrir lojas na pequena nação asiática. Entretanto, isso não impede que oficiais de alto escalão do Exército e do Partido Comunista de dar um “jeitinho” e conseguir os sanduíches: eles usam a companhia aérea do país para comprar os lanches na China e trazer ao país.

Islândia

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A gigante norte-americana encerrou suas operações na Islândia devido ao colapso da moeda nacional, a coroa islandesa – e do sistema bancário local – em 2009. Citando o alto custo para manter uma franquia, gerado pela proibição estatal da importação de alguns gêneros alimentícios – o que seria necessário para gerir um McDonald’s no país – Jon Gardar Ogmundsson, donos de um dos três restaurantes que existiam no país, disse que não lhe restou alternativas senão a falência.

Macedônia

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Até maio de 2013, o McDonald’s possuía sete restaurantes na Macedônia há cerca de 16 anos. Porém, uma disputa entre a sede europeia do McDonald’s e a empresa da Macedônia que operava as franquias aparentemente levou à ruptura do contrato. É impossível saber se o McDonald’s tem planos de voltar a operar no país europeu.

Zimbábue

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Em 2010, havia uma conversa sobre a abertura da primeira franquia do país governado pelo presidente Robert Mugabe – um dos ditadores mais antigos do continente. Frente à demora, o McDonald’s disse que ainda estava procurando a companhia certa para gerir sua franquia local, alguma empresa de “alta integridade” e experiência empresarial. O país africano ainda tenta recuperar sua economia da dependência do comércio ilegal dos diamantes de sangue, dentre outras coisas.

Cuba

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Parte do mundo desenvolvido lamentou a recente reaproximação diplomática entre Estados Unidos e Cuba afirmando que logo um McDonald’s arruinaria a ilha. Mas embora não seja possível encontrar um McDonald’s em Havana, há um restaurante da rede na base de Guantánamo, uma base naval de domínio americano desde 1903, localizada há 400 quilômetros da capital cubana (além dos arcos dourados, há também um KFC, um Subway e um Pizza Hut para atender os militares).

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