Dona das maiores reservas mundiais, Venezuela agora precisa importar petróleo. Entenda o porquê.

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É impossível falar a respeito da economia venezuelana sem citar a palavra “petróleo”. O país é um dos membros fundadores da OPEP e possui as maiores reservas do produto no planeta (297 bilhões de barris, 27 bilhões a mais do que a Arábia Saudita). Praticamente 90% de suas exportações são relacionadas ao setor (o petróleo cru representa a maior parte desse total – 65%), e os venezuelanos ainda se dão ao luxo de vender petróleo abaixo do preço de mercado a treze nações caribenhas, através do acordo denominado Petrocaribe. E apesar de uma intensa política estatal de subsídios por meio da qual encher o tanque do carro custa menos de 50 centavos de dólar, a receita da PDVSA ainda é a 41ª maior entre todas as empresas do planeta, de acordo com o ranking divulgado pela revista Fortune em 2014.

Diante de todos esses fatos, a informação que tem sido divulgada na imprensa internacional ao longo das últimas semanas pode parecer inacreditável em um primeiro momento, mas é verdadeira: a Venezuela está precisando importar petróleo.

Na verdade, a importação de derivados do petróleo e produtos relacionados pela Venezuela já é algo comum – até mesmo parte da gasolina consumida por lá vem de fora do país. A novidade agora é que, pela primeira vez em décadas, as importações venezuelanas estão começando a abranger também o petróleo cru, aquele que ainda não passou por qualquer espécie de refino. O primeiro carregamento do produto – de mais de dois milhões de toneladas – chegou da Argélia no dia 25 de outubro. Uma segunda carga da Argélia e outras duas da Rússia também já foram contratadas.

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De acordo com a versão dos fatos divulgada pelo governo venezuelano, a necessidade de importação se deu em virtude do “aumento na produção” combinado a uma manutenção programada da usina de Petrocedeño (mantida pela própria PDVSA, pela francesa Total e pela norueguesa Statoil, com participações respectivas de 60%, 30,3% e 9,7%). A usina tem como uma de suas principais funções tornar mais leve o óleo ultrapesado produzido na “Falha Petrolífera do Orinoco Hugo Chávez”, viabilizando sua exportação. Sim, você leu bem: na Venezuela, Hugo Chávez dá nome até mesmo a uma falha geológica.

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O petróleo que está sendo importado é do tipo “Saharan Blend” (uma variedade extremamente leve do produto), e será misturado ao óleo pesado extraído na Falha do Orinoco justamente para compensar a falta do “melhoramento” realizado na usina. Trocando em miúdos: a importação está servindo para se fazer uma gambiarra petrolífera, sem a qual seria impossível à Venezuela exportar boa parte de seu petróleo enquanto a usina estiver desativada.

O curioso é que, quando a manutenção de Petrocedeño foi divulgada em setembro, a PDVSA afirmou em um comunicado que somente “algumas máquinas” seriam paralisadas, e que a produção “não seria afetada”.

Além disso, a empresa pública venezuelana retardou a divulgação do negócio, só tendo anunciado oficialmente que estava importando óleo no dia 20 de outubro, quando o navio-tanque Carabobo já se aproximava da costa do país. A informação, no entanto, já havia sido antecipada pela Reuters em agosto passado – o que levou o presidente Nicolás Maduro a insistir que a agência de notícias estava empenhada em uma campanha para “destruir a Venezuela”.

Apesar da existência de uma justificativa técnica para a operação, vale notar que poucos anos atrás a importação sequer seria necessária. Isso porque a Venezuela produz algumas variedades mais leves de petróleo, as quais poderiam ser misturadas ao óleo extraído na Falha Chávez e torná-lo apto à exportação. Contudo, tal produção – que ocorre principalmente nos campos de El Furrial, a oeste do país – vem caindo vertiginosamente ao longo dos últimos anos. Em 2004, El Furrial produzia 375.000 barris de petróleo ao dia; atualmente, essa quantidade não passa de 290.000, segundo dados da própria PDVSA.

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Essa tendência de queda na produção, na verdade, tem se observado em todo o país. Os balanços de 2013 da PDVSA mostram que a estatal produziu 2.899.000 barris de petróleo diários no ano, cifra ligeiramente menor que a de 2012 (2.910.000 barris/dia). Ambos os valores são muito inferiores aos de 2008, quando o país chegou a produzir 3.260.000 barris/dia.

Não bastassem as quedas na produção, pouco mais da metade desse volume de fato gera dinheiro para a Venezuela. Igor Hernández, especialista em petróleo do Instituto de Estudios Superiores de Administración (IESA), uma instituição superior privada venezuelana, aponta que apenas 1.500.000 dentre esses 2.899.000 barris diários são exportados e geram receitas. O restante é vendido no mercado interno a preços subsidiados, ou exportado à China e aos países da Petrocaribe pelo câmbio oficial de 6,3 bolívares por dólar – valor em mais de 10 vezes inferior ao de mercado.

Em resumo, a situação é essa: a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas as deficiências em sua cadeia produtiva são tamanhas que o país se viu obrigado a importar o produto quando apenas um de seus elos (a usina de Petrocedeño) falhou.

A situação toda lembra uma conhecida declaração comumente atribuída a Milton Friedman, segundo a qual “se colocarem o governo federal para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia”. A citação, na verdade, é apócrifa: não há quaisquer provas de que tenha de fato sido elaborada por Friedman, e sua origem parece estar do outro lado do planeta (mas isso é uma história a ser contada em outra oportunidade). Independentemente da autoria, a frase sem dúvida é perfeitamente adequada para explicar o que anda acontecendo com a Venezuela.