E o único supermercado estatal brasileiro acaba de ser privatizado…

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“Não há sentido em tirar dinheiro da saúde e da educação para sustentar um supermercado”. É com esses palavras, racionais, simples, límpidas, que o governador eleito da Bahia, Rui Costa, anuncia a privatização (se parcial ou total, ainda não se sabe) da rede de supermercados Cesta do Povo, única rede de supermercados estatal do Brasil. E criada, vejam só, por Antônio Carlos Magalhães nos anos 70. A esquerda privatizando a estatal da direita.

Esquerda e direita não descrevem a realidade, apenas nomeiam grupos rivais em luta pelo poder. E em face de um supermercado estatal que só no ano passado custou 15 milhões de reais aos cofres públicos, não há partidarismo que discorde: é preciso vender.

Quando o governador diz que a rede não tem como competir com a agilidade e liberdade de negociação das empresas privadas, ele está dizendo a mais pura verdade. O Cesta do Povo tem um sistema pra lá de antiquado para encontrar e admitir novos fornecedores, e uma política de preços política mas que, ao mesmo tempo, não oferece preços muito mais baixos que a concorrência. Por que a diferença?

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Quando a direita estatiza e a esquerda privatiza…

O Cesta do Povo, como a maioria das empresas estatais, vê-se numa encruzilhada: por um lado não pode ser apenas mais uma empresa maximizadora de lucro – pra isso o Estado não é necessário. Por outro, precisa de mecanismos que impeçam que os recursos públicos que o sustentam sejam desviados em esquemas de corrupção. Ele não tem um dono, não tem acionistas e não tem doadores voluntários que se sentiriam lesados caso gastasse mal seu dinheiro, e que portanto têm todo o incentivo para torná-lo mais eficiente. Ao invés disso, ele conta apenas com os procedimentos burocráticos de qualquer atividade estatal, que são por um lado engessantes, não permitindo mudanças bruscas ou inovações sem longas diligências e licitações, e por outro são facilmente burláveis. Ao mesmo tempo, ninguém ali dentro tem incentivos para melhorá-la, torná-la mais eficiente, inovar. Se ele der lucro ou prejuízo, a vida de seus gestores não muda em nada. E já que é mais fácil ser ineficiente…

“A Cesta do Povo não é capaz de concorrer com as redes privadas de supermercado. As grandes do setor têm agilidade na hora de negociar e definir preços, muito diferente de uma empresa pública”, justificou Costa.

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A rede chegou a fechar em meados da década passada, e foi reaberta pelo governador Jacques Wagner, também do PT, em 2007, que encontrou aquela massa falida e apostou que ela era viável se gerida com mais eficiência e menos corrupção. Agora o sonho acabou. Para o contribuinte baiano, o pesadelo. A lucidez de Rui Costa foi um passo além do mero reconhecimento de que a rede não tem condições de se viabilizar no mercado. Ela toca, talvez sem que ele perceba, num ponto mais importante: o da prioridade do gasto estatal.

Vamos aceitar por um segundo a premissa utópica de que o Estado serve, ou visa a servir, o bem comum. As pessoas dizem isso e se contentam com um Estado que promove, gasta recursos, com uma série de causas e atividades boas. Num mundo de recursos escassos (dica: como o nosso), só isso não é o suficiente. Que algo seja bom, desejável, não é critério suficiente para concluir que o Estado deva investir naquilo. Precisamos ir uma pergunta além: aquele gasto traz o melhor retorno possível em termos de bem comum? O real ali investido produz o máximo bem para o maior número de pessoas? Se não, que seja cortado. O Estado da Bahia sofre com uma segurança pública em frangalhos, com desempenhos muito ruins na educação (mesmo para a média brasileira); não pode se dar ao luxo de esbanjar recursos para subsidiar um supermercado.

Se aceitarmos essa lógica – e parece impossível não aceitá-la – nossa forma de encarar o governo muda. Não é porque algo é desejável que ele deve ser subsidiado com dinheiro público. Não basta ser bom; tem que ser o melhor uso possível dos recursos. Pensando assim, pode ter certeza de que há muitos “Cestas do Povo” por esse Brasil aguardando nosso corte…