Entrevistamos Alexandre Schwartsman, o homem no olho do furacão do Banco Central

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Volta, pibículo – em negrito, seguido de um ponto de exclamação, foi o pedido do economista Alexandre Schwartsman em sua coluna na Folha, há pouco mais de uma semana. 

As críticas do ex-diretor do Banco Central aos rumos da política econômica do atual governo não são bem uma novidade. Schwartsman é um fervoroso crítico da política monetária da atual direção do Banco Central. Mas o que era pra ser uma mera relação de exercício da liberdade de expressão de um especialista na área, se transformou em “crime”: há pouco tempo a autoridade monetária abriu queixa-crime contra o economista por considerar seus comentários ofensivos. Repetindo os casos recentes do Santander e da Empiricus, Schwartsman entrou no olho do furacão dos burocratas de Brasília por simplesmente dizer o que pensa.

O que motivou a ação, segundo o pedido assinado por Isaac Ferreira, procurador-geral do Banco Central, foram entrevistas de Schwartsman aos jornais “Brasil Econômico” e “Correio Braziliense”, em que ele afirmou que o BC era subserviente ao Palácio do Planalto e que fazia um “trabalho porco” na política de controle dos preços. A Justiça Federal de São Paulo não aceitou a denúncia. Com o apoio massivo ao economista nas redes sociais, o tiro saiu pela culatra e o BC foi obrigado a recuar.

“A Procuradoria-Geral do Banco Central informa que não interpôs recurso, dando por concluída sua atuação jurídica no bojo da ação ajuizada em face do senhor Alexandre Schwartsman, acatando, portanto, a decisão proferida pela primeira instância da Justiça Federal”, disse o BC em nota à imprensa.

Foi nesse clima de quem é perseguido por dizer o que pensa que entrevistamos Alexandre Schwartsman. O comando da conversa ficou a cargo do economista Joel Pinheiro.

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JOEL PINHEIRO: Alexandre, recentemente tivemos essa notícia inesperada desse processo judicial e a gente sabe que uma das funções do Banco Central é passar uma imagem, dar recados. Que recado foi dado com esse ato? Ou será que isso sequer passou pela cabeça?

ALEXANDRE SCHWARTSMAN: Eu não sei exatamente se passou pela cabeça. Primeiro é bom notar que o Banco Central anunciou que ele não mais recorreria da decisão da juíza, quer dizer, basicamente reconhece que não havia um caso legal pra ser feito contra mim. Originalmente a intenção do Banco Central era que isso tudo corresse em segredo de justiça, foi mais uma das coisas que foi indeferida pela juíza. Eu acho que o Banco Central sabia que se isso viesse à luz do sol teria o tipo de reação que teve. Não só a imprensa se manifestou, mas principalmente outros economistas se manifestaram. Tem aí um abaixo assinado ocorrendo, a última vez que eu olhei estava com 1.400, 1.500 assinaturas (até o momento em que essa matéria é finalizada, 60 economistas – dentre os quais Eduardo Giannetti, Marcos Lisboa, Armínio Fraga e Gustavo Franco – e mais de 1.700 pessoas assinaram uma petição online em favor de Schwartsman). Basicamente gerou um custo político muito grande pro Banco Central. Então acho que a imagem do Banco Central saiu danificada desse episódio todo. Um Banco Central que não consegue conviver com as críticas, mesmo que sejam críticas, independente do tom delas, de um respeito à incapacidade do Banco Central entregar a inflação na meta, que tem sido, ou deveria ser, a função dele. Aliás, deveria no sentido inclusive legal do termo, já que existe um decreto que diz que o Banco Central deve entregar a inflação na meta, coisa que ele não consegue fazer desde 2009. Então, acho que além de não conseguir entregar a inflação na meta, também passa a de um Banco Central que é incapaz de conviver com as críticas que lembram exatamente da sua falha na missão precípua do Banco Central.

JOEL PINHEIRO: Dado esse fato, que tipo de perspectiva temos, especificamente na política monetária, no caso da continuidade do governo? O que ele deveria fazer?

ALEXANDRE SCHWARTSMAN: No caso de política monetária o Banco Central foi bastante explícito. Fizeram o último relatório de inflação e mesmo na última ata eles mencionaram que teriam que manter a taxa de juros no patamar atual pra que a inflação eventualmente começasse a cair – não no ano que vem, mas em 2016. Dada a acurácia dos modelos do Banco Central, isso significa que nem em 2016 seria possível fazer uma coisa dessas. Mas a perspectiva de política monetária na manutenção do atual governo é uma política monetária como está hoje: ainda insuficiente para trazer a inflação pra meta, lembrando que, além disso, não há perspectiva de um ajuste fiscal que colabore nesse sentido. Então, na perspectiva cada vez mais remota de manutenção do atual governo, manutenção da atual diretoria do Banco Central, nós estaríamos contemplando a possibilidade de uma inflação ainda persistentemente acima da meta, mais alguma estorinha sendo contada – é o câmbio ou foram o preço das commodities, ou foi a seca, ou foi a chuva, ou o gramado estava pesado, ou, enfim, alguma coisa que não permite que o Banco Central faça o que ele deveria fazer.

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JOEL PINHEIRO: Os críticos de uma política monetária mais conservadora trazem sempre o fantasma do desemprego ou da recessão, com uma possível subida de juros. Como responder a isso?

ALEXANDRE SCHWARTSMAN: A recessão já está aqui. Independente da subida de juros na verdade a gente não consegue trocar de uma forma permanente inflação por desemprego. Então se você tenta comprar desemprego mais baixo com inflação mais alta no fim a gente tem inflação mais alta e teremos o desemprego mais alto. Só não está mais alto hoje não porque a economia está indo bem – pelo contrário, o PIB não cresce – não é porque o emprego está crescendo, o emprego na verdade está zero a zero na relação com o ano passado e provavelmente irá mostrar alguma queda daqui pra frente. O que está acontecendo, o desemprego só não está mais alto porque tem gente saindo do mercado de trabalho. Então mesmo a questão do desemprego baixo ela não pode ser diretamente atribuída a isso. O que eu vejo é o seguinte: a gente termina com inflação mais alta e desemprego mais alto também. Nada diferente daquilo que foi achado na experiência estagflacionária dos anos 70, na Europa e nos Estados Unidos. Por outro lado, obviamente, se você vai combater o desemprego ou se você vai combater a inflação, o custo de curto prazo é desemprego. Mas isso é um custo temporário. Você termina fazendo as coisas direito, voltando para uma situação de pleno emprego e com a economia com uma inflação bem mais baixa. Tudo diz respeito em como você consegue controlar as expectativas de inflação. O que eu estou falando aqui não é nada diferente do que está em qualquer manual básico de política monetária, não tem nada diferente do que diz a boa teoria – aliás, a boa prática dos Bancos Centrais ao redor do mundo. Não é só uma questão teórica. Mas certamente o governo tem mostrado uma incapacidade extraordinária de compreender esse tipo de dilema. Quer dizer, ainda está preso ao dilema inflação e desemprego, que foi mostrado não existir em 1968. Já estamos caminhando para o 46º ano do desmentido de um trade off que o governo brasileiro insiste em reafirmar.

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